sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Trabalho desenvolvido para atender ao meu mestrado...



Resenha
Postura corporal, estética emocional e
memória na religiosidade cristã
por OSVALDO OLAVO ORTIZ SOLERA
Introdução
Nesta resenha será feito um recorte da dissertação de mestrado de Max Ruben Tavares de Pina Ramos -  Postura corporal, estética emocional e memória na religiosidade cristã de 2008, onde o autor introduz a abordagem da “antropologia do cristianismo” partindo das seguintes considerações:
“A produção antropológica tem correlação com o processo de conhecimento científico” ( p.4).
A pesquisa etnográfica pode “inventariar um conjunto de temáticas, que mostram ser pertinentes na compreensão da transmissão e aprendizagem religiosa” (p.6).
Temática
Para identificar as causas da expansão, no mundo, de um tipo de religiosidade, o autor passa a investigar as “posturas corporais” e uma específica “estética emocional”, na transmissão e aprendizado do cristianismo, no culto evangélico pentecostal. Além disso, ele pretende desvelar o efeito mnemônico, que penetra mais profundamente na “memória implícita”. Isso acontece especialmente, nas experiências ritualísticas, com maior intensidade emocional (p.18). E coloca a seguinte questão: É defensável falar em termos de uma epidemiologia das posturas corporais? Sem responder de imediato, o autor inicia a abordagem da emoção colocando-a no centro da religiosidade.
Recorte da dissertação
Para tanto, o autor baseia-se nos “modos de religiosidade” da teoria cognitiva do antropólogo Harvey Whitehouse (2004) que destaca dois aspectos da intensidade emocional:
O aspecto referente a uma forte intensidade emocional observável como predominante no “modo imagético”, no qual a prática religiosa pode suscitar estados alterados de consciência ou em certos casos propicia terríveis torturas. Neste “modo de religiosidade” os cultos e tradições são praticados regionalmente e por pequenos agrupamentos humanos.
A prática e a transmissão religiosa são feitas por meio de uma ação coletiva esporádica com certas coreografias, nas quais se destacam evocações de uma variedade de imagens, símbolos e sons, que provocam uma intensa estimulação das emoções e sensações. A participação desse intenso estado emocional pode despertar emoções, que produzem fortes laços de união entre os participantes atuantes desse pequeno grupo (p.11).

Outro aspecto de menor intensidade emocional é encontrado no “modo doutrinal” de transmissão nas “religiões oficiais” dispersas no mundo.  Nesse caso, Whitehouse considera que as emoções são afetadas por um modelo repetitivo, frequente, rotinizado de culto, acompanhado de complexa teologia. Esse modelo doutrinal atinge amplas comunidades. (p.12).

Nota-se a não separação entre a emoção e a razão na prática religiosa, afinal toda ritualização faz com que se atualize o mito ou o momento histórico/sagrado a ser relembrado. Todo este processo, que possui início, meio e fim, favorece a coletividade abrangida e suas crenças. Este vasto campo simbólico é desta forma mantido vivo pelos adeptos. No caso das religiões do livro, existe uma entrega, uma submissão ao Deus evocado.
Esta forma de louvação ou atos de contrição, vai desde o ajoelhar do crente, o levantar dos braços pedindo bênçãos, chegando até a auto flagelação.
Os leitores e leitoras interessadas em ampliar essa discussão transferindo-a para o Brasil poderão encontrar bons argumentos em duas obras:
DEL PRIORE, Mary. Religião e Religiosidade no Brasil Colonial. São Paulo: Ática, 1997.    Nesta obra a autora trata da fusão das normas oficiais ditadas pela igreja católica com as crenças e práticas populares, que resultou num movimento de recriação cultural com marcas permanentes na vida do povo brasileiro.

2-      GRUZINSKI, Serge. O Pensamento Mestiço. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. Trata-se de uma obra de caráter multidisciplinar lançada na França em 2000. Há duas citações, entre outras, que podem despertar a curiosidade do leitor: “um homem distinto é um homem misturado” de Montaigne, e outra “sou um tupi tangendo um alaúde”, frase dita por Macunaíma, o herói de Mario de Andrade.

Na abordagem de seu assunto central, postura corporal e estética emocional, o autor  questiona conforme proposto por Whitehouse: “O que as religiões têm de fazer ou ser para sobreviverem ou se perpetuarem”? (p.13). E passa a abordar a oração no âmbito do culto evangélico, no qual, segundo ele, a oração, enquanto ritual, está além de ser um canal de acesso a Deus, é um desempenho, “que segundo os fieis, os conduz a uma via transformativa e redentora” (p.29).
O autor questiona: Será esta condição de elevar o fiel a uma via transformativa e redentora é o que está produzindo o encantamento religioso e o respectivo crescimento do cristianismo pentecostal no mundo?
Pode-se considerar que a proposta teórica do autor concebe que as emoções vivenciadas nos momentos de oração para conversão e “renovação espiritual”, tornam-se um impulso que leva à real vivencia espiritual cristã.
Na oração comunicacional, o deslocamento num mesmo e preciso momento para a postura corporal de genuflexão acompanhado da estética emocional com a expressão de contrição são imprescindíveis, pois sem este meio poderoso de humilhar-se o poder da oração não adquire a força suficiente para que Deus ouça o suplicante e o “salve” ou “cure”. Também o poder de “transformar o mundo” não consegue seu efeito.
O autor percebeu bem esta necessidade e foi além, abordou com clareza a “virtude cristã axial” – o espírito quebrantado, em prostração com o afastamento da consciência objetiva, totalmente submissa à vontade divina na oração comunicacional ou individual. Este espírito subjugado é antônimo de elevar ou exaltar com louvor, é assim que há um movimento que percorre o caminho da prostração extrema para a exaltação eufórica, criando nesses dois momentos um ambiente de alta intensidade emocional.  
Este movimento de reevangelização, que com discursos inflamados privilegia a transmissão dos ensinamentos baseada no poder da oração, tem introduzido um novo modelo explicativo, para os acontecimentos mundiais. E vem transformar a “visão do mundo” tornando-a mais emotiva, em substituição da “visão do mundo” mais racional.
O autor, com o intuito de construir um modelo coerente e operativo para o estudo da religiosidade, com foco na aquisição, transmissão e contexto do conteúdo religioso lança-se na “antropologia da aprendizagem” e questiona-se “por que é que certas posturas corporais e estéticas emocionais específicas tiveram mais sucesso e foram mais contagiosas, mais atrativas que outras, e consequentemente, tiveram uma maior transmissão?”         

Finalização
A ação transformadora nos ritos que o autor disserta, prende-se ao "quebranto" do ser perante a divindade, acreditam eles que se mostrando submissos, alcançam as benesses das mesmas. A forte carga emocional que existe nestes momentos com certeza alteram o estado de consciência dos praticantes levando-os a atingirem os objetivos por eles almejados, estas posturas fazem parte de um conjunto de aspectos emocionais e cognitivos que levam o "fiel"  a um estado de euforia perante sua fé.
Partindo da premissa que o signo/símbolo fixa a ideia, a palavra determina e o gestual atrai, as formas utilizadas em conjunto ou não, com certeza atingem os objetivos de transmissão dos dirigentes e seus seguidores.
A palavra diálogo deriva de duas palavras gregas: dia, que significa por meio de, e logos que significa palavra. Portanto, diálogo quer dizer comunicação/transmissão por meio de palavras, posturas, expressões, atitudes. A comunicação/transmissão entre seres humanos é reconhecidamente difícil, quem dirá então com a Divindade[...].
Comunicar-se ou transmitir não é apenas dizer coisas, mas dizer-se. Ao comunicar partilha-se alguma coisa. Para realizar a comunicação é preciso entregar-se. É preciso dizer ao outro quem se é, para que realmente se possa saber quem se está sendo. A comunicação é o único caminho para a comunhão. Esta entrega testemunhada é o ápice da submissão ao Deus evocado.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Quem tem pai, tem avô...Tem raiz!


W. W. da Mata e Silva
Nascido em Garanhuns, Pernambuco, em 28.06.1917, talvez tenha sido o médium que maiores serviços prestou ao Movimento Umbandista, durante seus 50 anos de mediunismo. Não há dúvidas hoje, após 7 anos de sua passagem para outras dimensões da vida, que suas 9 obras escritas constituem as bases e os fundamentos mais avançados do puro e real Umbandismo.
Sua tarefa na literatura Umbandista, que fez milhares de simpatizantes e seguidores, iniciou-se no ano de 1956. Sua primeira obra foi Umbanda de Todos Nós – considerada por todos a Bíblia da Umbanda, pois transcendentais e avançados eram e são seus ensinamentos.

