domingo, 29 de maio de 2011

O SOM E O NÚMERO

O Som Criador
Todas as Escrituras Sagradas, de Oriente a Ocidente, se referem a um Som inicial, fazedor de Mundos. No Ocidente, a versão bíblica nos diz que “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele” (João, 1:1-3).
Igualmente nas Cosmogonias  orientais, o som (sabda, em sânscrito) é o construtor da Manifestação (Sabda Brahman). No sistema Vedantino, esse Som criador ou Palavra é Vâch. E no Ocidente, os Gregos antigos tinham o designativo Logos para este mesmo conceito. Contudo, Verbo, vocábulo de etimologia latina, é um termo sumamente feliz para significar, precisamente, esse ato da Criação.
Gramaticalmente, Verbo é uma palavra com a qual afirmamos a existência de uma ação, de um estado ou de uma qualidade que atribuímos ao sujeito. É, pois, algo como uma extensão (ativa) do (de um) sujeito. Infere-se, daí, que o sujeito permanece abstrato e imanifestado sem essa ação, que então o representa e torna manifesto. Assim, de fato, o Verbo é a primeira expressão da Manifestação e o que permite que ela se desenvolva.
O Verbo, neste sentido místico, metafísico, veio a antropomorfizar-se e a integrar a tríade de figuras deíficas da Tradição Cristã – as três “Pessoas” da Trindade (ou Unidade trina, de três aspectos) “Pai, Filho e Espírito Santo” – fazendo-se corresponder ao “Filho” ou “Cristo”.
O mesmo sucedera nas outras culturas e, assim, segundo a alegoria do Padma Purâna: “No princípio, Mahâ-Vishnu (o Grande Vishnu), desejoso de criar o mundo, converteu-se em três: criador, conservador e destruidor. A fim de produzir este mundo, o Espírito supremo fez emanar Brahmâ do lado direito do seu corpo; em seguida, a fim de conservar o universo, produziu do seu lado esquerdo o deus Vishnu; e, por fim, para destruir o mundo, do meio do seu corpo produziu o eterno Shiva”.
O equivalente deste Verbo, em sânscrito, é Vâch, que já mencionámos. Vâch é a expressão concreta da Ideação Divina e, por conseguinte, a “Palavra”. Figurativamente é também Sarasvatî, a consorte ou aspecto feminino de Brahmâ, a deusa da Sabedoria e da eloquência. Nesta conformidade, por sua vez, Sarasvatî é idêntica à Sophia dos Gnósticos (é ela, nas diversas acepções, o Logos feminino, a Sabedoria Divina personificada, a Virgem Celestial…). Diz o Mahâbhârata: “Vâch é a celestial Sarasvatî produzida dos céus”, “uma palavra derivada do Brahmâ sem fala”.
No sistema vedantino, o Som que origina, permeia e sustenta todo o Universo desdobra-se em 4 níveis, do mais subtil ao mais grosseiro e material

1º - Parâ ou Parasabda [parâ = transcendente, supremo, e sabda = som], o Som Causal e insonoro; de Parabrahman, além do Númeno e de todos os Númenos;
2º - Pasyantî, o próprio Logos;
3º - Madhyamâ, a luz de Isvara (a luz do Logos); a Duração, a Permanência, a Eternidade;
4º - Vaikharî, a linguagem pronunciada ou articulada; o som material e o Cosmos que conhecemos; o último estado de densificação do Som causal.
O termo grego Lógos reveste o significado de “palavra”, “razão”, e os antigos filósofos usaram-no no sentido de “Razão divina organizadora do Mundo”. O seu equivalente latino é, pois, ratio (razão), oratio, verbum – palavra, linguagem, expressão do pensamento. Por seu turno, os semitas usaram o termo que lhes corresponde na sua respectiva língua – “memra” –, neste caso como referente a Jeová, ou revelador da sua presença. Nos Targums (as versões aramaicas do Velho Testamento), a Memra (’imrah ou ’emrah) figura constantemente como a manifestação do Poder divino, ou como Mensageiro divino em lugar do próprio Deus. Nos Targums da Caldeia, esta Palavra de Jeová representa-o, falando e atuando: “E eles ouviram a Palavra [Memra] de Deus caminhando no Jardim [do Éden] na brisa da tarde e Adão e sua mulher esconderam-se da presença da Palavra [Memra] de Deus, por entre as árvores do Jardim…”. A Memra partilha a natureza de Deus e, ao mesmo tempo, é o seu mensageiro.
