terça-feira, 6 de novembro de 2012

Texto passado no mestrado para análise e acho interessante compartilhar com os amigos.



REMÉDIO E VENENO[1]
Apontamentos sobre o poder curativo e destrutivo da religião

por Paulo Suess

Phármakon significa na língua de Sócrates “remédio” e “veneno”. Esta coincidência reflete, certamente, uma experiência profunda sobre a ambivalência dos objetos dos nossos desejos e a proximidade entre nossas virtudes e vícios. A experiência das religiões mostra, que elas também são um phármakon que pode favorecer e custar a vida. As religiões podem ser gratuitas, mas podem tornar-se também “religião do mercado” e manipuladoras do sagrado; podem ser um referencial para invocar a paz e para praticar a violência.
Compreensão e respeito entre culturas e religiões não são atitudes inatas. São adquiridas no decorrer de processos educativos, que pretendem transformar o olhar etnocêntrico – o etnocentrismo feliz - num olhar crítico que admite um ponto morto na própria maneira de ver o mundo. Na cegueira da própria casa, individual ou coletiva, pode-se esconder a barbárie como parceira da razão religiosa e como possibilidade do próprio projeto de vida.
Depois de umas rápidas pinceladas sobre a gênese do campo religioso (I) pretendo refletir sobre algumas encruzilhadas entre cristianismo e psicologia, sobre ambivalências e horizontes que podem, neste vai e vem entre dois saberes, maximizar o efeito “remédio” do cristianismo e minimizar o efeito “veneno”. Vejo três eixos de um interesse recíproco entre psicologia e religião: o princípio da realidade (II), a contribuição para as pessoas se tornarem adultas (III) e as ambivalências e perspectivas frente à “libertação do mal” (IV).

I. Introdução: um itinerário

No início das religiões está um narcisismo primário” das “religiões primeiras”. Amalgamadas com a natureza, com o campo sócio-político e cultural, sem diferenciação entre o campo das “crenças” e o campo “científico”, a religião, com certas fantasias de onipotência, tinha uma função determinante, em última instância. Até a emancipação da ciência do campo religioso e um tratamento leigo e democrático das religiões, portanto, sem hegemonia de uma ou outra religião ou crença, foi um longo caminho com voltas entre um mundo desencantado (Max Weber) e reencantado.

1) O discernimento mosaico

As “religiões primeiras” da humanidade eram religiões orais com cultos aos espíritos-ancestrais ou às divindades. Em algum momento na antiguidade, entre 800 e 200 a.C., e em vários lugares diferentes, se produziu uma ruptura nestas religiões. É o tempo dos pensadores ambulantes na China, dos ascetas na Índia e dos filósofos na Grécia. Na Palestina, surgiram os profetas Isaías, Jeremias e o Deutero-Isaías. Karl Jaspers cunhou para esta época a expressão “tempo axial” (JASPERS, 97ss). Este “tempo axial” forjou “religiões segundas” que até hoje coexistem com as “religiões primeiras”. As “religiões segundas” são religiões da escrita e do livro sagrado, religiões monoteístas que se agradecem, como o judeu-cristianismo, a um ato de fundação e revelação.
Estas novas religiões se emanciparam das forças da natureza, da pertença à tribo, ao Estado e à cultura local. E esta “emancipação” permitiu que as religiões ultrapassaram as fronteiras de um país e se tornaram missionárias até os confins do mundo. O ponto central deste surgimento das “religiões segundas” é o discernimento entre o Deus verdadeiro e os deuses falsos, entre a “verdadeira religião” e a “falsa religião”, entre ortodoxia e heresia, entre verdade e mentira. O ponto central desta transformação, que Jan Assmann chama o “discernimento mosaico” (Assmann, p. 11-18), é o discernimento entre o Deus verdadeiro e os deuses falsos, entre a verdadeira e a falsa religião, entre ortodoxia e heresia, entre fé e magia, entre verdade e mentira.
Este “discernimento mosaico” encontra-se com toda exatidão no primeiro e segundo mandamento (“Adorarás o Senhor teu Deus e o servirás”, e “Não pronunciarás em vão o nome do Senhor teu Deus”), na história do Bezerro de Ouro (Ex 32), no divórcio dos casamentos mistos (Esdras, 9) e na purificação do povo de “todo elemento estrangeiro” depois da volta da Babilônia (Neemias 13,30), na destruição dos templos pagãos e das sinagogas dos judeus.
O “discernimento mosaico” não admite mais “a verdade” como algo complementar ao lado de outras verdades. As verdades dos Outros não são simplesmente “outras verdades”. São idolatrias e mentiras. As “religiões segundas” conhecem pagãos, hereges, seitas, idolatria e magia para denunciar a não-verdade. O “discernimento mosaico”, uma herança fortemente presente no cristianismo, é a afirmação de uma verdade exclusiva. A Revelação, na tradição judeu-cristã, não é algo culturalmente adquirido, mas algo comunicado pelo próprio Deus e, no cristianismo, confirmado pelo próprio Filho de Deus que se encarnou na história. O cristianismo, que articula através da encarnação, a transcendência com a imanência, tem a noção mais ampla de universalidade.
Depois da experiência de guerras sangrentas por causa da verdade absoluta nas religiões, a modernidade, com seus eixos de esclarecimento, individualização e secularização produziu uma segunda separação entre cultura, política e religião, uma neutralidade e indiferença positiva e oficial, com a separação entre Igrejas, Credos e Estado, diante das afirmações de verdades religiosas. Agora, os mitos das respectivas religiões e suas práticas rituais e/ou sacramentais não pertencem mais a uma esfera do macro-culturalmente correto. Têm a sua vida própria entre exotismo e contestação, entre alienação e engajamento. O cultural e religiosamente correto, no interior de um determinado Estado, é o múltiplo e a diversidade, que afirmam a sua capacidade de uma convivência democrática.

2) Mundo da ciência e secularização

A emancipação da ciência do campo religioso aconteceu, muitas vezes, contra as religiões institucionalizadas. Esta trajetória tem dimensões cósmicas (Galileu, Copérnico), geográficas (Vasco da Gama, Colombo), biológicas (Darwin e a microbiologia de hoje), sócio-políticas (Marx) e psicológicas (Freud). Depois de uma fase de afirmação da identidade específica não só da religião, mas também das disciplinas e dos campos que dela se emanciparam, assiste-se hoje em vários cenários científicos – na bioética e na física quântica, por exemplo – a uma nova confraternização entre religião e ciência, sem constituir propriamente uma regressão ao status quo anterior. As chamadas ciências exatas já não estão mais tão convencidas de sua exatidão. As “exatas” que procuram a sua verdade em partículas e partes de células e unidades temporais cada vez menores, e o fiel que procura a sua verdade na abertura contemplativa ao todo, compreendem as suas aproximações à realidade cada vez mais complementares, semelhante à complementaridade entre exatidão e relevância. Pelo olhar simples e a medição das partículas, o observador muda o microsistema que ele observa. Quem exagera na exatidão perde, pela especialização e particularização, o contexto sócio-cultural que é importante para a compreensão da relevância para a estrutura holística da realidade (cf. Dürr). Entre a experiência subjetiva da religião e a experiência objetiva da ciência acontece um reencontro adulto.
Neste mundo, onde “nada existe” (Dürr), como dizem os novos físicos, mas tudo acontece num entremeio de uma relação infinita, são necessárias as contribuições recíprocas entre religião e ciência, entre exatidão e relevância, para banir o medo do vazio (horror vacui) diante de um espaço vazio que se abre cada vez mais e nesta abertura configura a vida sempre mais complexa. O fato da abertura do espaço cósmico e dos espaços da microfísica como condição da vida, recoloca também para os seres humanos e suas sociedades a questão das relações, da abertura e do porvir para o fundamento de sua saúde integral. Exatidão científica e relevância religiosa, ao trabalhar a abertura da vida em direções diferentes (imanência e transcendência), reconhecem mais e mais que não os separam muros demarcatórios de sua identidade, mas arbustos permeáveis, “sem confusão nem divisão” rigorosa dos campos.[2]
A emancipação da ciência com a sua racionalidade específica e a própria religião, no caso o cristianismo, voltada para as realidades terrestres, contribuíram para fazer emergir o que hoje chamamos de “mundo secularizado”. Mas, a parceria entre racionalidade e utilitarismo, entre materialismo e hedonismo não ganhou aquela força que se esperava para expulsar o pensamento mágico, mítico e religioso da face da terra. Assiste-se, hoje, a um retorno do reprimido ou negligenciado campo religioso, da religiosidade difusa, ao lado de um certo enfraquecimento das religiões institucionalizadas.
Também a volta e a “revanche do sagrado” (cf. CRUZ) acontece sob o signo do phármakon, do veneno, do placebo, do remédio. Os processos de modernização, de racionalização, secularização e democratização mudaram o mapa do mundo religioso cujas características mais marcantes são:
a)      Uma certa privatização do religioso afrouxou a pertença herdada a estruturas denominacionais e, por conseguinte, aumentou a circularidade entre adeptos de determinadas estruturas religiosas e credos.
b)      A emancipação do campo religioso do campo político-cultural favoreceu um pluralismo nunca dantes visto em países da cristandade.
c)      Uma autonomia hermenêutica que a ninguém permite a última palavra. As Igrejas perderam a sua autoridade significativa; podem impor signos sem controlar os significados. Sob signos uniformes se escondem múltiplos significados diferentes.
d)     Emergiu uma mística terapêutica que promete cura, sentido e bem-estar.
e)      Um utilitarismo milagreiro e mercantilista causa migrações constantes em busca do santo mais forte ou do padre-pastor mais hábil na animação de um auditório.