A 1ª Edição veio à luz através da Gráfica e Editora Esperanto, a qual situava-se, na época, à rua General Argôlo 230, Rio de Janeiro. O volume nº 1 dessa fabulosa e portentosa obra encontra-se em nosso poder, presenteados que fomos pelo insigne Mestre. Em sua dedicatória consta:
Rivas, esse exemplar é o nº 1. Te dou como prova do grande apreço que tenho por você, Verdadeiro Filho de Fé do meu Santuário – do Pai Matta – Itacurussá, 30.07.86
Dessa mesma obra temos em mãos as promissórias que foram pagas, por Ele, à Gráfica Esperanto, que facilitou o pagamento dos 3.500 exemplares em 180 dias ou 6 parcelas.
Vimos, pois, que a 1ª edição de Umbanda de Todos Nós, para ser editada, teve seu autor de pagá-la. A partir da 2ª edição a obra foi lançada pela Livraria Freitas Bastos. Atualmente a Editora Ícone é quem vem editando as obras de Matta e Silva.
Como não poderia deixar de ser, a Livraria Freitas Bastos teve a sensibilidade de perceber que estava de posse de um valioso tesouro e, como tal, valorizou-o e deu ao seu autor o respaldo necessário.
Umbanda de Todos nós agradou a milhares de Umbandistas, que encontraram nela os reais fundamentos em que poderiam se escudar, mormente nos aspectos mais puros e límpidos da Doutrina Umbandista. Mas, se para muitos foi um impulso renovador de fé e convicção, para outros, os interessados em iludir, em fantasiar e vender ilusões, foi um verdadeiro obstáculo às suas funestas pretensões, tanto que começaram a combatê-la por todos os meios possíveis e até à socapa. Quando perceberam que, ao combatê-la, estavam fazendo sua apologia e a maior das propagandas, enfureceram-se… Iniciaram o ataque contundente, através da baixa-magia… e, mais uma vez, sem sucesso!
Soubemos por ele que, realmente, foi uma briga astral, feroz… Além de ter contrariado interesses mesquinhos de determinados pseudos líderes umbandistas da época, também desagradou a um Astral inferior e todo um séquito de entidades atrasadas, as quais perceberam que com o lançamento e a aceitação da obra, seu império de ações negras e nefastas ficou seriamente ameaçado. Perceberam que, com a Luz do esclarecimento se manifestando, não haveria mais lugar para a ignorância, faltando, pois, substrato às Sombras, fonte primária e primeira de suas ações funestas.
Realmente, foi uma luta Astral, uma demanda, em que as Sombras e as Trevas utilizaram-se de todos os meios agressivos e contundentes que possuíam, arrebanhando para as suas fileiras do ódio e da discórdia tudo o que de mais nefando e trevoso encontrassem, quer fosse encarnado ou desencarnado.
Momentos difíceis assoberbaram a rígida postura do Mestre, que muitas vezes, segundo ele, sentiu-se balançar. Mas não caiu!… E os outros? Ah! os outros…
Na época, alguns arrivistas incapazes e despeitados, aproveitando-se de uma palestra pública, preferida austeramente pelo Mestre Matta, fotografaram-no centenas de vezes, com a vil, baixa e torpe intenção de poder atingi-lo através de rituais inferiores que, é claro, só têm aceite para os Magos Negros e seus Planos e Sub-Planos afins. Não tiveram os mínimos escrúpulos, atacaram-no de todas as formas, queriam matá-lo, eliminá-lo, somente por ele ter alertado a grande massa popular que campeava por esses ditos terreiros. Tais indivíduos queriam se beneficiar de todas as formas, para conseguir isto ou aquilo, precisando usar o povo como massa de manobra, a fim de levá-los a cargos, a situações para as quais não detinham merecimento ou capacidade.
Decepcionado com a recepção desses verdadeiros opositores, renhidos e fanáticos, à sua obra, Matta e Silva resolveu cruzar suas armas, que eram sua intuição, sua visão astral, calcada na lógica e na razão, e sua máquina de escrever… Embora confiasse no Astral, que o escolhera para a árdua e penosa tarefa, por intermédio desse mesmo Astral obteve Agô para um pequeno recesso, onde encontraria mais forças e alguns raros e fiéis aliados que o seguiriam no desempenho da missão que ainda o aguardava.
Na época, não fosse por seu Astral, Matta e Silva teria desencarnado…Várias vezes, disse-nos, só não tombou porque Oxalá não quis… Muitas vezes precisou dormir com sua gira firmada, pois ameaçavam-no de levá-lo durante o sono… Imaginem os leitores amigos os assaltos que devem ter assoberbado o nobre Mestre Matta e Silva…
Seus 2 filhos, Ubiratan e Eluá, também sofreram, embora de forma leve, as rebarbas dos entrechoques de ordem astral que, em avalanche, desceram e atingiram a família do ilustre Mestre. A demanda foi feroz, sendo que, de seus perseguidores, a maioria recebeu segundo a Lei…
Pai Cândido, que logo a seguir denominou-se como Pai Guiné, assumiu toda a responsabilidade pela manutenção e reequilibro astrofísico de seu Filho, para em seguida orientá-lo na escrita de mais um livro. Sim, aí lançou-se, através da Editora Esperanto, Umbanda – Sua Eterna Doutrina, obra de profunda filosofia transcendental. Até então, jamais haviam sido escritos os conceitos esotéricos e metafísicos expostos. Brilhavam, como ponto alto em sua doutrina, os conceitos sobre o Cosmo Espiritual ou Reino Virginal, as origens dos Seres Espirituais, etc… Os Seres Espirituais foram ditos como sendo incriados e, como tal, eternos.
Devido a ser muito técnica, Umbanda – Sua Eterna Doutrina agradou aos estudiosos de todas as Correntes. Os intelectuais sentiram peso em seus conceitos, sendo que, para dizer a verdade, passou até certo ponto desapercebida pela grande massa de crentes e mesmo pelos ditos dirigentes umbandistas da época.
Ainda não se esgotara a primeira edição de Sua Eterna Doutrina e Pai Matta já lançava outra obra clássica, que viria a enriquecer ainda mais a Doutrina do Movimento Umbandista. Complemento e ampliação dos conceitos herméticos esposados por Sua Eterna Doutrina, o novo livro, Doutrina Secreta de Umbanda, agradou mais uma vez a milhares de pessoas.
Não obstante suas obras serem lidas não só por adeptos umbandistas, mas também por simpatizantes e mesmo estudiosos das ditas Ciências Ocultas, seu Santuário, em Itacurussá, era freqüentado pelos simples, pelos humildes, que sequer desconfiavam ser o velho Matta um escritor conceituado no meio umbandista. Em seu Santuário, Pai Matta guardou o anonimato, vários e vários anos, em contato com a natureza e com a pureza de sentimentos dos simples e humildes. Ele merecera essa dádiva, e nessa doce Paz de seu terreirinho escreveria mais outra obra, também possante em conceitos.
Assim nasceu Lições de Umbanda e Quimbanda na Palavra de um Preto-Velho, obra mediúnica que apresenta um diálogo edificante entre um Filho-de-Fé (Zi-Cerô) e a Entidade Espiritual que se diz Preto-Velho. Obra de nível, mas de fácil entendimento, sem dúvida foi um marco para a Doutrina do Movimento Umbandista.
Após 4 obras, Matta e Silva tornou-se por demais conhecido, sendo procurado por simpatizantes de todo o Brasil. Embora atendesse a milhares de casos, como em geral são atendidos em tantos e tantos terreiros por este Brasil afora, havia em seu atendimento uma diferença fundamental: as dores e mazelas que as humanas criaturas carregam eram retiradas, seus dramas equacionados à luz da Razão e da Caridade, fazendo com que a Choupana do Velho Guiné quase todos os dias estivesse lotada.
Atendia também aos oriundos de Itacurussá – na ocasião uma cidade sem recursos – que, ao necessitarem de médico, e não havendo nenhum na cidade, recorriam ao Velho Matta.
Este, com sua bondade e caridade, a todos ministrava medicamentos da flora local, e mesmo alopatias simples, que ele mesmo comprava quando ia à cidade do Rio de Janeiro. Ficou conhecido como curandeiro, e sua fama ultrapassou os limites citadinos, chegando às ilhas próximas, de onde acorriam centenas de sofredores de vários matizes. Durante exatos 10 anos Matta e Silva cumpriu essa tarefa, que transcendia a suas funções sacerdotais…
Como se vê, é total iniquidade e falta de conhecimento atribuir a Matta e Silva e pecha de elitista. Suas obras são honestas, sinceras, reais, e revelam em suas causas o hermetismo desta Umbanda de Todos Nós. Segundo sapientíssimos mentores de nossa corrente, seus livros levarão mais de 50 anos para serem completamente assimilados e colocados em prática. É necessário que nos preparemos para esse Evento de Luz Redentora da Nova Era do 3º milênio. As obras de W.W. da Matta e Silva preparam, ajustam e apontam para a Umbanda do 3º milênio. Preparemo-nos, caso contrário…
Continuando a seguir a jornada missionária de Pai Matta, vamos encontrá-lo escrevendo mais uma obra: Mistérios e Práticas da Lei de Umbanda. Logo a seguir, viria Segredos da Magia de Umbanda e Quimbanda. A primeira ressalta de forma bem simples e objetiva as raízes míticas e místicas da Umbanda. Aprofunda-se no sincretismo dos Cultos Afro-Brasileiros, descortinando o panorama do atual Movimento Umbandista. A segunda aborda a Magia Etéreo-Física, revela e ensina de maneira simples e prática certos rituais seletos da Magia de Umbanda. Constitui obra de cunho essencialmente prático e muito eficiente.
Nesse instante de nossa descrição, pedimos tolerância e paciência ao prezado leitor, pois queremos dar ao mesmo uma real noção da cronologia das obras do grande Mestre. Acreditamos que, assim fazendo, estaremos sintonizando-nos ainda mais, permitindo ao caro leitor penetrar no âmago de nossa mensagem.
Prosseguindo, chegamos a Umbanda e o Poder da Mediunidade. Nessa obra entenderemos como e porque ressurgiu a Umbanda no Brasil. Ela aponta as verdadeiras origens da Umbanda. Fala-nos da magia e do médium-magista. Conta-nos, em detalhes, ângulos importantíssimos da magia sexual. Há nesse livro uma descrição dantesca sobre as zonas cavernosas do baixo astral, revelando covas com seus magos negros que, insistentemente, são alimentados em suas forças por pensamentos, atos e até por oferendas grosseiras das humanas criaturas.