S. João aplicou o termo Logos a Cristo, o revelador do Pai, a imagem visível do Deus invisível (posto que a Palavra é a exteriorização do Pensamento – Divino e Universal, como também o individual).
O Som insonoro, o Som potencial
No Princípio, foi o Som que dividiu a Unidade, que produziu o dois ou dualidade. E foi a dualidade que deu início à Consciência reflexa ou de relação.
A consciência (assim entendida) só existe no mundo fenomênico, porquanto a consciência é uma efusão produzida por fricção. O Um é designado “Nada” ou “Parâ” porque, não tendo onde se refletir (onde se confrontar), não é essa consciência – de modo inapreensível para nós, transcende-a, e simplesmente É, sem apêndices nem atributos .
Todo o Universo manifestado e todos os fenômenos são cadeias e “arranjos peculiares” de vibrações. E é o Universo que é Consciência – consciência precisamente originada pela efusão, pelo atrito, pela estimulação da infinidade de vibrações. Tais vibrações são os Filhos monádicos desse Um, seus desdobramentos incessantes… o Um desdobra-se nos múltiplos.
A Sinfonia do Universo
O termo ‘logos’ igualmente “tomou o seu lugar na linguagem musical grega, referindo a medida da cítara ou da lira (i.e., os trastos ou travessões) onde a corda deveria ser pisada de modo a produzir uma nota definida". Este parece-nos um facto muito sugestivo. Os sons puros (as 7 notas musicais, ou o que elas representam), que integram a escala diatónica, são, na sua matriz, contenções de arquétipos que no curso da Manifestação se desprendem e combinam infinitamente. E esse Grande Septenário harmónico (matemático) é o que sustenta e viabiliza a Manifestação dos mundos, a Lei do Ritmo operando por detrás.
É dito que a escala musical hindu terá evoluído de 3 notas apenas para a escala de 7. Essas 3 notas detinham a chave da vocalização do AUM, sendo que este Mantra, o mais sagrado de todos os mantras, sintetiza e representa o poder da Trindade. As três letras do AUM correspondem ao “Fogo Triplo”, respectivamente Agni ou Abhimânim (Fogo ígneo) – ‘A’; Varuna ou Vishnu (Fogo aquoso, Águas do Espaço ou Akasha) – ‘U’; Marut (Fogo aéreo, Espírito de Vida) – ‘M’.
Sendo o AUM o emblema da Trindade na Unidade, as 3 letras de que se compõe representam ainda os três aspectos do Ser Supremo – Brahman -, ou seja, o de Criador (Brahmâ – ‘A’), o de Conservador (Vishnu – ‘U’), e o de Destruidor/Renovador (Shiva – ‘M’). E assim, também, naturalmente, Âtma, Buddhi e Manas.
Depois, as três evoluíram para sete, Sa – Ra – Ga – Ma – Pa – Dha – Na (ou Ni-sa), a escala sendo dividida em 22 intervalos ou srutis. O sruti, ou intervalo micro-tonal, é a mais pequena diferença tonal entre dois sons que pode ser distinguida pelo ouvido humano.
Cada uma das 7 notas musicais representa cada um dos 7 Rishis (os 7 Filhos Nascidos da Mente de Brahmâ) que transmitiram o conhecimento sagrado à Humanidade. Diz a lenda que são os animadores (os espíritos) das 7 estrelas da Ursa Maior, os quais, descendo à terra em forma de cisnes, ancoraram no lago Mânasa-Sarovara (nos Himalaias) e aí comunicaram o conteúdo dos Vedas aos mais merecedores entre os humanos. As notas musicais, no seu substracto, são pois, cada uma delas, uma potência – um som – subtil e sintético que, desdobrando-se infinitamente, e concretizando-se em linguagem, constitui os Vedas e todo o escol de conhecimento superior e sagrado.