II. O princípio da realidade

Na tradição judeu-cristã, o sentido da religião pode ser interpretado como uma espécie de discernimento, de iluminação e/ou ilustração do caos cósmico, da opacidade da realidade e da confusão entre destino, acaso e providência na vida própria.
A primeira palavra de Deus que a Bíblia transmite no mito da criação, pode ser compreendida nesta perspectiva de discernimento, iluminação ou ilustração: “Faça-se a luz!” E a luz foi feita (Gn 1,3). Também o último milagre de Jesus, a cura do cego Bartimeu (cf. Mc 10,46-52), aponta para esta tarefa que hoje chamamos, aproximadamente, de auto-conhecimento e conscientização. A recuperação da vista não vem de fora. Ela está preparada dentro de cada um como possibilidade. Ao contar a sua história e expressar o seu desejo, o cego entra num processo de transformação que a Bíblia chama de “cura”. “Não sou eu que vai te curar”, é a resposta do Mestre, que se auto-denomina “luz do mundo” (Jo 8,12). “A tua fé te curou”. O Mestre não tira as dores da vida num ato mágico, mas abre a vida fechada para enfrentar o sofrimento. Depois da recuperação da vista, ele se faz desnecessário e desaparece em Jerusalém. Os milagres de Jesus produzem abertura para o mundo (cura do cego, do surdo, do mudo). Esta abertura causa mais dores que cura. Com preconceitos e meia-verdades se vive muito agradavelmente. Mas, a recuperação da vista tira as pessoas do campo da contingência e do acaso, e produz espaços de responsabilidade e autonomia.
A assunção do princípio da realidade, simbolicamente expressada na recuperação da vista, não se esgota com a iluminação do aqui e agora. Também o passado histórico pertence ao princípio da realidade. Este passado exige a percepção dos mecanismos de resistência do ego, ensaios de auto-esclarecimento e um trabalho de luto como recuperação da memória traumatizada, alienada e ideologizada (cf. Mitscherlich). Acertadamente, diz Walter Benjamin, em sua sexta tese “Sobre o conceito da história”:

“Em cada época é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. (...) O dom de despertar no passado a faísca da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer" (Benjamin, p. 224s).

O Deus da Bíblia representa na psique coletiva e institucional, geralmente, a categoria psicológica do Pai (super-ego). No anúncio de Jesus de Nazaré recebe outros contornos. Ele não é um Deus concorrencial frente aos desejos dos filhos, nem um Deus-Pai dos vencedores. É um Deus que liberta os vencidos. “Memória” e “lembrança”, na tradição judeu-cristã são uma questão de “verdade”. Os escravos que Moisés liberta do Egito, não passam pelo rio Lethe, o rio do esquecimento, pelo qual na mitologia grega os mortos deveriam passar, mas pelo Mar Vermelho que se torna memória de libertação, água do não-esquecimento, memória de seu caminhar libertador. Se Lethe significa esquecimento, memória significa a-lethe. A-lethe, aletheia (alhqeia), na língua de Sócrates, significa “verdade”.
O que é “verdade” e “mentira”, “pecado” e “graça” tem um núcleo histórico que religa à história de libertação dos escravos de todos os tempos. O que é veneno” e “remédio”, o que é “salvação” e “perdição” não se pode saber “em si”, através de definições dogmáticas e de costas frente aos sofrimentos da humanidade. Os que caíram nas mãos dos ladrões indicam o caminho para a vida inteira, a vida eterna. A verdade cristã passa pela mediação do próximo e a memória do seu sofrimento. Os dois personagens que perguntam a Jesus pela vida eterna, o doutor da Lei que sabia tudo, e o jovem rico que tinha tudo, não recebem, como resposta para a sua pergunta, uma lei complementar, mas uma ordem que questiona o seu saber e o seu ter, a ordem de se lembrarem do outro sofredor e pobre (cf. Lc 10,25; 18,18): “Vai, e faze tu o mesmo”, que o bom samaritano fez, e “Vende tudo o que tens e dá-o aos pobres”. Encontramos aqui uma reinterpretação do “discernimento mosaico”. A verdade é memória e solidariedade com os que ontem sofreram e perceção dos e interação com os sofredores de hoje. O Deus anunciado por Jesus de Nazaré não é um contabilizador de pecados morais, nem um apaziguador do sofrimento, mas um sensibilizador para a gênese e a raiz do sofrimento.
A neurose individual é, na maioria dos casos, também expressão de uma alienação social. Existem estruturas neuróticas e estruturas de pecado neste mundo capitalista, diante das quais as funções terapêuticas de confessionários e consultórios parecem um trabalho de Sísifo. O trabalho da recuperação da memória traumática que faz uma rememoração do sofrimento e da própria responsabilidade, contém também o germe da recuperação de uma “memória perigosa” que resiste às tentativas sistêmicas do conformismo. Memória e esperança fazem parte do princípio da realidade.