Após 7 obras, atendendo a numerosos pedidos de simpatizantes, resolveu o Mestre, em conjunto com a Editora Freitas Bastos, lançar um trabalho que sintetizasse e simplificasse todas as outras já escritas. Assim surgiu Umbanda do Brasil, seu oitavo livro. Agradou a todos e, em 6 meses, esgotou-se. Em 1975 lançaria o Mestre sua última obra: Macumbas e Candomblés na Umbanda. Esse livro é um registro fidedigno de vivências místicas e religiosas dos chamados Cultos Afro-Brasileiros. Constitui um apanhado geral das várias unidades-terreiros, as quais refletem os graus consciencionais de seus adeptos e praticantes. Ilustrado com dezenas de fotografias explicativas, define de maneira clara e insofismável a Umbanda popular, as Macumbas, os Candomblés de Caboclo e dá noções sobre Culto de Nação Africana, etc.
O leitor atento deve ter percebido que, durante nossos dezoito anos de convivência iniciática, e mesmo de relacionamento Pai-Filho com o Pai Matta, algumas das fases que citamos nós a presenciamos in loco…
Conhecemo-lo em 1971 quando, após ler Umbanda de Todos Nós, tivemos forte impulso de procurá-lo. Na ocasião morávamos em São Paulo. Fomos procurá-lo em virtude de nosso Astral casar-se profundamente com o que estava escrito naquele livro, principalmente sobre os conceitos relativos às 7 linhas, modelo de ritual e a tão famosa Lei de Pemba. Assim é que nos dirigimos ao Rio de Janeiro, sem saber se o encontraríamos. Para nosso regozijo, encontramo-lo na Livraria Freitas Bastos da rua 7 de Setembro.
Quando nos viu, disse que já nos aguardava, e porque tínhamos demorado tanto?!
Realmente ficamos perplexo, deslumbrado… parecia que já o conhecíamos há milênios… e, segundo Ele, conhecíamo-nos mesmo, há várias reencarnações…
A partir dessa data, mantivemos um contato estreito, freqüentando, uma vez por mês, a famosíssima Gira de Pai Guiné em Itacurussá – verdadeira Terra da Cruz Sagrada, onde Pai Guiné firmou suas Raízes, que iriam espalhar-se, difundindo-se por todo o Brasil. Mas, voltando, falemos de nosso convívio com o insigne Mestre.
Conhecer Matta e Silva foi realmente um privilégio, uma dádiva dos Orixás, que guardo como sagrado no âmago de meu Ser. Nesta hora, muitos podem estar perguntando:
- Mas, como era esse tal de Matta e Silva?
Primeiramente, muito humano, fazendo questão de ressaltar esse fato. Aliás, era avesso ao endeusamento, mais ainda à mitificação de sua pessoa. Como humano, era muito sensível e de personalidade firme, acostumado que estava a enfrentar os embates da própria vida… Era inteligentíssimo!
Tinha os sentidos aguçadíssimos… Mas era um profundo solitário, apesar de cercarem-no centenas de pessoas. Seu Espírito voava, interpenetrando e interpretando em causas o motivo das dores, sofrimentos e mazelas várias…
A todos tinha uma palavra amiga e individualizada. Pai Matta não tratava casos, tratava Almas… e, como tal, tinha para cada pessoa uma forma de agir, segundo o seu grau consciencional próprio!
Sua cultura era exuberante, mas sem perder a simplicidade e originalidade. De tudo falava, era atualizadíssimo nos mínimos detalhe.  Discutia ciência, política, filosofia, arte, ciências sociais, com tal naturalidade que parecia ser Mestre em cada disciplina. E era!…
Quantas e quantas vezes discutíamos medicina e eu, como médico, confesso, tinha de me curvar aos seus conceitos, simples mas avançados…
No mediunismo era portentoso. Seu pequeno copo da vidência parecia uma televisão tridimensional!  Sua percepção transcendia! Na mecânica da incorporação, era singular seu desempenho! Em conjunto simbiótico com Pai Guiné ou Caboclo Juremá, trazia-nos mensagens relevantes, edificantes e reveladoras, além de certos fenômenos magistícos, que não devemos citar.
Assim, caro leitor, centenas de vezes participamos como médium atuante da Tenda de Umbanda Oriental, verdadeira Escola de Iniciação à Umbanda Esotérica de Itacurussá, na Rua Boa Vista, 157, no bairro de Brasilinha.
A Tenda de Umbanda Oriental (T.U.O.) era um humilde prédio de 50 m . Sua construção, simples e pobre, era limpa – e rica em Assistência Astral. Era a verdadeira Tenda dos Orixás… Foi aí, nesse recinto sagrado, onde se respirava a doce Paz da Umbanda, que, em 1978, fomos coroado como Mestre de Iniciação de 7º grau e considerado representante direto da Raiz de Pai Guiné, em São Paulo. Antes de sermos coroado é claro que já havíamos passado por rituais que antecedem a “Coroação Iniciática”.
É necessário frisar que, desde 1969, tínhamos nossa humilde choupana de trabalhos umbandísticos, em São Paulo, onde atendíamos centenas de pessoas, muitas das quais enviadas por Pai Matta. Muitos deles, os que vieram, tornaram-se médiuns de nossa choupana, a Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino.
Muitas e muitas vezes tivemos a felicidade e a oportunidade ímpares de contarmos com a presença de Pai Matta em nossa choupana, seja em rituais seletos ou públicos e mesmo em memoráveis e inesquecíveis palestras e cursos. Uma delas, aliás, constitui acervo do arquivo da Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino: uma fita de videocassete em que seus “netos de Santé” fazem-lhe perguntas sobre sua vida, doutrina e mediunismo… Constam ainda de nossos arquivos centenas e centenas de fotos, tiradas em São Paulo, Rio de Janeiro e em outros e vários locais…
Para encerrar esta longa conversa com o prezado leitor, pois se continuarmos um livro de mil páginas não seria suficiente, relatemos a última vez que Pai Matta esteve em São Paulo, isto em dezembro de 1987.
Em novembro de 1987 estivemos em Itacurussá, pois nosso Astral já vinha nos alertando que a pesada e nobre tarefa do Velho Mestre estava chegando ao fim… Surpreendeu-nos, quando lá chegamos, que ele nos chamou e, a sós e em tom grave, disse-nos:
- Rivas, minha tarefa está chegando ao fim, o Pai Guiné já me avisou… Pediu-me que eu vá a São Paulo e lá, no seu terreiro, ele baixará para promover, em singelo ritual, a passagem, a transmissão do Comando Vibratório de nossa Raiz…
Bem, caro leitor, no dia 2 de Dezembro, um domingo, nosso querido Mestre chegava do Rio de Janeiro. Hospedando-se em nossa residência, assim como fazia sempre que vinha a São Paulo, pediu-nos que o levássemos a um oftalmologista de nossa confiança, já que havia se submetido sem sucesso a 3 cirurgias paliativas no controle do glaucoma (interessante é que desde muito cedo começou a ter esses problemas, devido a…).
Antes disso, submetemo-lo a rigoroso exame clínico cardiológico, onde diagnosticamos uma hipertensão arterial acompanhada de uma angina de peito, estável. Tratamo-lo e levamo-lo ao colega oftalmologista. Sentíamos que ele estava algo ansioso, e na ocasião disse-nos que Pai Guiné queria fazer o mais rápido possível o ritual. Disse-nos também que a responsabilidade da literatura ficaria ao nosso cargo, já que lera Umbanda – A Proto-Síntese Cósmica e Umbanda – Luz na Eternidade, vindo a prefaciar as duas obras. Pediu-nos que fizéssemos o que o Sr. 7 Espadas havia nos orientado, isto é, que lançássemos primeiro Umbanda – A Proto Síntese Cósmica. Segundo Pai Matta, esse livro viria a revolucionar o meio Umbandista e os que andavam em paralelo, mormente os ditos estudiosos das ciências esotéricas ou ocultas. Mas, para não divagarmos ainda mais, cheguemos já ao dia 7 de dezembro de 1987.
A Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino, com todo seu corpo mediúnico presente, se engalanava, vibratoriamente falando, para receber nosso querido Mestre e, muito especialmente, Pai Guiné
Às 20 horas em ponto adentramos o recinto sagrado de nosso Santuário Esotérico. Pai Matta fez exortação, dizendo-se feliz de estar mais uma vez em nosso humilde terreiro, e abriu a gira. Embora felizes, sentíamos em nosso Eu que aquela seria a última vez que, como encarnado, nosso Mestre pisaria a areia de nosso Congá. Bem…Pai Guiné, ao baixar, saudou a todos e promoveu um ritual simples, mas profundamente vibrado e significativo.
Num determinado instante do ritual, na apoteose do mesmo, em tom baixo, sussurrando ao nosso ouvido, disse-nos:
- Arapiaga, meu Filho, sempre fostes fiel ao meu cavalo e ao Astral, mas sabeis também que a tarefa de meu cavalo não foi fácil, e a vossa também não será… Não vos deixeis impressionar por aqueles que querem usurpar e só sabem trair… lembrai-vos de que Oxalá, o Mestre dos Mestres, foi coroado com uma coroa de espinhos… Que Oxalá abençoe vossa jornada, estarei sempre convosco…
Em uma madeira de cedro, deu-nos um Ponto Riscado, cravou um ponteiro e, ao beber o vinho da Taça Sagrada, disse-nos:
- Podes beber da Taça que dei ao meu Cavalo – ao beberes, seguirás o determinado… que Oxalá te abençoe sempre!
A seguir, em voz alta, transmitiu-nos o comando magístico vibratório de nossa Raiz…
Caro leitor, em poucas palavras, foi assim o ritual de transmissão de comando, que, com a aquiescência de Pai Guiné, temos gravado em videocassete em várias fotografias.
Alguns dias após o ritual, Pai Matta mostrou-nos um documento com firma reconhecida, no qual declarava que nós éramos seu representante direto, em âmbito nacional e internacional (?!) Sinceramente, ficamos perplexo!…
Na ocasião não entendíamos o porquê de tal precaução, mesmo porque queríamos e queremos ser apenas nós mesmos, ou seja, não ser sucessor de ninguém, quanto mais de nosso Mestre. Talvez, por circunstância Astral, Ele e Pai Guiné não pudessem deixar um hiato, onde usurpadores vários poderiam, como aventureiros, aproveitar-se para destruir o que Eles haviam construído! Sabiam que, como sucessor do grande Mestre, eu não seria nada mais que um fiel depositário de seus mananciais doutrinários!
Quem nos conhece a fundo sabe que somos desimbuídos da tola vaidade! Podemos ter milhares de defeitos, e realmente os temos, mas a vaidade não é um deles, mormente nas coisas do Espiritual. Não estaríamos de pé, durante 33 anos de lutas e batalhas, se o Astral não estivesse conosco… Assim, queremos deixar claro a todos que, nem ao Pai Guiné ou ao Pai Matta, em momento algum, solicitamos isto ou aquilo referente a nossa Iniciação e muito menos à sua sucessão… Foi o Astral quem nos pediu (o videocassete mostra) e, como sempre o fizemos, a Ele obedecemos… Mas o que queremos, em verdade, é ser aquilo que sempre fomos: nós mesmos. Não estamos atrás de status; queremos servir… Queremos ajudar, como outros, a semeadura, pois quem tem um pingo de esclarecimento sabe que amanhã…
Texto retirado do Livro Fundamentos Herméticos de Umbanda . (Mestre Arhapiagha - Pai Rivas – Editora Ícone – 1996)