A Revelação – As Escrituras Sagradas
Tomemos, de novo, o termo Sruti (literalmente em sânscrito, “o que é ouvido”). Sruti é um cânon de textos sagrados hindus. Não data de um período estrito mas atravessa a história inteira do Hinduísmo, começando com alguns dos textos sagrados mais antigos conhecidos, estendendo-se aos mais recentes Upanishads. É dito que o Sruti não tem autor humano; que é um registo divino dos “sons cósmicos da Verdade”, ouvidos pelos santos Rishis em profunda meditação.
Considera-se que o Sruti é composto pelos 4 Vedas: o Rig-Veda (o Cântico da Sabedoria), o mais antigo dos Vedas e o mais importante conjuntamente com o Sâma-Veda (dele se diz que surgiu da boca do próprio Brahmâ); o Yajur-Veda (Sabedoria do Sacrifício), o segundo em antiguidade; o Sâma-Veda (a Escritura ou Shâstra da Paz), o Veda do canto (no mais alto sentido da potência da música); e o mais recente, o Atharva-Veda (Sabedoria dos Mantrams ou Fórmulas Mágicas). Segundo reza o Ocultismo, os Vedas foram ensinados oralmente pelo espaço de milhares de anos e, só depois, copiados nas margens do lago Mânasa-Sarovara.
O Som e o Número
O Som e o Número caminham enlaçados. Com efeito, os Antigos postulavam que o Universo fora feito segundo os preceitos de razão e medida. Acreditavam que uma Trindade Divina fora a matriz e o motor que criara o Mundo. Essa Trindade, pressuposto comum e fundamental de todas ou quase as religiões, era mais precisamente uma Unidade-trina, a Unidade sob três aspectos distintos – criação/expansão; sustentação/equilíbrio; destruição/interiorização/recolhimento. Naturalmente, essa mesma matriz estava simbolizada na figura geométrica do triângulo.
Para os antigos hindus, a matriz trinitária original cunhou e impregna tudo o que existe, sendo o seu padrão diretor. Para os gregos, e designadamente para Platão, três eram os triângulos que estariam na base constitutiva dos arquétipos dos 4 Elementos, sendo estes quatro os tijolos arquitetônicos de que fez uso o Grande Arqueu (o Demiurgo) na Obra da Criação.
É sabido, mas mal compreendido, que na Antiguidade todos estes conhecimentos matemáticos e muitos outros se regiam pela regra do segredo. Refira-se que a Aritmética, a Geometria, a Música e a Astronomia eram precisamente as ciências obrigatórias dos pitagóricos (designadas Quadrivium) e consideradas os “quatro últimos Caminhos das Sabedoria”. Na verdade, a regra do segredo tinha como fundamento a percepção de que a Matemática sagrada veiculava um imenso Poder, revelando as Leis Ocultas da Natureza e da Psique individual e colectiva, sendo por isso imperativo preservá-la da posse dos profanos…
 É assim que as Cidades-Estado da Caldeia tiveram à frente dos seus governos Reis-Sacerdotes (ou Reis-Magos) detentores desses arcanos, bem como a linhagem “divina” dos primitivos faraós os utilizou para fundar o seu reino.
Muitos desses conhecimentos dos antigos, com efeito, parecem ter sido verdadeiramente extraordinários. É o caso do Schem Hamaphoras. Schem era uma fórmula de poder que insuflava vida ou o “pleroma”. Jesus foi acusado pelos judeus de ter roubado este nome do Templo, valendo-se de artes mágicas, e de empregá-lo para a produção dos seus milagres.
