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segunda-feira, 20 de maio de 2013

A magia na visão da academia...




MAGIA: A RELIGIÃO DO “OUTRO”
Francisco Santos Silva
Centro de História da Cultura, Faculdade De Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa

Resumo: Este artigo procura explorar a palavra “magia” no contexto do estudo científico da religião e, mais geralmente, no contexto das ciências sociais e humanas. Como tal, é procurado, neste artigo, fazer uma pequena história do uso do termo, de forma a compreender a sua carga política, social e histórica. Como se verá ao longo do artigo, o termo “magia” tem sido utilizado historicamente quase sempre de forma pejorativa de forma a descrever a “religião dos outros”. Esta carga xenófoba, bem como o fato de aquilo que é descrito como “magia” poder ser facilmente integrável dentro do fenômeno geralmente descrito como religião, leva à conclusão de que o termo “magia” é um termo sem utilidade ética no estudo do fenômeno religioso.

Palavras chave: Magia, Religião, Metodologia

Magic: The Religion of the “Other”
Abstract: This article seeks to explore the usefulness of the word “magic” in the context of the scientific study of religion and more broadly in the context of the humanities. As such, an attempt is made in this article to outline a short history of the use of the term so as to understand its political, social and historical baggage. As will be seen throughout the article, the word “magic” has historically been used consistently in a pejorative fashion as a way to describe “the religion of others”. This xenophobic charge and the fact that which is described as “magic” can easily be integrated in the phenomenon of religion, leads to the conclusion that the term “magic” is a term without etic usefulness in the study of the religious phenomenon.
Keywords: Magic, Religion, Methodology

Quando o antropólogo Bronislaw Malinowski escreveu o ensaio "Magic, Science and Religion"2, em 1925, estes três termos - Magia, Ciência e Religião - parecem ser possuídos de uma identidade própria e estanque. No entanto, este nem sempre foi o caso - não o era quando da escrita de Malinowski, nem o é hoje. A distinção entre ciência e religião, bem como entre ciência e magia parece, pelo menos na modernidade, ser pouco contenciosa; a ciência trata do mundo físico e natural, enquanto os outros dois termos se interessam pelo metafísico e sobrenatural. Esta é uma distinção bastante recente na história da humanidade, visto que no período pré-iluminismo as ideias de ciência e religião estavam bastante misturadas. No período do Renascimento, a ciência estava também bastante unida à chamada "magia natural", ou seja, a utilização de processos naturais para fins mágicos, no qual se incluem ideias hoje vistas como "mágicas" cva cristã, desenhar um círculo no chão e queimar incenso, de forma a contatar com anjos ou deus é uma prática mágica, enquanto ajoelhar, juntar as mãos e rezar para o mesmo fim é uma prática religiosa. No mesmo princípio, a transmutação do chumbo em ouro é magia, enquanto que a transmutação de pão e vinho em carne e sangue é religião. Este último exemplo levou, de fato, durante a reforma protestante, a acusações pela parte de alguns protestantes de práticas mágicas pela Igreja Católica. Como mencionado em cima, é uma questão de perspectiva.
Não é a intenção deste artigo minimizar a religião ou a magia, mas, sim, colocar a questão de se existe de fato a necessidade desta distinção entre magia e religião. Será uma distinção útil? Devemos manter distinções que servem como acusação, sendo o termo “magia” utilizado quase como insulto para práticas pela parte daqueles que não compreendem ou desaprovam do ato a que chamam “mágico”? De forma a podermos dar uma resposta a estas perguntas teremos de começar por analisar como as relações entre a religião, e aquilo a que se escolheu chamar “magia”, num contexto histórico, tanto no período pré-moderno como na época moderna e contemporânea. Seguidamente, veremos como as ideias de religião e magia foram distinguidas no contexto acadêmico no séculos XIX e XX, e, por último, determinar como a utilização destes termos foi usada como uma ferramenta de poder cultural social e político. Apenas após examinarmos estes fatores poderemos chegar a uma conclusão, no que respeita à utilidade da palavra “magia” como a descrição de qualquer fenômeno independente ou até se este fenômeno sequer existe como algo independente da religião.
Relação entre magia e religião: Antiguidade ao séc. XVII
Desde a antiguidade clássica, que os termos “magia”, para a prática, ou “mago”, para o praticante, se referem a práticas religiosas realizadas por outros que não aqueles que utilizam o termo. O termo tem origens Persas e refere-se às práticas Zoroastrianas da Pérsia Antiga, e é portanto um termo utilizado pelos gregos como forma de descrever as práticas de alguém que é visto como “outro”. A palavra é utilizada na Grécia Antiga como designação de ritos cuja “legitimidade era contestada e,
frequentemente, pelo menos em alturas posteriores, marginalizada e proibida”4. É, portanto, uma palavra que demonstra um certo desprezo pela atividade religiosa do “outro” – os gregos defendem a sua superioridade espiritual definindo as religiões não gregas como magia. Outro termo com o mesmo significado, tanto denotativo como conotativo, é o termo chaldaioi/chaldaei que, tendo o mesmo significado de magia e mago, se refere neste caso aos caldeus, sendo outra vez um termo que revela uma xenofobia religiosa pela parte dos gregos antigos. É interessante ver como esta utilização do termo é semelhante à forma como ele será utilizado ao longo da história, tanto pelas religiões dominantes como pelos poderes coloniais. O termo “magia” revela, então, desde a sua origem, uma afinidade com um desprezo pela religião ou práticas daqueles que são considerados estrangeiros ou “outros” pela cultura dominante. Rapidamente, o termo “magia” deixa de ser especificamente descritivo de práticas de outros povos para passar a designar práticas religiosas dentro das próprias culturas greco-latinas que não se coadunam com a perspectiva da maioria culturalmente dominante. Aparecem, então, na Grécia os termos goétia, para descrever a arte de se comunicar com os mortos (e, mais tarde, demônios), e pharmakeútria, que descreve “uma mulher que usa ervas e drogas”. No latim, os termos saga (bruxa), veneficus (pessoa que usa venenos) e, mais tarde, maleficus (pessoa que faz o mal) servem ao mesmo propósito de descrição de práticas não reconhecidas pela maioria culturalmente dominante5.
Poder-se-ia dizer que, na Era Medieval, o “feitiço volta-se contra o feiticeiro” e é, principalmente, no ataque pela parte de cristãos aos resquícios do paganismo clássico que o termo magia é utilizado. O mesmo paganismo clássico que utilizou o termo como descrição de religiões estrangeiras é agora sujeito à acusação de magia por um novo paradigma cultural representado pelo cristianismo. Santo Agostinho é um dos mais influentes expoentes das ideias anti-magia; no livro X da Cidade De Deus, o próprio Agostinho fala sobre a utilização do termo magia quando descreve os pensadores neo-platónicos:

[...]pois eles desejam diferenciar entre aqueles a que as pessoas chamam magos, que praticam necromancia, e estão viciados em artes ilícitas e condenados, e aqueles outros que parecem ser dignos de elogio pela sua prática de teurgia, – a verdade, no entanto, sendo que ambas as classes são escravas dos ritos enganadores dos demônios que invocam sob o nome de anjos.6
Agostinho reforça então a perspectiva de que a atribuição da etiqueta “magia” é dependente do ponto de vista do escritor - para Agostinho, como cristão, a teurgia é também magia, tal como a necromancia, pois não está inserida no contexto cristão e, logo, as práticas utilizam forças demoníacas. Outra contribuição importante de Santo Agostinho, para a definição daquilo que veio a ser visto como magia, está na sua associação da magia à “teoria dos sinais” no texto De Doctrina Christiana no qual associa a Magia à idolatria e demonolatria:
devido ao uso de sinais direcionados ambiguamente, que demônios podem manipular e usar para enganar humanos, a magia pode ser vista como uma espécie de linguagem que os humanos e demônios têm em comum7.
Nasce aqui, então, a ideia estereotipada do mago como aquele que faz sinais misteriosos de forma a contatar seres sobrenaturais, uma ideia que informa as percepções de magia até aos dias de hoje e que leva a grande parte das distinções entre o que é religião e magia. É, no entanto, no fim da época medieval e no Renascimento, que começam a aparecer perspectivas mais positivas no que diz respeito à magia, e isto sucede devido a criação de uma nova subdivisão dentro do campo chamado de “magia” - para além da “magia ritual” de que Agostinho fala, desenvolvem-se teorias agora respeitantes à “magia natural”. Esta “magia natural” não utiliza a mediação de seres sobrenaturais como a ritual, mas, sim, as propriedades ocultas no mundo físico. Bons exemplos desta “magia natural” estão presentes em fenómenos como a astrologia, alquimia e também certas formas de medicina. Estas ideias supõem uma relação de correspondência e inter-relação entre elementos naturais, o ser humano, e o mundo metafísico, mas não dependem da intervenção direta do sobrenatural. Nesta perspectiva, a “magia” torna-se quase uma ponte entre a religião e a ciência, utilizando métodos que mais tarde se tornarão parte integrante do método científico, mas a cuja eficácia subjazem teorias derivadas do hermetismo e neo-platonismo pagão, no que respeita à interligação dos vários planos de existência (o que justifica até aos dias de hoje, por exemplo, as influências planetárias nas vidas humanas, segundo os crentes nas ideias astrológicas). O Renascimento é uma época em que muitos dos textos da Antiguidade Clássica são redescobertos pelos europeus, levando a um ressurgimento das ideias herméticas e neo-platonicas que garantem essa justificação à nova “magia natural”. É, também nesta época, que os primeiros estudos sistemáticos daquilo a que se chama magia começam a surgir abertamente na Europa, como a De Occulta Philosophia Libri Tres de Cornelius Agrippa ou a Magia Naturalis de Giambattista della Porta, mostrando uma maior abertura cultural e social a novas ideias relacionadas com a “magia”, que pela primeira vez deixa de ter um sentido completamente pejorativo, passando também a ser associada ao renascimento das ideias clássicas.
Relação entre magia e religião: séc. XVIII a XXI
A modernidade herda do renascimento as várias ideias de magia desenvolvidas anteriormente, agora, já com uma forte distinção entre a “magia sobrenatural” e a “magia natural”, que passa a ser vista como uma proto-ciência, visto que, a partir da Idade Média e até à Modernidade foi-se, progressivamente, afastando da “magia ritual” ou sobrenatural. No entanto, a noção de magia como a “superstição dos outros” continua bem firme; na Encyclopédie de Diderot e d'Alembert publicada em 1765, a definição de magia inclui o seguinte excerto:
Como uma ciência negra, é honrada em países onde o barbarismo e a rudeza governam. Os Lapões e, em geral, os povos selvagens cultivam a magia, e têm-na em grande consideração8.
Os editores da Encyclopédie dividem a ideia de “magia” em três grupos:
 Primeiro, “magia divina”, que consiste de revelações divinas ao homem santo, vista de forma positiva se bem que levantando grandes dúvidas aos editores da Encyclopédie;
 Segundo, “magia natural”, que é vista também de forma positiva, como tendo trazido avanços inestimáveis à humanidade através do estudo aprofundado da natureza e que consideram estar a ser, corretamente, substituída pela ciência, e que os cientistas de hoje (séc. XVIII) irão também parecer magos para sociedades mais avançadas no futuro (note-se que a ideia de mago aqui implica atraso).
 Terceiro, “magia sobrenatural”, a que se chama propriamente magia. Esta última merece ter a sua definição extensamente citada de forma a compreendermos a perspectiva iluminista em relação à magia:
Esta magia negra, que ofende sempre, que leva ao orgulho, ignorância e à rejeição da ciência; é esta que Agrippa incluiu sob as etiquetas “celestial” e “cerimonial” [ou ritual]. Não é ciência se não no nome e não é nada se não um amontoado confuso de princípios obscuros, ambíguos e inconclusivos, práticas que eram geralmente arbitrárias e infantis, a inutilidade das quais é demonstrada pela natureza das coisas.
Agrippa que era também um filósofo para além de mago, utilizou o termo “magia celestial” para descrever a astrologia judiciária que atribuía a espíritos algum domínio sobre os planetas, e aos planetas algum domínio sobre os homens. Também afirmou que as diferentes constelações influenciavam as tendências, destino e boa ou má fortuna dos homens. Baseado nestas fracas fundações, construiu um sistema ridículo, que não se atreve a aparecer hoje em dia excepto no “Almanaque de Liége” e outros livros similares. Estas patéticas colecções de material alimentam preconceitos e erros populares9.
Nessa citação, quase se ouvem os ecos distantes dos argumentos anti-religião utilizados por escritores contemporâneos do séc. XX e XXI como Richard Dawkins. A visão da magia como entrave à ciência e como algo que alimenta erros e preconceitos nas mentes populares foi hoje substituída, numa época mais permissiva, pelas mesmas ideias aplicadas à religião em vez da magia.
É, no entanto, na fase pós-iluminismo, particularmente, a partir da segunda metade do séc. XIX, que surgem autores e grupos organizados que se começam a definir como sendo magos ou praticando magia, frequentemente, como forma complementar à religião ou, mais raramente, como reação à religião imposta. Um dos primeiros exemplos desta reabilitação da magia como sistema está presente no escritor francês Eliphas Lévi (1810-1875), que através das suas obras desenvolve uma ideia coerente de magia em que a força de vontade do homem tem o poder de alterar o mundo, baseado em ideias de microcosmo e macrocosmo que advêm do hermetismo dos primeiros séculos da nossa era, e filtradas pelo Renascimento. Será este mesmo Eliphas Lévi a influenciar tremendamente a primeira ordem secreta que se intitula de ordem magica, a Aurora Dourada ou Golden Dawn inglesa; o fundador da ordem, Samuel Mathers, era um profundo admirador de Lévi, como se pode ver pelas introduções das suas obras, que citam Lévi frequentemente. Vários membros da ordem, que terão um impacto forte no desenvolvimento das ideias de magia no séc. XX e XXI, são também admiradores de Lévi. A.E.Waite, escritor e co-criador do baralho de tarot Raider-Waite traduziu uma grande parte dos livros de Lévi para inglês e um dos mais famosos membros da ordem da Golden Dawn, Aleister Crowley, acreditava ser uma reencarnação de Lévi. Mas se Lévi influenciou a Golden Dawn e o seu currículo mágico, a própria Golden Dawn foi ainda substancialmente mais influente do que os escritos de Eliphas Lévi, como afirma Hanegraaff:
A “Hermetic Order of the Golden Dawn” [Ordem Hermética da Aurora Dourada] é uma ordem ocultista do virar do século [XIX para XX]. Todos os grupos que praticam magia ritual no séc. XX são dependentes do impressionante sistema de rituais que foi desenvolvido pelo seu membro mais criativo, Samuel Liddell McGregor Mathers11.
O que esta afirmação implica é uma dívida pela parte de grupos religiosos Neo-Pagãos, Wiccans, membros de grupos de Magia Cerimonial, Thelemitas, entre outros, à Golden Dawn devido à sua cristalização do ritual mágico no contexto desta ordem. Estas práticas continuam a ser populares hoje, e, desde o advento da Internet, estes grupos religiosos/mágicos têm-se espalhado a um ritmo bastante rápido.
Deparamo-nos aqui com uma questão nova no caso da relação entre religião e magia. Neste caso, temos grupos que se auto-identificam, orgulhosamente, com a magia, em vez de a palavra ser um termo pejorativo dado por outros. Este fenômeno é, de certa forma, semelhante ao que acontece com a palavra “pagão”, também adotada pelos Neo-Pagãos, e que tem uma história semelhante de uso pejorativo, quando aplicada, por exemplo, pela maioria cristã. Em ambos os casos, existe um elemento de “recuperação” de palavras que foram feitas impuras pela forma como foram utilizadas, bem como um elemento de distanciamento da maioria culturalmente dominante - um certo elemento de “choque”. Não deixa, no entanto, de ser um termo  êmico, aplicado pelos praticantes àquilo que eles próprios praticam, e que, por isso, deve ser respeitado. Isto, no entanto, não implica a sua distinção do conceito de religião, visto que Neo-Pagãos, Wiccans e Thelemitas se considerariam membros de religiões que expressam a sua religião através de práticas mágicas. O mesmo não acontece quando, por exemplo, no contexto de estudos antropológicos, se aplica o termo “magia” a povos que não utilizam esse mesmo termo para definir as suas práticas religiosas. Veremos alguns exemplos disto na secção seguinte.
Como o mundo acadêmico tem visto a distinção entre magia e religião
No seu artigo introdutório sobre “Magia”, no Dictionary of Gnosis and Western Esotericism, Wouter Hanegraaff divide as perspectivas que levaram ao conceito de magia utilizado correntemente no mundo académico em três teorias12. A primeira destas teorias é representada por E.B. Tylor (1832-1917) e J.G. Frazer (1854-1941), tendo Tylor desenvolvido uma teoria “evolucionista” da sociedade humana, segundo a qual o homem evoluiria de um estado animista, para um estado politeísta, monoteísta e por fim culminaria no triunfo da ciência. A prática de magia estaria então relacionada com os dois primeiros estados da humanidade (animismo e politeísmo). No entanto, para Tylor, “magia” é independente da religião, sendo vista mais como “má ciência” do que como “má religião”, como se pode ver pela seguinte descrição da “ciência oculta” da astrologia:
[…] a astrologia depende de um erro da primeira ordem, o erro de confundir uma analogia ideal com uma relação real. A astrologia, pela imensidão da sua influência ilusória na humanidade, e pelo período relativamente moderno até ao qual se manteve como um ramo honrado da filosofia, pode-se arrogar do lugar mais elevado entre as ciências ocultas. Não pertence aos níveis mais baixos de civilização, apesar de um dos seus conceitos fundamentais, a das almas ou inteligências animadas dos corpos celestiais, estar enraizado no mais profundo da vida selvagem13.
Mais uma vez, a “ciência oculta” e, por analogia, a magia, estão associadas a processos mentais “selvagens”. Frazer viria a simplificar as ideias de Tylor criando um ciclo evolutivo com três passos: magia-religião-ciência. A humanidade, no seu estado mais primitivo, pratica magia; no seu estado intermédio, segue a religião e, num estado mais evoluído, seguirá a ciência. No entanto, nunca é dada uma distinção satisfatória entre religião e magia; para Frazer, a magia é distinta da religião devido à ideia de “simpatia” ou seja, que existem correspondências entre coisas semelhantes e que, afetando umas, as outras serão também afetadas (um exemplo simples seria espetar agulhas num boneco de forma a afectar uma pessoa). Isto não explica, no entanto, como pode, então, ser considerada religião o rezar perante uma imagem da divindade, por exemplo, sendo a imagem também um caso de processo simpático, um crucifixo sendo uma imagem daquilo que se pretende contatar, algo semelhante ou “simpático” ao alvo da oração.
Uma segunda teoria da magia discutida por Hanegraaff no artigo acima mencionado foi desenvolvida por Marcel Mauss (1872-1950) e Émile Durkheim (1858-1917). Em oposição a Frazer e Tylor, Mauss define magia não como simplesmente a ação “simpática”, mas, sim, como o ato ritual privado:
um rito mágico é qualquer rito que não faça parte do culto organizado – é privado, secreto, misterioso e aproxima-se dos limites do rito proibido.
Esta teoria, que é depois suportada por Durkheim, parece, à primeira vista, evitar alguns dos problemas de eurocentrismo presentes na teoria Tylor/Frazer. No entanto, parece ter pouca base empírica, como escreve Hanegraaff:
(…) as premissas básicas para a sua teoria [de Mauss] são de facto derivadas inteiramente das categorias tradicionais da heresiologia Cristã: sendo adotados, de forma acrítica, preconceitos paranoicos em relação à magia como as práticas do “outro” não-socializado, como fundação para um estudo supostamente acadêmico daquilo que a magia é.
Conseguimos ver, então, como a teoria de Mauss/Durkheim cai, não só no mesmo erro que Tylor/Frazer, mas também nos mesmos preconceitos de S. Agostinho e de Diderot - a magia é a “crença ilógica do outro” seja o outro o “selvagem” ou “primitivo” ou, no caso de Mauss/Durkheim, o que existe nas margens da sociedade e da instituição religiosa. Este princípio parece ser aceite, tacitamente, sem uma discussão convincente ou profunda que defina a magia em oposição à religião através de conceitos externos ou éticos16 à própria religião dominante.
A terceira teoria da magia tem as suas origens em Lévy-Bruhl e na ideia de “participação”, uma ideia que Lévy-Bruhl associa à mente Pré-Moderna em que causas e efeitos estão, de tal forma associados, que são vistos como idênticos e consubstanciais, logo participando um do outro. Apesar de Lévy-Bruhl não ter desenvolvido esta teoria com a ideia de magia em mente, foi, no entanto, adaptada por outros escritores, como Malinowski, de forma a identificar “participação” com “magia”, de certa forma, voltando à ideia de Frazer da magia como um processo de “simpatia”. A identificação de magia com processos mentais pré-modernos reforça a ideia evolucionária, que põe a magia num ponto evolutivo anterior ao do homem moderno, bem como os seus praticantes num ponto inferior ao “homem moderno”. A força política desta ideia foi de grande utilidade para as potências coloniais e para a sua “missão civilizadora”: o colonialista que define a si próprio como mais evoluído é justificado através destas definições na conversão e controle daquilo a que chamavam povos “primitivos”, pois a sua ação é benéfica para os colonizados. Note-se, também, que todas estas teorias são desenvolvidas por pensadores oriundos de países colonizadores, seja o Reino Unido ou a França, dos quais as teorias irradiaram para o resto da Europa colonialista durante a primeira metade do séc. XX. Não é, até ao início do séc. XXI, que a aceitação tácita da dicotomia magia/religião começa a ser seriamente posta em causa, visto que nenhuma das teorias, anteriormente desenvolvidas, é intelectualmente satisfatória no que diz respeito à distinção magia/religião. Hanegraaff
16 Ético é aqui utilizado no sentido da dicotomia êmico/ético, ou "insider/outsider", um conceito êmico sendo um conceito que tem as suas origens dentro da própria perspectiva religiosa e um conceito ético sendo um conceito externo à concepção religiosa. Para a religião ser analisada de um ponto de vista das ciências humanas os conceitos devem então ser éticos de forma a não estarem comprometidos com nenhuma perspectiva religiosa.
faz uma boa síntese desta nova perspectiva, neste caso, em relação à ideia de magia num contexto ocidental, mas que é igualmente aplicável a povos não ocidentais:
Uma abordagem mais consistente e historicamente mais produtiva seria começar por reconhecer o pluralismo religioso que sempre caracterizou a cultura ocidental, e analisar a magia como um conceito em grande parte polemico, que tem sido usado por vários grupos comprometidos religiosamente ou para descrever as suas próprias crenças e práticas religiosas, ou – mais frequentemente – para desacreditar as dos outros.
A utilidade da palavra magia resume-se então à utilidade de um termo émico, que apenas faz sentido no contexto do discurso de um grupo religioso, e não como categoria de analise acadêmica. É no fundo uma palavra que define uma opinião teológica sobre as práticas dos outros, ou em casos particulares (como Neo-Paganismo, Wicca ou Thelema por exemplo) sobre suas próprias práticas. Na secção seguinte, analisaremos, então, as razões para rejeitar a palavra “magia” como termo ético independente do termo “religião”.
Como utilizar a palavra “magia”
Como temos visto, ao longo de todo este artigo, a palavra “magia” apresenta-se, quase sempre, como uma palavra problemática utilizada como munição teológica ou política seja pela religião instituída ou pelo poder político dominante (como no caso dos poderes coloniais, ou até governos centrais, como forma de atacar ou negar a validade das crenças de minorias). Como vimos acima, é, também, por vezes, utilizada como um termo de auto-descrição por religiões minoritárias no mundo ocidental, muitas das quais têm uma ideia de contra-cultura como uma das fundações do seu pensamento, fazendo então sentido a utilização de termos que são desprezados pela cultura dominante (compare-se o termo “magia” aos termos “pagão” e “bruxa” ou “bruxaria”, termos com histórias e conotações semelhantes e utilizados por estes mesmos grupos). Torna-se, então, aparente a dificuldade na utilização da palavra “magia”, como um termo de utilidade descritiva no estudo científico da religião ou a sua utilização em qualquer ciência social e humana. Não se trata, sequer, de uma questão sobre o fato de a magia ser ou não independente da religião como conceito, ou se deve ser vista como uma sub-divisão do fenômeno religioso. De facto, a palavra “magia”, como é geralmente utilizada, não pode ser vista senão como religião ou ritual religioso, ou seja, deve ser completamente fundida dentro do termo “religião”. Mesmo quando descrita pelos praticantes como “magia”, tal termo deve ser visto como um descritor émico, ou seja, uma descrição que o grupo faz de si próprio, mas não um termo de utilidade categorizante e descritiva do ponto de vista científico, tal como um grupo que se descreve como o “verdadeiro cristianismo”, por exemplo, deve ser visto como um grupo que êmicamente se descreve como tal, sem que isto implique que a categoria e descrição científica do grupo seja realmente a do “verdadeiro cristianismo”. O termo “magia” pode então ser tratado como qualquer outro termo que descreva um juízo de valor, importante quando da análise do discurso êmico, mas irrelevante para a descrição acadêmica.
Outro elemento importante, que leva ao descarte da palavra “magia”, como termo útil à descrição analítica, é a própria metodologia moderna para o estudo do fenômeno religioso. O estudioso acadêmico que adota uma posição ética (externa ou de “outsider”), de forma a ser o mais imparcial possível na sua analise do fenômeno religioso, não se pode identificar pessoalmente com o seu objeto de estudo. Em vez disso, o estudioso tenta chegar a conclusões que sejam tanto quanto possível “científicas”, ou seja, observáveis e falseáveis18. Por esta mesma razão, o estudioso ético não deve fazer julgamentos de valor, no que diz respeito à verdade ou inverdade de afirmações metafísicas, sendo estas afirmações que não podem, pela sua própria natureza, nem ser observadas nem falseadas por outros estudiosos. Como tal, a realidade dessas afirmações pode ser um assunto para o discurso êmico, mas não é passível de ser resolvido através da discussão acadêmica. O estudo científico da religião procura estudar aquilo que é determinável, através dos meios disponíveis ao cientista neste mundo e não fazer conjecturas sobre o “outro mundo”. Isto leva a que a atitude adotada, geralmente para o estudo da religião, seja uma de agnosticismo metodológico, ou seja, a suspensão do julgamento pessoal do estudioso sobre um fenômeno religioso, enquanto está no seu papel de estudioso. É importante, também, notar que a palavra, aqui utilizada, é “agnosticismo” e não “ateísmo”, não implicando portanto uma atitude hostil em relação à religião, apenas numa suspensão do julgamento sobre aquilo que é impossível de provar ou “desaprovar”. A ideia, que subjaz ao termo “magia”, depende, sempre, de um julgamento de valor sobre a validade da prática religiosa e como tal é incompatível com a perspectiva do agnosticismo metodológico; quando o estudioso utiliza a palavra magia para descrever um fenômeno está a fazer um julgamento de valor, mesmo que inconsciente, em relação à efetividade metafísica do ato mágico. Do ponto de vista do agnosticismo metodológico a prática, dita mágica, ou, por exemplo, o ritual praticado no contexto da eucaristia cristã tem igual validade, pois a diferença que faz de um magia e do outro religião, é uma diferença ao nível metafísico e, logo, não mensurável de um ponto de vista científico.
Para além destes problemas metodológicos, existe também uma carga histórica e política do termo, que leva a que seja preferível para o estudioso pô-lo de parte, de forma a não ser associado não só às atitudes xenófobas que levaram à origem e utilização do termo desde a Grécia Antiga até ao Período Colonial, mas também às próprias políticas de diferenciação e de justificação da “missão civilizadora” utilizadas pelos poderes coloniais. O termo “magia”, que historicamente pode ser definido como “a religião dos outros”, é sempre politicamente incorreto, a não ser quando este é utilizado em relação aos grupos que utilizam o termo para se descrever a si próprios.
Por último, surge-nos a particularidade daquilo a que se chamou “magia natural”, sendo um conjunto de sistemas do período medieval tardio e do Renascimento que, segundo os seus defensores, não utilizava métodos sobrenaturais para os seus resultados efetivos. No entanto, esta “magia natural” não é também um termo independente, visto que em certos casos (astrologia, por exemplo), dependia de ideias neo-platónicas e herméticas que eram, sem dúvida, religiosas e, em outros casos (alguns resultados alquímicos e medicinais), eram proto-científicas, sendo muitas vezes resultados que mais tarde vieram a ser codificados e explicados através da ciência. Ao invés da magia, no seu sentido mais amplo, a “magia natural” dissolve-se não só na religião, mas também na ciência.
Conclusão
Toda a carga política, social e cultural da palavra "magia", acima discutida, leva à conclusão que, embora seja uma palavra que tem de ser reconhecida como fazendo parte integrante do discurso êmico sobre religião e, logo, é um sujeito de análise como tal para o estudioso das religiões, não pode ser vista como uma categoria com existência independente da religião. De fato, podemos facilmente chegar à conclusão que toda a "magia" que lida com elementos sobrenaturais é, de fato, motivada pelo sentimento religioso e, como tal, é parte integrante do largo e variado fenômeno da religião. Como vimos, também acima, existem alguns casos em que algo que se descreve como "magia" não lida com esses elementos sobrenaturais, sejam alguns elementos da "magia natural", que podem ser considerados como proto-ciência ou até a própria magia como arte de palco ou ilusionismo. Esta ideia da magia, como ilusionismo no contexto de palco, ajuda também a ilustrar a forma como a palavra foi historicamente usada. Neste caso, não estritamente como "a religião do outro", mas como ilusão, a realização de falsos milagres para o entretenimento de um público. Esta ideia de falsos milagres, ou falsa religião é uma ideia que esteve sempre colada à etiqueta "magia", sendo portanto uma palavra que descreve um ponto de vista teologicamente informado que só faz sentido na perspectiva do crente, na separação que faz entre a sua religião e o que lhe é estranho, ou "mágico". Para um investigador que tente ser isento na sua apreciação do fenômeno religioso, adotando o agnosticismo metodológico, esta distinção deixa rapidamente de fazer qualquer sentido, quando separada da perspectiva teológica que lhe é associada. A verdade é que acabamos por não ter uma definição abrangente e não pautada por perspectivas teológicas que se aplique ao fenômeno de "magia" como algo realmente distinto do fenômeno religioso em geral. A única definição constante para o fenômeno de magia, desde a Grécia Antiga até ao séc. XX, parece ser a expressão religiosa daqueles que se encontram à margem da sociedade culturalmente dominante, sejam estes os persas ou caldeus em relação aos gregos, os povos colonizados em relação a
Inglaterra, França ou Portugal, a religião popular das mezinhas e remédios tradicionais em relação à elite cultural, ou mais recentemente a auto-descrição da expressão religiosa daqueles que se consideram a si próprios como existindo nas margens da cultura dominante (Pagãos, Wiccans, Thelemitas, praticantes de Magia Ritual entre outros). É a religião à margem daqueles que escrevem a história, é a religião dos outros.

