sexta-feira, 6 de julho de 2012

A comunicação na construção do saber das Tradições Orais Afro-Brasileiras

por  Osvaldo Olavo O. Solera*

No início era o caos...

No vazio, a substância escura aglutina-se em um infinito ponto, em um instante-tempo o processo para, a energia concentrada naquele ponto emerge em uma grande explosão – o Big Bang.
Naquele momento, o Um se transforma em Três: o som, a luz e o movimento. Irrompe a vida, o vazio está agora limitado, surge o espaço, a forma, o sagrado torna-se plural.
Luz, Som e Movimento.
Essência, Substância e Existência. (ALVEYDRE, 1981, p. 52)
O som, o conhecimento e o reconhecimento da natureza, instauram a manifestação da vida, a criação do nome, os gestos que recuperam a origem, fruto da experiência do homem com a natureza que o cerca.

Símbolos e Mitos

Mircea Eliade[2] (2001, p. 14-15) define a experiência de hierofania como “algo de sagrado que se nos revela”. Afirma que os mitos, enquanto uma expressão do sagrado, narram uma história, que remete àquilo que os deuses, os seres divinos fizeram no começo dos tempos. Assim, “os mitos são narrativas que resgatam o início da existência de todas as coisas, isto é, revelam como tudo passou a existir.” (ELIADE, 2001, p. 82-85)
Para Jung (2002) essas narrativas representavam todo o material arquetípico, que se faz presente nas relações coletivas. Os mitos, para Jung (2008, p. 17), conduzem às fontes originárias, presentes no inconsciente coletivo.
Os arquétipos são “os elementos estruturais da psique inconsciente, formadores do mito. São certas estruturas das imagens primordiais da fantasia inconsciente coletivo e categorias do pensamento simbólico, que organizam as representações originadas de fora.(MIELIETINSKI, 1987, p. 69).
Os arquétipos possuem duas representações: são imagens, personagens, papéis a serem desempenhados; e representam o processo de individuação, fazendo-se representar também na consciência individual.
Surge assim o símbolo, como o modo ou meio de significar o “ente” ou “algo” enquanto finito. O termo símbolo, com origem no grego símbolon, ou simbolê designa um elemento representativo que “está em lugar de algo” (SANTOS, 2007), e que pode ser um objeto como um conceito ou idéia.
A grafia celeste ou escrita dos Orixás é um dos símbolos mais significativos da Umbanda. Segundo a Escola de Síntese, a grafia celeste ou escrita dos orixás pode ser didaticamente classificada nos seguintes sistemas (RIVAS, 2002):
1 – Mnemônico: É um sistema destinado a avivar a memória por meio de sinais.
2 – Ideográfico: É a representação gráfica de uma idéia. Os sinais representam uma qualidade ou função. Ex: Estrela – significa noite. Sol – o dia, a luz, a claridade.
3– Fonético: Caracteres representativos dos sons. Aqui entram também os caracteres onomatopaicos e que são a imitação do som de alguma coisa.

Tradição Oral

A Tradição Oral compõe-se de testemunhos transmitidos oralmente de geração em geração. A fala é sua característica particular e a sua maneira de transmissão. Devido à sua complexidade, uma definição que abranja todos os seus aspectos ainda está por ser compilada.
Um documento escrito é um objeto, um manuscrito. Mas um documento oral pode ser definido de diversas maneiras, pois um indivíduo pode interromper o seu testemunho, corrigir-se, recomeçar, enfatizar determinados aspectos (gestual, entonação da voz, expressão facial e corporal, canto, música), e, portanto, ressignificar. Por isso, a característica fundamental desta tradição é a constante mudança:

... as Religiões Afro-brasileiras são “formuladas” por intermédio da Tradição Oral, não por incapacidade ou falta de tecnologia, mas por entender que no conceito doutrinário, sua raiz se forma na mente em primeira instância, depois se consolida em linguagem escrita, obrigatoriamente transitando antes pela oralidade (... e no início era o Verbo, a oralidade). Ao optar pela oralidade, as Religiões Afro-brasileiras sinalizam que seus fundamentos são abertos, condizentes com os avanços espirituais do próprio ser humano. A Tradição, sua constante é a continua mudança, se não em seus aspectos estruturais, de cunho espiritual, todavia todo o mais é adaptável; permite releituras e ressignificados. (RIVAS NETO, 2010)

A transmissão oral é uma atitude diante da realidade e não a ausência de uma habilidade de expressão. A Tradição Oral desconcerta o historiador contemporâneo que, imerso em tão grande número de evidências escritas, vê-se obrigado a desenvolver técnicas de leitura rápida, pelo simples fato de bastar à compreensão a repetição dos mesmos dados em diversas mensagens.
A Tradição Oral requer um retorno contínuo à fonte, representada por um iniciador, que, por sua vez, representa uma linhagem ancestral, milenar. Uma sociedade oral reconhece na fala não apenas um meio de comunicação diária, mas também um meio de preservação da sabedoria dos ancestrais.
“A fala tende a ser polissêmica, com fatores organizacionais verbais e não verbais tais como a prosódia e a gestualidade, ao passo que a escrita depende mais essencialmente do canal verbal” (MARCUSHI, 1986, p. 42-43)
Na Tradição Oral criar ou dizer são sinônimos de fazer. Portanto, a palavra (Verbo) reveste-se de um poder misterioso, concretizado na força da ancestralidade daquele que o emite. Da mesma forma, o radical Kri no sânscrito significa ação/fazer e dele se derivou o termo latim Creare, a poesia deriva do grego Poiein, que também significa fazer/criar, o que faz daquele que a utiliza (poeta, iniciador), ao cantar ou falar, um co-produtor daquilo que é cantado ou falado.
Lévi Strauss (2005, p. 33) diz que os mitos narrados “nos revelam o indizível, são relações que transcendem a oposição entre o sensível e o inteligível, colocando-nos imediatamente no nível dos signos”.
A palavra (Verbo) se manifesta nos símbolos. 
O símbolo surge na Arte, através das harmonias, cores e sons que os artistas, ao observarem a natureza, sentem e expressam em suas criações.
A Filosofia interpreta seus códigos e abstrai da forma para chegar à essência.
A Ciência simboliza todos estes processos, compartimentando-os para interpretá-los e demonstrar as leis que regem os acontecimentos cósmicos.
Na Religião, podemos ver os símbolos nos ritos e liturgias, através das palavras que determinam, nos gestos que atraem, e nos sinais que fixam. Podemos ainda observá-los nas vestimentas, nos objetos, nas danças, nos cânticos e nos espaços destinados ao Sagrado.
Portanto, a Oralidade se apresenta na simbologia do gesto, da dança, do rito e da iniciação, por meio de toda a estrutura arquetípica existente no coletivo religioso.
As instituições hierarquizadas estabelecidas pela escrita (AhL al-Kitab = “povo do livro”) foram inicialmente construídas pela oralidade, e foram aos poucos perdendo essa característica. O Islamismo, o Judaísmo e o Cristianismo têm suas bases iniciais na força de suas palavras, que somente mais tarde foram registradas na escrita.
Os alfabetos foram construídos através do Som, do Número, da Cor e Forma, expressão do Ser Humano.
Podemos ver na Linguagem dos Pássaros (ATTAR, 1991) que “David e seus herdeiros” aprenderam que a palavra é antes de tudo, o BEM SUPREMO, o DOM que permite novamente ao homem o acesso aos estados superiores do SER, ou Estados Angélicos.
É de fato notável, em todas as tradições, a associação entre pássaros e Anjos. Não é senão com a finalidade de alcançar os estados angélicos, a realização espiritual, que se alude diretamente ao CANTO, à MÚSICA, ao RITMO e a sua expressão mais pura, o NÚMERO – todos os elementos que constituem a ciência primordial, que possibilitam ao homem compreender a si mesmo, ao mundo e as criaturas na proporcionalidade que mantém entre si e também com sua essência ou ORIGEM.
O conhecimento desta linguagem é indicativo de uma alta iniciação, e a fala ritmada é a sua expressão no mundo sensível. É este o motivo de todos os textos e escritos sagrados estarem calcados, vazados, no Metro e na Rima poética. O Corão, por exemplo, significa precisamente recitação. O Torá é recitado. Entre os gregos, a poesia era designada a linguagem dos deuses. Entre os Tibetanos, o mantra é cantado ininterruptamente para se atingir outros níveis de consciência. Entre os católicos, a missa era cantada em latim. E assim veremos que o canto, a música, o ritmo, a poesia são formas de expressar o sagrado.
Esta forma de transmissão do saber obedece, como dissemos anteriormente, a ciclos e ritmos, ou seja, o ritmo e o número.
A Raiz da palavra grega ARITHMOS para Número liga-se ao latim RITUS, envolvendo a idéia de ritmo. Primitivamente, Arithmos significava ajuste, arranjo, boa disposição, ordem (em latim ORDO, que equivale ao sânscrito RITA, que partilha da mesma raiz Arithmos). Quando Arithmos é traduzido por Número, este deve ser entendido não só como quantidade, mas também por harmonia, proporção e conjunto, ou seja, o Ritmo, quer traduzido espacialmente como na Arquitetura, quer nos Sons, como na Música. (ALVEYDRE, 1981)
Veremos também que no TRIVIUM – dialética, retórica, gramática – forma par com a do QUADRIVIUM – aritmética, geometria, música e astronomia - de natureza mais matemática (CAMARGO, 2007, p. 36). Desta forma, o grego ARITHMOS e o latim Númerus designam, em retórica, o Ritmo de um discurso, a frase ritmada. (BA, 1982, p. 186).

Numa obra, o ritmo vai transparecer naquilo que, numa escala fina, perpassa o fluxo das palavras e, além disso, no número de divisões ou destaques do conjunto. Assim, é freqüente que o esquema literário de um livro tradicional se prenda sistematicamente a um conjunto de números. No Evangelho de Mateus, por exemplo, o número 14 é central, pois é o equivalente numérico do nome de David (4 + 6 + 4). O evangelho é dividido em sete partes e possui 28 capítulos. A genealogia de Jesus Cristo, Filho de David, é apresentada em 3 x 28 gerações. (FRIAÇA, 1991)

No Ritmo, a contigüidade entre o Vazio e o Cheio é o que conta para a penetração do Sagrado, inaugurado no silêncio e entre um falar e outro. Assim, nas tradições orais, o contar uma história importante sempre se reveste de uma pulsação. Não se limita a um discurso, a uma exposição, mas toma a forma de recitação, de um canto:

Quando as musas abrem a Teogonia de Hesíodo, elas, as forças do cantar, pelo seu canto presentificam o mundo, in-vocam-no, chamam-no para si, permitindo que ele seja passível de admiração, ou seja, constituem o milagre primeiro, aquele da existência... (FRIAÇA, 1991)
A Voz (timbres, tons, línguas, entonações, respirações, melodia, ritmos, rimas, versos, dialetos, poemas, prosódia, ritos, expressões, coros, movimentos, pulsações, gestos, performances...) é o centro da Oralidade, e nela se encontra uma infinidade de expressões que nem sempre podem ser explicadas pela análise musicológica ocidental, nem mesmo apenas pelos fenômenos acústicos... (PUCCI, 2006, p. 1)

Espalhados por todo o planeta estão os inúmeros exemplos de diferentes tradições que utilizam a voz para a expressão do Sagrado:
. Mawaka (Nigéria): esta casta utiliza a voz como fonte de limpeza espiritual, e como instrumento de evocação dos espíritos.
. Indios Suya (Xingu): Com voz cadenciada, contam histórias de um tempo remoto.
. Monges Tibetanos: voz emitida em tons graves (strohbass) produzindo alteração do estado de consciência, com diminuição da freqüência das ondas cerebrais.
. Canto a Tenori (Sardenha): voz anasalada, utilizada para conduzir os rebanhos.
. Burundi: voz aerada, aspirada, utilizada para narrar épicos.
. Qawwali (Paquistão/Índia): É próprio de o Sufismo transformar poesia em música e oração, promovendo estados de iluminação. O termo qawwali é derivado da palavra qaol que significa axioma ou ditado. É anterior a Maomé, mas somente no tempo de Al-Gazali (1085-1111) que foi refinada e codificada, surgindo daí o Sufismo. (PUCCI, 2006, p. 6)
. Mulheres pigméias Bayaka (África Central): onomatopéia com os insetos da floresta.
. Hoomei (Mongólia/Sibéria/Tuva): Representa a tradição xamânica. A voz se reveste de um poder mágico.
O poeta russo Khlébnikov (1977) deixa explícito o valor da palavra para os Xamãs:

 Feitiços e encantamentos, a que damos o nome de palavras mágicas, a linguagem sagrada do paganismo, são ruídos de meras sílabas às quais o intelecto não consegue dar sentido, e elas formam um tipo de linguagem que transcende o sentido na fala usual. Todavia, um enorme poder sobre o ser humano é atribuído a esses encantamentos incompreensíveis, uma direta influência sobre o destino do homem. A magia de uma palavra se mantém mágica mesmo quando não compreendida e não perde nada do seu poder. (2002: eletrônico)

 ... Ao ouvir esses excertos sonoros de tantos povos e artistas diferentes, percebemos como o ser humano é capaz de preencher, com força plena, o espaço acústico da voz. E eu me pergunto: O que essas vozes têm em comum? O que elas têm de diferentes? Como elas dominam tão fortemente o espaço? Como atuam no imaginário coletivo? Às vezes se fazem presentes no âmbito religioso, às vezes nos ritos cotidianos, às vezes são palavras sem nenhum sentido lógico, apenas sons, fonemas e, às vezes, são textos milenares. Mas o fato é que todas essas vocalidades exercem um poder, sejam elas localizadas, nômades, virtuais, explícitas ou subliminares. São diferentes timbres, tessituras, registros, freqüências, nasalidades, guturalidades, e que nem sempre são consideradas corretas tecnicamente por fonoaudiólogos e pelos professores de canto ocidental. (PUCCI, 2006, p. 8)

Lévi-Strauss (2004) escreve que a relação do mito com a voz se faz presente num sentido cosmológico. O tempo é outro, o som é outro, e há uma necessidade de se desprender de um referencial lógico para se enveredar por esse universo mítico.
Jerome Rothenberg (2002: eletrônico) foi o responsável por acabar com a crença de que a poesia de povos ágrafos seria mais simples do que a poesia contemporânea. “O que se verifica de fato, é que essas formas poéticas consideradas exóticas têm estruturas complexas”. (PUCCI, 2006, p. 12)
Acácio Piedade afirma que “os limites entre a fala e o canto são bastante dissimulados, difíceis de definir, e a análise pautada pela terminologia musical-fono-acústica nem sempre é suficiente”. (PIEDADE, 1997, p. 200)
Os sons onomatopaicos que imitam animais (espíritos) entre os xamãs, têm o papel de dimensionar um outro espaço, um outro tempo na história. Ele tem o poder de suprimir o tempo do discurso, isto é, transcender a esfera da lógica temporal. (PUCCI, 2006, p. 12-3)

Para os Suruí, não há uma distinção entre a música e a narrativa, há uma expressão poética que se dá pela voz, não importa se falada ou cantada, se música ou narrativa. Ambas integram um sistema complexo de musicalidade, verbalidade e vocalidade, que formam as oralidades Suruí, responsáveis por garantir que a ancestral tradição se mantenha no trabalho da intrincada rede de parentesco. O som de uma palavra importa mais do que o seu significado lingüístico, cuja precisão semântica responde a um plano paralelo. (PUCCI, 2006, p. 15)

“A eficácia da voz não decorre de seu sentido imediato, mas de sua sonoridade, organizada em um espaço que garante o contrato social, a comunicação. Seria a sociedade organizando os discursos da voz, ou a própria voz que organiza a sociedade?” (SERRES, 2005, p. 225)      

Conclusão

Os ocidentais utilizam a expressão sem a invocação, não colocam alma nas palavras. Preferem, tal qual ilustra a Torre Babélica, a expressão por si só.
A Torre é dividida em andares, mostrando os planos de realidades que se encontram na Humanidade. Enquanto símbolo, a Torre remete para a estrutura íntima da realidade, estratificada, segundo os graus de existência que medem tantos passos quanto damos ao transpor a “porta de Deus” (do Acádico BAB-ilu)
O termo Babel em hebraico significa confusão (BBL) correspondendo em latim ao confusione linguarum. A Torre de Babel é o símbolo máximo da verticalidade destruída, pois se existem planos de realidade, existe também a comunicação entre estes, e quando esta é relegada, a própria hierarquia perde sua inteligibilidade. Instala-se assim a confusão (BBL). Portanto, o mito vela a verdade, que se refere à estratificação de castas/classes e à rigidez existente entre elas, dificultando o convívio e a interação, produzindo o caos social.
A Tradição Oral não possui amarrações, livros ou hierarquias estratificadas, e que podem sofrer enrijecimento conforme o trânsito entre os “andares”.
As linguagens dos pássaros bem como a tradição oral afro-brasileira passam de um lado a outro, tal qual o vôo dos pássaros, sem prisões, sem obstáculos.
A linguagem é do espírito, da essência e assim transita como o vento...


Referências Bibliográficas
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ATTAR, F. U. D. A linguagem dos Pássaros. 2ª Edição. São Paulo: Attar Editorial, 1991. 275 p.
BA, A. H. A Tradição Viva. In: Historia Geral da África. Paris/São Paulo, UNESCO/Ática, 1982.
BARBIERI, J. C. Produção e transferência de tecnologia. São Paulo: Editora Ática, 1990.
CAMARGO, E. B. O pensamento musical e a prática docente: as demandas da contemporaneidade no ensino da música. Universidade de São Paulo: EDUSP, 2007.
ELIADE, M. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2001, 191 p.
FRIAÇA, Amâncio.  A Aritmologia da linguagem dos Pássaros. In: ATTAR, Farid ud-Din. A linguagem dos Pássaros. 2ª Edição. São Paulo: Attar Editorial, 1991. 275 p.
JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2ª Ed., 2008, 429 pág.
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KHLÉBNIKOV, V. Velimir Ka. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1977.
KUHN, T. J. A Estrutura das revoluções científicas. 3ª Ed. São Paulo: Perspectiva, 1992.
LÉVI-STRAUSS. O cru e o cozido. São Paulo: Cosac & Naif, 2004b. Vol 1. (Coleção Mitológicas)
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MARCUSCHI, L. A. Análise da conversação. São Paulo: Ática, 1986. p. 42- 43.
MELO, F. F.; KHLÉNIKOV, V. Estado Zaum de Língua. In: Projeto Ka, 2006. Disponível em: <http://www.iar.unicamp.br/projka>. Último acesso 20 jul. 2006.
RIVAS NETO, F. Espiritualidade e Ciência na Teologia das Religiões Afro-Brasileiras. São Paulo: Ed. FTU, 2010.
EUGENIO, M.; FRANÇA, R. O.; PEREZ, R. C. Ciência da Informação sob a ótica paradigmática de Thomas Kun – Elementos de reflexão. In: Perspectiva Ciência da Informação. Belo Horizonte: UFMG, 1996. v. 1, n. 1, p. 27-39, jan./jun.
PUCCI, Magda Dourado. Vozes e ritos – as oralidades no mundo. In: Anais do Encontro de Música e Mídia – Verbalidades, Musicalidades: temas, tramas e Trânsitos. UNESP, São Paulo, 2006.

ROTHENBERG, Jerome. “Ubuweb Ethnopoetic Sounds”. Tradução do russo Paul Schmidt, 2002. Disponível em: <http://ubu.com/ethno/soundings/masters.html>. Último acesso 20 de jul. 2006.
SANTOS, M. F. Tratado de Simbólica. São Paulo: Ed. E.Realizações, 2007, 352 p.
SERRES, Michel. Hominiscências – O começo de uma outra humanidade? São Paulo: Bertrand Brasil, 2005.




Bacharel em Teologia; especialista e Mestrando em Ciências da Religião pela PUC (Pontifícia Universitária Católica - PUC /SP).
[2] ELIADE, Mircéa. O Sagrado e o Profano, op. cit., p. 14-15.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Árvores Sagradas...


Olavo Solera
Em busca  de imagens que simbolizasse os aspectos relativos e absolutos, monistas e panteístas, pessoais e impessoais, lineares e cíclicos, deparei-me com a imagem da "Arvore da Vida",e em especial aqui, neste trabalho, nas religiões afro brasileiras e na religião judaica. A simbologia das mesmas, atendiam ao estudos pretendidos e mais ainda, constatei que esta simbologia da Arvore existe na maioria das religiões dos livros e nas religiões de tradição oral.
Vários estudiosos do homem como um  todo, seja ele espiritual, social, político  e cultural, notaram que existia uma ponte entre o imaterial (céu) e o material (terra),e que agia como eixo do homem, ora separando, ora juntando estes seus aspectos. Mircea Eliade vai chamá-la de "Árvore do Mundo", "Axis Mundi", "Árvore Cósmica", cuja função é a de elidir as diversas regiões do cosmo.
Para boa parte das tradições místicas e religiosas, os "mundos" dividem-se nos espaços inferiores ou infernais, intermediários ou terrestres e superiores ou celestes.
Em todas elas,  o aspecto Absoluto e dividido e manifesta-se, ora como um atributo, ora como um arquétipo, sempre demonstrando aspectos Cósmicos, do Homem e da Divindade.
Existe simbolicamente relações entre raiz, tronco,frutos e folhas, e em todas as situações existe dualidade, no gênero (feminino e masculino), no Caos e Ordem e no som; tensão e relaxamento.

A Árvore da Vida Judaica
Árvore da Vida judaica é um diagrama extremamente conhecido no estudo da Cabala. A Árvore da Vida é uma entre muitas ferramentas utilizadas pela Cabala para a correta compreensão das forças que regem o universo. 
É um mapa para entendermos a manifestação de Deus. O Deus que saiu de si, se desdobrou para criar o universo onde a realidade se apresenta em 10 dimensões - representada pelas 10 esferas (sefiras). Elas funcionam como canais através dos quais a Luz do Mundo Infinito chega ao Mundo Físico, alimentando tudo o que existe, incluindo as nossas almas. 
No esquema da árvore da vida também existe a representação de uma 11° esfera chamada DAAT, porém pouco se fala dela e em muitos relatos literários é ignorada. 
Cada sefira, tal qual um filtro, reduz sucessivamente a emanação da Luz, diminuindo gradativamente o seu brilho para um nível quase imperceptível no mundo físico. 
Cada sefira por onde passa a Luz se manifesta de forma diferente, sem perder em momento algum a sua essência. No estudo das sefiras, encontraremos diferentes associações, como atributos divinos e partes do corpo, entre tantas outras referências, de modo a estabelecer uma relação de interdependência entre todos estes elementos. 
Cada sefira é um aspecto da natureza de Deus. Elas nos ajudam a entender o mapa de como Deus atua no universo e no homem. O micro imita o macro. Através da compreensão das sefirot, podemos entender as características humanas nos relacionamentos inter pessoais e como esses aspectos influenciam nossas interações com o outro.  

A Árvore da Vida em Detalhes
 A fonte motriz de toda criação vem do mundo das infinidades que, em conjunto a criação, representa a totalidade de DEUS. Porém pouco se sabe sobre esta força motriz, para a cabala este mundo se divide em três partes AIN (DEUS), AIN SOPH (infinidade) e AIN SOPH AUR (luz sem limite).
Portanto DEUS (AIN SOPH) em sua infinidade cria, alimenta e se transforma sucessivamente como um relâmpago de Kether (primeira esfera) até chegar à última esfera chamada Malkut (Reino).  
Conforme a energia desce como um raio, 4 mundos ou planos hierárquicos  são formados e considerado pela Cabala como “universos particulares”.
Portando percebemos que cada mundo é formado pelo relacionamento das emanações das esferas que as compõem e que por sua vez os mundos se relacionam entre si considerando as hierarquias. Desta forma chegamos ao modelo clássico da Árvore da Vida que é composta por 10 ou 11 sefiras (manifestações) e 22 caminhos (palavras).
 É importante frisar que este esquema representa o entendimento de como DEUS atua no universo, mas principalmente de como DEUS atua no homem, seu principio imanifesto, manifesta-se através de seus frutos...



A Arvore da Vida das religiões afro brasileiras
A árvore é um dos símbolos fundamentais das culturas africanas tradicionais. Os velhos baobás africanos de troncos enormes suscitam a impressão de serem testemunhas dos tempos imemoriais. Os mitos e o pensamento mágico-religioso yoruba têm na simbologia da árvore um de seus temas recorrentes. Na sua cosmogonia, a árvore surge como o princípio da conexão entre o mundo sobrenatural e o mundo material. As árvores "(...) estão associadas a ìgbá ì wà ñû – o tempo quando a existência sobreveio – e numerosos mitos começam pela fórmula 'numa época em que o homem adorava árvores'...".

Uma das versões do mito cosmogônico relata que foi através do Òpó-orun-oún-àiyé – o pilar que une o mundo transcendente ao imanente – que os deuses primordiais chegaram ao local aonde deveriam proceder o início do processo de criação do espaço material. Este pilar  muitas vezes simbolizado pela árvore ou por seu tronco é uma figura de origem, é um signo do fundamento, do princípio de todas as coisas, elemento de conexão entre a multiplicidade dos "mundos".
A tradição yorubá fala na existência de nove espaços – orun mýsûûsán -, estando quatro deles localizados sob a superfície da Terra – îrun isalû mýrûûrin. Uma das divindades de origem yorubá de culto amplamente disseminado no Brasil – Oya Ìgbàlû, mais conhecida como Yánsan, cujo nome deriva da contração da expressão ì yá-mesan-orun, a mãe dos nove orun – possui forte relação com a origem do orun e com a árvore que liga os "mundos". Esta deusa num de seus epítetos é chamada de Alákòko, a senhora do òpákòko, demonstrando a sua relação com a árvore-mundo yorubá.

Um dos mitos da criação conta que para cada ser humano modelado (a matéria primordial era o barro) por Orisala criava-se simultaneamente uma árvore. Òrì ñàlá é o grande pai da criação yorubá. Como divindade primordial, está ligada a cor branca, e por isso é conhecido como um òrì ñà-funfun (literalmente òrì ñà do branco).
Um outro mito relata a origem das árvores sagradas, especialmente o Iròkò. O Iròkò é uma das espécies vegetais mais imponentes da terra yorubá. O ì tan coloca uma interessante questão ontológica, propondo igualmente a possibilidade de se pensar numa ontologia do sagrado na perspectiva das expressões religiosas arcaicas. O mito, ao afirmar que "na mais velha das árvores de Iroco, morava seu espírito", coloca uma nítida distinção entre ser e ente.
Finalizando...
Entre uma essência transcendente do sagrado e a sua presença material no mundo, na mesma medida em que na mais antigas das árvores moram o espírito da Divindade, em toda a descendência destas velhas árvores habitam o princípio dela mesma: não só geneticamente, mas principalmente a sua sacralidade.
Seu simbolismo de ancestralidade, de permanência, de troca com o meio, nos leva contemplativamente a rever conceitos, a exercer a reflexão, sobre nós e o outro, sobre nós e o meio que vivemos e desejar melhorias internas e externas para todos.





segunda-feira, 30 de abril de 2012

Mito e razão: “a porta para o logos”




Contribuições clássicas
O histórico da busca de uma realidade inteligível, “a porta para o logos”, é envolvida pelo mito. Desde o século VI a.C., os gregos da Jônia estavam a procura de uma substância primária, de um material básico do qual, segundo argumentavam, todas as coisas haviam se desenvolvido. Três homens, todos de Mileto e todos astrônomos e matemáticos, tinham suas teorias a esse respeito. Tales opinava que o material básico era um liquido claro; Anaxímenes pensava que era um gás incolor e Anaxímandro julgava que fosse alguma substância indeterminada, ilimitada e imperecível. Ao mesmo tempo, outro grupo de homens jônicos fazia especulações sobre a natureza da própria vida. Procuravam, estes grandes pensadores, um princípio único e unificador que explicasse porque as coisas são que
 o são (4).
Um desses homens era Heráclito, que vivia em Éfeso. Heráclito acreditava que a condição essencial da própria vida era o “fluxo”, isto é, o fato de que nada era absoluto e tudo mudava. Pitágoras, que nasceu em Samos, mas residiu a maior parte de sua vida na colônia grega de Crotona, Itália, acreditava que o universo era ordenado por um sistema harmonioso de números. Desses conceitos nasceu o Teorema de Pitágoras.
O terceiro desses primitivos filósofos foi Xenófanes, que, forçado a sair de sua terra na Jônia por uma invasão persa, estabeleceu-se em Eléia, na Itália. Xenófanes fundou uma escola filosófica, onde ensinava que o universo era ordenado por um ser único, supremo e divino, que agia exclusivamente por meio do pensamento (5).
Embora esses primeiros cientistas e filósofos dessem a maior importância ao seu trabalho e não hesitassem em rejeitar os velhos mitos sobre os deuses, se os mesmos estivessem em desacordo com suas teorias, ainda acreditavam em alguma direção divina do mundo. Se tivessem que desacreditar no velho mito criariam um novo para lhe tomar o lugar. Não se pode denominar esses métodos de científicos. Trabalhando no próprio alvorecer da Ciência, agiam principalmente por meios de rasgos de intuição e de inspiradas conjecturas. Não obstante, alguma das suas conclusões são espantosas. Anaxímandro, por exemplo, afirmou que o mundo era apenas uma série interminável de mundos; Xenófanes declarou que o homem tinha saído originalmente do mar e apresentou fósseis como prova. Xenófanes, foi, desse modo, um precursor da moderna afirmação científica sobre o assunto (6).
Entre os gregos, a procura do conhecimento científico dava tanto prazer como a apreciação das artes. Não faziam distinção entre o amor da beleza e o amor da verdade. A ideia de beleza é densa (Kalos, Kaloi) = Belo – Bem – Verdadeiro, supõe a busca contínua pela perfeição. O mito fornece a tônica das relações entre deuses e homens e do entendimento da harmonia das formas, a busca determinante pelo equilíbrio. Essa busca está presente, principalmente entre os séculos V e IV a.C. na construção dos templos, no teatro, na poesia, nas artes de modo geral. Esse sentido reflete a obrigação do homem de tirar o máximo proveito de seus dons naturais: “tudo o que valia a pena fazer, devia ser bem feito” (7) e, assim, até mesmo os vasos mais simples têm um notável toque de distinção. Até objetos utilitários, como moedas, são pequenas obras-primas em relevo em ouro e prata. Nesse contexto, visão científica ou filosófica, relações diretas (uma ponte) entre Arte e Vida estavam em conexão.
Na escultura, esse sentido de fina execução era inspirado e reforçado por algo mais sublime. A escultura grega tinha de ser digna dos deuses e estar inserida nas proposições mitológicas. Deveria também ser vista nos lugares, públicos sobretudo nos templos. Era preciso que tivesse nobreza e dignidade, sem contudo distanciar-se das coisas do cotidiano; acreditava-se que os deuses estavam, com frequência, intervindo nas mesmas. Tudo isso explica porque a Arte Grega, em seu maior brilho, evitava efeitos violentos e grosseiros. Ao contrário, mostra os homens em pleno vigor de seus corpos ágeis e musculosos, e mulheres envoltas nas ondulantes roupagens dos seus mais finos vestidos.
Os gregos, povo despido de inibições ao falar de si mesmo, sentiam prazer nas palavras. Possuíam à sua disposição uma língua sutil, expressiva e adaptável, da qual faziam pleno uso. Como se deu com muitos outros povos, além da profusão de personagem mitológicos, a poesia chegaria a ser quase “uma segunda religião”. Havia na sua criação, todo o cuidado e penetração que se aplicavam as artes visuais. Os poetas eram muito prezados – um poeta, para o filósofo Sócrates, era uma “coisa luminosa, alada e sagrada” (8). Escreviam sobre toda espécie de temas: agricultura, costumes locais, mitologia. Um homem, qualquer homem, quando tinha algo importante para dizer, quase sempre se expressava em verso – cantando ou declamando – nos primeiros tempos, com o acompanhamento de música.
A poesia era a reação imediata dos gregos a um amplo campo de buscas e experiências. Como reflexo dessa variedade, criaram ou aperfeiçoaram formas poéticas conhecidas até hoje. É possível que tenham começado com a epopéia heróica, que é a narração, em versos, de acontecimentos empolgantes, trágicos, povoados de heróis, deuses e mortais comuns. Continuaram com uma poesia mais pessoal e sentimental, cantada ao som da lira e que é, por isso, chamada lírica. No seu apogeu os gregos inventaram a Tragédia e a Comédia: a primeira tratava obscuras e difíceis relações entre os deuses e os homens, e a segunda apresentava, em linguagem picante e burlesca, toda sorte de fraqueza humana.
O apogeu dessa tradição criadora, alimentada pela Mitologia, foi atingido na última parte do século VIII a. C., na pessoa de Homero. Pouco se sabe de Homero. Julga-se que viveu em Esmirna ou na Ilha Quios. Suas obras-primas marcam o amanhecer da literatura européia. As epopéias anteriores deram a Homero um material narrativo e uma forma métrica que posteriormente se tornou o metro da poesia épica grega, o hexâmetro dactílico (9).
Porém, os poemas homéricos são muito mais que magnífica poesia. A Ilíada e a Odisséia tornaram-se os livros fundamentais da cultura grega e Homero foi considerado posteriormente pelos gregos um dos fundadores de sua história, filosofia, drama, poesia e ciência. Os seus temas foram uma fonte inesgotável de inspiração para artistas e oradores gregos. Hoje, ele constitui documento fascinante de informações sobre o mundo grego, como era no seu tempo e o mundo como ele pensava que fora nos tempos micênicos.
Embora tivesse aproveitado os mitos que lhe haviam chegado através dos séculos, Homero acrescentou muito do que era propriamente seu. Tomou as histórias primitivas de monstros canibais e riscos desesperados e animou-as com uma generosa e delicada ou rica visão da vida. Entre as antigas narrativas existe uma homem errante que é arremessado à costa pelo mar, sendo salvo por uma princesa com quem se casa. Ulisses, o homem errante de Homero, é salvo por uma encantadora princesa, Nausica, mas não se casa com ela. Ulisses tem uma esposa na pátria e, desse modo, em vez de casamento, desenvolve-se uma comovente amizade entre o acossado marinheiro e a jovem princesa.
Os seus ouvintes, provavelmente, não queriam se não histórias de heroísmo. Mas Homero lhes dava uma visão completa do mundo, de deuses nas suas tarefas determinadas, de homens e mulheres em marcha para os seus destinos, de todas as atitudes da vingança sinistra à farsa hilariante, de palácios e jardins, de ilhas remotas e praias rochosas. Por trás de todas as referências mitológicas, a sua imaginação está em ação, procurando ver os seres humanos como realmente são, compreendendo por que fazem o que fazem; retratando-os com profundeza mesmo quando são maus com calor e afeição (10).
Portanto, para Homero o mito franqueava inteligibilidade, conhecimentos: era “porta para o logos”.
Os mitos continuam sendo “a porta para o logos”?
E “os mitos contemporâneos” como atuam?
Hoje, observa-se que a retomada de Homero vem acompanhada de registros que, cada vez mais, estão sendo comprovados. É notório que Homero usa exemplos míticos para todas a situações imagináveis da vida em que o homem pode estar na presença de outro, para aconselhar, advertir, admoestar. Tais exemplos não se encontram de ordinário, na narração, mas sim nos discursos dos personagens épicos. O mito serve sempre de instância normativa para a qual apela o orador. Não tem caráter meramente fictício, dá margem a fantasia criadora, à sensibilidade estética. Há no seu âmago uma validade universal (11).
Atualmente, a pesquisa científica das diversas áreas continua reexaminando não apenas os épicos de Homero, porém o grande acervo clássico como um todo. Ao lado do saber proporcionado pelos cientistas, filósofos, dramaturgos e a beleza das obras-primas, tem-se como certo de que as citações épicas vão além do mito. Dados e novas descobertas que se somam, vão tirando personagens do anonimato, ou confirmando lugares de suas presenças. Tem-se, por exemplo, mais de vinte mil personagens com registros em fragmentos de cerâmicas (ostraka). Ao lado de figura ilustres como Péricles, Aristídes, surgem novas, com freqüência (12).
Essas sinalizações motivam contínuas retomadas das questões inseridas na força de mitos primordiais que traçaram a fisionomia de homens e povos. Pensadores contemporâneos, correntes psicanalíticas, estudiosos da astrofísica, momentos artísticos diversos não se furtam a esse acervo. Entre os séculos XVIII e XIX, ingleses e franceses, depois de saques, aumentam as coleções de seus museus “com deuses e deusas”. Esses inspiraram reformulações urbanísticas e obras artísticas. Pensadores como Goethe e Hegel aprofundaram suas ideias através desse referencial. Já no século XX, Freud vasculha a emergência do mito, incluindo a sua força simbólica.
Dessa forma, pode-se indagar: a passagem de uma consciência mítica para o logos continua envolvendo a todos? Onde começa a diversidade entre os homens? Onde terminam as questões de identidade? O que há de comum e de diverso entre gregos e romanos; entre orientais e ocidentais; latinos e saxões, ou entre latinos americanos do sul e do norte? Por que, no encontro de culturas diversas, uma absorve a outra, impondo-se como única de ser, agir, ou de entender estilos e a própria visão do mundo ou do cosmo? Nos campos da Ciência e da Arte, o acervo primordial ainda faz sentido como referencial?
As questões podem continuar a serem levantadas: o mundo que se informatiza gesta novos mitos? O mundo vitrini e a realidade virtual criam novos personagens? As pesquisas bio-tecnológicas, clonagem, a robótica não estão criando “novos heróis, deuses e semi-deuses”? Décadas atrás, a pop art referia-se aos novos mitos que emergiam da sociedade de eletrodomésticos e da publicidade como os “novos barroquismos urbanos” (13). Tendências pós-modernas assinalam a presença do mito clássico, como “saudade do lar distante” ou de antigos lugares do mediterrâneo. Naturalmente, os mitos assumem novas configurações e sentidos. No contexto atual, quais aspectos podem ser assinalados? Quais as possibilidades emergentes de conectá-los com Arte e Ciência?

Notas:
1. JENCKS, Charles. Post-modernism – the new classiscism in art and architeture.London Academy, 1987, p. 33 e seguintes
2. CRIPPA, Adolpho. Mito e Cultura. São Paulo, Convívio, 1975, p. 15 e seguintes
3. JAEGER, Werner. Paidéia. São Paulo, Martins Fontes, 1979, p. 179 e seguintes
4. PESSANHA, José Américo Mota (cons.). Os pré-socráticos vida e obra (Col. Os Pensadores), São Paulo, Nova Cultural, 1996, p. 14.
5. Idem, p. 23 e seguintes.
6. Ibidem, p. 25 e seguintes.
7. BAYER, Raymond. Historia de la estetica, México, Fondo de Cultura, 1965, p. 222 e seguintes.
8. PESSANHA, José Américo Mota. In: Sócrates (Coleção Pensadores) São Paulo, Nova Cultural, 1996, p. 10 e seguintes.
9. JAEGER, Werner. Op. cit., p. 34 e seguintes.
10. Idem, p. 62 e seguintes.
11. CAMPBELL, Joseph (org.) Mitos, sonhos e religião – nas artes, na filosofia e na vida contemporânea. Rio de Janeiro, Ediouro, 2001, p. 139 e seguintes.
12. BOWRA, Maurice. Grécia Clássica, Rio de Janeiro, José Olympio, 1969, p. 11 e seguintes.
13. ROUANET, Sérgio Paulo. As razões do Iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p 265 e seguintes.
Bibliografia:
CAILLOIS, Roger. O Mito e o Homem, Lisboa, Edição 70, 1979.
CRIPPA, Adolpho. Mito e Cultura, São Paulo, Convívio, 1975.
DORFLES,Gillo. Novos Ritos, novos mitos, Lisboa, Edições 70, 1965.
CAMPBELL, Joseph. com BILL MOYERS; FLOWES (BETTYSVE org.) O poder do mito, São Paulo. Palas Athenas, 1996.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Mito e Significado, Lisboa, Edições 70, 1979.
JENCKS, Charles. Post-modernism – the new classiscism in art and architeture.London Academy, 1987.
CRIPPA, Adolpho. Mito e Cultura. São Paulo, Convívio, 1975.
JAEGER, Werner. Paidéia. São Paulo, Martins Fontes, 1979.
PESSANHA, José Américo Mota (consultoria). Os pré-socráticos vida e obra (Coleção Os Pensadores), São Paulo, Nova Cultural, 1996.
BAYER, Raymond. Historia de la estetica, México, Fondo de Cultura, 1965.
PESSANHA, José Américo Mota. In: Sócrates (Coleção Pensadores) São Paulo, Nova Cultural, 1996.
CAMPBELL, Joseph (org.) Mitos, sonhos e religião – nas artes, na filosofia e na vida contemporânea. Rio de Janeiro, Ediouro, 2001.
BOWRA, Maurice. Grécia Clássica, Rio de Janeiro, José Olympio, 1969.
ROUANET, Sérgio Paulo. As razões do Iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia, São Paulo: Martins Fontes, 1998.
WILSON, Simon. Arte pop, Barceolona: Labor, 1995.
Lealcy B. Junior

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O Código de Platão...




Um cientista da Universidade de Manchester, na Inglaterra, afirma ter desvendado o “O Código de Platão” – mensagens secretas escondidas nos escritos do grande filósofo grego e que vêm desafiando os estudiosos há mais de dois mil anos.
Platão foi uma espécie de Einstein da Idade de Ouro da Grécia. Seu trabalho está na base de toda a cultura e da ciência ocidentais. Avance pela Teoria da Conspiração a respeito dos segredos deste código.

Com isto, os resultados do trabalho do Dr. Jay Kennedy poderão revolucionar a história das origens do pensamento ocidental – além de ser um feito na área da criptografia comparável apenas à decifração dos hieróglifos egípcios, realizado pelo francês Jean-François Champollion, com a ajuda da Pedra de Roseta, em 1822.

O livro da natureza

Em seu artigo, o Dr. Kennedy revela que Platão usou um padrão regular de símbolos, herdados dos seguidores de Pitágoras, cujos ensinamentos foram uma das bases para o conhecimento Rosacruciano, para dar a seus livros uma estrutura musical.
Os códigos escondidos em sua obra mostram que Platão antecipou a Revolução Científica cerca de 2000 anos antes de Isaac Newton, descobrindo a sua ideia mais fundamental – a noção de que “o livro da natureza” está escrito em linguagem matemática.
Um século antes, Pitágoras havia dito que os planetas e as estrelas produzem uma música inaudível aos ouvidos humanos comuns, uma “harmonia das esferas”. Em seus livros, Platão tentar imitar as harmonias dessa música.

O código secreto de Platão

O Dr. Kennedy passou meros cinco anos estudando a escrita de Platão – a maioria dos filósofos faz isso a vida toda, embora com outros objetivos – e descobriu que em sua obra mais conhecida, a República, o filósofo grego colocou grupos de palavras relacionadas à música depois de cada duodécimo do texto – em um doze avos, dois doze avos, e assim por diante.
Esse padrão regular representa as doze notas da escala musical grega. Algumas notas são harmônicas, outras dissonantes. Nos pontos onde estão as notas harmônicas, ele descreveu sons associados com o amor ou o riso, enquanto os pontos onde estão as notas dissonantes foram marcados por sons ou gritos de guerra ou de morte.
Este código musical foi a chave para desvendar todo o sistema simbólico de Platão – o “código secreto de Platão”.
“Quando lemos seus livros, as nossas emoções seguem os altos e baixos de uma escala musical. Platão toca seus leitores como se eles fossem instrumentos musicais,” diz o pesquisador.

Evangelhos de Platão

Para quebrar o código de Platão, o pesquisador afirma não ter havido milagres: “Não houve uma Pedra de Roseta. Para anunciar um resultado como este eu precisava de provas rigorosas e independentes, baseadas em evidências cristalinas.”
“O resultado foi incrível – foi como abrir uma tumba e encontrar uma nova série de evangelhos escritos pelo próprio Jesus Cristo. Platão nos enviou uma cápsula do tempo,” entusiasma-se ele.
Apesar de já ter apresentado seu trabalho e discutido o resultado com colegas em alguns eventos científicos, o trabalho deverá gerar controvérsias, porque os historiadores modernos sempre negaram que havia códigos secretos na obra de Platão.
“Isto é o começo de algo grandioso. Levará uma geração para traçarmos as implicações [desta descoberta]. Todas as 2000 páginas [de Platão] contêm símbolos até agora não detectados,” defende o pesquisador.

Filosofia secreta de Platão

“Os livros de Platão desempenharam um papel essencial na fundação da cultura ocidental, mas eles são misteriosos e terminam em enigmas,” explica o Dr. Kennedy. “Na antiguidade, muitos dos seus seguidores afirmavam que os livros continham camadas ocultas de significado e códigos secretos, mas isto foi rejeitado pelos estudiosos modernos.”
“É uma história longa e entusiasmante, mas basicamente eu desvendei o código. Eu demonstrei rigorosamente que os livros contêm códigos e símbolos e que a sua interpretação revela a filosofia secreta de Platão. “Esta é uma verdadeira descoberta, e não simplesmente uma reinterpretação,” afirma o historiador da ciência.
Se confirmado, realmente o achado não abre espaço para modéstia: um código secreto de Platão irá transformar a história do nascimento do pensamento ocidental e, especialmente, as histórias das antigas ciências, da matemática, da música e da filosofia.

A importância de Platão

Platão nasceu quatro séculos antes de Cristo, escreveu 30 livros e fundou a primeira universidade do mundo, chamada de Academia. Ele era um feminista, permitindo que as mulheres estudassem na Academia e foi o primeiro grande defensor do amor romântico, em oposição a casamentos arranjados, por motivos políticos ou financeiros. Ele também defendeu a homossexualidade em seus livros. Em um episódio menos conhecido de sua vida, ele foi capturado por piratas e vendido como escravo, sendo mais tarde resgatado por amigos.
“A importância de Platão não pode ser exagerada. Ele mudou a humanidade de uma sociedade guerreira para uma sociedade da sabedoria. Hoje os nossos heróis são Einstein e Shakespeare – e não cavaleiros de armaduras brilhantes – por causa dele,” diz o Dr. Kennedy.

Ciência e religião

Contudo, Platão não parece ter idealizado seus padrões secretos apenas para se divertir – eles serviam para sua própria segurança.
As ideias de Platão representavam uma ameaça perigosa para a religião grega. Ele afirmava que eram leis matemáticas, e não deuses, que controlavam o universo. O seu mestre, Sócrates, já havia sido executado por heresia.
Inversamente, o Dr. Kennedy propõe que a decodificação das mensagens musicais de Platão abre caminho justamente para unir a ciência e a religião.
A admiração e a beleza que sentimos na natureza, afirma Platão, mostra que ela é divina; descobrir a ordem científica da natureza significa aproximar-se de Deus. Isto, segundo Kennedy, “tem o potencial para transformar a atuais guerras culturais entre a ciência e a religião.”
Na opinião deste escriba, a descoberta vai trazer uma aproximação entre a Ciência Hermética e a Ciência Ortodoxa, visto que religiões dogmáticas apenas caminham na direção da fé cega e em oposição a estes dois núcleos de pesquisa, Espiritual e Material.

Fonte: http://www.manchester.ac.uk/aboutus/news/display/?id=5894
  

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A Majestosa Civilização de Cush



As escavações e estudos dessa civilização se concentram no atual Sudão, maior país da África.
Os cushitas, em épocas mais recentes, ocupavam o sul do Nilo com seu impressionante exército de arqueiros.

Cush foi o local do Jardim do Éden. Gen. 2: 11-14 - "Um rio saía do Éden para regar o jardim, e de lá se dividia em quatro braços. O primeiro chama-se Fison: é aquele que rodeia toda terra de Hévila, onde existe ouro; e o ouro dessa terra é puro, e nela se encontram também o bdélio e a pedra de ônix. O segundo rio chama-se Geon: ele rodeia toda a terra de Cush. O terceiro rio chama-se Tigre e corre pelo oriente da Assíria. O quarto rio é o Eufrates."
Nos escritos do Antigo Testamento, Cush é conhecido também por Núbia e muitas vezes citado como Etiópia.

Os historiadores gregos Homero e Heródoto deixaram registrados que os cushitas povoaram o Egito, a Arábia, a Palestina, a Ásia Ocidental e a Índia. Foram considerados, por Heródoto, como os mais altos, os mais bonitos; de maior longevidade entre as raças humanas e os mais justos dos homens. São citados nos anais de todas as civilizações. A arte de embalsamento, pelo qual são famosos os faraós egípcios, teve sua origem na civilização Cushita.

O Império de Cush construiu três vezes mais pirâmides que os egípcios e possuíram a cerâmica mais bela do mundo, assim considerada por todos os povos, inclusive os gregos.

A economia cushita era baseada em pedras preciosas, madeira de ébano, marfim, e também diversos produtos que contribuíram decisivamente para a manutenção e crescimento da civilização egípcia.
A 25ª dinastia do Egito é conhecida como dinastia etíope, em 712 a.C., porque o Egito foi conquistado pelo Império Cushita que governava o Egito e a Núbia.
A primeira capital do Império Cushita foi à cidade de Kerma, anterior a 5.000 a.C, considerada a cidade mais antiga da África, cujo tamanho compreendia 62 acres e possuindo mais de 200 casas, e edifícios maciços do tijolo que foram devotados ao comércio e às artes, com um templo e um palácio.

A segunda capital foi Napata, um centro sagrado e devotado aos deuses. O templo fundado em Jebal Barkal, uma montanha sagrada, transformou-se na fonte de reivindicações de Núbia ao trono egípcio.
Os reis de Núbia invadiram o Egito e estabeleceram a 25ª dinastia. O império de Núbia abrangeu a Síria no norte à Núbia no sul. Os reis de Núbia ajudaram o estado de Israel em seu esforço de guerra contra os Assírios. A terceira capital foi Meroé, a sua linhagem real durou mil anos. A cultura de Núbia em Meroé combinou tradições egípcias.

As mulheres tiveram papel proeminente na sociedade cushita, ocupando posições de poder e prestígio. Ao contrário das rainhas do Egito que possuíam o poder derivado dos seus maridos, as rainhas de Cush eram governantes independentes. Cush era uma sociedade matriarcal no período de Meroé. Os historiadores acreditam que em Meroé, uma das capitais do império cushita, nunca um homem reinou. O título de Candances para as rainhas foi originado do vocábulo ‘kentace’, e existiu por mais de quinhentos anos. Quatro dessas rainhas: Shanakdakete, Amanirenas, Amamishakete, Amamitere foram guerreiras temidas e comandaram seus bravos exércitos.

A Rainha Amamishakete e seu companheiro

A rainha Amanirenas reinou na cidade Meroé e quando o imperador romano Augustus tentou impor um imposto aos cushitas, Amanirenas e seu filho Akinidad, realizaram um ataque violento a um forte romano na cidade Asuan. Augustus mandou as tropas romanas; comandadas pelo general Peroneus, retaliaram, mas, encontraram uma forte resistência de Amanirenas comandando as tropas que derrotou os romanos e os obrigaram a negociar a paz. Os cushitas detiveram o avanço dos romanos na África, e colocaram um busto de César Augustus enterrado debaixo de uma entrada em um templo. Nesta maneira, todos que entraram pisariam em sua cabeça.

A rainha Amanirenas era alta, muito forte e cega de um olho; venceu as tropas romanas no ano 23 a.C., obrigando Roma a trocar embaixadores e fecharam um acordo, onde Roma devolveu um território cushita, anteriormente pago em imposto. Outras rainhas também enfrentaram as tropas romanas.
O exército africano de Cush derrotou inimigos egípcios, gregos e romanos.
A civilização de Cush, com seu alfabeto, comércio e triunfos arquitetônicos é considerada por alguns estudiosos, como superior às civilizações mais desenvolvidas do mundo antigo.

Fonte: Blog da CNNC