Assim, o Tratado da Sinceridade do Rabino Moisés Takko (séc. XIII) diz:
 “… E todos estes magos do Egipto, que haviam criado esses seres [‘artificiais’], estudavam junto dos dáimones [génios]  ou por meio de uma espécie de arte mágica, a Ordem das Esferas… e criavam o que queriam. Pois bem, os Rabinos, que deles aprenderam e conheciam os Mistérios, podiam criar um homem ou um bezerro: pegavam em terra… pronunciavam sobre ela o ‘Schem’, e o ser era criado.
Já no século X, corre a lenda da criação de homúnculos com recurso à Séphèr Iétzirah mediante “grandezas geométricas” expressas em letras retiradas dos Schem Hamaphoras (os nomes divinos do triângulo sefirótico.
 Homúnculos são pequenos seres, réplicas ou projeções da anatomia e psiquismo humanos, criados pelo homem por meio de métodos espagíricos. Estes seres receberam também o nome de Golem, herdado das lendas cabalísticas. Golem é uma derivação da palavra “gelem”, que significa “matéria prima”. Na Bíblia, é empreque no sentido de “embrião”, “pré-homem”, “substância incompleta”. O salmo 139:16 usa a palavra “gal’mi”, significando “a minha substância ainda informe”.
“Da fase babilónica data, aliás, a obra “Schim Koma” (Medida da estatura de Deus, tratando sobre medidas, formas precisas do corpo e do rosto divinos…), mas o livro mais notável desta época é o Séphèr Iétzirah (Livro da Criação), escrito em hebraico (na Síria, provavelmente) cerca do século VI ou VII. (…) A influência gnóstica e neopitagórica é patente: Deus criou o mundo por intermédio das dez Potências ou Verbos chamadas Séphiroths e as vinte e duas letras do alfabeto hebraico”.
A imitação da obra de Deus – a Criação
O poder do uso da Palavra é um fato incontornável. A Palavra (o som) sabiamente direcionada (alicerçada e dirigida pelo Conhecimento Oculto) é um extraordinário veículo de poder, inclusive o poder de animação, tanto a seres naturais quanto a seres artificiais.
Segundo a crença judaica, do mesmo modo que Deus criou o universo e o homem a partir do substrato (da alma) das vinte e duas letras hebraicas, os homens podem replicar o ato criador se conhecerem as combinações adequadas. Nas palavras do filósofo e cabalista Augustín Izquierdo, citadas na obra O Ritmo do Tempo, de Patrick Mimran: “… ao princípio, a criação do Golem parece que apenas tinha um caráter ritualista: acontecia como a coroação do estudo da Séphèr Iétzirah empreendido por um grupo de pessoas. O ser artificial assim criado não tinha nenhum objetivo prático. A sua realização destinava-se a pôr em evidência o poder das palavras sagradas; o ser criado, a partir do barro, era imediatamente destruído.
Só mais tarde surge o Golem como um ser independente, a que se atribuem funções utilitárias, e que pode representar um perigo para os que o rodeiam. Da lenda à ficção literária, designadamente ao Romantismo alemão, foi um passo…”.
Lê-se na Doutrina Secreta, de Helena Blavatsky: “Os homúnculos de Paracelso são um facto na Alquimia e, muito provavelmente, sê-lo-ão na Química”. E, em Ísis sem Véu, escreveu a mesma autora: “Existem relatos circunstanciados da produção de alguns homúnculos, entre outros os do famoso conde Kueffstein, camareiro da imperatriz Maria Tereza, da Áustria. Este conde e o abade Geloni fecharam-se num laboratório de convento na Calábria e, durante cinco semanas, dia e noite, estiveram trabalhando com fornos acesos. Ao fim desse tempo, conseguiram criar nada menos que dez homúnculos. O modus operandi é descrito por Paracelso no seu tratado De Natura Rerum.”
O Espaço Vivente
Efetivamente, a Natureza é o grande Laboratório da Vida manifestada. Nele fervilha a Consciência. O homem é um aprendiz de feiticeiro, mesmo nos seus mais ínfimos empreendimentos. Tateamos no aparente invisível para sorvermos, gota a gota, algo da grande Sabedoria, porque sabemos que ela ali se encontra. A evolução é uma imitação progressiva de Deus.