III. Tornar-se adulto

Não só para a Evangelização pré-moderna, também para o mundo esclarecido” representava a alteridade dos povos conquistados a infância da humanidade. Povos sem escrita não têm história, diz a historiografia oficial. A situação em que os portugueses encontravam os índios, segundo Varnhagen, "não podemos dizer de civilização, mas de barbárie e de atraso. De tais povos na infância não há história: há só etnografia. A infância física, é sempre acompanhada de pequenez e de miséria" (VARNHAGEN, vol. 1, p. 30). Povos sem história se tornam povos com história e adultos pela incorporação nos mitos e na história (de salvação) universal. Frente ao Outro, os missionários se consideravam “pais desta mísera nação e no-los encomendando como filhos e crianças pequenas para que como a tais (que são) os criemos, doutrinemos, amparemos, corrijamos, os conservemos e aproveitemos na fé e civilização cristã” (SUESS, 1992, p. 889).
Até hoje, as práticas institucionais, muitas vezes, não ajudam no processo de tornar-se adulto. Determinados setores eclesiais infantilizam seus adeptos, prometem recompensas para os submissos, ideologizam sua mensagem e fazem de Deus-Pai uma instância de terror e temor. Este super-ego divinizado como Deus Todo-poderoso terroriza não só os fiéis, mas a própria instituição Igreja, para muitos já não mais uma “mãe suficientemente boa” (cf. WINNICOTT, p. 25), por ser devoradora, como “Grande Mãe, e não ser suficientemente adulta (cf. NEUMANN). O complexo de Édipo eclesiástico é o casamento forçado do fiel com a Igreja-Mãe que encontra seus desdobramentos numa obsessiva devoção mariana. Esta pode sufocar uma relação adulta com Deus-Pai. Na religiosidade popular, os santos mediadores, muitas vezes, são mais importantes que o próprio Deus. Muitos véus que escondem essa realidade devem cair no decorrer de uma relação de crescimento na fé.
A Igreja “Grande Mãe”, quase num retorno ao matriarcado, incorpora os medos que poderia causar um Deus Todo-poderoso dispensado. Ela não tem medo do clero domesticado, mas dos fiéis adultos, dos leigos, dos pobres, dos Outros e das mulheres. São medos de perdas possíveis. Os leigos autônomos e adultos, com sua vontade e capacidade de democraticamente participar em muitas questões institucionais, causam o medo da perda do poder. Os pobres representam a ameaça dos bens e da “privacidade” de sua gestão. Se entrarem em postos de comando na Igreja haveria, certamente, outras prioridades econômicas. Os Outros ameaçam a perda da identidade. E a exclusão das mulheres representa o medo sexual, o medo do corpo e da perda de uma suposta inocência. O medo das perdas causa uma espécie de exclusão e desaparecimento dos leigos, dos pobres, dos Outros e das mulheres, não dos lugares folclóricos, mas dos lugares decisórios.
Esta ambivalência coletiva e institucional não assusta o psicólogo, nem o teólogo, já que se trata, na imperfeição individual e coletiva não admitida, segundo as diferentes disciplinas acadêmicas, de uma ideologia, neurose, mentira ou pecado. Ao cavar um pouco mais fundo na história do cristianismo encontramos três teólogos que ajudam a compreender as questões da imaturidade que produz violência e as questões da ambivalência, do pecado e da culpa: Agostinho, Tomas de Aquino e Lutero.
Lutero, na tradição agostiniana, tentou resolver esta questão melindrosa da ambivalência do ser humano criado por um Deus infinitamente perfeito, com a justaposição do simul justus et pecator: somos, segundo Lutero, ao mesmo tempo justificados diante de Deus e pecadores sem chance por força própria. Esta visão bipolar do ser humano remonta à tradição de Santo Agostinho (354-430) que afirma, em conseqüência de suas lutas contra o pelagianismo, o efeito de ruptura do pecado original (cf. SUESS, 29ss).
Certos seguidores de Agostinho, como os sentencialistas do século XII (Hugo de São Vitor, Anselmo de Laon, Pedro Lombardo), atribuem ao pecado original uma força esmagadora diante da natureza humana. Daí provêm as exigências de um contrapeso na graça e no sobrenatural que, nos exageros da polêmica teológica, sufocam o natural. A minimização do natural inspirou as interpretações teocráticas do poder pontifício, não só nos tempos de Gregório VII (1073-1085) até Bonifácio VIII (1294-1303), mas também na interpretação da “doação Alexandrina” e nas “guerras justas” contra os índios. A teocracia eclesiástica é o contrapeso da natureza humana profundamente ferida. Uma humanidade fraca precisa uma Igreja forte.
Já no século XIII, nas universidades de Paris, Bolonha, Oxford e Salamanca, nasce algo novo. Agora Aristóteles – proibido ainda no início daquele século – já pode ser traduzido e sua leitura ajuda a teologia a ampliar seus horizontes. Tomás de Aquino (1225-1274) faz, livremente inspirado por Aristóteles, avançar a reflexão teológica, quando começa a distinguir entre o natural e o sobrenatural e entre razão e fé. Como o natural não dispensa a graça (sobrenatural), também a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa. O direito divino, que tem a sua origem na graça, não suspende o direito humano, que é de ordem natural. O natural está ligado à essência dos seres e não pode ser substancialmente mudado ou corrompido. Também o pecado original não privou a natureza de seus princípios e direitos constitutivos. Se a ordem natural permanece essencialmente intacta, apesar do pecado (original), então não pode haver diferenças essenciais entre cristãos e “naturais”.
Tomas de Aquino, um dominicano como Las Casas, Francisco de Vitória e Melchior Cano, como Chenu e Congar do Vaticano II, preparou um campo teológico que permitiu, mais tarde, defender a racionalidade e a liberdade do índio e as realidades terrestres como lugar teológico. Até hoje se confrontam, no interior das Igrejas, essas duas correntes, a Agostiniana-Luterana que afirma que somente a graça salva enfatizando a ruptura causada pelo “pecado original”. A outra corrente, a de Tomas de Aquino e de Las Casas, nega esta ruptura porque a ordem natural não sofre falhas substantivas através do pecado original. Estas rápidas pinceladas de uma reconstrução histórica permitem situar um certo moralismo, maniqueísmo e fundamentalismo de hoje no contexto de seus respectivos ancestrais teológicos.
O psicoterapeuta Tilmann Moser, em seu recente livro “Do Deus envenenado ao Deus suportável – Reflexões psicanalíticas sobre a religião”, redigiu como último capítulo uma “Carta ao meu inimigo Agostinho”, onde ele acusa o “doutor da graça” de ter expulsado a alegria de viver pelo “Princípio Pecado” (MOSER, 152-176). O terapeuta qualifica o bispo-teólogo como teólogo da desgraça, do medo e da culpabilidade. A neurose deste “filho da mãe” no sentido literal, diz Moser, se tornou coletiva nas guerras de religião. Trata-se de um Édipo a quatro: a mãe, com características de uma beata, sempre correndo atrás do filho, Agostinho como rapaz, Deus como ator principal e um pai natural como figura marginal deixado para trás pela mãe e o filho que correm para se unir e confundir com este Deus.
Provavelmente, Moser carregou nas tintas, mas o que interessa neste contexto é o fato de que o maniqueísmo dos evangelizadores que quis separar o bem do mal, causou tragédias individuais e coletivas frente aos assim chamados hereges, pagãos e selvagens. Por ser diferente, este Outro foi considerado inferior. Pela vontade de criar a cultura pura, os evangelizadores se tornaram destruidores de milhares de projetos de vida. Bernardino de Sahagún descreveu seu lugar pastoral, no México do século 16, como um beco sem saída:
“Foi necessário destruir todas as coisas idolátricas, todos os edifícios idolátrico e também os costumes da república que estavam misturados com ritos de idolatria (...), e por este motivo foi necessário desbaratar tudo e pô-los em outra maneira de civilização (...). Mas, vendo agora que esta maneira de civilização cria gente muito viciosa, de inclinações muito más e muito más obras, as quais os tornam odiosos a Deus e aos homens, e até lhes causam grandes enfermidades e vida breve. (...)” (Sahagún, 218s).

A religião dos puros causa o estrangulamento do Evangelho. Todos pecam onde procuram ser particularmente virtuosos. Na parábola do joio e do trigo está codificada a sabedoria do sentido da vida num mundo que ainda está por definir-se (cf. Mt 13,24-30). As pretensões da "verdadeira" religião e da "cultura pura" entram em colisão com a obra de separação escatológica de Deus. Quando se pretende forçadamente introduzir o Reino de Deus na história, o seu Espírito de liberdade e gratuidade está sendo automaticamente expulso. Nesse caso, as últimas coisas serão piores do que as primeiras. A parábola do joio no meio do trigo representa a opção pela responsabilidade histórica, pela pulsão da vida no meio da morte, pela convivência de Eros e Tanatos, contra a cultura pura e qualquer tipo de maniqueísmo.