Referências Bibliográficas
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MALINOWSKI, Bronislaw. Magic, Science and Religion and Other Essays. Nova Iorque: Doubleday Anchor Books, 1948.
MAUSS, Marcel. A General Theory of Magic. Londres: Routledge, 1972. [originalmente 1902]
TYLOR, Edward Burnett. Primitive Culture. Nova Iorque: Cambridge University Press 2010 [originalmente 1871]

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Uma façanha prometéica...




Conta a lenda que Prometeu conseguiu
roubar o fogo do Olimpo para entregá-lo aos mortais.
Dominando o fogo, os homens tornar-se-iam possuidores de uma
prerrogativa divina, o governo da natureza.

A história nos ensina que alguns escultores como Fídias, Policleto e outros, 
procuravam somente mudar os acidentes, volume e  forma do mineral que
iria compor suas esculturas (mármore), pois sabiam que não poderiam modificá-lo substancialmente.
Tinham compreensão que agindo desta maneira conseguiam acondicionar e 
humanizar a natureza, fazendo dela, uma obra de arte.
Da mesma forma, cada qual de nós dentro de nossas possibilidades, buscamos amoldar a natureza que está a nossa volta, em busca de tornar o 
ambiente externo, aprazível e útil.
Isto nos trouxe facilidades e conforto,  más, também, ilusão e dor .
Ilusão e dor, porque nos distanciamos da natureza interna e confundimos com o passar do tempo, realidade, com o que nos parecia real.
Pensamos que mudar a natureza, seria apenas agir sobre os elementos da mesma, e na verdade o que se preconizava da lenda de Prometeu era o governo da natureza interna de cada um.
Somos possuidores da prerrogativa divina de volição sim, mas ainda não conseguimos transformar o caos interior em cosmos, e esta, com certeza, não é uma simples façanha.
Creio ser agora o momento mais que oportuno, para alterarmos o rumo desta grande massa que se mostra crítica, e assim  trazer novas posturas espirituais, políticas e sociais.
Quando vejo as atividades da FTU- Faculdade de Teologia Umbandista, sinto-me imensamente feliz por que a nossa tão vilipendiada religião Afro-brasileira, vem ressurgindo forte, fazendo com que  teoria floresça em prática e assim vamos construindo um novo homem.
O mundo espera estes novos tempos a milhares de anos e somos responsáveis em concretizá-lo para nós mesmos e as civilizações futuras.
Afinal já estamos cansados de ver, cenários diferentes com os mesmos artistas a contracenarem, ora drama, ora comédia.
Estamos cansados de ver, supostos dirigentes espirituais a querer criar kits de doutrina, títulos, cartilhas de condutas e usar de palavras de efeito, com o intuito apenas de sugestionar mentes, levando-as por caminhos que eles próprios nunca trilharam.
Precisamos de  mãos que façam e não somente de bocas que falem.
Precisamos de dirigentes que ofereçam respostas condizentes com a lógica dos dias atuais ou seja, a volta do ser espiritual a unidade.
Nesta época que antecede as eleições, precisamos de políticos que saibam que estão comprometidos com a verdade, com a ética, com a interdependência de  todos os seres, e definitivamente façam-se ferramentas dos desejos da população mais carente.
Enfim a nossa natureza é com certeza sagrada, e devemos prestar atenção à ela com o devido respeito, pois a todos foi dado o direito de iluminação, e assim deveríamos caminhar...

Ygbere
Discípulo de Mestre Arhapiagha - Pai Rivas









   





terça-feira, 25 de outubro de 2011

Estudos do Arquêometro...



É preciso somente pesquisar um pouco da Antigüidade em todas as partes do mundo para encontrar pistas concretas da importância da palavra humana, considerada como reflexo do Verbo Divino.
Sem dúvida, da Índia à China, da Eslávia e da Escandinávia para a velha América, da Síria e da Caldéia ao Egito, a erudição não pode alcançar mais do que os desperdícios supersticiosos e mágicos da ancestral ciência dessa Palavra primordial e de seus alfabetos.
Mas essas mesmas relíquias são as testemunhas desta ciência perdida.
A Igreja síria atribui aos seus alfabetos ancestrais de XXII letras um valor litúrgico, dota cada letra de uma função divina, uma significação hierática.
Essa Universidade religiosa está por isso mais próxima da verdadeira ciência ancestral do que as interpretações mágicas da Antigüidade de decadência, acessíveis aos estudiosos.