Nesse aparente vazio, o Akasha, a Alma Universal, encontramos o alimento espiritual que dá o ser a tudo o que é – do mais ínfimo grão de pó ao deva mais grandioso, da pequena flor campestre ao sábio mais elevado, das estrelas às galáxias… Nele estão ou rudimentos (os princípios) de todas as coisas que são, que foram e que hão-de vir. Nele estão os números de tudo o que é. Como dizia Platão, no Timeu, “a Alma do Mundo é a matriz a partir da qual a composição de todas as proporções matemáticas é repercutida no Mundo Sensível por ação da inefável providência de Deus”.
Esta mesma realidade os Pitagóricos reverenciaram e simbolizaram na figura fundamental da Tetraktys. “O diagrama de pontos da Tetraktis foi para os membros da Confraria Pitagórica um símbolo esotérico tão importante como o pentagrama, que era a sua ‘contra-senha’ secreta. Evocando a Tetraktis, os membros prestavam juramento solene de não divulgar nunca os seus segredos matemáticos. Jâmblico reproduziu a fórmula do juramento: ‘Não, juro por Aquele que transmitiu a Tetraktys à nossa alma, em Quem se encontra a fonte e a raiz da eterna Natureza’. E estes são os termos da oração pitagórica dirigida à Tetraktys: ‘Abençoa-nos, Número Divino, tu que engendraste os deuses e os homens! Oh, santa, santa Tetraktys, tu que encerras a raiz e a fonte do fluxo eterno da criação! Pois o número divino se inicia pela unidade pura e profunda, e alcança em seguida o Quatro sagrado; depois engendra a mãe de tudo, que une tudo, o primogênito, o que não se desvia jamais, que não se cansa jamais, o Dez sagrado que detém a chave de todas as coisas.” 
“Os resultados do estudo dos intervalos musicais foram as matemáticas pitagóricas, especialmente a teoria das proporções, posteriormente desenvolvida por Platão. Com efeito, os gregos não comparavam as freqüências vibratórias das cordas, que eles não haviam medido, e sim os seus comprimentos, o que equivalia ao mesmo (freqüências e comprimentos são inversamente proporcionais); a teoria resultante dos intervalos musicais e das suas proporções podia depois transferir-se diretamente ao estudo de proporções entre quaisquer magnitudes lineares. Voltamos a encontrar aqui a Tetraktys e uma das razões da sua importância no fato de que a progressão 1, 2, 3, 4 traduz as principais relações dos intervalos da gama diatónica: o de 4 a 2 ou de 2 a 1 a oitava, o de 3 a 2 a quinta, e a presença do número 5 = 3 + 2 ou Pêntada, sublinhando a importância da quinta da qual deriva a gama diatónica pitagórica. Cabe, pois, dizer, com Delatte que: ‘A Tetraktys é o conjunto dos quatro números cujas relações representam os acordes musicais essenciais’”(18).
Por outro lado, a Tetraktys encontra uma curiosa equivalência com o esquema da Árvore da Vida (o Ootz Chim hebraico) ou Árvore das dez Sephiroth (de sephira = número) uma vez que esta evoca o desdobramento da Década, do Um do Absoluto ao 10 da Manifestação. Segundo o já referido Séphèr Iétzirah (Livro da Criação): “Dez são os números saídos do Nada, e não o número nove; dez e não o número onze. Compreende esta grande sabedoria, entende este conhecimento, investiga-o, reflete sobre ele, torna-o evidente, e reconduz o Criador ao seu Trono”.
Assim se desdobra em Quatro Planos ou Mundos a Trindade ou Tríade superior.