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A verdade e as versões





Este texto foi dado para análise e posterior considerações por um professor de meu mestrado e compartilho com os amigos do blog no intuito apenas de levar  o conhecimento aos que  assim  desejam, vale a pena conferir e  fazer reflexões a respeito.

A verdade e as versões
Luiz Carlos Susin
Que é a verdade?” (Pilatos)
 “Não há fatos, só há interpretações”: esta afirmação de Nietzsche profetiza o que marcaria o último século não apenas a respeito dos fatos, mas da verdade dos fatos: não haveria propriamente “a verdade” – sobretudo assim, dita no singular – pois o que há, de fato, são muitas interpretações, muitas versões reais ou possíveis. Então, quanto muito se pode conceder que haja “verdades”, no plural. Tantas haveria quantas versões? Seria demasiado, mas esse “excesso” - excesso de versões - faz parte de nosso tempo pluralista, época da informação, da notícia, da interpretação dos fatos e até da sua mercantilização. Não é de estranhar que acabem se desencadeando guerras entre as versões: elas são normalmente movidas por conflitos de interesses. Nesse caso, a primeira vítima é a própria verdade. Foi o caso de Jesus.  
A pergunta de Pilatos a Jesus – “que é a verdade?” – pairou no ar. Jesus acabara de fazer uma provocação: “Para isto eu nasci e para isto eu vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz”. Pilatos então retrucou com sua pergunta – “que é a verdade?” - mas não esperou resposta alguma: “tendo dito isto, foi ao encontro dos judeus...”(Cf. Jo 18, 37-38). Pode-se suspeitar seriamente que Pilatos ironizava, pois já tinha a sua versão. Como os chefes de Jerusalém também tinham a sua versão. O testemunho de Jesus a respeito da verdade seria mais uma versão, certamente a menos interessante para Pilatos. O que parece confirmar a conclusão de Nietzsche: “Não há fatos, só há interpretações”. É dele também a conclusão de que só é verdadeiro o que interessa para a vida.
Em tempos que são chamados “pós-metafísicos”, dos quais Nietzsche é um profeta que causa vertigens, parece, de fato, que não se consegue pensar em uma verdade transcendente acima da multiplicidade e da dispersão das interpretações e dos interesses, nem estabelecer a verdade de modo definitivo, eterno e imortal, como aspiravam os grandes filósofos gregos e os primeiros teólogos do cristianismo. Em tempos pos-modernos só se consegue permanecer numa paisagem “meteorológica” da verdade, paisagem com pouca estabilidade e muita surpresa. É sintomático que a meteorologia tenha se transformado em uma notícia diária cheia de charme, um verdadeiro “paradigma” tecido de possibilidades contínuas de variações.
Dessa forma, o caminho a percorrer neste capítulo já está sugerido: vamos passear pela paisagem posmoderna das versões mesmo que não se consiga atingir os fatos, e vamos em busca da verdade por clareiras que esperamos serem cada vez maiores até chegarmos a uma paisagem que descortine a amplidão imensa da verdade e suas fontes e a complexidade de sua comunicação.  

<!--[if !supportLists]-->1.      <!--[endif]-->O coração na pele e a revelação na máscara.
“O mais profundo é a pele” (Gilles Deleuze) é algo tão verdadeiro como a constatação de que a intimidade está no corpo mais do que na alma. Por isso a violação da pele é a violação da intimidade, e a revelação ou o recolhimento da intimidade coincide com o desnudamento ou o encobrimento da pele. Vamos usar aqui a pele como uma metáfora, uma figura que pode nos dizer algo mais. Não é “sob” a pele, numa interioridade ou num alem dela que se encontra a verdade de alguém que a pele protegeria. De fato, a pele marca o “dentro” e o “fora”, o corpo e o além do corpo. Mas ela é também o lugar de comunicação e de transparência ao mesmo tempo em que é revestimento de pudor e recolhimento do que está dentro. Assim como é lugar de sensibilização e de comunhão em relação ao que está fora ao mesmo tempo em que é lugar de distanciamento e defesa do que está dentro. A pele é lugar de toque e de reação ao toque. A pele respira, palpita, é lugar de nutrição e de excreção. A novidade posmoderna é que o coração, o centro, o mistério, a interioridade, a profundidade, tudo isso foi parar na pela, está nesta ambivalência da pele. Nela está a ambigüidade de notícia e verdade, nela as versões que se desdobram e a realidade que dá sustento às versões, se fundem: O que aparece, é! Se não fosse, não apareceria. É fácil constatar que as coisas mais profundas que a palavra não consegue pronunciar, a cor da pele revela, às vezes até precipitadamente.<!--[if !supportFootnotes]-->[2]<!--[endif]-->
Sem palavras ainda, a pele é fonte de ambigüidades. Que aumenta se a pele se comunica revestida de máscaras. A máscara é outra poderosa metáfora de comunicação ambivalente, colada à pele.
A máscara pode ser compreendida a partir de dois usos: a máscara de carnaval e a máscara ritual. A máscara de carnaval é utilizada, ao menos conforme o antigo uso dos bailes de máscara, para esconder. Permite, assim, o jogo das identidades e das relações ambíguas sob a proteção da verdade mascarada. Portanto, sua primeira função é esconder a verdade, introduzir a fantasia e a ilusão que deixam a verdade à mercê da ambiguidade. Mas justamente em pleno carnaval, a máscara pode ter a função oposta, a de revelar e expressar quem realmente se é e o que realmente se sente. Assim, por exemplo, a moça que trabalha o ano inteiro como faxineira, sob o peso de uma máscara cotidiana de gata borralheira, quando põe seus enfeites de porta-estandarte ou de princesa do Congo, permite vir à tona o que ficou escondido todos os outros dias do ano e pode finalmente se revelar em sua verdade mais íntima: a princesa sob a espessura da empregada doméstica. E isso nos remete à função ritual da máscara nos ritos de muitos povos tradicionais: elas são usadas como expressão simbólica de uma identidade profunda, revelação de realidades que permanecem ocultas ao cotidiano e que só se expressam em tempos especiais. Nesse sentido, a máscara, que pode ser uma simulação, também pode ser um rosto mais profundo e mais autêntico.
Os nossos tempos posmodernos, em que as imagens ultrapassam as palavras, parecem exigir máscaras cada vez mais sofisticadas e continuadas, num carnaval cada vez mais extenso e intenso: é a comunicação exasperada por imagens que melhorem o cotidiano. Um pequeno exemplo, contado no opúsculo O que é o posmoderno<!--[if !supportFootnotes]-->[3]<!--[endif]--> ajuda a compreender: Uma senhora encontra sua amiga levando pela mão a própria filha e a elogia – “como está linda a sua filha!” – e a outra retruca: “Isso não é nada, precisa ver as fotografias dela!”. Portanto, a menina é mais bonita em um book de fotos do que em carne e osso, a fotografia esteticamente mais real do que a brutal realidade do cotidiano, a imagem ou a cópia melhor do que a realidade que lhe corresponde. Que as fotos sejam hoje mais bonitas do que a realidade de uma paisagem ou de um rosto, é algo que assimilamos com ingênua euforia. Afinal, as ferramentas do Fotoshop são para melhorar a imagem da realidade dura de nossos rostos enrugados e estressados ou de nossas paisagens suburbanas devastadas. Nessas imagens ainda se revela a nossa verdade? Até onde a máscara ainda exerce a sua boa função de revelação profunda? Em sua versão atual, ela é simulacro
Simulacros são signos ou imagens que só se referem a si mesmos. Afastaram-se tão distantes do real de onde partiram que já não remetem mais a realidade alguma além de si, sem referência ao modelo originário. Por isso todo simulacro tem o poder – a sua “virtualidade”, ou seja, força – de inverter a relação e se tornar “mais real do que a realidade”, mais ou menos como alguns casos de personagens de telenovela que se tornam critérios para julgar a verdade do cotidiano fora da tela. Não é mais a arte que imita a realidade, mas a realidade que imita - ou deve imitar – a arte. E isso nos lembra Platão. O filósofo grego advertia que a imitação – a mímisis, de onde provém a mímica – é como as representações no fundo da parede da caverna: não são meras cópias, pois tem poder de substituir a verdadeira realidade e se tornam a fonte da confusão e da violência entre os escravos da caverna. O que diria ele do mundo de imagens do grande espetáculo que se tornou a cultura posmoderna? Nessa sofisticada caverna de altas doses de imagens “virtuais” – com força de fascinação prometendo realidades mais reais do que a realidade de carne e osso - a primeira vítima é a verdade.
Em termos de luz e sombra, ficando ainda com Platão, é como se as sombras tivessem absorvido tanta luz a ponto de a luz se tornar sombra. Na caverna, a luz estaria colocada por trás dos escravos e o que eles viam parede – na tela – eram suas próprias imagens e as tomavam como sendo reais, um espelhamento sombrio. Mas também espelhamento em que o espelho “toma vida” e se torna senhor da realidade. Tornou-se freqüente, em nossos tempos, a patologia chamada transtorno disfórmico corporal (TDC): adolescentes que internalizaram forte juízo negativo a respeito de seus corpos olham-se no espelho e se vêem com toda certeza mais gordas do que realmente são. Tornam-se anoréxicas sem conseguir modificar a imagem de si que vêem no espelho e que continua a julgá-las severamente. Já a própria anorexia passou a ser o desejo freqüente de adolescentes que sonham atingir as passarelas, como se precisassem desaparecer como pessoas reais para se tornarem puros cabides de roupas de luxo: as roupas (luxuosas), então, valem mais do que o corpo, valem o sacrifício do corpo, ao inverso do dito de Jesus que exortava à confiança: “não é o corpo mais que a roupa?”(Mt 6,25b). A passarela, com seus holofotes, tornou-se um dos símbolos da posmodernidade contemporânea: lugar em que o espetáculo julga, inspira, ordena a realidade, lugar de heróis e heroinas voluntariamente sacrificadas por anorexia para se tornarem as deusas fashion que movem a realidade. Pedro Bial, da Rede Globo, saudou os fantásticos globais confinados na “casa-passarela” do Big Brother como “nossos heróis” – homenagem perfeita, segundo a teoria sacrificialista de René Girard: os melhores vão sendo provados e sacrificados na “casa-altar”: passam para a glória sem nenhuma razão anterior a não ser exatamente essa: a imolação aos olhos deslumbrados de uma nação inteira de fieis. Para o espanto ético de Platão.
É que Platão pensou que uma sociedade somente seria possível se houvesse a anterioridade de valores e formas de vida – os arquétipos, as “idéias” modelares, formadoras – para inspirarem e atuarem nas formas concretas de existir no mundo. Sua teoria das formas ou, mais popularmente, seu “mundo das idéias”, com uma anterioridade lógica e performativa sobre as realidades concretas deste mundo, tinha um objetivo ético parecido com as Constituições de um país, anterior e superior a tudo e a todos, como uma lei geral à qual estão todos submetidos sem exceção. Todos sob os mesmos arquétipos como sob as mesmas leis. Esta seria a forma – assim pensava Platão – de dar um ponto final no círculo bárbaro de ídolos e sacrifícios, de fascínio e confusão de imagens e de relações fetichistas com imitações de realidade. Em sua tentativa de implantar a República Platão fracassou, como Jesus foi sacrificado. E nos assombram ainda a fascinação dos ídolos e o frenesi dos sacrifícios.   
Entre as “idéias” do mundo platônico e os “ídolos” dos quais ele pretendia, na esteira de Sócrates, libertar com ética e razão, há uma relação íntima mas em desnível, em decadência. Idéia e ídolo têm a mesma estrutura, o “eidos”, a imagem, a forma, como produção e projeção mental. Há um salmo bíblico que descreve precisamente esta relação:
Os ídolos das nações são prata e ouro,
Obras de mãos humanas:
Tem boca, mas não falam;
Tem olhos, mas não vêem;
Tem ouvidos, mas não ouvem;
Não há sopro sequer em sua boca.
Os que os fazem ficam como eles,
Todos aqueles que neles confiam (Sl 135, 16-18).
Essa identificação entre os ídolos e os que os fazem é reveladora: por um lado, os ídolos, mesmo os que tem seus méritos como grandes artistas ou esportistas, etc, enquanto “ídolos” são uma produção coletiva do desejo que se projeta neles, e, por outro lado, os que projetam neles seus desejos poderão encontrar neles não as qualidades reais que sempre estão acompanhadas de defeitos reais, mas simplesmente, de novo, os seus desejos, o que leva da exaltação ao linchamento do ídolo. Seja em termos posmodernos e secularizados, seja em termos religiosos, os ídolos são um produto do desejo que se erige em simulacro no lugar da realidade ausente, e só pode levar à frustração. É inteiramente comparável à pornografia: nela, o desejo, ao invés de ir ao encontro da realidade, se dirige ao simulacro e busca satisfação com uma fascinante imagem que dá o golpe no final: é vazia e abandona à frustração e à solidão. Constatar que estamos num tempo de exacerbação da imagem a ponto de se tornar um simulacro é também constatar que são tempos de altas doses de idolatria e pornografia – onde a verdade é a primeira vítima.    