IV. Livrai-nos do mal

Diante da compreensão da ambivalência humana na parábola do joio no meio do trigo, como compreender a prece do Pai-Nosso: “livrai-nos do mal”? As modernas utopias de libertação do mal não se cumpriram. Guerras mundiais e campanhas de extermínio racial, holocausto e tortura, exploração e pobreza extrema, narcoterrorismo e destruição ambiental caracterizam o lado sombrio, a história do mal do século que findou. Os estágios da violência correspondem de maneira simétrica aos estágios de cada cultura. Ao lado do mal público e oficial, delineia-se uma tendência à privatização do mal no lar da “Família Adams”. Este mal não precisa mais do grande discurso legitimador, de motivações especiais ou de grandes emoções.
Agora o mal se transformou numa brincadeira privada, numa maneira de superar o tédio. Quando na Madrugada de 20 de Abril de 1997, cinco jovens da classe média passam pelo índio pataxó Galdino de Jesus dos Santos, que dormia em um ponto de ônibus em Brasília, resolvem comprar uma garrafa de gasolina, derramam o combustível sobre Galdino e tocam fogo, não se trata mais de uma “causa”. Sem maiores motivações podiam tocar fogo em qualquer um que por acaso se encontre por perto. “Nós queríamos apenas vê-lo sair correndo e pegando fogo. Era só uma brincadeira”, explicaram ao delegado de polícia.
A libertação do mal e das conseqüências do mal é uma promessa central da Escritura. O horizonte escatológico da redenção do mal libera sempre de novo aquelas forças que são necessárias não só para retirar do mal histórico sua legitimação e plausibilidade cultural, mas para ativamente lutar para libertar-se dele. Na visão da Bíblia, o mal é um ato destrutivo de alguém contra o projeto da criação. A difusa anonimidade do mal pode transformar-se em estruturas concretas para depois se tornar virulento, como "poderes da morte", como "estruturas do pecado" (Conferencias, Santo Domingo, 13 e 243) e como "violência institucionalizada" (Conferencias, Medellín, II, 15).
O processo de libertação do mal na história é um processo de abertura (Is 6,10; Mc 7,34s), é história de salvação. Israel conheceu a ação libertadora de seu Deus quando foi escolhido de sua condição de anonimato e quando foi libertado da servidão. Experimentou seu Deus libertador no pacto da Aliança e na tomada de posse de sua terra, no exílio, e por fim no retorno do cativeiro. O Deus da Aliança de Israel promete não apenas uma nova terra, mas também um novo coração numa nova Aliança (Jr 31,31; Ez 37,26).
Segundo a Escritura, o mal não é um destino, mas é responsabilidade da própria humanidade. O diabo é na verdade "homicida desde o início" e "pai da mentira" (Jo 8,44), mas ele não elimina a responsabilidade humana pelo mundo. A morte veio por um ser humano (cf. 1Cor 15,21). A destruição da vida pode ser experimentada prazerosamente, isto é, de maneira subjetivamente fascinante, na ampla escala que vai da entrega voluntária no martírio até à autodestruição masoquista. Pode-se explicar “doação da vida” como sacrifício do estranho a pedido da divindade e como destruição da vida alheia, enquanto mera demonstração de poder.
A súplica do Pai-Nosso (cf. Mt 6,7-15) faz referência ao "perdão das dívidas" e à "libertação do mal" nas duas situações ideais do ano jubilar e do Reino de Deus. Na sinagoga de Nazaré, Jesus faz referência ao ideal do ano do jubileu, que não se realizou, e declara-o programaticamente como seu projeto de vida (Lc 4,16s), como ano da graça para os pobres, como libertação para os oprimidos e como recuperação da vista para os cegos. O projeto do ano jubilar recebe na pregação do Reino de Deus uma dimensão histórico-escatológica universal. A chegada do Reino de Deus significa a ruptura com o mal em sua composição estrutural e em sua responsabilidade pessoal. Jesus de Nazaré anuncia o Reino como a persistente visão da possibilidade de uma vida plena.
Ora, o cristianismo tem a pretensão de fazer andar historicamente os dois "ideais" - o ano jubilar e o Reino de Deus - através do anúncio da redenção do mal, realizada definitivamente em Jesus Cristo. Com isto os demais salvadores e caminhos de salvação se aproximam da idolatria e de ídolos que têm ouvidos surdos e olhos que não vêem (cf. Is 6,9; Jr 5,21; Mc 8,18). Exclusão e violência contra judeus e pagãos são o resultado. O cristianismo incorpora mimeticamente a violência sofrida. Desde o apedrejamento de Estevão, os judeus são publicamente estigmatizados como assassinos de Deus (At 7,52).
A continuidade destes discursos anti-judaicos, autorizada pela Igreja, nós podemos encontrá-la nos Padres da Igreja. Em 388, Ambrósio, bispo de Milão, defende os que incendiaram a sinagoga de Kallinikon (Eufrates) qualifica a sinagoga como um lugar de descrença, como a pátria da impiedade, como o esconderijo da loucura, condenado pelo próprio Deus" (AMBRÓSIO, Epist. 40 PL 16, 1104s). Os soldados de Cristo combatem, segundo Bernardo de Clairvaux, "sem o menor medo de pecar, por se haverem exposto ao perigo de morte ou por terem matado o inimigo. Para eles morrer ou matar por Cristo, não significa nenhum crime, mas implica numa grande honra (S. BERNARDO, p. 503).
Desde as Retractationes de Agostinho, o emprego da violência é justificado com o "compelle intrare" ("obriga-os a entrar", Lc 14,23) do evangelho (Cf. Retractationes, II 31, CSEL 36,137). Por trás disto encontra-se a justificativa através da "responsabilidade positiva" pela salvação dos outros. Castigos corporais que levem à conversão dos hereges são considerados beneficios. José de Acosta, provincial dos jesuítas no vice-reino de Peru, exigia uma "nova evangelização", que deveria ser acompanhada por soldados. Sobretudo os aborígines "mais primitivos" teriam que ser forçados a entrar no reino dos céus, como também se faz com as crianças que resistem aos médicos e aos mestres (Cf. ACOSTA, vol. 1, livro segundo, cap. 12, p.339s, tb. Proemio, p. 69). Também José de Anchieta (1534-1597), um dos primeiros missionários jesuítas do Brasil, relata ao geral de sua ordem, Diego Laynes: "(...) para este gênero de gente, não há melhor pregação que espada e a vara de ferro, na qual, mais que em nenhuma outra, é necessário que se cumpra o compelle eos  intrare” (ANCHIETA, p. 197, Carta de 16.4.1563, n. 8).
Paralelamente à luta da Reforma contra as imagens religiosas nas Igrejas, houve na América conquistada uma luta contra as falsas imagens dos índios. Bernal Díaz, um dos relatores da conquista do México, descreve como depois da destruição das estátuas dos deuses dos totonacas, e sob as lágrimas de seus sacerdotes, Cortés mandou colocar no santuário deles uma imagem de Maria, construir um altar e celebrar uma missa (DÍAZ DEL CASTILLO, vol. 1, p. 161ss, cap. 51s). Na América portuguesa, já antes da batalha de Lepanto (1571), as vitórias contra os índios eram consagradas à "Nossa Senhora da Vitória” (Cf. MEGALE, p. 465ss). Vestida com uma túnica branca, um manto real dourado e com uma coroa sobre a cabeça e a palma da vitória na mão direita, ela é em tudo igual à deusa pagã da Vitória, retirada do Fórum Romano pelo Imperador Graciano. É a “primeira dama” do mundo novo e já não mais aquela que derruba os "poderosos" de seu trono ou que exalta os "humilhados". A primeira paróquia do Brasil, em Salvador da Bahia, recebeu o seu nome.
No rito e no culto se encontra, muitas vezes, um substrato sacrificial que pode sobreviver numa teologia vulgar da cruz. Da lógica do sacrifício "cultual" que nega o eixo central do cristianismo, a gratuidade, à violência ritualizada é apenas um passo. Isto ficou patente também na legitimação salvífica da escravidão como "benefício cristão" e "grande milagre da providência e misericórdia divina" (VIEIRA, vol. 4, Sermão décimo quarto (1633), em Sermões , tomo 11, p. 301, n. 6).
Na polaridade tensa do mundo, o fascínio do mal pode ter suas raízes na supressão de um pólo da realidade que produz o equívoco de considerar uma meia-verdade como sendo a verdade inteira. O fascínio do mal aponta, portanto, para uma resistência neurótica contra partes da realidade, para a repressão e o "aprisionamento da verdade" (Rm 1,18). Fundamentalistas são neuróticos piedosos que reprimem partes da realidade, para depois impor e propor a Deus e ao mundo suas meias-verdades. Meias-verdades podem ser sentidas como prazerosas e fascinantes. As verdades inteiras geralmente são dolorosas. Na religiosidade popular, o povo elaborou uma síntese convivencial. Nas ruas paulistanas, estátuas do beato Anchieta e de Anhangüera, que significa Diabo Velho disputam a atenção dos transeuntes. A Grande São Paulo é atravessada por uma "Via Anchieta", por uma "Via dos Bandeirantes" e uma "Raposo Tavares", lembrando o chamado "ciclo de caça ao índio". O povo herdou a alquimia de sua sobrevivência dos índios colonizados; homenageia seus anjos da guarda e respeita seus demônios porque sabe como pode ser útil acender uma vela a Deus e outra ao diabo.