Os Alfabetos

Entre os antigos alfabetos anteriores às civilizações anarquistas greco-latinas, classificamos aqueles de 22 letras numerais como equivalente típicos da palavra.
Nós os chamaremos de solares ou solar-lunares, entendendo-se que esses nomes astrais não são mais os signos de correspondência entre o Mundo da Glória e o mundo astral.
E devido ao esquecimento dessa diferença, tomando o efeito pela causa, as conseqüências pelos princípios, que algumas das antigas Universidades caíram no culto das Potências astrais, Anjos e Demônios; no sabeísmo, e inclusive no fetichismo, mais de um século atrás, Depois se precipitou no mais baixo e grosseiro dos materialismos astronômicos.
Classificamos como lunares os alfabetos de 28 letras, como horários zodiacais os de 24 letras, como mensais zodiacais aqueles de 30 letras, como decânicos os de 36 letras, etc, sempre com as ressalvas precedentes e referindo todos esses números aos alfabetos de XXII letras como padrão.
O alfabeto dos primeiros patriarcas é aquele que usamos no Arqueômetro pelas seguintes razões:
É morfológico, quer dizer, mais que geométrico; e, para suas formas rígidas ou flexíveis moldáveis de acordo com a nossa vontade, pode projetar o objeto que define, ou define com ele a sua forma, de acordo com regras que não precisam ser expostas aqui.
Os signos zodiacais e planetários derivam dele, assim como também a construção da esfera ou do planisfério que contém esses signos.
Em conseqüência, a função e o lugar cosmológico de cada letra são determinados por sua semelhança de forma com os signos astrais, cuja posição é determinada astronomicamente.
Como resultado disso, a colocação das letras dessa forma independe da mão humana, assim como sua posição, seus agrupamentos binários, ternários, etc, e todas as suas relações entre elas, em resumo, são autológicas e não antropológicas. Nós acrescentamos ali, sobre o Arqueômetro, os alfabetos siríaco, assírio (chamado de hebraico), samaritano e caldeu. todo eles solares, solar-lunares, de XXII letras equivalentes tanto literal como numéricas.
De modo que, quando a semelhança da letra arqueométrica e do signo zodiacal correspondente deixa a simples vista alguma indecisão, esta será dissipada pela letra análoga dos outros alfabetos e, principalmente, do alfabeto samaritano.

Alfabeto Morfológico dos Primeiros Patriarcas

Os brâmanes fazem um grande mistério com este alfabeto, e este certamente é o protótipo ariano de todos os alfabetos deste gênero, chamados semíticos, e que poderiam ser chamados com mais propriedade de esquemáticos.
O excepcional é que ele é morfológico, é o protótipo das letras védicas e sânscritas, e que certamente é da família da Universidade Brahmânica, tão antiga quanto as Universidades primordiais dos primeiros patriarcas.
O alfabeto se deriva de um ponto, de uma linha, da circunferência, do triângulo eqüilátero e do quadrado; e, mesmo que os brâmanes o chamem de vattan, ele se firma por si mesmo como: "Adão, Eva e Adama", por suas cinco formas, mães da morfologia.

Os signos astrais, zodiacais e planetários derivam, sem dúvida, desse alfabeto, assim como também a maior parte das letras e das cifras mais ou menos alteradas que recebemos de uma fonte pura comum, por diversos rios mais ou menos barrentos.
O resultado disto, repetimos propositalmente que cada letra tem o seu lugar determinado pelo signo zodiacal ou planetário que se deriva dela, a palavra arqueométrica é autológica bem como todos os seus equivalentes.
Esse alfabeto esquemático foi examinado por Moisés no versículo 19, capítulo II de seu Sepher Berashith.
Os termos magia e arcano, usados pelos brâmanes em sua descrição acima, acordam forçosamente no espírito científico cristão dos sinônimos:
Superstição e Ignorância
Superstição: decadência ou superestação de elementos arqueológicos e de fórmulas mais ou menos alteradas, mas que um estudo mais profundo pode às vezes, como é o caso agora, relacionar com um ensinamento prévio, científico e consciente, e não metafísico nem místico.
Ignorância: mais ou menos grande dos fatos, das leis e dos princípios que constituíram este ensinamento primordial. Nunca a magia nem os arcanos têm solicitado mais das inteligências submetidas à vertigem de todo o desconhecido e de todos os abismos que nas épocas de incredulidade, de anarquia e de decadência da Índia, do Egito, da Caldéia, da Pérsia, do Império grego ou do Império romano; e isso, pela mesma necessidade de fé, de princípio e de relevância.
Mas o que salvará a cristandade européia é a retidão, a lealdade que a ciência impõe à consciência e, reciprocamente, trata-se da religião, da arte ou da vida.
A descrição brahmânica anterior revela um tempo de decadência: do Império universal dos patriarcas, que começou na época do Kali-Youg, cerca de quatro mil anos antes da era cristã.
É por isso que tomamos na contramão uma indicação tão precisa, mas também tão inexata, encerrada nessa descrição. Ela afeta as concordâncias zodiacais e planetárias, as vogais acrescentadas, ou melhor, seu conjunto de vogais e de ditongos acrescentados.
Porém essa masorahm, quase pré-histórica, não tinha nada a ver com a origem, mas com o solfejo dos hinos.
Entretanto, o alfabeto das 22 letras, que substituímos por esses signos de solfejo, encerra nele todas as vogais que comportam sua série orgânica e sua numeração cosmológica solar e lunar-solar.

O alfabeto solar das 22 letras.
O número XXII, em letras adâmicas, escreve-se Ka-Ba. Se acrescentamos a esse nome a letra Lá, que significa Potência, obtemos, assim, a Potência das XXII letras.
Essa é a famosa Cabala antiga, da qual os judeus mantiveram somente a superstição babilônica, a decadente, a estéril, a mágica, a Qábalah.
A ciência das XXII Letras, pelo contrário, é uma verdadeira ciência, com todo o rigor e com toda a lealdade deste termo. É a ciência da palavra cosmológica solar, criadora e fecunda até o infinito, como será visto mais adiante.
São Paulo manifesta uma aparente insinuação na "Primeira Epístola aos Coríntios", capítulo I, versículos 7, 8, 9.
São João fala ainda com mais firmeza, no início de seu evangelho, referindo-se ao primeiro termo da Gênese de Moisés: O Princípio.a
Devemos acrescentar ainda que, desde o Yodhisthir, o ponto de partida e de retorno da série cosmológica das letras tem sido transposto, pela Universidade vedo-brahmânica, da letra Y, primeira letra do triângulo de Jesus, para a letra M, primeira letra do triângulo de Maria, da substância chamada Terra de Imanência para a substância chamada das Águas Vivas ou da Emanação.

ALFABETO LUNAR: SIGNOS VÉDICOS DERIVADOS DO PONTO DO AUM

Depois de ter-nos aprofundado durante muitos anos nos ensinamentos orais dos mais sábios pontífices, também rejeitamos a transposição da letra Y para a letra M, baseando-nos em nosso estudo pessoal de seus mistérios e em indicações muito precisas contidas nos Evangelhos e nas Epístolas.

Construção do Arqueômetro em Forma de Duplo Transportador
Semicircular, com Todos os Equivalentes da Palavra,
Correspondentes às Letras Sânscritas e Adâmicas.

Vemos, a seguir, como utilizamos as XXII letras na construção do Arqueômetro. Sobre essas XXII, III dão os centros de cada semicírculo, o diâmetro e a circunferência apresentadas no duplo semicírculo.
No Evangelho encontramos esta chave: "Eu sou o Alef e o Thau", que foi traduzido em grego: "O Alfa e o Ômega".
Essa tradução nos fez passar do mistério do real para o misticismo, sendo a língua grega um idioma soudras, prácrito ou selvagem, e não uma língua arqueométrica.
Nas escrituras assírias, chamadas hebraicas, a letra A se compõe de uma barra transversal e de dois pontos . / .
Nas escrituras morfológicas adâmicas, a barra indica o raio ou o diâmetro, e, por si só, é a letra A; nas mesmas escrituras, os dois pontos indicam um centro desdobrado e a letra S; as letras Th indicam uma circunferência desdobrada em dois semicírculos invertidos, dessa forma:
É por essa razão que, considerando o Alef como duplo diâmetro, seus dois pontos como centros e o Thau como duplo semicírculo, alteramos estas três letras morfológicas na construção da figura que recebe o nome de Zodíaco da Palavra, em forma de duplo transportador.

É a serpente de bronze de Moisés, da qual há alusões no Evangelho. É o caduceu órfico.
Essas três letras adâmicas, A, S, Th, as duas letras assírias, A, Th, significam então a Tríplice Potência divina que constitui o Universo Tipo; o círculo significa o infinito; o centro significa o absoluto; o raio ou diâmetro significam sua manifestação, sua colocação em relação.
Assim, sobre as XXII letras, III se referem à potência constitutiva. As XIX restantes se referem às potências distributivas da harmonia e da organização universal.
Das últimas XIX letras, XII são involutivas e VII são evolutivas, no Mundo da Glória ou do Verbo, e, conseqüentemente, nos Céus astrais. Dito de outra forma, XII letras são zodiacais e VII são planetárias, ou melhor ainda, VI planetárias evolucionam em torno de uma letra solar, que os judeus e gregos ignoravam.
Fica, então, por saber qual o ponto de partida e de retorno da evolução e da involução.
Para esclarecer esse ponto, é suficiente somar as cifras de XIX que dará 1+9=10. Dessa forma, 10 é o equivalente à letra Y, a primeira letra do nome IEVE e de Jesus Verbo: IShO, YPhO.
A seguir, o desenho de nossa construção do Arqueômetro em forma de duplo transportador articulado.
É de notar-se, na parte inferior da figura, a antiga relação entre 7 e 22 = 3,1428571, que se aproxima ao número É, transmitido por Euclides, mas empírico e incerto.
A partir da letra Y, I ou J, de 30° em 30°, a coroa zodiacal da palavra compõe-se das letras: L, M, W, Ph, K, R, E, O, Z, E, T.
As homologias dessas letras, a 180° de distância, quer dizer, nas duas extremidades do diâmetro, são: YR, LHa ou LHe, MÔ, WZ, PhE, K.T, e inversamente RY, EL, OM, ZWou, EPh, TaK.

O resultado disso são duas héxadas de nomes autológicos, nomes radicais ou raízes monossilábicas. IR, Ira, significa em sânscrito palavra, a Divindade da Palavra.
Lá ou Le significam o Rei dos Ciclos, o Mestre de Swarga ou Paraíso; Indra é um do doze Adityas, e também o Mestre interior, a alma, a consciência.
MO, raiz de MÔX e de MÔXA, significa redenção, salvação, liberação das amarras do corpo e das misérias da vida.
WZ, ou também OUZ, encontra-se novamente sob a forma US e significa, na linguagem Veda, o ardor e o brilho luminoso.
PhE, Pa, significa a potência que governa.
KT. A letra K significa a alma; a letra Ta significa a ambrosia, a essência imoral.
Inversão

RY ou RâJ, ser rei, reinar.
El, Al. conter (hebraico). Salvação, glorificação, exaltação.
ÔM, o AÛM.
ZWou, SWa, Bens.
EPh (hebraico). Que cobre e protege, garantia, segurança.
TaK (hebreu), suportar, sustentar; (caldeu), sede, trono.