<!--[if !supportLists]-->2.      <!--[endif]-->O nome da rosa e as rosas sem nome
O jornalismo investigativo é um gênero de jornalismo relativamente recente. O repórter que investiga busca a verificação da notícia, a apuração do fato. Apurar significa frequentemente também depurar, separar o fato de aparências, de interpretações que despistam a sua verdade, de corrupções e de violências que vitimam a verdade, o que torna o jornalismo investigativo uma missão ética e perigosa. Nesse sentido, num mundo de muita imagem, de muita linguagem, de generalizações e de sistemas cada vez mais virtuais, um amplo caminho de investigação é o de apurar a realidade singular, o fato originário e a sua verdade.
Umberto Eco, filósofo e semiólogo italiano, criou uma situação exemplar desta busca em O nome da Rosa. No seu mais celebrado romance, ambientado no final da Idade Média, mais precisamente em 1325, a trama se desenrola em torno de um franciscano que tem o mesmo nome do mais conhecido representante do nominalismo radical e irônico, Guilherme de Ockam. Ele é chamado a investigar uma grande abadia envolvida em acontecimentos nebulosos, com um encadear-se de sinais premonitórios e de suspense. Em meio à perplexidade e à desconfiança geral, a verdade vai se desvendando muito gradativamente, como entre nuvens que vão se dissipando. O que parecia um grande e firme sistema de verdades é que está ameaçado pelo descontrole e pela crueza de assassinatos em série. O que fugiu de controle? Quem está matando? Quais as razões? Frei Guilherme, com seu jovem discípulo, deve buscar o “furo”, romper a cortina para verificar a realidade sob sintomas contraditórios e despistantes. É uma investigação ao mesmo tempo jornalística, policial, filosófica e, finalmente, teológica. No coração da abadia está uma biblioteca, e no recanto mais escondido da biblioteca está um livro que não pode ser aberto e lido, sob pena de se desmoronar todo o sistema de valores da inteira abadia e até do cristianismo. E, enfim, o responsável pelo desencadear-se da violência que, de qualquer forma abala e faz desmoronar tudo, é justamente o que menos se podia pensar, o mais zeloso dos monges – o guardião daquele livro perigoso e subversivo. Esta verdade singular, neste caso uma verdade trágica, põe em chamas um sistema de acobertamento de verdades e de violências.
O nosso personagem, Frei Guilherme, como de fato ocorreu com o movimento nominalista, buscava a verdade dos fatos singulares e reais – que causam inclusive mortes - sob o manto de um sistema de instituições de consagração universal, sustentado por verdades com pretensão de universalidade, que criam as condições para o assassinato e o escondem. O romance, cujo autor participa da aventura posmoderna de desvendar algo de verdade na linguagem e nas múltiplas interpretações, toma partido pelo nominalismo: sob os nomes gerais, universais, como também sob os sistemas sofisticados que construíram grandes e fascinantes sumas e catedrais, só há o nada: nomina nuda tenemus – nós temos apenas nomes, nomes nus.
Umberto Eco escolhe uma direção na investigação da verdade: a verdade singular, irredutível a um sistema de explicações, aquela que é a verdade de cada um, de cada fato, sem generalizações. É a verdade que se desvenda descendo do universal e do sistema, da instituição e dos códigos estabelecidos, ao singular. Mas na história do Ocidente, esta foi normalmente uma reação à outra direção da investigação sobre a verdade, aquela que busca estabelecer cada ser e cada verdade singular num quadro cada vez mais geral e coerente de sistemas. Tal percurso é feito através de classificações, de analogias, de hierarquias, enfim de uma totalidade. A verdade inteira só pode se dar no todo, no universal e, finalmente, no transcendental.
Para os nominalistas, tais verdades e tal linguagem universal eram apenas “nomes” e “sons de garganta”. Quanto muito, realidades “de razão”, que estão apenas na mente e na funcionalidade da linguagem. Frequentemente decaem em meras produções mentais – mentiras sofisticadas, sofismas. Mas não são mentiras inocentes: elas escondem interesses de poder e por isso oprimem e mandam à fogueira quem não se submete a elas. Os nominalistas medievais, mal vistos pelos representantes das instituições, tinham algo dos “cínicos” gregos, cuja figura mais popular é Diógenes: eles corroíam a linguagem dos sofistas revelando o quanto eram jogos de palavras, retórica sem real conteúdo e encobrimento de interesses. É o que hoje chamaríamos de ideologias. Voltando aos nominalistas: o que conta é a experiência singular, a verdade singular, a linguagem que diz cada coisa por seu nome.
No entanto, os “universalistas” medievais, como os gregos que aspiravam conceitos e teorias claras e bem estabelecidas, também tinham boas razões para tomarem esta direção toda vez que buscavam a verdade: se permanecemos simplesmente na singularidade e na originalidade, os fenômenos não ganham nem lógica e nem coerência, nem se explicam e nem se expressam, ficam afinal sem nome algum – “rosas sem nome”. Somente em quadros mais gerais, em paradigmas, em contextos, é possível conhecer com coerência a verdade de cada fato e cada ser singular. Em última análise, somente à luz de uma verdade transcendental é possível reverter a disseminação e a nebulosa de verdades múltiplas que se perderiam sem significado estável num relativismo cada vez mais aniquilador de qualquer verdade. O que adiantaria, então, investigar os fatos se não fosse possível compreende-los à luz de valores universais e de um horizonte mais amplo que lhes dá significado, seja para celebrar seja para lamentar ou mesmo punir? Que adiantaria, por exemplo, investigar e chegar ao autor exato de um crime de assassinato se não houvesse um código válido para uma inteira sociedade estabelecendo que assassinato é um crime? Portanto, investigar fatos singulares supõe ter referências gerais para reconhecê-los, avaliá-los, e coloca-los à disposição em uma notícia adequada. Não é possível emitir juízos de valor tendo apenas fatos singulares.  
Se um dia formos repórteres de jornalismo investigativo, deveríamos considerar, como em círculo, em uma dialética, esses dois pólos em que se manifesta a verdade: na sua singularidade e na sua referência a valores ou princípios ou ainda constituições de caráter universal. Só assim será possível “compreender” a verdade, compreender em duplo sentido: aclarar intelectualmente e também acolher eticamente. Por um lado, a singularidade do fato, a sua intrigante e original qualidade ou monstruosidade. E, por outro lado, o seu contexto mais global em que se pode ter uma luz mais justa para apreciar a sua verdade e compreende-la melhor. Um exemplo? Algo contemporâneo muito parecido com o exemplo do romance de Umberto Eco: em nosso tempo, a verdade de um crime em que a mãe acabou matando o filho adolescente com a arma do marido é algo tão monstruosamente singular que parece ultrapassar qualquer medida, qualquer contexto, qualquer referência. Por outro lado, como atenuante dessa singular monstruosidade sem explicação, está o fato de um filho adolescente viciado sem medida em crack que maltrata a ponto de enlouquecer a própria mãe. O crack, no entanto, é um contexto, uma contaminação em rede, em sistema, inclusive econômico e financeiro, que compõe hoje o paradigma do desejo sem limite, da fascinação e da pornografia generalizada de nosso tempo, e que tornou o jovem e a sua mãe antes vítimas e depois enredados em um assassinato. É nessa polarização que se pode compreender o nome de cada ator desta tragédia e compreender de modo justo, intelectualmente e éticamente, o triste acontecimento.         