Conclusão

Iniciaram-se estes apontamentos com a comparação da religião com o phármakon que pode ser um remédio e um veneno. Um fenômeno semelhante observa-se entre o alemão e o inglês. “Veneno” em alemão significa “Gift”, e gift em inglês significa dádiva, presente, dom. Certamente, este parentesco lingüístico quer lembrar uma experiência ancestral de que a dádiva é ou pode ser também um veneno, um presente de grego. E a palavra “dote” significa, em alemão, Mitgift, quer dizer, um veneno que se leva para a casa do noivo ou da sogra. A religião é um dote a ser criticamente observado. A psicologia pode contribuir para o discernimento entre “remédio”, “dádiva” e “veneno”.
A tarefa da religião não está na promessa de curar a civilização da barbárie, mas na capacidade de advertir a humanidade sobre a barbárie coletiva e individual que está, como a “bela adormecida”, aguardando não seu príncipe, mas seu demônio. Todos querem o consolo da promessa de cura do mal, o revolucionário mais radical e o beato mais devoto, diz Freud e continua: “Não lhes posso oferecer consolo algum”, porque a pulsão da morte, o Tanatos, e a pulsão da vida, o Eros, são dois “Poderes Celestes” imortais (Freud, p. 170).
Mesmo sem oferecer “colo”, religião e psicologia, tomando partido para um mundo melhor e para a construção de um Estado para todos, podem, nas transformações atuais, contribuir para o bem da humanidade ao incentivar um olhar atento para as raízes e a realidade das sociedades e dos indivíduos, ao tratar as pessoas como adultas e ao incentivá-las a se tornarem cada vez mais adultas na proximidade articulada, sem identificação, e na autonomia livre, sem, indiferença. Finalmente, religião e psicologia não podem abrir mão da “libertação do mal”, mas advertem para as fantasias de onipotência, os narcisismos e os purismos infantis que se manifestam nas lutas de libertação. Ao interpretar a cruz de Cristo como “culpa feliz”, o cristianismo encontrou, na “vida falsa”, uma fenda onde pode entrar tudo aquilo que faz a vida valer a pena de ser vivida.
Os demônios da “vida falsa” só são perigosos sob duas condições. Primeiro, quando são negados ou esquecidos, e eles podem, por conseguinte, fazer festa nas costas e às custas das pessoas. Segundo, quando se tenta fugir deles ou agredi-los com tentativas de expulsão. O espírito impuro que se expusa, volta, segundo o Evangelho, com „sete outros espíritos piores que ele“ (Mt 12,43ss). O demônio é sempre mais forte e mais ligueiro que as pessoas. Precisa-se aprender dialogar com ele, como Jesus no deserto. Neste diálogo com o lado escuro da humanidade, Mefistófeles se torna „uma parte daquela força que sempre quer o Mal, mas sempre faz o Bem“ (cf. GOETHE, p. 89).

Referências Bibliográficas

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ANCHIETA, José de. Obras completas. Vol 6., Cartas, São Paulo: Loyola, 1984.

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CONCILIUM, 176 (1982/6), número especial “A psicologia desafia a fé”.

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CRUZ, R. Eduardo. Revanche do sagrado, in: VV.AA. Interfaces do sagrado em véspera de milênio. São Paulo: CRE/PUC-SP e Olho dágua, 1996, p. 30-44.

DÍAZ DEL CASTILLO. Bernal. Historia verdadera de la conquista de la Nueva España. 2 vol., México: Porrua, 1980. Col. Biblioteca Porrua n. 6 e 7.

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FREUD, Sigmundo. O mal-estar na civilização. In: Obras completas. Vol. 21. Rio de Janeiro: Imago, 1974, p. 81-171.

GOETHE, Johann Wolfgang. Fausto. Lisboa: Relógio D’Água, 1999.

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WINNICOTT, Donald Wood. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.


[1] Palestra proferida, no dia 18 de outubro de 2003, no encontro “Psicologia e Religião – A ética laica da psicologia”, organizado pelo conselho Federal e Regional de Psicologia, São Paulo.
[2] O concílio de Calcedônia, de 451, definiu que na pessoa divina de Jesus Cristo subsistem duas naturezas, a humana e a divina, “sem confusão nem divisão” (inconfuse, indivise).

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Trabalho desenvolvido para atender ao meu mestrado...



Resenha
Postura corporal, estética emocional e
memória na religiosidade cristã
por OSVALDO OLAVO ORTIZ SOLERA
Introdução
Nesta resenha será feito um recorte da dissertação de mestrado de Max Ruben Tavares de Pina Ramos -  Postura corporal, estética emocional e memória na religiosidade cristã de 2008, onde o autor introduz a abordagem da “antropologia do cristianismo” partindo das seguintes considerações:
“A produção antropológica tem correlação com o processo de conhecimento científico” ( p.4).
A pesquisa etnográfica pode “inventariar um conjunto de temáticas, que mostram ser pertinentes na compreensão da transmissão e aprendizagem religiosa” (p.6).
Temática
Para identificar as causas da expansão, no mundo, de um tipo de religiosidade, o autor passa a investigar as “posturas corporais” e uma específica “estética emocional”, na transmissão e aprendizado do cristianismo, no culto evangélico pentecostal. Além disso, ele pretende desvelar o efeito mnemônico, que penetra mais profundamente na “memória implícita”. Isso acontece especialmente, nas experiências ritualísticas, com maior intensidade emocional (p.18). E coloca a seguinte questão: É defensável falar em termos de uma epidemiologia das posturas corporais? Sem responder de imediato, o autor inicia a abordagem da emoção colocando-a no centro da religiosidade.
Recorte da dissertação
Para tanto, o autor baseia-se nos “modos de religiosidade” da teoria cognitiva do antropólogo Harvey Whitehouse (2004) que destaca dois aspectos da intensidade emocional:
O aspecto referente a uma forte intensidade emocional observável como predominante no “modo imagético”, no qual a prática religiosa pode suscitar estados alterados de consciência ou em certos casos propicia terríveis torturas. Neste “modo de religiosidade” os cultos e tradições são praticados regionalmente e por pequenos agrupamentos humanos.
A prática e a transmissão religiosa são feitas por meio de uma ação coletiva esporádica com certas coreografias, nas quais se destacam evocações de uma variedade de imagens, símbolos e sons, que provocam uma intensa estimulação das emoções e sensações. A participação desse intenso estado emocional pode despertar emoções, que produzem fortes laços de união entre os participantes atuantes desse pequeno grupo (p.11).

Outro aspecto de menor intensidade emocional é encontrado no “modo doutrinal” de transmissão nas “religiões oficiais” dispersas no mundo.  Nesse caso, Whitehouse considera que as emoções são afetadas por um modelo repetitivo, frequente, rotinizado de culto, acompanhado de complexa teologia. Esse modelo doutrinal atinge amplas comunidades. (p.12).

Nota-se a não separação entre a emoção e a razão na prática religiosa, afinal toda ritualização faz com que se atualize o mito ou o momento histórico/sagrado a ser relembrado. Todo este processo, que possui início, meio e fim, favorece a coletividade abrangida e suas crenças. Este vasto campo simbólico é desta forma mantido vivo pelos adeptos. No caso das religiões do livro, existe uma entrega, uma submissão ao Deus evocado.
Esta forma de louvação ou atos de contrição, vai desde o ajoelhar do crente, o levantar dos braços pedindo bênçãos, chegando até a auto flagelação.
Os leitores e leitoras interessadas em ampliar essa discussão transferindo-a para o Brasil poderão encontrar bons argumentos em duas obras:
DEL PRIORE, Mary. Religião e Religiosidade no Brasil Colonial. São Paulo: Ática, 1997.    Nesta obra a autora trata da fusão das normas oficiais ditadas pela igreja católica com as crenças e práticas populares, que resultou num movimento de recriação cultural com marcas permanentes na vida do povo brasileiro.

2-      GRUZINSKI, Serge. O Pensamento Mestiço. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. Trata-se de uma obra de caráter multidisciplinar lançada na França em 2000. Há duas citações, entre outras, que podem despertar a curiosidade do leitor: “um homem distinto é um homem misturado” de Montaigne, e outra “sou um tupi tangendo um alaúde”, frase dita por Macunaíma, o herói de Mario de Andrade.

Na abordagem de seu assunto central, postura corporal e estética emocional, o autor  questiona conforme proposto por Whitehouse: “O que as religiões têm de fazer ou ser para sobreviverem ou se perpetuarem”? (p.13). E passa a abordar a oração no âmbito do culto evangélico, no qual, segundo ele, a oração, enquanto ritual, está além de ser um canal de acesso a Deus, é um desempenho, “que segundo os fieis, os conduz a uma via transformativa e redentora” (p.29).
O autor questiona: Será esta condição de elevar o fiel a uma via transformativa e redentora é o que está produzindo o encantamento religioso e o respectivo crescimento do cristianismo pentecostal no mundo?
Pode-se considerar que a proposta teórica do autor concebe que as emoções vivenciadas nos momentos de oração para conversão e “renovação espiritual”, tornam-se um impulso que leva à real vivencia espiritual cristã.
Na oração comunicacional, o deslocamento num mesmo e preciso momento para a postura corporal de genuflexão acompanhado da estética emocional com a expressão de contrição são imprescindíveis, pois sem este meio poderoso de humilhar-se o poder da oração não adquire a força suficiente para que Deus ouça o suplicante e o “salve” ou “cure”. Também o poder de “transformar o mundo” não consegue seu efeito.
O autor percebeu bem esta necessidade e foi além, abordou com clareza a “virtude cristã axial” – o espírito quebrantado, em prostração com o afastamento da consciência objetiva, totalmente submissa à vontade divina na oração comunicacional ou individual. Este espírito subjugado é antônimo de elevar ou exaltar com louvor, é assim que há um movimento que percorre o caminho da prostração extrema para a exaltação eufórica, criando nesses dois momentos um ambiente de alta intensidade emocional.  
Este movimento de reevangelização, que com discursos inflamados privilegia a transmissão dos ensinamentos baseada no poder da oração, tem introduzido um novo modelo explicativo, para os acontecimentos mundiais. E vem transformar a “visão do mundo” tornando-a mais emotiva, em substituição da “visão do mundo” mais racional.
O autor, com o intuito de construir um modelo coerente e operativo para o estudo da religiosidade, com foco na aquisição, transmissão e contexto do conteúdo religioso lança-se na “antropologia da aprendizagem” e questiona-se “por que é que certas posturas corporais e estéticas emocionais específicas tiveram mais sucesso e foram mais contagiosas, mais atrativas que outras, e consequentemente, tiveram uma maior transmissão?”         

Finalização
A ação transformadora nos ritos que o autor disserta, prende-se ao "quebranto" do ser perante a divindade, acreditam eles que se mostrando submissos, alcançam as benesses das mesmas. A forte carga emocional que existe nestes momentos com certeza alteram o estado de consciência dos praticantes levando-os a atingirem os objetivos por eles almejados, estas posturas fazem parte de um conjunto de aspectos emocionais e cognitivos que levam o "fiel"  a um estado de euforia perante sua fé.
Partindo da premissa que o signo/símbolo fixa a ideia, a palavra determina e o gestual atrai, as formas utilizadas em conjunto ou não, com certeza atingem os objetivos de transmissão dos dirigentes e seus seguidores.
A palavra diálogo deriva de duas palavras gregas: dia, que significa por meio de, e logos que significa palavra. Portanto, diálogo quer dizer comunicação/transmissão por meio de palavras, posturas, expressões, atitudes. A comunicação/transmissão entre seres humanos é reconhecidamente difícil, quem dirá então com a Divindade[...].
Comunicar-se ou transmitir não é apenas dizer coisas, mas dizer-se. Ao comunicar partilha-se alguma coisa. Para realizar a comunicação é preciso entregar-se. É preciso dizer ao outro quem se é, para que realmente se possa saber quem se está sendo. A comunicação é o único caminho para a comunhão. Esta entrega testemunhada é o ápice da submissão ao Deus evocado.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Quem tem pai, tem avô...Tem raiz!


W. W. da Mata e Silva
Nascido em Garanhuns, Pernambuco, em 28.06.1917, talvez tenha sido o médium que maiores serviços prestou ao Movimento Umbandista, durante seus 50 anos de mediunismo. Não há dúvidas hoje, após 7 anos de sua passagem para outras dimensões da vida, que suas 9 obras escritas constituem as bases e os fundamentos mais avançados do puro e real Umbandismo.
Sua tarefa na literatura Umbandista, que fez milhares de simpatizantes e seguidores, iniciou-se no ano de 1956. Sua primeira obra foi Umbanda de Todos Nós – considerada por todos a Bíblia da Umbanda, pois transcendentais e avançados eram e são seus ensinamentos.

A 1ª Edição veio à luz através da Gráfica e Editora Esperanto, a qual situava-se, na época, à rua General Argôlo 230, Rio de Janeiro. O volume nº 1 dessa fabulosa e portentosa obra encontra-se em nosso poder, presenteados que fomos pelo insigne Mestre. Em sua dedicatória consta:
Rivas, esse exemplar é o nº 1. Te dou como prova do grande apreço que tenho por você, Verdadeiro Filho de Fé do meu Santuário – do Pai Matta – Itacurussá, 30.07.86
Dessa mesma obra temos em mãos as promissórias que foram pagas, por Ele, à Gráfica Esperanto, que facilitou o pagamento dos 3.500 exemplares em 180 dias ou 6 parcelas.
Vimos, pois, que a 1ª edição de Umbanda de Todos Nós, para ser editada, teve seu autor de pagá-la. A partir da 2ª edição a obra foi lançada pela Livraria Freitas Bastos. Atualmente a Editora Ícone é quem vem editando as obras de Matta e Silva.
Como não poderia deixar de ser, a Livraria Freitas Bastos teve a sensibilidade de perceber que estava de posse de um valioso tesouro e, como tal, valorizou-o e deu ao seu autor o respaldo necessário.
Umbanda de Todos nós agradou a milhares de Umbandistas, que encontraram nela os reais fundamentos em que poderiam se escudar, mormente nos aspectos mais puros e límpidos da Doutrina Umbandista. Mas, se para muitos foi um impulso renovador de fé e convicção, para outros, os interessados em iludir, em fantasiar e vender ilusões, foi um verdadeiro obstáculo às suas funestas pretensões, tanto que começaram a combatê-la por todos os meios possíveis e até à socapa. Quando perceberam que, ao combatê-la, estavam fazendo sua apologia e a maior das propagandas, enfureceram-se… Iniciaram o ataque contundente, através da baixa-magia… e, mais uma vez, sem sucesso!
Soubemos por ele que, realmente, foi uma briga astral, feroz… Além de ter contrariado interesses mesquinhos de determinados pseudos líderes umbandistas da época, também desagradou a um Astral inferior e todo um séquito de entidades atrasadas, as quais perceberam que com o lançamento e a aceitação da obra, seu império de ações negras e nefastas ficou seriamente ameaçado. Perceberam que, com a Luz do esclarecimento se manifestando, não haveria mais lugar para a ignorância, faltando, pois, substrato às Sombras, fonte primária e primeira de suas ações funestas.
Realmente, foi uma luta Astral, uma demanda, em que as Sombras e as Trevas utilizaram-se de todos os meios agressivos e contundentes que possuíam, arrebanhando para as suas fileiras do ódio e da discórdia tudo o que de mais nefando e trevoso encontrassem, quer fosse encarnado ou desencarnado.
Momentos difíceis assoberbaram a rígida postura do Mestre, que muitas vezes, segundo ele, sentiu-se balançar. Mas não caiu!… E os outros? Ah! os outros…
Na época, alguns arrivistas incapazes e despeitados, aproveitando-se de uma palestra pública, preferida austeramente pelo Mestre Matta, fotografaram-no centenas de vezes, com a vil, baixa e torpe intenção de poder atingi-lo através de rituais inferiores que, é claro, só têm aceite para os Magos Negros e seus Planos e Sub-Planos afins. Não tiveram os mínimos escrúpulos, atacaram-no de todas as formas, queriam matá-lo, eliminá-lo, somente por ele ter alertado a grande massa popular que campeava por esses ditos terreiros. Tais indivíduos queriam se beneficiar de todas as formas, para conseguir isto ou aquilo, precisando usar o povo como massa de manobra, a fim de levá-los a cargos, a situações para as quais não detinham merecimento ou capacidade.
Decepcionado com a recepção desses verdadeiros opositores, renhidos e fanáticos, à sua obra, Matta e Silva resolveu cruzar suas armas, que eram sua intuição, sua visão astral, calcada na lógica e na razão, e sua máquina de escrever… Embora confiasse no Astral, que o escolhera para a árdua e penosa tarefa, por intermédio desse mesmo Astral obteve Agô para um pequeno recesso, onde encontraria mais forças e alguns raros e fiéis aliados que o seguiriam no desempenho da missão que ainda o aguardava.
Na época, não fosse por seu Astral, Matta e Silva teria desencarnado…Várias vezes, disse-nos, só não tombou porque Oxalá não quis… Muitas vezes precisou dormir com sua gira firmada, pois ameaçavam-no de levá-lo durante o sono… Imaginem os leitores amigos os assaltos que devem ter assoberbado o nobre Mestre Matta e Silva…
Seus 2 filhos, Ubiratan e Eluá, também sofreram, embora de forma leve, as rebarbas dos entrechoques de ordem astral que, em avalanche, desceram e atingiram a família do ilustre Mestre. A demanda foi feroz, sendo que, de seus perseguidores, a maioria recebeu segundo a Lei…
Pai Cândido, que logo a seguir denominou-se como Pai Guiné, assumiu toda a responsabilidade pela manutenção e reequilibro astrofísico de seu Filho, para em seguida orientá-lo na escrita de mais um livro. Sim, aí lançou-se, através da Editora Esperanto, Umbanda – Sua Eterna Doutrina, obra de profunda filosofia transcendental. Até então, jamais haviam sido escritos os conceitos esotéricos e metafísicos expostos. Brilhavam, como ponto alto em sua doutrina, os conceitos sobre o Cosmo Espiritual ou Reino Virginal, as origens dos Seres Espirituais, etc… Os Seres Espirituais foram ditos como sendo incriados e, como tal, eternos.
Devido a ser muito técnica, Umbanda – Sua Eterna Doutrina agradou aos estudiosos de todas as Correntes. Os intelectuais sentiram peso em seus conceitos, sendo que, para dizer a verdade, passou até certo ponto desapercebida pela grande massa de crentes e mesmo pelos ditos dirigentes umbandistas da época.
Ainda não se esgotara a primeira edição de Sua Eterna Doutrina e Pai Matta já lançava outra obra clássica, que viria a enriquecer ainda mais a Doutrina do Movimento Umbandista. Complemento e ampliação dos conceitos herméticos esposados por Sua Eterna Doutrina, o novo livro, Doutrina Secreta de Umbanda, agradou mais uma vez a milhares de pessoas.
Não obstante suas obras serem lidas não só por adeptos umbandistas, mas também por simpatizantes e mesmo estudiosos das ditas Ciências Ocultas, seu Santuário, em Itacurussá, era freqüentado pelos simples, pelos humildes, que sequer desconfiavam ser o velho Matta um escritor conceituado no meio umbandista. Em seu Santuário, Pai Matta guardou o anonimato, vários e vários anos, em contato com a natureza e com a pureza de sentimentos dos simples e humildes. Ele merecera essa dádiva, e nessa doce Paz de seu terreirinho escreveria mais outra obra, também possante em conceitos.
Assim nasceu Lições de Umbanda e Quimbanda na Palavra de um Preto-Velho, obra mediúnica que apresenta um diálogo edificante entre um Filho-de-Fé (Zi-Cerô) e a Entidade Espiritual que se diz Preto-Velho. Obra de nível, mas de fácil entendimento, sem dúvida foi um marco para a Doutrina do Movimento Umbandista.
Após 4 obras, Matta e Silva tornou-se por demais conhecido, sendo procurado por simpatizantes de todo o Brasil. Embora atendesse a milhares de casos, como em geral são atendidos em tantos e tantos terreiros por este Brasil afora, havia em seu atendimento uma diferença fundamental: as dores e mazelas que as humanas criaturas carregam eram retiradas, seus dramas equacionados à luz da Razão e da Caridade, fazendo com que a Choupana do Velho Guiné quase todos os dias estivesse lotada.
Atendia também aos oriundos de Itacurussá – na ocasião uma cidade sem recursos – que, ao necessitarem de médico, e não havendo nenhum na cidade, recorriam ao Velho Matta.
Este, com sua bondade e caridade, a todos ministrava medicamentos da flora local, e mesmo alopatias simples, que ele mesmo comprava quando ia à cidade do Rio de Janeiro. Ficou conhecido como curandeiro, e sua fama ultrapassou os limites citadinos, chegando às ilhas próximas, de onde acorriam centenas de sofredores de vários matizes. Durante exatos 10 anos Matta e Silva cumpriu essa tarefa, que transcendia a suas funções sacerdotais…
Como se vê, é total iniquidade e falta de conhecimento atribuir a Matta e Silva e pecha de elitista. Suas obras são honestas, sinceras, reais, e revelam em suas causas o hermetismo desta Umbanda de Todos Nós. Segundo sapientíssimos mentores de nossa corrente, seus livros levarão mais de 50 anos para serem completamente assimilados e colocados em prática. É necessário que nos preparemos para esse Evento de Luz Redentora da Nova Era do 3º milênio. As obras de W.W. da Matta e Silva preparam, ajustam e apontam para a Umbanda do 3º milênio. Preparemo-nos, caso contrário…
Continuando a seguir a jornada missionária de Pai Matta, vamos encontrá-lo escrevendo mais uma obra: Mistérios e Práticas da Lei de Umbanda. Logo a seguir, viria Segredos da Magia de Umbanda e Quimbanda. A primeira ressalta de forma bem simples e objetiva as raízes míticas e místicas da Umbanda. Aprofunda-se no sincretismo dos Cultos Afro-Brasileiros, descortinando o panorama do atual Movimento Umbandista. A segunda aborda a Magia Etéreo-Física, revela e ensina de maneira simples e prática certos rituais seletos da Magia de Umbanda. Constitui obra de cunho essencialmente prático e muito eficiente.
Nesse instante de nossa descrição, pedimos tolerância e paciência ao prezado leitor, pois queremos dar ao mesmo uma real noção da cronologia das obras do grande Mestre. Acreditamos que, assim fazendo, estaremos sintonizando-nos ainda mais, permitindo ao caro leitor penetrar no âmago de nossa mensagem.
Prosseguindo, chegamos a Umbanda e o Poder da Mediunidade. Nessa obra entenderemos como e porque ressurgiu a Umbanda no Brasil. Ela aponta as verdadeiras origens da Umbanda. Fala-nos da magia e do médium-magista. Conta-nos, em detalhes, ângulos importantíssimos da magia sexual. Há nesse livro uma descrição dantesca sobre as zonas cavernosas do baixo astral, revelando covas com seus magos negros que, insistentemente, são alimentados em suas forças por pensamentos, atos e até por oferendas grosseiras das humanas criaturas.