Para ir acostumando pouco a pouco o arquiteto à leitura desses signos e de seus equivalentes, tomaremos do Zodíaco do Verbo as letras indicadas pelos ângulos dos dois primeiros trígonos, o de Jesus e o de Maria.
Limitamo-nos às letras homólogas, aquelas cujas cores reconstituem o raio branco e que, em conseqüência, formam pares, combinações binárias, das quais cada elemento está situado a 180° de distância um do outro.
A utilidade da coroa dos graus se verificará assim, ao mesmo tempo que o autologia da coroa zodiacal das letras.
Motivamos acima nossa seleção da letra I, Y ou J como pontos de partida e de retorno das séries harmônicas e orgânicas da palavra e de seus equivalentes.
Os equivalentes de I são o raio azul emissivo e remissivo, o número 10, a sonometria e as formas harmônicas que resultam dela, o signo da Virgem, a sabedoria ou a Rainha dos Céus dos anciãos patriarcas, Mercúrio trismegisto aos pés da Virgem, o Rafael trismegisto dos anciãos patriarcas, o Bouddah vedo-brahmânico, etc.
A homóloga dessa letra é R, da qual o leitor encontrará por si mesmo as correspondências sobre o Arqueômetro. Essa combinação binária dará um nome arqueométrico radical, uma raiz monossilábica autológica.
Assim, somente temos que abrir um dicionário sânscrito; adotar uma língua, por exemplo a devanagárica, línguas da Cidade ou da Civilização divina, porque ela tem sido articulada sobre uma língua arqueométrica do templo, a adâmica, da qual escolhemos o alfabeto.
O Verbo vai ainda nos dizer, ele mesmo, se tivemos razão contra os nossos amigos brâmanes ao tomar como ponto de partida da Palavra Criadora a letra I, e não a letra M.
IR, IRâ, significa, em sânscrito, "Palavra, a Divindade da Palavra".
A resposta é divinamente concludente. Sem deixar a base do trígono de Jesus, nós nos reportaremos para a letra O, da qual seus equivalentes são:
O vermelho, as línguas de fogo do Espírito Sagrado; a pomba vermelha; o número 6, gerador sonométrico do acorde perfeito menor que
chamamos de orgânico interno, gerador por igual dos modos de beleza resultantes dessa corda, o signo de Touro, o sinal de Vênus celestial e da Ionah. A combinação binária é dada, a 180° de distância, sobre a base invertida de triângulo de Maria, pela letra M, primeira desse nome e desse triângulo.
Deixaremos o leitor encontrar por si próprio os equivalentes da letra M, e assim abriremos o dicionário sânscrito.
ÔM, ou AÛM dos brâmanes, o AVAM dos Coranistas esotéricos, o AM, o Ave Maria dos primeiros patriarcas e dos cristãos de hoje em dia.
Meditando, com o Arqueômetro na mão, a recombinação do raio branco pelas cores complementares, ou melhor, as homólogas, O e M, e considerando as homólogas dos outros equivalente dessas duas letras, os orientais saberão cientificamente as origens de seu AÛM. Saberão por que esse nome, pronunciado sagrada exatamente na hora certa, arremessa sua vida na outra vida, aquela do triângulo das Águas viventes, em direção à fonte central, enearmônica, da Luz.
Tomaremos agora a letra Ph ou P, aquela da Porta de Deus e dos Anjos. Seus equivalentes são: o raio fotogênico amarelo, o Natal da Glória, dos Céus astrais e do Verbo Encarnado, o número 80, sua sonometria musical, a morfologia de beleza gerada por esta sonometria, Capricórnio e seu anjo, Saturno e seu anjo, etc.
Sua homologia é E ou H, o raio violeta, o número 8, a nota Lá, a sonometria musical e morfológica de 8, a porta inferior do Reino, a porta supraterrestre do homem, a descida e a volta das almas na geração terrestre e na regeneração celeste, o trono do Anjo Gabriel, o anjo da Anunciação e da Ave Maria, o Anjo do signo de Câncer e da Lua.
Sobre a vertical dos solstícios do Mundo da Glória e do mundo astral, o raio branco se reconstitui no centro arqueométrico pela combinação Norte-Sul do amarelo e do violeta. Esta cópula do casal de letras PhE e Pa-H.
Abrindo o dicionário sânscrito, Pa-H significa "a Potência que governa a vida orgânica". Vimos que esta Potência toma posse desse governo universal, quando passa da letra triangular P, ?, para a letra triangular que forma uma bissetriz que aparece no eixo do mundo: ?, Sh.
Essas respostas diretas são incontestáveis, não deixam nada a desejar. Porém, como a razão divina não se preocupa com a razão humana, que quer possuí-la inteiramente na plenitude de sua admiração e de sua adoração, vamos interrogar, então, cada um desses termos binários pelas suas inversões.
YR dará RY; RY, em sânscrito dará RâJ, que significa ser Rei, reinar. Assim, juntando os dois sentidos, o direto e o invertido, obtemos então; o Verbo, o Deus da Palavra, o Rei do Reino eterno.
ÔM dará MÔ em sânscrito, MÔx, MÔxa, que significa "a Redenção, a libertação das amarras do corpo e das misérias da existência física."
Unindo o dois sentidos, o AUM, significa: "a dilatação de alma na vida de adoração o impregna das águas vivas da vida celestial e lhe dá o sabor antecipado da salvação, da redenção, da libertação das amarras do corpo e das misérias da existência física".
PaH ou PhE dará, em hebraico, EPh, a providência que garante, protege e abriga em segurança.
Unindo o dois sentidos, temos: a potência que governa a vida, a protege, a abriga e lhe dá segurança quando essa vida se reintegra nela.
Depois de ter orientado o leitor como deve interrogar o Arqueômetro, sobre a estrela dos solstícios do Verbo nessas letras homólogas, nós nos limitaremos, no que se relaciona à estrela equinocial dos ângulos, a fazer a mesma experiência sobre a linha do horizonte.
Situamo-nos, então, entre os dois ângulos I e M dos trígonos de Jesus e de Maria. Encontraremos aí a letra L, sobre o trígono do Éter divino. Seus equivalentes são o verde-azulado, o número 30, sua sonometria musical e morfológica, o Arcanjo São Miguel, a porta horizontal e ocidental dos Anjos, dos ALaHIM encarregados de dar toda a vida mental, amante ou corporal, seus alimentos e seus elementos, o Equinócio do Outono, o signo da Balança e do juízo, Vênus noturno, etc.
A homologia, no ponto de partida do trígono de Fogo, é a letra E ou H, e tem por equivalente o Cordeiro de Deus, Agnus Dei, o Agni dos vedo-brâmanes, o cordeiro pascal dos judeus, o Amor divino até o sacrifício absoluto do próprio Eu, a Páscoa, a Crucificação do Verbo Encarnado e sua Ressurreição no terceiro dia, a cor vermelho-laranja do sangue, o equinócio da primavera, o número 5, sua sonometria musical e morfológica, o signo do Carneiro e do Cordeiro, Marte noturno ou o Centurião, o Sol sobre o seu trono, etc.
A recombinação do raio branco, entre o verde-azul e o laranja-vermelho, das letras LaH ou LH ou também Le.
O dicionário sânscrito responde: o Rei dos Céus, o Mestre de Swarga, o Senhor do Paraíso, um dos doze Adityas, que o chama Indra, que nós aceitamos como sobrenome de Jesus, e não de outra forma.
Acrescentemos, passando pela teobiologia até a ontobiologia do homem: o Mestre interior da alma, a consciência.
Invertendo, o hebraico dará: EL, AL, significando: a Salvação, a Exaltação, a Glorificação. Juntando os dois sentidos:
"O Mestre interior da alma, o Senhor da consciência humana, pregado na cruz para a sua salvação, exaltado e glorificado na sua primeira glória como Verbo, é o Senhor e Rei do Paraíso."
Coroa Planetária da Palavra

A mesma prova experimental, realizada para a coroa planetária da palavra, daria outras respostas igualmente maravilhosas.
Nós nos limitaremos agora aos exemplos que precedem e que estão de acordo com a lei da homologia e as regras de suas combinações binárias para a leitura dos "Mentras arqueométricos" nesta ordem.

Para dar mais certeza ainda acerca da exatidão autológica do Arqueômetro, tomaremos, sobre cada ângulo dos trígonos de Jesus e de Maria, a combinação binária da letra zodiacal e da planetária do ângulo, e depois a sua inversão.
Não utilizaremos mais a língua sânscrita e dos dicionários em uso para provar mais uma vez a referência ariana do Arqueômetro nas antigas Universidades patriarcais.
No ponto inicial do trígono de Jesus, as duas letras Ya e Tsa dão o termo YA ÇA, que significa emissão da glória e do esplendor.
ÇI é a inversão do termo anterior e significa remissão, repouso, sonho.
Existe, então, para o ângulo do ponto inicial e de retorno das letras, uma perfeita concordância desta combinação binária com aquela que caracterizamos como homológica.
Ph e Sh são duas letras do ângulo Norte, que coincidem em Capricórnio e em Saturno, no ponto do Natal, em nosso 24 de dezembro, à meia-noite, momento em que o Sol começa a subir sobre a Eclíptica, para gerar o ano-novo. Portanto, em sânscrito, PoeSha significa o mês de dezembro-janeiro, confirmando absolutamente tudo o que dissemos sobre a autologia arqueométrica.
Pa quer dizer Potência; Pâ quer dizer Salvador.
Sha significa Paraíso.
SaP é a inversão das letras anteriores, e significa adorar.
Unindo o sentido do Mundo Astronômico ao Mundo da Glória, obtemos: No ponto de partida do primeiro mês astronômico, revela-se a adoração, a Potência do Salvador, o Rei do Paraíso.
Depois de ter visto a interpretação arqueométrica das letras do ângulo correspondente ao Pai, e as do ângulo correspondente ao Filho, interrogaremos o ângulo que corresponde à terceira pessoa da Trindade fundamental.
OG da OGA, que significa a potência que une e reúne, a força que fecunda e multiplica. Em latim, Augere, aumentar.
GO, inversão do precedente, significa (em veddo) o que tende à união, tudo o que é bom. Mas é pelo menos singular no que diz respeito ao seu sentido astronômico do mês de dezembro-janeiro, o termo GO significa também, em sânscrito, o sentido astronômico zodiacal do signo correspondente à letra O: Touro, Boi.
MaKa é um termo formado pelas duas letras zodíaco-planetário do ângulo do trígono inicial de Maria, significa Sacrifício; MaGa, significa felicidade e sacrifício.
KaMa significa o amor, o desejo, a vontade da qual o amor é o princípio.
RD, situado no segundo ângulo do trígono do Maria, forma o nome RaD, que significa dar, concordar.
DR, DaRa, significa o que comporta, o que contém e possui. Porém aqui, um sentido astronômico é dado por DRu que significa o que flui, liquefaz-se e se funde, ou corre rápido na água, concordando com o signo de Peixes.
HB, no ângulo sul do triângulo de Maria, dará o termo HEBE, que verte para dar de beber aos deuses, na mitologia órfica derivada da vedo-bramânica.
Em sânscrito, esse nome se decompõe em Ka, que significa Água etérea ou Ar vaporoso, e Ba que significa uma, o que concorda astronomicamente com Câncer, signo de água e com a correspondência da marcha da Lua e do estado de todos os fluidos e líquido sublunares.
BH, inversão do termo anterior, dará BaHu, o BoHu hebraico, mistura fluida de onde sai BaHuKa, que significa cisterna, que concorda também com o sentido astronômico do signo.

LETRAS MORFOLÓGICAS E ARITMOLÓGICAS

Chamamos zodíaco-solares os alfabetos orgânicos de XXII letras, tais como o siríaco litúrgico, o assírio dos judeus, o samaritano, etc. Escolhemos este gênero de alfabeto porque é cientificamente regular como processo de letras e de números correspondentes, ao que se podem reduzir todo alfabeto empírico ou vulgar. E, nesse tipo alfabético, escolhemos o mais antigo, o adâmico, desconhecido na Europa, mas conservado pelos brâmanes com o nome de Wattan. Nós o adotamos porque ele é exato, não somente como processus de letras e de números, mas também como processo de formas.
É um alfabeto morfológico, ou falante exatamente por suas formas que são geradas de um ponto, da linha, do ângulo, do círculo e do quadrado:

As ciências e as artes relativas à aplicação das formas para os usos da Arquitetura, Estatuária e Ornamentação de todo Gênero encontrarão nestas letras, remetidas por mim a seu ponto exato de correspondência sobre o cosmômetro pantográfico, uma morfologia falante.
Em Arquitetura tão-somente, este novo gênero, este estilo falante, é derivado da correspondência com as cores do pantógrafo.
Esse estilo consiste na utilização do ferro ou de qualquer outro metal e do vidro colorido, utilizando-se o ferro não só como armação mas também como engaste falante dos muros de vidro colorido, como o ouro, a platina e a prata servem de engaste às pedras preciosas.
Veremos mais adiante por que, do alfabeto de XXII letras, extraímos três letras: A, para o número 1, , S, para o número 60, ?
Th, para o número 400, quer dizer, o Raio Gerador, os Pontos e o Sinal de união das zonas.
Restam XIX letras, XII modais e VII diatônicas. Elaborando a tabela das correspondências morfológicas, resultou no seguinte: (1º) entre as XII modais e os XII signos zodiacais, entre as VII Diatônicas e os VII signos planetários.
A comparação mostra que esses signos astrais são derivados dessas letras, e somente este fato se refere a uma época universitária dos patriarcas anterior ao Paganismo, ao Sabeísmo, ao Antropomorfismo e ao Zoomorfismo; É por essa razão que chamamos zodíaco-solares a esses alfabetos de XXII letras e zodíaco-lunares aos alfabetos de XXVIII, XXIX e XXX letras, como o Musnad e o Coreïsh.
Aritmologia dos Alfabetos Cosmológicos Solares
Sendo as XXII letras aritmológicas, tivemos que reconstituir sua aritmologia de acordo com seu ponto de partida e de retorno, com seu módulo emissivo que, sendo a letra Y, é o número 10, com o número 6 como módulo menor. Pelo contrário, no sistema lunar vedo-brahmânico, sendo o ponto de partida e de retorno a letra M, é o número 40, com o número 8 como módulo menor.
É útil ressaltar ao arquiteto que esta aritmologia restabelece toda uma parte perdida das ciências aritméticas, a dos números qualitativos inversamente proporcionais às cifras quantitativas.
O maior destes números é a unidade e todos os outros são as funcionalidades internas dela.
Além do mais, essa aritmologia qualitativa pode ser demonstrada fisicamente com experiências, seja sobre uma corda sonora, seja sobre as placas vibrantes, de acordo com os números e com as formas equivalente das placas.
Revela-se com isso a qualidade musical dos números, enquanto as cifras revelam a quantidade das vibrações físicas.
Esse conhecimento, do qual deriva a música cosmológica das formas ou morfologia, é indispensável para a arquitetura e todas as artes a que ela preside, passando do artista e de sua obra do estado inconsciente ao estado de ciência e da consciência plena e inteira, quer dizer, de cooperação direta com os princípios metrológicos e morfológicos.
A síntese religiosa ou a sabedoria é dessa forma uma aliança divina real e positiva, tanto na ciência como na arte e na vida, da qual a ciência e a arte são seus instrumentos.
Em resumo, como os números constituem também palavras, o arquiteto notará que aquelas que resultam das principais séries numéricas do alfabeto adâmico poderão ser lidas seguindo a numeração decimal sânscrita. Assim, perceberá facilmente a grande importância destas palavras reveladoras.
Uma vez mais, a vontade humana não faz parte desta autologia que nós dará o critério de certeza utilizado nas mais antigas Universidades patriarcais.


Critério de Certeza

Não se acredita em nada sem convicção, sem o poder da vida que apela no Verbo, mesmo com uma irresistível certeza que coloca uma luz no coração, como um calor sagrado.
O Arqueômetro é o revelador dessa Revelação, dá esta certeza e ele apela a essa força da vida que arrastará o arquiteto a uma aliança e a uma colaboração real com o projeto de sua arte.
É por essa razão que chamo a atenção, com muita gravidade, sobre o que vem a seguir:
Olhando a tabela da aritmologia das XXII letras, encontraremos:
1º) Que as letras que têm a chave do número 10 são Y, I ou J.
2º) Que esse número 10 não é o resultado da soma das interioridades do número 4 + 3 + 2 + 1 = 10, como nos outros sistemas decadentes da Antigüidade, mas da Unidade da Trindade e da interioridade dessa Trindade, assim: 3 + 2 + 1 = 6, que significa: sestilidade.
O número 1 corresponde à incognoscível Unidade de Deus, o número 3 corresponde à sua Trindade constituinte de toda a manifestação, a seu Verbo cognoscível. Jesus disse: "Quem me vê, vê ao Pai".
O número 6, que é do Espírito Santo, representa a própria inferioridade de 3 + 2 + 1 = 6.
Esses três números, 1, 3, 6, igualam-se ao 10, sem ser necessário recorrer ao 4 para obter, com a soma, o número 10.
Tudo o que precede pode ser feito experimentalmente sobre a corda sonora.
Com efeito, 1 representa a corda inteira, 2 representa uma oitava nos dois lados, para a direita e para a esquerda a partir do meio da corda. A dualidade não consiste numa potência de oposição, mas de simetria com a própria unidade.
Três sobre a corda sonora dará a quinta a 2/3, mas cada terço isolado dará também essa quinta à oitava; o número 3 é, então, autônomo em 1, como palavra do número 1.
Quatro, pelo contrário, representa a subsimetria de 2, que é ela mesma a potência simétrica de 1.
Quatro dará os ¾ da quarta, sendo a metade geométrica da oitava, porém cada quarto isolado reproduz a oitava, sendo ela mesma a dupla oitava.
Dessa forma, sendo 2 a potência simétrica da unidade, 4 é a potência subsimétrica, ou interferencial. Este número, então, não é autônomo nem diretamente falante, não mais em Sonometria que em Morfologia, como veremos mais adiante.
Em 6, interioridade de 3, o respaldo de sua potência simétrica, que então resulta 3, como 2 é respaldo de 1 na simetria interna.
Em 6, tudo responde com a maior segurança sobre a corda sonora; tudo ali é verbal e autônomo, como em 3, e que essa palavra, que corresponde, em morfologia, ao hexágono, dará a onda sonora, seu acorde menor perfeito, que nós chamamos orgânico interno, com propulsão de 2 quintos nos agudos, quer dizer, uma dupla promulgação do verbal 3.
Continuaremos nas próximas inserções...

domingo, 29 de maio de 2011

O SOM E O NÚMERO

O Som Criador
Todas as Escrituras Sagradas, de Oriente a Ocidente, se referem a um Som inicial, fazedor de Mundos. No Ocidente, a versão bíblica nos diz que “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele” (João, 1:1-3).
Igualmente nas Cosmogonias  orientais, o som (sabda, em sânscrito) é o construtor da Manifestação (Sabda Brahman). No sistema Vedantino, esse Som criador ou Palavra é Vâch. E no Ocidente, os Gregos antigos tinham o designativo Logos para este mesmo conceito. Contudo, Verbo, vocábulo de etimologia latina, é um termo sumamente feliz para significar, precisamente, esse ato da Criação.
Gramaticalmente, Verbo é uma palavra com a qual afirmamos a existência de uma ação, de um estado ou de uma qualidade que atribuímos ao sujeito. É, pois, algo como uma extensão (ativa) do (de um) sujeito. Infere-se, daí, que o sujeito permanece abstrato e imanifestado sem essa ação, que então o representa e torna manifesto. Assim, de fato, o Verbo é a primeira expressão da Manifestação e o que permite que ela se desenvolva.
O Verbo, neste sentido místico, metafísico, veio a antropomorfizar-se e a integrar a tríade de figuras deíficas da Tradição Cristã – as três “Pessoas” da Trindade (ou Unidade trina, de três aspectos) “Pai, Filho e Espírito Santo” – fazendo-se corresponder ao “Filho” ou “Cristo”.
O mesmo sucedera nas outras culturas e, assim, segundo a alegoria do Padma Purâna: “No princípio, Mahâ-Vishnu (o Grande Vishnu), desejoso de criar o mundo, converteu-se em três: criador, conservador e destruidor. A fim de produzir este mundo, o Espírito supremo fez emanar Brahmâ do lado direito do seu corpo; em seguida, a fim de conservar o universo, produziu do seu lado esquerdo o deus Vishnu; e, por fim, para destruir o mundo, do meio do seu corpo produziu o eterno Shiva”.
O equivalente deste Verbo, em sânscrito, é Vâch, que já mencionámos. Vâch é a expressão concreta da Ideação Divina e, por conseguinte, a “Palavra”. Figurativamente é também Sarasvatî, a consorte ou aspecto feminino de Brahmâ, a deusa da Sabedoria e da eloquência. Nesta conformidade, por sua vez, Sarasvatî é idêntica à Sophia dos Gnósticos (é ela, nas diversas acepções, o Logos feminino, a Sabedoria Divina personificada, a Virgem Celestial…). Diz o Mahâbhârata: “Vâch é a celestial Sarasvatî produzida dos céus”, “uma palavra derivada do Brahmâ sem fala”.
No sistema vedantino, o Som que origina, permeia e sustenta todo o Universo desdobra-se em 4 níveis, do mais subtil ao mais grosseiro e material