<!--[if !supportLists]-->3.      <!--[endif]-->O poder e o encanto da verdade e a beleza da integridade.
A mais clássica das definições de verdade, desde Aristóteles, o filósofo que ficou com a fama de pai da lógica e da ciência, é que a verdade é uma relação de adequação da mente que conhece com a realidade conhecida. Se a minha mente tem uma noção adequada da mesa que está diante de mim, eu possuo a verdade da cadeira em minha mente. Se eu tenho as informações exatas de um fato eu posso comunicar estas informações para que outros também compartilhem comigo o conhecimento do fato. Isso é conhecer, ter, informar a verdade. Ter verdades, nesse caso, é ter um certo cabedal, é possuir uma riqueza que pode ser ainda mais enriquecida com novos conhecimentos, e, finalmente, é ter um poder.
É nesse sentido que “saber é poder”, embora Aristóteles pensasse somente em um poder ético, o de ter condições de, com informações justas, praticar atos justos. Foi Francis Bacon, nos inícios da modernidade, que pensou a verdade como um poder de domínio e de controle sobre o mundo. Com isso, fizemos progresso, mas este mesmo progresso esteve na raiz de todas as guerras modernas e agora está na raiz de nossa incansável guerra contra o equilíbrio feito de recursos limitados da terra. A verdade como “adequação” de nossa mente e de nossos conhecimentos à realidade que está fora de nós precisa urgentemente voltar à intenção original, a de ter informações seguras para agir com sabedoria e frear a loucura de um sistema de vida em que o conhecimento e as informações se tornaram propriedades intelectuais e produtos de mercado.
Heidegger, um dos mais representativos filósofos do século XX, chamou a atenção para uma fonte mais antiga e mais humana da verdade: a verdade como “manifestação” dos seres, antes e sem nos importarmos com a apropriação de informações. Em grego, a verdade podia ser chamada como aletheia. Mergulhando em sua etimologia, descobrimos em seu subterrâneo um eco mítico, a narrativa da passagem dos mortos pelo rio lethes, o rio do “esquecimento”. Segundo a narrativa, o escorrer das águas do rio sobre os pés dos mortos levavam consigo, aos poucos, todas as lembranças, e acumulava estas lembranças do outro lado, de tal forma que os vivos, como herdeiros de suas memórias, poderiam ainda se beneficiar dos saberes dos mortos. Por isso, a verdade como a-letheia é este des-velamento, a retirada do véu do esquecimento e a manifestação do que estava oculto. Há, então, um encantamento, uma maravilha, uma alegria, na descoberta da verdade, no saber que devolve à fonte, ao original. O trabalho de investigar, de desvendar, de comunicar, se torna um respeitoso “deixar ser” ou deixar aparecer a epifania luminosa de cada acontecimento. É acolher e comunicar para que outros participem do mesmo deslumbramento. Ou quando o que se desvela é doloroso e trágico, o acolhimento desta verdade e a sua comunicação criam compaixão e solidariedade. Não há neutralidade na comunicação da aletheia: a verdade, nesta altura, só pode ser compreendida numa relação de disposição e de simpatia, de envolvimento e afinação poética, mesmo quando a poesia é dura. Um bom jornalismo contém algo de poesia.
A verdade é criação: este é o sentido da verdade que ultrapassa a adequação da mente e a apropriação da informação. Em latim, a raiz ver que origina a ver-dade, significa em primeiro lugar “primavera”, o primeiro verde que eclode como nova criação depois do ocultamento incolor do inverno. O verde da primavera se manifesta irrompendo, se impondo de forma luxuriante e contagiante. Podemos imaginar o nosso filósofo Heidegger em seus passeios pela Floresta Negra em plena primavera meditando este fenômeno, o aparecer da verdade na paisagem. De fato, toda verdade, mesmo as verdades sofridas, fazem nascer sempre de novo a esperança e a confiança no futuro: a verdade tem força, tem vitalidade, e “o que deve ser, será”.
A verdade não permanece apenas em uma ecologia primaveril que reage a uma paisagem amortecida e devastada. Ela tem um fundo ético, é uma experiência de criação de espaços de vida humana, reportagem de esforços humanos que, através da solidariedade dos dons, criam futuro onde não mais parecia haver, como as tantas iniciativas junto aos jovens envolvidos em delinqüência ou perdidos em drogas, aos pobres em periferias, etc. Este tipo de reportagem é contagiante, é conspiradora e co-criadora, traz à tona a verdade “autêntica”, como o caso da faxineira que no carnaval revela a princesa que carrega dentro de si o seu eu mais autêntico. Este é um jornalismo poético, criador, que faz bem.
Nesse processo da verdade criativa, como a verdade da semente lançada à terra que já traz em si a verdade futura dos frutos, pode-se entender retamente a verdade da técnica. Os gregos avizinhavam poiesis e tecne, filhas e testemunhas da capacidade de criar. A tecnologia não é necessariamente um destino que nos joga em excessos de artificialidade e em perigo de escorregarmos para o “pós-humano” comandado por ciborgues. A tecnologia é criação e linguagem nossa, “filha” da nossa capacidade procriativa, e isso pode - e deve - ser pensado eticamente: criar com sabedoria, com intenção e finalidade ética, com medida eticamente traçada. Inclusive sabendo o que vale a pena criar e o que não vale a pena criar: em termos de procriação tecnológica - usando uma analogia - é necessário ter paternidade responsável e controle de natalidade. Um jornalismo atento ajuda a discernir, mostrando as boas experiências criadoras e seus benefícios, e denunciando as criações da tecnocracia louca. Afinal, em nome do humano, nem tudo o que é tecnicamente possível é eticamente permitido.     
Há também uma experiência importante da verdade ligada ao princípio de coerência e integridade, ou seja, de “não contradição”. Disse no início que vivemos num tempo de versões, de muitas interpretações. E o mais notável é que experimentamos diariamente versões contraditórias. O “contraditório”, os pontos de vista contrários, são uma verdadeira ferramenta da imprensa, no exercício da livre expressão e do debate em clima de democracia. Não há porque temer o contraditório dos pontos de vista no debate. Mas isso não significa que podemos aceitar uma disseminação de verdades contraditórias a ponto de chegarmos a uma insustentabilidade social. Aqui, de novo, nos ajuda uma interessante experiência medieval, antes do dilema de Galileu com as autoridades da Igreja de seu tempo. Averróis, filósofo árabe, não via como conciliar as verdades da filosofia de Aristóteles com as verdades dos textos sagrados. Hipotizou, então, a possibilidade de “verdades paralelas”: o que é verdade em um campo de conhecimento não é necessariamente verdade em outro. Tomás de Aquino, que também examinou o pensamento de Aristóteles e acreditava nas verdades bíblicas, percebeu o perigo de mundos paralelos cada vez mais contraditórios, e trabalhou no sentido de aproximar as diferentes verdades, confrontá-las, estabelecer relações ou ao menos níveis entre elas e não apenas respeitá-las em suas diferenças. É o que ele chamou de “mútua excitação” entre verdades da razão e verdades da fé. Ele permaneceu, assim, na tradição de Agostinho, de Anselmo e de tantos outros que acreditavam no diálogo entre razão e fé em vista da verdade. Mas não só da verdade: é o amor que tudo une e compreende, na preciosa lição de Agostinho. Galileu não teve a mesma sorte, e depois dele, por muito tempo, explorou-se o conflito e a pretensão de ter toda verdade do próprio lado. Hoje, além da aceitação da interdisciplinaridade, quando pontos de vista contrastantes são colocados sobre a mesma mesa, quando interlocutores com convicções diferentes aceitam dialogar, se está assumindo a postura de Tomás de Aquino e as discussões escolásticas, com a vantagem de se fazer um trabalho democrático que ultrapassa as paredes da academia.
Em última análise, a integridade e a unidade da verdade, sem falsidade e sem contradições, é um caminho e um horizonte para o qual se orienta o debate em busca da verdade. Toda vez que se consegue, há uma experiência de harmonia ética, portanto de beleza e de gratidão. Mas é necessário confessar com humildade que esta harmonia e esta integridade, em sua inteireza, é um horizonte último vislumbrado na esperança. Pode ser antecipado, porém, toda vez que fazemos um passo a mais no debate em torno da verdade e no respeito a quem tem informações e análises e inclusive convicções diferentes. Antecipa-se a harmonia da verdade na harmonia da convivência pacífica.    