A Tetraktys, compreende, ainda, três triângulos menores, simbolizando os níveis do Ser, 1+2, 1+3, 1+4, nestas cifras se contendo a chave do triângulo da Criação, o famoso Triângulo Perfeito (ou Triângulo Áureo), dito “de Pitágoras”, de proporção 3, 4, 5. Contudo, os Egipcios, já anteriormente o haviam eleito como o triângulo da perfeição. Conta-nos Plutarco, na sua De Iside et Osiride: … os Egípcios representavam a natureza do Todo Universal como o mais belo triângulo. (…) Esse triângulo apresenta a parte vertical, como tendo três comprimentos, uma parte de base de quatro comprimentos e uma hipotenusa de cinco comprimentos (…). Poderá comparar-se a linha vertical ao elemento masculino, a linha de base ao feminino, e a hipotenusa ao que deles nasceu, e assim, ter-se Osíris como a origem, Ísis como a concepção, e Hórus como o nascimento [ou o Filho]”. Com efeito, também para os Pitagóricos, os números 3, 4 e 5 – cuja soma é 12 (o número das Hierarquias Criadoras) – teriam presidido à formação do Cosmos e da Criação.
Newton, um pontífice da Sabedoria dos Antigos
A despeito do seu grande e incontestável valor, Isaac Newton pouco mais fez do que (meritoriamente, sublinhamos) ressuscitar e interpretar a Ciência dos Antigos. Todo o seu trabalho foi fundado no estudo minucioso do legado daqueles sábios. No Manuscrito de Portsmouth, conservado pela Royal Society de Londres, diz ele: “‘Que a matéria consiste de átomos era uma muito antiga crença. Este era o ensinamento de uma multidão de filósofos que precederam Aristóteles, nomeadamente Epicuro, Demócrito, Ecfanto, Empédocles, Xenócrates, Asclépidos, Diodoro, Metrodoro de Quios, Pitágoras e, previamente a estes, Moschus o Fenício, de quem Estrabão declara ser mais velho do que a guerra de Tróia. Pelo que eu penso do mesmo modo, fundado nessa mística filosofia que chegou aos gregos do Egipto e da Fenícia, porquanto átomos são por vezes designados mónadas, pelos místicos. Porque os mistérios dos números. bem como do restante dos hieroglifos se inserem na mística filosofia” Newton prossegue dizendo que são estas ‘sementes imutáveis’ que asseguram que ‘as espécies e os objectos estejam conservados na perpetuidade’.
(…) Por que proporção a gravidade decresce por distanciamento dos Planetas, os antigos não deixaram suficientes indicações. Contudo, a ela parecem ter aludido através da música das esferas celestes, designadamente o Sol mais os seis Planetas, Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, relacionando-a com Apolo e a sua Lira de sete cordas e medindo o intervalo das esferas em função do intervalo dos tons musicais. Assim, eles alegavam que ‘sete tons’ foram trazidos à existência, a cujo conjunto chamaram o diapasão da harmonia, e que Saturno foi movido pelo som [phthong] Dório, ou seja, o grave (-pesaroso), e os restantes planetas por mais agudos [como Plínio relata, de acordo com Pitágoras], e que o Sol vibra, faz soar, as cordas.
Por esta razão, Macróbio diz: ‘a Lira de sete cordas de Apolo provê o entendimento dos movimentos de todas as esferas celestes acima das quais a Natureza colocou o Sol como regente’. E Proclo, [no seu Memorandum] sobre o Timeu de Platão: ‘… O número sete, eles dedicaram a Apolo como aquele que abarca todas as sinfonias e, assim, eles costumavam chamá-lo Deus o Hebdoma’getes, o que significava Príncipe do número Sete. Semelhantemente, na Preparação do Evangelho, de Eusébio, o Sol é chamado pelo oráculo de Apolo, o rei da harmonia dos sete sons. Mas, por meio deste símbolo, eles indicavam que o Sol, pela sua própria força de tensão, age sobre os Planetas naquela proporção harmónica das distâncias, segundo a qual a força de tensão atua sobre cordas de diferentes comprimentos, ou seja, inversamente na razão dobrada das distâncias. Pois a força pela qual uma mesma tensão atua numa mesma corda de diferentes comprimentos é a recíproca do quadrado do comprimento da corda. (…) já que Pitágoras, como Macróbio admite, esticou intestinos de carneiros e tendões de bois, neles pendurando variados pesos e, a partir daqui, estabeleceu as proporções da Celeste Harmonia”. De forma muito clara, num testemunho de Conduitt, seu amigo e biógrafo, Newton confirma a sua plena rendição à sabedoria de Pitágoras e revela, inequivocamente, a fonte das suas inspirações: “‘… e eu pensei que a música das esferas de Pitágoras tinha a intenção de tipificar a gravidade e que, assim como ele faz os sons e as notas dependerem da medida das cordas, assim a gravidade depende da densidade da matéria…’”.