1º - Parâ ou Parasabda [parâ = transcendente, supremo, e sabda = som], o Som Causal e insonoro; de Parabrahman, além do Númeno e de todos os Númenos;
2º - Pasyantî, o próprio Logos;
3º - Madhyamâ, a luz de Isvara (a luz do Logos); a Duração, a Permanência, a Eternidade;
4º - Vaikharî, a linguagem pronunciada ou articulada; o som material e o Cosmos que conhecemos; o último estado de densificação do Som causal.
O termo grego Lógos reveste o significado de “palavra”, “razão”, e os antigos filósofos usaram-no no sentido de “Razão divina organizadora do Mundo”. O seu equivalente latino é, pois, ratio (razão), oratio, verbum – palavra, linguagem, expressão do pensamento. Por seu turno, os semitas usaram o termo que lhes corresponde na sua respectiva língua – “memra” –, neste caso como referente a Jeová, ou revelador da sua presença. Nos Targums (as versões aramaicas do Velho Testamento), a Memra (’imrah ou ’emrah) figura constantemente como a manifestação do Poder divino, ou como Mensageiro divino em lugar do próprio Deus. Nos Targums da Caldeia, esta Palavra de Jeová representa-o, falando e atuando: “E eles ouviram a Palavra [Memra] de Deus caminhando no Jardim [do Éden] na brisa da tarde e Adão e sua mulher esconderam-se da presença da Palavra [Memra] de Deus, por entre as árvores do Jardim…”. A Memra partilha a natureza de Deus e, ao mesmo tempo, é o seu mensageiro.
S. João aplicou o termo Logos a Cristo, o revelador do Pai, a imagem visível do Deus invisível (posto que a Palavra é a exteriorização do Pensamento – Divino e Universal, como também o individual).
O Som insonoro, o Som potencial
No Princípio, foi o Som que dividiu a Unidade, que produziu o dois ou dualidade. E foi a dualidade que deu início à Consciência reflexa ou de relação.
A consciência (assim entendida) só existe no mundo fenomênico, porquanto a consciência é uma efusão produzida por fricção. O Um é designado “Nada” ou “Parâ” porque, não tendo onde se refletir (onde se confrontar), não é essa consciência – de modo inapreensível para nós, transcende-a, e simplesmente É, sem apêndices nem atributos .
Todo o Universo manifestado e todos os fenômenos são cadeias e “arranjos peculiares” de vibrações. E é o Universo que é Consciência – consciência precisamente originada pela efusão, pelo atrito, pela estimulação da infinidade de vibrações. Tais vibrações são os Filhos monádicos desse Um, seus desdobramentos incessantes… o Um desdobra-se nos múltiplos.
A Sinfonia do Universo
O termo ‘logos’ igualmente “tomou o seu lugar na linguagem musical grega, referindo a medida da cítara ou da lira (i.e., os trastos ou travessões) onde a corda deveria ser pisada de modo a produzir uma nota definida". Este parece-nos um facto muito sugestivo. Os sons puros (as 7 notas musicais, ou o que elas representam), que integram a escala diatónica, são, na sua matriz, contenções de arquétipos que no curso da Manifestação se desprendem e combinam infinitamente. E esse Grande Septenário harmónico (matemático) é o que sustenta e viabiliza a Manifestação dos mundos, a Lei do Ritmo operando por detrás.
É dito que a escala musical hindu terá evoluído de 3 notas apenas para a escala de 7. Essas 3 notas detinham a chave da vocalização do AUM, sendo que este Mantra, o mais sagrado de todos os mantras, sintetiza e representa o poder da Trindade. As três letras do AUM correspondem ao “Fogo Triplo”, respectivamente Agni ou Abhimânim (Fogo ígneo) – ‘A’; Varuna ou Vishnu (Fogo aquoso, Águas do Espaço ou Akasha) – ‘U’; Marut (Fogo aéreo, Espírito de Vida) – ‘M’.
Sendo o AUM o emblema da Trindade na Unidade, as 3 letras de que se compõe representam ainda os três aspectos do Ser Supremo – Brahman -, ou seja, o de Criador (Brahmâ – ‘A’), o de Conservador (Vishnu – ‘U’), e o de Destruidor/Renovador (Shiva – ‘M’). E assim, também, naturalmente, Âtma, Buddhi e Manas.
Depois, as três evoluíram para sete, Sa – Ra – Ga – Ma – Pa – Dha – Na (ou Ni-sa), a escala sendo dividida em 22 intervalos ou srutis. O sruti, ou intervalo micro-tonal, é a mais pequena diferença tonal entre dois sons que pode ser distinguida pelo ouvido humano.
Cada uma das 7 notas musicais representa cada um dos 7 Rishis (os 7 Filhos Nascidos da Mente de Brahmâ) que transmitiram o conhecimento sagrado à Humanidade. Diz a lenda que são os animadores (os espíritos) das 7 estrelas da Ursa Maior, os quais, descendo à terra em forma de cisnes, ancoraram no lago Mânasa-Sarovara (nos Himalaias) e aí comunicaram o conteúdo dos Vedas aos mais merecedores entre os humanos. As notas musicais, no seu substracto, são pois, cada uma delas, uma potência – um som – subtil e sintético que, desdobrando-se infinitamente, e concretizando-se em linguagem, constitui os Vedas e todo o escol de conhecimento superior e sagrado.
A Revelação – As Escrituras Sagradas
Tomemos, de novo, o termo Sruti (literalmente em sânscrito, “o que é ouvido”). Sruti é um cânon de textos sagrados hindus. Não data de um período estrito mas atravessa a história inteira do Hinduísmo, começando com alguns dos textos sagrados mais antigos conhecidos, estendendo-se aos mais recentes Upanishads. É dito que o Sruti não tem autor humano; que é um registo divino dos “sons cósmicos da Verdade”, ouvidos pelos santos Rishis em profunda meditação.
Considera-se que o Sruti é composto pelos 4 Vedas: o Rig-Veda (o Cântico da Sabedoria), o mais antigo dos Vedas e o mais importante conjuntamente com o Sâma-Veda (dele se diz que surgiu da boca do próprio Brahmâ); o Yajur-Veda (Sabedoria do Sacrifício), o segundo em antiguidade; o Sâma-Veda (a Escritura ou Shâstra da Paz), o Veda do canto (no mais alto sentido da potência da música); e o mais recente, o Atharva-Veda (Sabedoria dos Mantrams ou Fórmulas Mágicas). Segundo reza o Ocultismo, os Vedas foram ensinados oralmente pelo espaço de milhares de anos e, só depois, copiados nas margens do lago Mânasa-Sarovara.
O Som e o Número
O Som e o Número caminham enlaçados. Com efeito, os Antigos postulavam que o Universo fora feito segundo os preceitos de razão e medida. Acreditavam que uma Trindade Divina fora a matriz e o motor que criara o Mundo. Essa Trindade, pressuposto comum e fundamental de todas ou quase as religiões, era mais precisamente uma Unidade-trina, a Unidade sob três aspectos distintos – criação/expansão; sustentação/equilíbrio; destruição/interiorização/recolhimento. Naturalmente, essa mesma matriz estava simbolizada na figura geométrica do triângulo.
Para os antigos hindus, a matriz trinitária original cunhou e impregna tudo o que existe, sendo o seu padrão diretor. Para os gregos, e designadamente para Platão, três eram os triângulos que estariam na base constitutiva dos arquétipos dos 4 Elementos, sendo estes quatro os tijolos arquitetônicos de que fez uso o Grande Arqueu (o Demiurgo) na Obra da Criação.
É sabido, mas mal compreendido, que na Antiguidade todos estes conhecimentos matemáticos e muitos outros se regiam pela regra do segredo. Refira-se que a Aritmética, a Geometria, a Música e a Astronomia eram precisamente as ciências obrigatórias dos pitagóricos (designadas Quadrivium) e consideradas os “quatro últimos Caminhos das Sabedoria”. Na verdade, a regra do segredo tinha como fundamento a percepção de que a Matemática sagrada veiculava um imenso Poder, revelando as Leis Ocultas da Natureza e da Psique individual e colectiva, sendo por isso imperativo preservá-la da posse dos profanos…
 É assim que as Cidades-Estado da Caldeia tiveram à frente dos seus governos Reis-Sacerdotes (ou Reis-Magos) detentores desses arcanos, bem como a linhagem “divina” dos primitivos faraós os utilizou para fundar o seu reino.
Muitos desses conhecimentos dos antigos, com efeito, parecem ter sido verdadeiramente extraordinários. É o caso do Schem Hamaphoras. Schem era uma fórmula de poder que insuflava vida ou o “pleroma”. Jesus foi acusado pelos judeus de ter roubado este nome do Templo, valendo-se de artes mágicas, e de empregá-lo para a produção dos seus milagres.
Assim, o Tratado da Sinceridade do Rabino Moisés Takko (séc. XIII) diz:
 “… E todos estes magos do Egipto, que haviam criado esses seres [‘artificiais’], estudavam junto dos dáimones [génios]  ou por meio de uma espécie de arte mágica, a Ordem das Esferas… e criavam o que queriam. Pois bem, os Rabinos, que deles aprenderam e conheciam os Mistérios, podiam criar um homem ou um bezerro: pegavam em terra… pronunciavam sobre ela o ‘Schem’, e o ser era criado.
Já no século X, corre a lenda da criação de homúnculos com recurso à Séphèr Iétzirah mediante “grandezas geométricas” expressas em letras retiradas dos Schem Hamaphoras (os nomes divinos do triângulo sefirótico.
 Homúnculos são pequenos seres, réplicas ou projeções da anatomia e psiquismo humanos, criados pelo homem por meio de métodos espagíricos. Estes seres receberam também o nome de Golem, herdado das lendas cabalísticas. Golem é uma derivação da palavra “gelem”, que significa “matéria prima”. Na Bíblia, é empreque no sentido de “embrião”, “pré-homem”, “substância incompleta”. O salmo 139:16 usa a palavra “gal’mi”, significando “a minha substância ainda informe”.
“Da fase babilónica data, aliás, a obra “Schim Koma” (Medida da estatura de Deus, tratando sobre medidas, formas precisas do corpo e do rosto divinos…), mas o livro mais notável desta época é o Séphèr Iétzirah (Livro da Criação), escrito em hebraico (na Síria, provavelmente) cerca do século VI ou VII. (…) A influência gnóstica e neopitagórica é patente: Deus criou o mundo por intermédio das dez Potências ou Verbos chamadas Séphiroths e as vinte e duas letras do alfabeto hebraico”.
A imitação da obra de Deus – a Criação
O poder do uso da Palavra é um fato incontornável. A Palavra (o som) sabiamente direcionada (alicerçada e dirigida pelo Conhecimento Oculto) é um extraordinário veículo de poder, inclusive o poder de animação, tanto a seres naturais quanto a seres artificiais.
Segundo a crença judaica, do mesmo modo que Deus criou o universo e o homem a partir do substrato (da alma) das vinte e duas letras hebraicas, os homens podem replicar o ato criador se conhecerem as combinações adequadas. Nas palavras do filósofo e cabalista Augustín Izquierdo, citadas na obra O Ritmo do Tempo, de Patrick Mimran: “… ao princípio, a criação do Golem parece que apenas tinha um caráter ritualista: acontecia como a coroação do estudo da Séphèr Iétzirah empreendido por um grupo de pessoas. O ser artificial assim criado não tinha nenhum objetivo prático. A sua realização destinava-se a pôr em evidência o poder das palavras sagradas; o ser criado, a partir do barro, era imediatamente destruído.
Só mais tarde surge o Golem como um ser independente, a que se atribuem funções utilitárias, e que pode representar um perigo para os que o rodeiam. Da lenda à ficção literária, designadamente ao Romantismo alemão, foi um passo…”.
Lê-se na Doutrina Secreta, de Helena Blavatsky: “Os homúnculos de Paracelso são um facto na Alquimia e, muito provavelmente, sê-lo-ão na Química”. E, em Ísis sem Véu, escreveu a mesma autora: “Existem relatos circunstanciados da produção de alguns homúnculos, entre outros os do famoso conde Kueffstein, camareiro da imperatriz Maria Tereza, da Áustria. Este conde e o abade Geloni fecharam-se num laboratório de convento na Calábria e, durante cinco semanas, dia e noite, estiveram trabalhando com fornos acesos. Ao fim desse tempo, conseguiram criar nada menos que dez homúnculos. O modus operandi é descrito por Paracelso no seu tratado De Natura Rerum.”
O Espaço Vivente
Efetivamente, a Natureza é o grande Laboratório da Vida manifestada. Nele fervilha a Consciência. O homem é um aprendiz de feiticeiro, mesmo nos seus mais ínfimos empreendimentos. Tateamos no aparente invisível para sorvermos, gota a gota, algo da grande Sabedoria, porque sabemos que ela ali se encontra. A evolução é uma imitação progressiva de Deus.
Nesse aparente vazio, o Akasha, a Alma Universal, encontramos o alimento espiritual que dá o ser a tudo o que é – do mais ínfimo grão de pó ao deva mais grandioso, da pequena flor campestre ao sábio mais elevado, das estrelas às galáxias… Nele estão ou rudimentos (os princípios) de todas as coisas que são, que foram e que hão-de vir. Nele estão os números de tudo o que é. Como dizia Platão, no Timeu, “a Alma do Mundo é a matriz a partir da qual a composição de todas as proporções matemáticas é repercutida no Mundo Sensível por ação da inefável providência de Deus”.
Esta mesma realidade os Pitagóricos reverenciaram e simbolizaram na figura fundamental da Tetraktys. “O diagrama de pontos da Tetraktis foi para os membros da Confraria Pitagórica um símbolo esotérico tão importante como o pentagrama, que era a sua ‘contra-senha’ secreta. Evocando a Tetraktis, os membros prestavam juramento solene de não divulgar nunca os seus segredos matemáticos. Jâmblico reproduziu a fórmula do juramento: ‘Não, juro por Aquele que transmitiu a Tetraktys à nossa alma, em Quem se encontra a fonte e a raiz da eterna Natureza’. E estes são os termos da oração pitagórica dirigida à Tetraktys: ‘Abençoa-nos, Número Divino, tu que engendraste os deuses e os homens! Oh, santa, santa Tetraktys, tu que encerras a raiz e a fonte do fluxo eterno da criação! Pois o número divino se inicia pela unidade pura e profunda, e alcança em seguida o Quatro sagrado; depois engendra a mãe de tudo, que une tudo, o primogênito, o que não se desvia jamais, que não se cansa jamais, o Dez sagrado que detém a chave de todas as coisas.” 