4. É verdadeiro o que é bom - mas só é bom o que é verdadeiro
Nietzsche, a esfinge de nosso tempo, afirma sem rodeios que a verdade é, afinal, uma questão de afirmação daquilo que ajuda a humanidade. É verdadeiro aquilo que ajuda a viver, a ser feliz, a ser saudável, e deixa de ser verdadeiro aquilo que nos prejudica e nos desvitaliza. Ele consagra assim certo “pragmatismo” como critério de verdade. Qual é a religião verdadeira ou mais verdadeira? Aquela que ajuda a ser mais humano, mais justo, mais livre, mais compassivo. Como poderia ser verdadeira uma religião que gerasse angustia e fantasmas em nós? Há uma grande dose de razão nesse critério de verdade. Pois a verdade, como a bondade, deve repousar em alguma experiência conseqüente, um fim intrínseco.
Aristóteles consagrou a felicidade como finalidade do ser humano. É a eudemonía – bom espírito – a exaltação última do humano, de certa forma a sua verdade última. Já para os teólogos cristãos como Santo Agostinho e Duns Scotus, a bem-aventurança ou beatitude, portanto a felicidade, é tanto o destino último do humano como a razão de ser da graça e da comunhão divina. Kant, em tempos de afirmação do sujeito humano, insiste que o humano é fim em si mesmo, antecipando-se em contradizer a tendência moderna e posmoderna de transformar o humano em mão de obra e terminal de consumo. Esta situação oprime a verdade do ser humano.
É ilustrativo, aqui, um novo passeio pelo mundo medieval. Duas escolas se batiam fervorosamente no século XIII na escolha da precedência entre verdade e bondade – ou o “bem”, que, pela palavra latina cáritas, podia ser entendido também como “amor” e inclusive como “vontade”, pois o amor se manifesta na liberdade, na livre vontade. Os seguidores do dominicano Tomás de Aquino mostravam que era necessário primeiro conhecer para depois querer e amar: não se quer e não se ama o que não se conhece, e só se ama bem o que se conhece bem. Portanto, há uma precedência do conhecimento sobre o amor e sobre a vontade. Mas os seguidores do franciscano Duns Scotus retrucavam invertendo: não se conhece o que não se ama, e só se conhece bem o que se ama bem, na liberdade do querer. Portanto, há uma precedência do amor e da vontade sobre o conhecimento. Pois, acrescentavam os franciscanos, conhecimento sem amor é vaidade - é vazio. Hoje diríamos que conhecimento sem ética é um grande perigo. Pode-se pensar, nesse debate de escolas, que a questão parece aquela da galinha e do ovo: quem vem antes? Não se deveria pensar em círculo, simplesmente? O verdadeiro conhecimento é conduzido pelo amor e faz crescer o amor, e o verdadeiro amor é conduzido por um verdadeiro conhecimento e aprofunda o conhecimento.
O nosso tempo parece se guiar pela prioridade do “bem”, daquilo que faz bem, do que é bom: é verdadeiro o que é bom! Mas a confusão de bem com um hedonismo desbragado e com um individualismo feroz – antes de tudo o “meu” bem - ou simplesmente o frio pragmatismo que decide o bem e a verdade por eficácia ou por interesses, é necessário afirmar não apenas que é verdadeiro o que é bom e o que é prático, concordando de certa maneira com os franciscanos e com Nietzsche, mas também que, para saber realmente o que é bom, o que pode dar uma felicidade mais profunda e mais duradoura, o que pode dar mais vida, é necessário afirmar o contrário: é bom o que é verdadeiro, mesmo um remédio amargo. Donde aprender, então, o que é verdadeiro? É o que vai nos ocupar em seguida.  
 
5. O mágico e o vendedor de abóboras
Entre os mágicos em geral e os magos em particular, e entre os que praticam rituais, parece haver algo em comum: a criação de algo que a razão comum não explica. Trata-se de um conjunto de técnicas intrigantes, uma tecnologia que ultrapassa nossa compreensão, como, por exemplo, a de retirar coelhos de uma cartola que estava vazia. A Bíblia judaico-cristã é severa para com a magia, essa estranha tecnologia, e exige muita pureza de intenção dos que praticam rituais. A razão é simples: a prática mágica seria uma tentativa de imitação da criação divina, um simulacro da ação criadora que só a Deus compete, pois pretende criar a partir do nada, só com a palavra ou com o gesto leve, sem esforço e sem trabalho, sem o preço do suor e do tempo. Só Deus cria assim, e imitar a criação do nada é enganoso e coisa do demônio. O mágico só cria um “falso”, como certas obras que podem se parecer fantasticamente com o original mas não são autênticas.
O mágico é também um ilusionista, e por isso ele diverte, se torna figura de entretenimento, de circo. Os mestres do Talmud<!--[if !supportFootnotes]-->[4]<!--[endif]--> fazem distinções sobre o grau de gravidade na prática da magia. Se o mágico cria falsas abóboras porque é um ilusionista e diverte o público, não há gravidade nisso. Pelo contrário, há leveza e cumplicidade. A gravidade está no experto que aproveita as falsas abóboras e as coloca no mercado para obter poder e riquezas vendendo abóboras ilusórias. O ilusionismo perde a graça e resvala para o engano com prejuízos aos outros. No mercado de obras de arte há quem pague bom preço por “falsos”, mas sabe que está comprando falsos. Mas pagar bom preço por um engano é sentir-se roubado pela corrupção de um mercado que promete felicidade e abandona à frustração.
O filósofo judeu Emmanuel Levinas, que comenta os mestres do Talmud, pergunta sobre a ética das tecnologias cada vez mais complexas e sofisticadas, e junta imediatamente a elas a ética do marketing, que nos envolve e assedia insistentemente com promessas de felicidade através da propaganda de produtos, esta “alma do negócio”. Negócio de ilusões? A serpente do jardim do Éden foi grande marqueteira: fez a Eva a publicidade de um fruto “de bom aspecto”, mas depois do primeiro bocado nem Eva e nem Adão foram os mesmos, e até hoje se discute se foi para bem ou para mal, porque eles ficaram sabendo o que não sabiam: que eram mortais.  A publicidade e a tecnologia vendida e consumida são boas ou más? O critério mais disponível para um bom juízo está nas conseqüências, nos frutos.  Por exemplo, quando alguns ganham muito sem esforço correspondente e outros os pagam e não colhem a realização das promessas correspondentes, temos um problema com abóboras ilusórias no mercado. A criação de necessidades de consumo, a cultura da compulsão ao consumo, a necessidade de “ir às compras” para ter um êxtase de felicidade, tudo isso leva à sensação de se estar preso a uma cultura saturada de “falso”: falsa tecnologia, falsos produtos, falsa publicidade. Onde aconteceu o desvio? Quando as coisas substituíram as pessoas, quando, mais especificamente, as relações com as coisas substituíram as relações com os outros.   É aqui, de novo, que a primeira vítima é a verdade.
Como a tecnologia se tornou não apenas um instrumento mas um ambiente que nos envolve de tal forma que não distinguimos mais real e virtual, também não reconhecemos com facilidade a verdade das coisas, dos fatos e das conseqüências. Desde os materiais sintéticos até a multimídia, estamos plenos de um mundo criado por nós mesmos e por nossos ou alheios interesses. Como saber a verdade a respeito de sua real natureza e de suas conseqüências em nossas vidas? Podemos ter a sensação de estar imersos numa realidade surreal na qual flutuamos. Há um personagem de Dostoievski, em Irmãos Karamazov, que começa a sentir vertigens e aproximação da loucura na solidão de seu quarto, entregue sem controle às suas imaginações cada vez mais intensas e nebulosas, num crescendo exasperante, até que alguém bate à porta e lhe grita o nome: “Aliocha!”. Esta intervenção de outro o redime, desanuvia seus fantasmas e o devolve à realidade. Os outros devolvem à realidade dura, objetiva, sem ilusões, de apelo ético.  

6 A verdade entre discípulos e mestres: profecia, ensinamento e fidelidade.
Podemos, a esta altura, introduzir o que há de mais real e mais sublime na verdade, na busca e na comunicação da verdade: a relação que nos é oferecida pelos outros, por quem nos chama pelo nome, nos puxa pela manga, nos exige um ouvido e uma palavra: a verdade se dá, se revela, no relacionamento, no diálogo, na presença do outro. A verdade é um dom que se troca na conversação e no exercício de comunicação verdadeira. Na Escritura judaico-cristã, a verdade tem um caráter profético e um caráter de ensinamento. Enquanto profecia, a verdade é uma experiência divina que o profeta sente como o rugido de um leão (Amós, 3,8), ou seja, o próprio profeta não tem controle sobre ela, precisa comunicar com tremor e urgência. Mas é uma verdade “extraordinária”, em tempos e em situações extremas. No cotidiano dos dias, a verdade é um ensinamento, está disponível na relação de aprendizado entre mestres e discípulos.
Depois das lições de pedagogia de Paulo Freire não se pode mais permitir que alguém pense que há uma classe privilegiada de mestres que seria possuidora da verdade e uma classe de discípulos que nada sabe e deve se submeter aos mestres. Todos tem alguma verdade e algum saber, todos podem ensinar algo, e todos são discípulos, todos aprendem uns dos outros, inclusive entre gerações. Aqui está um dos aspectos mais interessantes do Talmud e do ensinamento judaico: o Talmud é um livro composto por uma infinidade de diálogos de mestres que buscam a verdade. Todos são mestres e citam, para seus ensinamentos, a autoridade de seus próprios mestres, ou seja, todos sabem que são também discípulos – “o mestre tal levantou-se e falou em nome do mestre tal...”. Aliás, a posição inicial e básica de cada um não é de mestre, mas de discípulo que cita seu mestre: é como discípulo que se aprende e se exercita o caminho da verdade, é como discípulo que se aprende também a ser portador da verdade, mestre em nome de outro mestre, sem cair na tentação da arrogância de se achar dono da verdade, mas simples servidor daquilo que se recebeu como verdadeiro.
Um profeta ou um mestre solitário, isolado, é criticado pelos mestres do Talmud como um “traficante de mentiras”. Sozinho, um mestre confundiria a verdade com a sua imaginação, e o que ele comunicaria seria um produto da sua mente – uma “mentira”. Somente em uma comunidade de ensinamento, de discípulos e mestres ao mesmo tempo, amadurece uma verdadeira linguagem e se atinge um conteúdo substancial e provado de verdade. Talvez seja este o segredo do sucesso dos “simpósios” filosóficos, nos diálogos de Platão em torno de seu mestre Sócrates. Esta é também a raiz antropológica da existência de um magistério exercido em comunidade. E justamente em tempos de ciências, metodologicamente e culturalmente avessas a todo autoritarismo que confunde verdade com poder, há lugares comuns de autoridade e magistério em torno de alguma verdade científica que está em debate: uma famosa equipe de pesquisa, uma famosa revista científica, uma comunidade científica, uma importante universidade.     
Tente-se imaginar Jesus aos doze anos, conforme Lucas 2, 46: estava entretido com o círculo dos mestres em Jerusalém, aprendendo, interrogando e respondendo. Todo bom discípulo é aquele que entra no círculo dos mestres. Assim ele permaneceu até o fim: como testemunha da verdade, não somente pela palavra, mas pagando o preço de seu testemunho da verdade com sua própria vida. A credibilidade ou autoridade da verdade está na fidelidade que se mantém inclusive quando se sofre e, eventualmente, se morre, pela verdade. A palavra que os cristãos deram a este testemunho radical é martírio, palavra grega que significa justamente testemunho – com a própria vida, com a própria morte.
A palavra “fidelidade”, nas Escrituras judaico-cristãs, é praticamente um sinônimo de verdade. A fidelidade é a consistência, e finalmente a prova da verdade. É o que dura contra o que há de mais corrosivo para a verdade: o tempo e o contratempo. Fidelidade é permanência na verdade. E verdade é, depois de um tempo, só o que permanece na fidelidade. É que a verdade, como relação, é um laço de fé – fides -  não apenas um ato pontual de fé, mas um ato contínuo - fidelidade. Viver na verdade é viver da fé e da fidelidade. Como os bens transcendentais, também as virtudes fundamentais tem um fundo comum: a verdade, a liberdade, a fé, a esperança, o amor, tem raízes comuns e conexões comuns. Por isso “a verdade vos libertará” (Jo 8,32) assim como somente na liberdade é possível ser verdadeiro. Da mesma forma, é na fé, na esperança e no amor que a verdade se “verifica”, se torna veraz, operativa, libertadora. Enfim, porque a verdade se dá em relações, em comunidade, é o amor o caminho régio da verdade. Somente uma postura amorosa comunica bem a verdade, mesmo a mais crua e dura. Isso é eficaz nos círculos familiares e de amizade como na pedagogia e no jornalismo: somente no amor há comunicação adequada da verdade.

7. Todos tem direito à verdade, todos tem dever para com a verdade.
A verdade prospera onde há democracia e também a democracia prospera onde há verdade, a partir da informação. Assim se compreende porque a imprensa tem crescido em importância em nossas sociedades. Contra uma imprensa submetida à censura de poderes totalitários e ideológicos, a liberdade de imprensa é vital para a democracia. A liberdade de circulação de informações garante o direito de todos à informação e também o cumprimento do dever de todos de buscar, de saber e de dizer a verdade. A constatação de perseguição, inclusive com mortes, de jornalistas em meio a conflitos ao redor do mundo, reforça a necessidade de saber a verdade e de zelar por ela porque com a verdade estão em jogo os bens maiores da democracia, que são a justiça e a paz. Mais uma vez, há equivalências aqui: a verdade e a justiça. Trabalhar com amor pela verdade é trabalhar para que aconteçam a justiça e a paz. Há algo de messiânico nisso, como canta o salmo: “Amor e Verdade se encontram, Justiça e Paz se abraçam; da terra germinará a Verdade, e a Justiça se inclinará do céu!” (Sl 85, 11-12).
No entanto, para que a verdade e a inocência não sejam vítimas de precipitações, nossos códigos de direito prevêem investigações que devam ocorrer “sob segredo de justiça”. Em termos sociais, a presunção de inocência de todo cidadão até que não se prove o contrário é vital inclusive para a democracia. Por isso as suspeitas e os inquéritos devem seguir um caminho de discrição sem confundir indícios com verdade. Os danos morais por juízos precipitados podem afetar tanto réus como vítimas e todos os seus entornos, transformando inocentes em vítimas expiatórias. O complicador é que a transformação de um réu em vítima expiatória impede a objetividade de sua verdade e leva à convicção em torno de uma verdade adulterada difícil de desmascarar, a do funcionamento da vítima expiatória como descarga das frustrações mais gerais de uma sociedade. A tarefa de quem passa informações e comenta os fatos com suas interpretações se torna, neste ponto, uma tremenda responsabilidade ética: até onde, e como, sem omissão mas sem distorção, se deve passar as informações que comovem uma sociedade inteira? Um critério de verificação de uma boa informação é o bem comum, novamente a justiça e a paz social. E um critério operativo, é o trabalho de informação em equipe.
Já em termos pessoais, o “segredo” a respeito da verdade é ainda mais delicado. Cada pessoa é um abismo, um mistério que nem ela mesma abarca inteiramente, como uma aventura a ser percorrida para se compreender melhor. O respeito aos seus segredos, às suas dores e à sua história, aos seus processos de libertação e de revelação sem coação, o direito a não sofrer nenhum tipo de tortura para dar informações e, mais ainda, para se revelar, é um teste muito grande à democracia e à justiça. O nosso mundo, globalizado com o imperialismo de sistemas de controle e ao mesmo tempo com o surgimento do terrorismo globalizado que se rebela, está criando tensões crescentes em torno do “biopoder” e da tecnologia cada vez mais sofisticada em torno do controle de indivíduos. Novamente, a imprensa pode estar de um lado ou de outro, e tem uma responsabilidade crescente do ponto de vista ético. E também aqui se aplicam os mesmos critérios de verificação: os bens de justiça e paz, incluindo no bem comum o bem de cada cidadão e de cada pessoa em seu inalcançável e inefável mistério.     

Em conclusão, a verdade transcendente e universal, é um horizonte último de uma realidade histórica de caminhos de investigação, de provação, de fidelidade, de testemunho. Os filósofos posmodernos preferem dizer que as interpretações são um caminho plural e sem fim. Umberto Eco, comentando seu romance de sabor nominalista O nome da rosa, lembra que boa atitude é sorrir da busca insana da verdade e aceitar a precariedade de nossas pequenas verdades. No entanto, há muita vida em jogo quando se busca a verdade, e ela não é apenas um jogo intelectual, mas uma busca ética, de justiça e de paz. Por isso, parafraseando o profeta Isaias, como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a felicidade, que traz boas notícias e anuncia libertação (Is 52,7), mesmo na precariedade e na parcialidade de suas possibilidades. Pois a verdade é um dom irrecusável que dá sustento à liberdade, é uma busca comum, uma peregrinação e uma aventura percorrida em comum. Em termos bíblicos, a verdade é tecida nas relações humanas, é saboreada na palavra das testemunhas, em palavras e atos. Assim, as testemunhas são reconhecidas e veneradas como mestres, como profetas e também como mártires. Foi o caso de Jesus.  Em última análise, o que é verdadeiro, bom, amoroso, justo, belo, pacífico, comunicável, transparente, livre, provém de uma experiência que une o humano e o divino. Ensaiando uma resposta a Pilatos – que é a verdade? - tomamos a liberdade de cantar parafraseando Paulo na primeira carta aos coríntios:
A verdade é paciente,
A verdade é prestativa,
Não é invejosa, não se ostenta,
Não se incha de orgulho,
Nada diz de inconveniente,
Não procura seu próprio interesse,
Não se irrita, não guarda rancor,
Não se alegra com a injustiça,
Mas se regozija sendo verdade,
Tudo desculpa, tudo crê,
Tudo espera, tudo suporta,
Porque é a verdade. (Cf. 1Cor, 13, 4-7)



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<!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]--> Capuchinho, natural de Caxias do Sul-RS, nascido em 1949, com formação em licenciatura em filosofia e doutorado em teologia,atualmente professor de teologia sistemática na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana. É membro do Comitê Editorial da Revista Internacional de Teologia Concilium e Secretário Geral do fórum Mundial de Teologia e Libertação.
<!--[if !supportFootnotes]-->[2]<!--[endif]--> Atribui-se a Freud a afirmação de que, caso o paciente não fale com palavras, fala com os dedos.
<!--[if !supportFootnotes]-->[3]<!--[endif]--> SANTOS Jair Ferreira dos, O que é o pos moderno. Coleção Prime iros Passos, 165. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1986.
<!--[if !supportFootnotes]-->[4]<!--[endif]--> O Talmud é a reunião dos comentários rabínicos à Escritura, livro de grande importância na tradição judaica pós-bíblica.