Janelas para o infinito…
Também a Ciência moderna tende a regressar ao Pitagorismo. Com efeito, em múltiplas áreas vem ela debruçando-se, com nova atenção e respeito, para elementos e fatos, legados pelos Antigos, que antes desprezava como sendo parte de uma mística inconsistente, própria da “infância” da humanidade.
No âmbito da Geometria, uma exploração recém encetada são os fractais, complexos modelos gráficos “com implicações inestimáveis em domínios tão diversos como a compressão de imagens, a arte visual, a música, até aplicações financeiras…”. Tais modelos, freqüentemente de uma estética belíssima, constituem poderosas janelas que nos revelam um mundo de possibilidades arrebatadoras, orientando-nos para universos insondados cujas fronteiras, à semelhança das velhas mandalas, apenas místicos e ioguis haviam logrado transpor e contemplar. Para o vulgo, é hoje mais acessível perspectivar a coerência de um Universo em que o Infinitamente Pequeno é réplica perfeita do Infinitamente Grande… e verificar o alcance do velho axioma “Como Em cima, assim Abaixo”.
Na atualidade, deleitamo-nos com estes maravilhosos fractais, que nos acenam com sugestivas promessas… No entanto, os seus protótipos pitagóricos e platónicos ainda permanecem como os mais reveladores, designadamente o assim chamado “Triângulo Sublime”, tão caro a Pitágoras, de que aqui nos socorremos. Neste triângulo, o fator 1,618 – dito “Número de Ouro” ou “Divina Proporção” – é o elemento diretor (Ver Diagrama 4).
O Triângulo Isósceles dito “Sublime” e a sua espiral logarítmica de pulsação radial 1,618. 
Entre os primitivos hindus, figurativamente, o 3 [através de Brahmâ, o Construtor] projecta-se nas 4 direcções do Espaço [plasmando o Septenário cósmico] e dá origem às 12 Hierarquias Criadoras.
Na figura podemos apreciar como, tendo como ponto de partida um minúsculo triângulo, desabrocham e se foram construindo mais triângulos, idênticos ao primeiro – mantendo sempre a “razão áurea” entre os seus lados (já que a base do primeiro se converte na base do seguinte, e assim sucessivamente…). Podemos entrever a espiral – que cresce e se delineia, por entre os vértices dos triângulos sucessivos. Esta é a famosa espiral de Fibonacci, que se verifica ser uma chave ordenadora e multiconstrutora na arquitectura da Natureza. Sobre ela, já nos detivemos em anteriores ocasiões em artigos de edições anteriores desta Revista.
Este triângulo é o instrumento-modular que integra o “Pentagrama Estrelado” ou Estrela de 5 Pontas pitagórica. Por outro lado, a sua base é o lado de um decágono (D) inscrito num círculo que, por seu turno, tem por raio (E) o seu lado maior, o que compreende e revela, de novo, a “Divina Proporção”, E/D=1,618. Para os pitagóricos, o “Número de Ouro” rege a chamada “Harmonia das Esferas”, em cujos fundamentos a ciência renascentista, em especial Johannes Kepler, ancorou, reabilitando a antiga ciência da mecânica celeste.
O Triângulo Sublime é o símbolo da Evolução humana – do homem para Deus, do homem rumo à sua condição divina.
A espiral
A espiral assenta numa estrutura trinitária (no início da Manifestação, o primeiro impulso terá gerado o triângulo). Na alegoria do Rig-Veda, Vishnu é descrito cruzando aos saltos as sete regiões do Universo em três passadas [configurando o primeiro impulso trinitário] e permeando todas as coisas com a essência dos seus raios de luz.
Vishnu (o símbolo do curso da Manifestação) é a personificação da qualidade Sattva (Sattva tem numerosas acepções: estabilidade, duração, equilíbrio, ritmo…). Nesta conformidade, outra imagem iconográfica representa-o descansando sobre a serpente Ananta (“sem fim”), símbolo da eternidade. Deve-se notar que a serpente é também a espiral – do tempo e do espaço infinitos.
No que a este último concerne, a Física admite e reconhece, hoje, a propriedade ondulatória do espaço. Assim, o próprio som se propaga em sentido espiralado: a sua viagem é “ondulatória”. De novo, Vishnu [a Voz do Pai, Brahmâ] é representado exibindo numa das mãos uma concha; a concha – a espiral – que contém a potência (e esquema virtual) do Manvantara.
Diz-se em A Doutrina Secreta que “o Akasha é o Espaço Universal em que está imanente a Ideação eterna (…) e do qual procede o Logos, ou seja, o ‘Verbo’ ou ‘linguagem’ no seu sentido místico”. O Akasha é o upadhi (i.e., o veículo, a forma externa, manifestada) da Mente Divina e é, sob outro aspecto, Kundalinî – assim, de novo, a imagem serpentina…
Curiosa, no mínimo sugestiva, é a própria constituição do sistema auditivo. No ouvido interno, a cóclea é uma espiral (muito semlhante a uma concha de caracol ou do náutilo) constituída por um tubo ósseo enrolado sobre si próprio. Este tubo é, por sua vez, estrutural e funcionalmente trino (tri-seccionado e trifásico). A própria anatomia externa do aparelho auditivo humano conforma uma estrutura espiralada, o pavilhão (as orelhas).
No Universo físico, as formas – quaisquer formas – não são aleatórias. A sua configuração obedece a padrões internos de ressonância (relembremos que o Akasha é o continente dos arquétipos de todas as coisas e de todas as possibilidades). A Geometria não é mais do que a forma visível do alinhamento de números… No incomensurável universo dos números, cada função, cada propósito, na Natureza, configura uma série restrita, específica, de números. Um ser organizado (uma pedra, um animal, um homem…) é, pois, um aglomerado vastíssimo de complexos desses números. Na imensa variedade de espécies animais existentes, por muito que aparentemente divirjam entre si, não é decerto fortuito que (por exemplo) praticamente todos tenham os olhos, o nariz, a boca, os ouvidos, na mesma disposição relativa; a cabeça num extremo do corpo; os órgãos respiratórios, de nutrição, de reprodução, dispostos equivalentemente, etc.. Na vida orgânica, tudo o que tenha um ou mais elos comuns, propósitos similares, percursos evolutivos partilhados, parece ser regido por definidas leis estruturantes (morfológicas, psicológicas, funcionais, etc) igualmente comuns. Entretanto, a dissemelhança existe – é absolutamente necessária – neste universo em que os contrastes geram consciência; mas estas assimetrias vivem dentro de grandes Simetrias, cujo acorde, lenta mas inexoravelmente, as conduz, as afina, as eleva a patamares superiores de consciência comungante, a novas identidades comuns. O ritmo está para o tempo assim como a simetria está para o espaço, e nesta grande Sinfonia Cósmica tudo converge para o UM.
Passo por passo, as Grandes Simetrias percorrem um caminho de progressiva descristalização, porquanto, acreditamos, a verdadeira Harmonia não tem forma…
Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

Um comentário:

  1. Ygbere, vc se supera a cada dia, postando artigos interessantíssimos! Paó por sua dedicação e respeito aos leitores do seu blog.
    Obaositala

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