Após 7 obras, atendendo a numerosos pedidos de simpatizantes, resolveu o Mestre, em conjunto com a Editora Freitas Bastos, lançar um trabalho que sintetizasse e simplificasse todas as outras já escritas. Assim surgiu Umbanda do Brasil, seu oitavo livro. Agradou a todos e, em 6 meses, esgotou-se. Em 1975 lançaria o Mestre sua última obra: Macumbas e Candomblés na Umbanda. Esse livro é um registro fidedigno de vivências místicas e religiosas dos chamados Cultos Afro-Brasileiros. Constitui um apanhado geral das várias unidades-terreiros, as quais refletem os graus consciencionais de seus adeptos e praticantes. Ilustrado com dezenas de fotografias explicativas, define de maneira clara e insofismável a Umbanda popular, as Macumbas, os Candomblés de Caboclo e dá noções sobre Culto de Nação Africana, etc.
O leitor atento deve ter percebido que, durante nossos dezoito anos de convivência iniciática, e mesmo de relacionamento Pai-Filho com o Pai Matta, algumas das fases que citamos nós a presenciamos in loco…
Conhecemo-lo em 1971 quando, após ler Umbanda de Todos Nós, tivemos forte impulso de procurá-lo. Na ocasião morávamos em São Paulo. Fomos procurá-lo em virtude de nosso Astral casar-se profundamente com o que estava escrito naquele livro, principalmente sobre os conceitos relativos às 7 linhas, modelo de ritual e a tão famosa Lei de Pemba. Assim é que nos dirigimos ao Rio de Janeiro, sem saber se o encontraríamos. Para nosso regozijo, encontramo-lo na Livraria Freitas Bastos da rua 7 de Setembro.
Quando nos viu, disse que já nos aguardava, e porque tínhamos demorado tanto?!
Realmente ficamos perplexo, deslumbrado… parecia que já o conhecíamos há milênios… e, segundo Ele, conhecíamo-nos mesmo, há várias reencarnações…
A partir dessa data, mantivemos um contato estreito, freqüentando, uma vez por mês, a famosíssima Gira de Pai Guiné em Itacurussá – verdadeira Terra da Cruz Sagrada, onde Pai Guiné firmou suas Raízes, que iriam espalhar-se, difundindo-se por todo o Brasil. Mas, voltando, falemos de nosso convívio com o insigne Mestre.
Conhecer Matta e Silva foi realmente um privilégio, uma dádiva dos Orixás, que guardo como sagrado no âmago de meu Ser. Nesta hora, muitos podem estar perguntando:
- Mas, como era esse tal de Matta e Silva?
Primeiramente, muito humano, fazendo questão de ressaltar esse fato. Aliás, era avesso ao endeusamento, mais ainda à mitificação de sua pessoa. Como humano, era muito sensível e de personalidade firme, acostumado que estava a enfrentar os embates da própria vida… Era inteligentíssimo!
Tinha os sentidos aguçadíssimos… Mas era um profundo solitário, apesar de cercarem-no centenas de pessoas. Seu Espírito voava, interpenetrando e interpretando em causas o motivo das dores, sofrimentos e mazelas várias…
A todos tinha uma palavra amiga e individualizada. Pai Matta não tratava casos, tratava Almas… e, como tal, tinha para cada pessoa uma forma de agir, segundo o seu grau consciencional próprio!
Sua cultura era exuberante, mas sem perder a simplicidade e originalidade. De tudo falava, era atualizadíssimo nos mínimos detalhe.  Discutia ciência, política, filosofia, arte, ciências sociais, com tal naturalidade que parecia ser Mestre em cada disciplina. E era!…
Quantas e quantas vezes discutíamos medicina e eu, como médico, confesso, tinha de me curvar aos seus conceitos, simples mas avançados…
No mediunismo era portentoso. Seu pequeno copo da vidência parecia uma televisão tridimensional!  Sua percepção transcendia! Na mecânica da incorporação, era singular seu desempenho! Em conjunto simbiótico com Pai Guiné ou Caboclo Juremá, trazia-nos mensagens relevantes, edificantes e reveladoras, além de certos fenômenos magistícos, que não devemos citar.
Assim, caro leitor, centenas de vezes participamos como médium atuante da Tenda de Umbanda Oriental, verdadeira Escola de Iniciação à Umbanda Esotérica de Itacurussá, na Rua Boa Vista, 157, no bairro de Brasilinha.
A Tenda de Umbanda Oriental (T.U.O.) era um humilde prédio de 50 m . Sua construção, simples e pobre, era limpa – e rica em Assistência Astral. Era a verdadeira Tenda dos Orixás… Foi aí, nesse recinto sagrado, onde se respirava a doce Paz da Umbanda, que, em 1978, fomos coroado como Mestre de Iniciação de 7º grau e considerado representante direto da Raiz de Pai Guiné, em São Paulo. Antes de sermos coroado é claro que já havíamos passado por rituais que antecedem a “Coroação Iniciática”.
É necessário frisar que, desde 1969, tínhamos nossa humilde choupana de trabalhos umbandísticos, em São Paulo, onde atendíamos centenas de pessoas, muitas das quais enviadas por Pai Matta. Muitos deles, os que vieram, tornaram-se médiuns de nossa choupana, a Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino.
Muitas e muitas vezes tivemos a felicidade e a oportunidade ímpares de contarmos com a presença de Pai Matta em nossa choupana, seja em rituais seletos ou públicos e mesmo em memoráveis e inesquecíveis palestras e cursos. Uma delas, aliás, constitui acervo do arquivo da Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino: uma fita de videocassete em que seus “netos de Santé” fazem-lhe perguntas sobre sua vida, doutrina e mediunismo… Constam ainda de nossos arquivos centenas e centenas de fotos, tiradas em São Paulo, Rio de Janeiro e em outros e vários locais…
Para encerrar esta longa conversa com o prezado leitor, pois se continuarmos um livro de mil páginas não seria suficiente, relatemos a última vez que Pai Matta esteve em São Paulo, isto em dezembro de 1987.
Em novembro de 1987 estivemos em Itacurussá, pois nosso Astral já vinha nos alertando que a pesada e nobre tarefa do Velho Mestre estava chegando ao fim… Surpreendeu-nos, quando lá chegamos, que ele nos chamou e, a sós e em tom grave, disse-nos:
- Rivas, minha tarefa está chegando ao fim, o Pai Guiné já me avisou… Pediu-me que eu vá a São Paulo e lá, no seu terreiro, ele baixará para promover, em singelo ritual, a passagem, a transmissão do Comando Vibratório de nossa Raiz…
Bem, caro leitor, no dia 2 de Dezembro, um domingo, nosso querido Mestre chegava do Rio de Janeiro. Hospedando-se em nossa residência, assim como fazia sempre que vinha a São Paulo, pediu-nos que o levássemos a um oftalmologista de nossa confiança, já que havia se submetido sem sucesso a 3 cirurgias paliativas no controle do glaucoma (interessante é que desde muito cedo começou a ter esses problemas, devido a…).
Antes disso, submetemo-lo a rigoroso exame clínico cardiológico, onde diagnosticamos uma hipertensão arterial acompanhada de uma angina de peito, estável. Tratamo-lo e levamo-lo ao colega oftalmologista. Sentíamos que ele estava algo ansioso, e na ocasião disse-nos que Pai Guiné queria fazer o mais rápido possível o ritual. Disse-nos também que a responsabilidade da literatura ficaria ao nosso cargo, já que lera Umbanda – A Proto-Síntese Cósmica e Umbanda – Luz na Eternidade, vindo a prefaciar as duas obras. Pediu-nos que fizéssemos o que o Sr. 7 Espadas havia nos orientado, isto é, que lançássemos primeiro Umbanda – A Proto Síntese Cósmica. Segundo Pai Matta, esse livro viria a revolucionar o meio Umbandista e os que andavam em paralelo, mormente os ditos estudiosos das ciências esotéricas ou ocultas. Mas, para não divagarmos ainda mais, cheguemos já ao dia 7 de dezembro de 1987.
A Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino, com todo seu corpo mediúnico presente, se engalanava, vibratoriamente falando, para receber nosso querido Mestre e, muito especialmente, Pai Guiné
Às 20 horas em ponto adentramos o recinto sagrado de nosso Santuário Esotérico. Pai Matta fez exortação, dizendo-se feliz de estar mais uma vez em nosso humilde terreiro, e abriu a gira. Embora felizes, sentíamos em nosso Eu que aquela seria a última vez que, como encarnado, nosso Mestre pisaria a areia de nosso Congá. Bem…Pai Guiné, ao baixar, saudou a todos e promoveu um ritual simples, mas profundamente vibrado e significativo.
Num determinado instante do ritual, na apoteose do mesmo, em tom baixo, sussurrando ao nosso ouvido, disse-nos:
- Arapiaga, meu Filho, sempre fostes fiel ao meu cavalo e ao Astral, mas sabeis também que a tarefa de meu cavalo não foi fácil, e a vossa também não será… Não vos deixeis impressionar por aqueles que querem usurpar e só sabem trair… lembrai-vos de que Oxalá, o Mestre dos Mestres, foi coroado com uma coroa de espinhos… Que Oxalá abençoe vossa jornada, estarei sempre convosco…
Em uma madeira de cedro, deu-nos um Ponto Riscado, cravou um ponteiro e, ao beber o vinho da Taça Sagrada, disse-nos:
- Podes beber da Taça que dei ao meu Cavalo – ao beberes, seguirás o determinado… que Oxalá te abençoe sempre!
A seguir, em voz alta, transmitiu-nos o comando magístico vibratório de nossa Raiz…
Caro leitor, em poucas palavras, foi assim o ritual de transmissão de comando, que, com a aquiescência de Pai Guiné, temos gravado em videocassete em várias fotografias.
Alguns dias após o ritual, Pai Matta mostrou-nos um documento com firma reconhecida, no qual declarava que nós éramos seu representante direto, em âmbito nacional e internacional (?!) Sinceramente, ficamos perplexo!…
Na ocasião não entendíamos o porquê de tal precaução, mesmo porque queríamos e queremos ser apenas nós mesmos, ou seja, não ser sucessor de ninguém, quanto mais de nosso Mestre. Talvez, por circunstância Astral, Ele e Pai Guiné não pudessem deixar um hiato, onde usurpadores vários poderiam, como aventureiros, aproveitar-se para destruir o que Eles haviam construído! Sabiam que, como sucessor do grande Mestre, eu não seria nada mais que um fiel depositário de seus mananciais doutrinários!
Quem nos conhece a fundo sabe que somos desimbuídos da tola vaidade! Podemos ter milhares de defeitos, e realmente os temos, mas a vaidade não é um deles, mormente nas coisas do Espiritual. Não estaríamos de pé, durante 33 anos de lutas e batalhas, se o Astral não estivesse conosco… Assim, queremos deixar claro a todos que, nem ao Pai Guiné ou ao Pai Matta, em momento algum, solicitamos isto ou aquilo referente a nossa Iniciação e muito menos à sua sucessão… Foi o Astral quem nos pediu (o videocassete mostra) e, como sempre o fizemos, a Ele obedecemos… Mas o que queremos, em verdade, é ser aquilo que sempre fomos: nós mesmos. Não estamos atrás de status; queremos servir… Queremos ajudar, como outros, a semeadura, pois quem tem um pingo de esclarecimento sabe que amanhã…
Texto retirado do Livro Fundamentos Herméticos de Umbanda . (Mestre Arhapiagha - Pai Rivas – Editora Ícone – 1996)