“Os resultados do estudo dos intervalos musicais foram as matemáticas pitagóricas, especialmente a teoria das proporções, posteriormente desenvolvida por Platão. Com efeito, os gregos não comparavam as freqüências vibratórias das cordas, que eles não haviam medido, e sim os seus comprimentos, o que equivalia ao mesmo (freqüências e comprimentos são inversamente proporcionais); a teoria resultante dos intervalos musicais e das suas proporções podia depois transferir-se diretamente ao estudo de proporções entre quaisquer magnitudes lineares. Voltamos a encontrar aqui a Tetraktys e uma das razões da sua importância no fato de que a progressão 1, 2, 3, 4 traduz as principais relações dos intervalos da gama diatónica: o de 4 a 2 ou de 2 a 1 a oitava, o de 3 a 2 a quinta, e a presença do número 5 = 3 + 2 ou Pêntada, sublinhando a importância da quinta da qual deriva a gama diatónica pitagórica. Cabe, pois, dizer, com Delatte que: ‘A Tetraktys é o conjunto dos quatro números cujas relações representam os acordes musicais essenciais’”(18).
Por outro lado, a Tetraktys encontra uma curiosa equivalência com o esquema da Árvore da Vida (o Ootz Chim hebraico) ou Árvore das dez Sephiroth (de sephira = número) uma vez que esta evoca o desdobramento da Década, do Um do Absoluto ao 10 da Manifestação. Segundo o já referido Séphèr Iétzirah (Livro da Criação): “Dez são os números saídos do Nada, e não o número nove; dez e não o número onze. Compreende esta grande sabedoria, entende este conhecimento, investiga-o, reflete sobre ele, torna-o evidente, e reconduz o Criador ao seu Trono”.
Assim se desdobra em Quatro Planos ou Mundos a Trindade ou Tríade superior.
A Tetraktys, compreende, ainda, três triângulos menores, simbolizando os níveis do Ser, 1+2, 1+3, 1+4, nestas cifras se contendo a chave do triângulo da Criação, o famoso Triângulo Perfeito (ou Triângulo Áureo), dito “de Pitágoras”, de proporção 3, 4, 5. Contudo, os Egipcios, já anteriormente o haviam eleito como o triângulo da perfeição. Conta-nos Plutarco, na sua De Iside et Osiride: … os Egípcios representavam a natureza do Todo Universal como o mais belo triângulo. (…) Esse triângulo apresenta a parte vertical, como tendo três comprimentos, uma parte de base de quatro comprimentos e uma hipotenusa de cinco comprimentos (…). Poderá comparar-se a linha vertical ao elemento masculino, a linha de base ao feminino, e a hipotenusa ao que deles nasceu, e assim, ter-se Osíris como a origem, Ísis como a concepção, e Hórus como o nascimento [ou o Filho]”. Com efeito, também para os Pitagóricos, os números 3, 4 e 5 – cuja soma é 12 (o número das Hierarquias Criadoras) – teriam presidido à formação do Cosmos e da Criação.
Newton, um pontífice da Sabedoria dos Antigos
A despeito do seu grande e incontestável valor, Isaac Newton pouco mais fez do que (meritoriamente, sublinhamos) ressuscitar e interpretar a Ciência dos Antigos. Todo o seu trabalho foi fundado no estudo minucioso do legado daqueles sábios. No Manuscrito de Portsmouth, conservado pela Royal Society de Londres, diz ele: “‘Que a matéria consiste de átomos era uma muito antiga crença. Este era o ensinamento de uma multidão de filósofos que precederam Aristóteles, nomeadamente Epicuro, Demócrito, Ecfanto, Empédocles, Xenócrates, Asclépidos, Diodoro, Metrodoro de Quios, Pitágoras e, previamente a estes, Moschus o Fenício, de quem Estrabão declara ser mais velho do que a guerra de Tróia. Pelo que eu penso do mesmo modo, fundado nessa mística filosofia que chegou aos gregos do Egipto e da Fenícia, porquanto átomos são por vezes designados mónadas, pelos místicos. Porque os mistérios dos números. bem como do restante dos hieroglifos se inserem na mística filosofia” Newton prossegue dizendo que são estas ‘sementes imutáveis’ que asseguram que ‘as espécies e os objectos estejam conservados na perpetuidade’.
(…) Por que proporção a gravidade decresce por distanciamento dos Planetas, os antigos não deixaram suficientes indicações. Contudo, a ela parecem ter aludido através da música das esferas celestes, designadamente o Sol mais os seis Planetas, Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, relacionando-a com Apolo e a sua Lira de sete cordas e medindo o intervalo das esferas em função do intervalo dos tons musicais. Assim, eles alegavam que ‘sete tons’ foram trazidos à existência, a cujo conjunto chamaram o diapasão da harmonia, e que Saturno foi movido pelo som [phthong] Dório, ou seja, o grave (-pesaroso), e os restantes planetas por mais agudos [como Plínio relata, de acordo com Pitágoras], e que o Sol vibra, faz soar, as cordas.
Por esta razão, Macróbio diz: ‘a Lira de sete cordas de Apolo provê o entendimento dos movimentos de todas as esferas celestes acima das quais a Natureza colocou o Sol como regente’. E Proclo, [no seu Memorandum] sobre o Timeu de Platão: ‘… O número sete, eles dedicaram a Apolo como aquele que abarca todas as sinfonias e, assim, eles costumavam chamá-lo Deus o Hebdoma’getes, o que significava Príncipe do número Sete. Semelhantemente, na Preparação do Evangelho, de Eusébio, o Sol é chamado pelo oráculo de Apolo, o rei da harmonia dos sete sons. Mas, por meio deste símbolo, eles indicavam que o Sol, pela sua própria força de tensão, age sobre os Planetas naquela proporção harmónica das distâncias, segundo a qual a força de tensão atua sobre cordas de diferentes comprimentos, ou seja, inversamente na razão dobrada das distâncias. Pois a força pela qual uma mesma tensão atua numa mesma corda de diferentes comprimentos é a recíproca do quadrado do comprimento da corda. (…) já que Pitágoras, como Macróbio admite, esticou intestinos de carneiros e tendões de bois, neles pendurando variados pesos e, a partir daqui, estabeleceu as proporções da Celeste Harmonia”. De forma muito clara, num testemunho de Conduitt, seu amigo e biógrafo, Newton confirma a sua plena rendição à sabedoria de Pitágoras e revela, inequivocamente, a fonte das suas inspirações: “‘… e eu pensei que a música das esferas de Pitágoras tinha a intenção de tipificar a gravidade e que, assim como ele faz os sons e as notas dependerem da medida das cordas, assim a gravidade depende da densidade da matéria…’”.
Janelas para o infinito…
Também a Ciência moderna tende a regressar ao Pitagorismo. Com efeito, em múltiplas áreas vem ela debruçando-se, com nova atenção e respeito, para elementos e fatos, legados pelos Antigos, que antes desprezava como sendo parte de uma mística inconsistente, própria da “infância” da humanidade.
No âmbito da Geometria, uma exploração recém encetada são os fractais, complexos modelos gráficos “com implicações inestimáveis em domínios tão diversos como a compressão de imagens, a arte visual, a música, até aplicações financeiras…”. Tais modelos, freqüentemente de uma estética belíssima, constituem poderosas janelas que nos revelam um mundo de possibilidades arrebatadoras, orientando-nos para universos insondados cujas fronteiras, à semelhança das velhas mandalas, apenas místicos e ioguis haviam logrado transpor e contemplar. Para o vulgo, é hoje mais acessível perspectivar a coerência de um Universo em que o Infinitamente Pequeno é réplica perfeita do Infinitamente Grande… e verificar o alcance do velho axioma “Como Em cima, assim Abaixo”.
Na atualidade, deleitamo-nos com estes maravilhosos fractais, que nos acenam com sugestivas promessas… No entanto, os seus protótipos pitagóricos e platónicos ainda permanecem como os mais reveladores, designadamente o assim chamado “Triângulo Sublime”, tão caro a Pitágoras, de que aqui nos socorremos. Neste triângulo, o fator 1,618 – dito “Número de Ouro” ou “Divina Proporção” – é o elemento diretor (Ver Diagrama 4).
O Triângulo Isósceles dito “Sublime” e a sua espiral logarítmica de pulsação radial 1,618. 
Entre os primitivos hindus, figurativamente, o 3 [através de Brahmâ, o Construtor] projecta-se nas 4 direcções do Espaço [plasmando o Septenário cósmico] e dá origem às 12 Hierarquias Criadoras.
Na figura podemos apreciar como, tendo como ponto de partida um minúsculo triângulo, desabrocham e se foram construindo mais triângulos, idênticos ao primeiro – mantendo sempre a “razão áurea” entre os seus lados (já que a base do primeiro se converte na base do seguinte, e assim sucessivamente…). Podemos entrever a espiral – que cresce e se delineia, por entre os vértices dos triângulos sucessivos. Esta é a famosa espiral de Fibonacci, que se verifica ser uma chave ordenadora e multiconstrutora na arquitectura da Natureza. Sobre ela, já nos detivemos em anteriores ocasiões em artigos de edições anteriores desta Revista.
Este triângulo é o instrumento-modular que integra o “Pentagrama Estrelado” ou Estrela de 5 Pontas pitagórica. Por outro lado, a sua base é o lado de um decágono (D) inscrito num círculo que, por seu turno, tem por raio (E) o seu lado maior, o que compreende e revela, de novo, a “Divina Proporção”, E/D=1,618. Para os pitagóricos, o “Número de Ouro” rege a chamada “Harmonia das Esferas”, em cujos fundamentos a ciência renascentista, em especial Johannes Kepler, ancorou, reabilitando a antiga ciência da mecânica celeste.
O Triângulo Sublime é o símbolo da Evolução humana – do homem para Deus, do homem rumo à sua condição divina.
A espiral
A espiral assenta numa estrutura trinitária (no início da Manifestação, o primeiro impulso terá gerado o triângulo). Na alegoria do Rig-Veda, Vishnu é descrito cruzando aos saltos as sete regiões do Universo em três passadas [configurando o primeiro impulso trinitário] e permeando todas as coisas com a essência dos seus raios de luz.
Vishnu (o símbolo do curso da Manifestação) é a personificação da qualidade Sattva (Sattva tem numerosas acepções: estabilidade, duração, equilíbrio, ritmo…). Nesta conformidade, outra imagem iconográfica representa-o descansando sobre a serpente Ananta (“sem fim”), símbolo da eternidade. Deve-se notar que a serpente é também a espiral – do tempo e do espaço infinitos.
No que a este último concerne, a Física admite e reconhece, hoje, a propriedade ondulatória do espaço. Assim, o próprio som se propaga em sentido espiralado: a sua viagem é “ondulatória”. De novo, Vishnu [a Voz do Pai, Brahmâ] é representado exibindo numa das mãos uma concha; a concha – a espiral – que contém a potência (e esquema virtual) do Manvantara.
Diz-se em A Doutrina Secreta que “o Akasha é o Espaço Universal em que está imanente a Ideação eterna (…) e do qual procede o Logos, ou seja, o ‘Verbo’ ou ‘linguagem’ no seu sentido místico”. O Akasha é o upadhi (i.e., o veículo, a forma externa, manifestada) da Mente Divina e é, sob outro aspecto, Kundalinî – assim, de novo, a imagem serpentina…
Curiosa, no mínimo sugestiva, é a própria constituição do sistema auditivo. No ouvido interno, a cóclea é uma espiral (muito semlhante a uma concha de caracol ou do náutilo) constituída por um tubo ósseo enrolado sobre si próprio. Este tubo é, por sua vez, estrutural e funcionalmente trino (tri-seccionado e trifásico). A própria anatomia externa do aparelho auditivo humano conforma uma estrutura espiralada, o pavilhão (as orelhas).
No Universo físico, as formas – quaisquer formas – não são aleatórias. A sua configuração obedece a padrões internos de ressonância (relembremos que o Akasha é o continente dos arquétipos de todas as coisas e de todas as possibilidades). A Geometria não é mais do que a forma visível do alinhamento de números… No incomensurável universo dos números, cada função, cada propósito, na Natureza, configura uma série restrita, específica, de números. Um ser organizado (uma pedra, um animal, um homem…) é, pois, um aglomerado vastíssimo de complexos desses números. Na imensa variedade de espécies animais existentes, por muito que aparentemente divirjam entre si, não é decerto fortuito que (por exemplo) praticamente todos tenham os olhos, o nariz, a boca, os ouvidos, na mesma disposição relativa; a cabeça num extremo do corpo; os órgãos respiratórios, de nutrição, de reprodução, dispostos equivalentemente, etc.. Na vida orgânica, tudo o que tenha um ou mais elos comuns, propósitos similares, percursos evolutivos partilhados, parece ser regido por definidas leis estruturantes (morfológicas, psicológicas, funcionais, etc) igualmente comuns. Entretanto, a dissemelhança existe – é absolutamente necessária – neste universo em que os contrastes geram consciência; mas estas assimetrias vivem dentro de grandes Simetrias, cujo acorde, lenta mas inexoravelmente, as conduz, as afina, as eleva a patamares superiores de consciência comungante, a novas identidades comuns. O ritmo está para o tempo assim como a simetria está para o espaço, e nesta grande Sinfonia Cósmica tudo converge para o UM.
Passo por passo, as Grandes Simetrias percorrem um caminho de progressiva descristalização, porquanto, acreditamos, a verdadeira Harmonia não tem forma…
Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural