segunda-feira, 30 de abril de 2012

Mito e razão: “a porta para o logos”




Contribuições clássicas
O histórico da busca de uma realidade inteligível, “a porta para o logos”, é envolvida pelo mito. Desde o século VI a.C., os gregos da Jônia estavam a procura de uma substância primária, de um material básico do qual, segundo argumentavam, todas as coisas haviam se desenvolvido. Três homens, todos de Mileto e todos astrônomos e matemáticos, tinham suas teorias a esse respeito. Tales opinava que o material básico era um liquido claro; Anaxímenes pensava que era um gás incolor e Anaxímandro julgava que fosse alguma substância indeterminada, ilimitada e imperecível. Ao mesmo tempo, outro grupo de homens jônicos fazia especulações sobre a natureza da própria vida. Procuravam, estes grandes pensadores, um princípio único e unificador que explicasse porque as coisas são que
 o são (4).
Um desses homens era Heráclito, que vivia em Éfeso. Heráclito acreditava que a condição essencial da própria vida era o “fluxo”, isto é, o fato de que nada era absoluto e tudo mudava. Pitágoras, que nasceu em Samos, mas residiu a maior parte de sua vida na colônia grega de Crotona, Itália, acreditava que o universo era ordenado por um sistema harmonioso de números. Desses conceitos nasceu o Teorema de Pitágoras.
O terceiro desses primitivos filósofos foi Xenófanes, que, forçado a sair de sua terra na Jônia por uma invasão persa, estabeleceu-se em Eléia, na Itália. Xenófanes fundou uma escola filosófica, onde ensinava que o universo era ordenado por um ser único, supremo e divino, que agia exclusivamente por meio do pensamento (5).
Embora esses primeiros cientistas e filósofos dessem a maior importância ao seu trabalho e não hesitassem em rejeitar os velhos mitos sobre os deuses, se os mesmos estivessem em desacordo com suas teorias, ainda acreditavam em alguma direção divina do mundo. Se tivessem que desacreditar no velho mito criariam um novo para lhe tomar o lugar. Não se pode denominar esses métodos de científicos. Trabalhando no próprio alvorecer da Ciência, agiam principalmente por meios de rasgos de intuição e de inspiradas conjecturas. Não obstante, alguma das suas conclusões são espantosas. Anaxímandro, por exemplo, afirmou que o mundo era apenas uma série interminável de mundos; Xenófanes declarou que o homem tinha saído originalmente do mar e apresentou fósseis como prova. Xenófanes, foi, desse modo, um precursor da moderna afirmação científica sobre o assunto (6).
Entre os gregos, a procura do conhecimento científico dava tanto prazer como a apreciação das artes. Não faziam distinção entre o amor da beleza e o amor da verdade. A ideia de beleza é densa (Kalos, Kaloi) = Belo – Bem – Verdadeiro, supõe a busca contínua pela perfeição. O mito fornece a tônica das relações entre deuses e homens e do entendimento da harmonia das formas, a busca determinante pelo equilíbrio. Essa busca está presente, principalmente entre os séculos V e IV a.C. na construção dos templos, no teatro, na poesia, nas artes de modo geral. Esse sentido reflete a obrigação do homem de tirar o máximo proveito de seus dons naturais: “tudo o que valia a pena fazer, devia ser bem feito” (7) e, assim, até mesmo os vasos mais simples têm um notável toque de distinção. Até objetos utilitários, como moedas, são pequenas obras-primas em relevo em ouro e prata. Nesse contexto, visão científica ou filosófica, relações diretas (uma ponte) entre Arte e Vida estavam em conexão.
Na escultura, esse sentido de fina execução era inspirado e reforçado por algo mais sublime. A escultura grega tinha de ser digna dos deuses e estar inserida nas proposições mitológicas. Deveria também ser vista nos lugares, públicos sobretudo nos templos. Era preciso que tivesse nobreza e dignidade, sem contudo distanciar-se das coisas do cotidiano; acreditava-se que os deuses estavam, com frequência, intervindo nas mesmas. Tudo isso explica porque a Arte Grega, em seu maior brilho, evitava efeitos violentos e grosseiros. Ao contrário, mostra os homens em pleno vigor de seus corpos ágeis e musculosos, e mulheres envoltas nas ondulantes roupagens dos seus mais finos vestidos.
Os gregos, povo despido de inibições ao falar de si mesmo, sentiam prazer nas palavras. Possuíam à sua disposição uma língua sutil, expressiva e adaptável, da qual faziam pleno uso. Como se deu com muitos outros povos, além da profusão de personagem mitológicos, a poesia chegaria a ser quase “uma segunda religião”. Havia na sua criação, todo o cuidado e penetração que se aplicavam as artes visuais. Os poetas eram muito prezados – um poeta, para o filósofo Sócrates, era uma “coisa luminosa, alada e sagrada” (8). Escreviam sobre toda espécie de temas: agricultura, costumes locais, mitologia. Um homem, qualquer homem, quando tinha algo importante para dizer, quase sempre se expressava em verso – cantando ou declamando – nos primeiros tempos, com o acompanhamento de música.
A poesia era a reação imediata dos gregos a um amplo campo de buscas e experiências. Como reflexo dessa variedade, criaram ou aperfeiçoaram formas poéticas conhecidas até hoje. É possível que tenham começado com a epopéia heróica, que é a narração, em versos, de acontecimentos empolgantes, trágicos, povoados de heróis, deuses e mortais comuns. Continuaram com uma poesia mais pessoal e sentimental, cantada ao som da lira e que é, por isso, chamada lírica. No seu apogeu os gregos inventaram a Tragédia e a Comédia: a primeira tratava obscuras e difíceis relações entre os deuses e os homens, e a segunda apresentava, em linguagem picante e burlesca, toda sorte de fraqueza humana.
O apogeu dessa tradição criadora, alimentada pela Mitologia, foi atingido na última parte do século VIII a. C., na pessoa de Homero. Pouco se sabe de Homero. Julga-se que viveu em Esmirna ou na Ilha Quios. Suas obras-primas marcam o amanhecer da literatura européia. As epopéias anteriores deram a Homero um material narrativo e uma forma métrica que posteriormente se tornou o metro da poesia épica grega, o hexâmetro dactílico (9).
Porém, os poemas homéricos são muito mais que magnífica poesia. A Ilíada e a Odisséia tornaram-se os livros fundamentais da cultura grega e Homero foi considerado posteriormente pelos gregos um dos fundadores de sua história, filosofia, drama, poesia e ciência. Os seus temas foram uma fonte inesgotável de inspiração para artistas e oradores gregos. Hoje, ele constitui documento fascinante de informações sobre o mundo grego, como era no seu tempo e o mundo como ele pensava que fora nos tempos micênicos.
Embora tivesse aproveitado os mitos que lhe haviam chegado através dos séculos, Homero acrescentou muito do que era propriamente seu. Tomou as histórias primitivas de monstros canibais e riscos desesperados e animou-as com uma generosa e delicada ou rica visão da vida. Entre as antigas narrativas existe uma homem errante que é arremessado à costa pelo mar, sendo salvo por uma princesa com quem se casa. Ulisses, o homem errante de Homero, é salvo por uma encantadora princesa, Nausica, mas não se casa com ela. Ulisses tem uma esposa na pátria e, desse modo, em vez de casamento, desenvolve-se uma comovente amizade entre o acossado marinheiro e a jovem princesa.
Os seus ouvintes, provavelmente, não queriam se não histórias de heroísmo. Mas Homero lhes dava uma visão completa do mundo, de deuses nas suas tarefas determinadas, de homens e mulheres em marcha para os seus destinos, de todas as atitudes da vingança sinistra à farsa hilariante, de palácios e jardins, de ilhas remotas e praias rochosas. Por trás de todas as referências mitológicas, a sua imaginação está em ação, procurando ver os seres humanos como realmente são, compreendendo por que fazem o que fazem; retratando-os com profundeza mesmo quando são maus com calor e afeição (10).
Portanto, para Homero o mito franqueava inteligibilidade, conhecimentos: era “porta para o logos”.
Os mitos continuam sendo “a porta para o logos”?
E “os mitos contemporâneos” como atuam?
Hoje, observa-se que a retomada de Homero vem acompanhada de registros que, cada vez mais, estão sendo comprovados. É notório que Homero usa exemplos míticos para todas a situações imagináveis da vida em que o homem pode estar na presença de outro, para aconselhar, advertir, admoestar. Tais exemplos não se encontram de ordinário, na narração, mas sim nos discursos dos personagens épicos. O mito serve sempre de instância normativa para a qual apela o orador. Não tem caráter meramente fictício, dá margem a fantasia criadora, à sensibilidade estética. Há no seu âmago uma validade universal (11).
Atualmente, a pesquisa científica das diversas áreas continua reexaminando não apenas os épicos de Homero, porém o grande acervo clássico como um todo. Ao lado do saber proporcionado pelos cientistas, filósofos, dramaturgos e a beleza das obras-primas, tem-se como certo de que as citações épicas vão além do mito. Dados e novas descobertas que se somam, vão tirando personagens do anonimato, ou confirmando lugares de suas presenças. Tem-se, por exemplo, mais de vinte mil personagens com registros em fragmentos de cerâmicas (ostraka). Ao lado de figura ilustres como Péricles, Aristídes, surgem novas, com freqüência (12).
Essas sinalizações motivam contínuas retomadas das questões inseridas na força de mitos primordiais que traçaram a fisionomia de homens e povos. Pensadores contemporâneos, correntes psicanalíticas, estudiosos da astrofísica, momentos artísticos diversos não se furtam a esse acervo. Entre os séculos XVIII e XIX, ingleses e franceses, depois de saques, aumentam as coleções de seus museus “com deuses e deusas”. Esses inspiraram reformulações urbanísticas e obras artísticas. Pensadores como Goethe e Hegel aprofundaram suas ideias através desse referencial. Já no século XX, Freud vasculha a emergência do mito, incluindo a sua força simbólica.
Dessa forma, pode-se indagar: a passagem de uma consciência mítica para o logos continua envolvendo a todos? Onde começa a diversidade entre os homens? Onde terminam as questões de identidade? O que há de comum e de diverso entre gregos e romanos; entre orientais e ocidentais; latinos e saxões, ou entre latinos americanos do sul e do norte? Por que, no encontro de culturas diversas, uma absorve a outra, impondo-se como única de ser, agir, ou de entender estilos e a própria visão do mundo ou do cosmo? Nos campos da Ciência e da Arte, o acervo primordial ainda faz sentido como referencial?
As questões podem continuar a serem levantadas: o mundo que se informatiza gesta novos mitos? O mundo vitrini e a realidade virtual criam novos personagens? As pesquisas bio-tecnológicas, clonagem, a robótica não estão criando “novos heróis, deuses e semi-deuses”? Décadas atrás, a pop art referia-se aos novos mitos que emergiam da sociedade de eletrodomésticos e da publicidade como os “novos barroquismos urbanos” (13). Tendências pós-modernas assinalam a presença do mito clássico, como “saudade do lar distante” ou de antigos lugares do mediterrâneo. Naturalmente, os mitos assumem novas configurações e sentidos. No contexto atual, quais aspectos podem ser assinalados? Quais as possibilidades emergentes de conectá-los com Arte e Ciência?

Notas:
1. JENCKS, Charles. Post-modernism – the new classiscism in art and architeture.London Academy, 1987, p. 33 e seguintes
2. CRIPPA, Adolpho. Mito e Cultura. São Paulo, Convívio, 1975, p. 15 e seguintes
3. JAEGER, Werner. Paidéia. São Paulo, Martins Fontes, 1979, p. 179 e seguintes
4. PESSANHA, José Américo Mota (cons.). Os pré-socráticos vida e obra (Col. Os Pensadores), São Paulo, Nova Cultural, 1996, p. 14.
5. Idem, p. 23 e seguintes.
6. Ibidem, p. 25 e seguintes.
7. BAYER, Raymond. Historia de la estetica, México, Fondo de Cultura, 1965, p. 222 e seguintes.
8. PESSANHA, José Américo Mota. In: Sócrates (Coleção Pensadores) São Paulo, Nova Cultural, 1996, p. 10 e seguintes.
9. JAEGER, Werner. Op. cit., p. 34 e seguintes.
10. Idem, p. 62 e seguintes.
11. CAMPBELL, Joseph (org.) Mitos, sonhos e religião – nas artes, na filosofia e na vida contemporânea. Rio de Janeiro, Ediouro, 2001, p. 139 e seguintes.
12. BOWRA, Maurice. Grécia Clássica, Rio de Janeiro, José Olympio, 1969, p. 11 e seguintes.
13. ROUANET, Sérgio Paulo. As razões do Iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p 265 e seguintes.
Bibliografia:
CAILLOIS, Roger. O Mito e o Homem, Lisboa, Edição 70, 1979.
CRIPPA, Adolpho. Mito e Cultura, São Paulo, Convívio, 1975.
DORFLES,Gillo. Novos Ritos, novos mitos, Lisboa, Edições 70, 1965.
CAMPBELL, Joseph. com BILL MOYERS; FLOWES (BETTYSVE org.) O poder do mito, São Paulo. Palas Athenas, 1996.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Mito e Significado, Lisboa, Edições 70, 1979.
JENCKS, Charles. Post-modernism – the new classiscism in art and architeture.London Academy, 1987.
CRIPPA, Adolpho. Mito e Cultura. São Paulo, Convívio, 1975.
JAEGER, Werner. Paidéia. São Paulo, Martins Fontes, 1979.
PESSANHA, José Américo Mota (consultoria). Os pré-socráticos vida e obra (Coleção Os Pensadores), São Paulo, Nova Cultural, 1996.
BAYER, Raymond. Historia de la estetica, México, Fondo de Cultura, 1965.
PESSANHA, José Américo Mota. In: Sócrates (Coleção Pensadores) São Paulo, Nova Cultural, 1996.
CAMPBELL, Joseph (org.) Mitos, sonhos e religião – nas artes, na filosofia e na vida contemporânea. Rio de Janeiro, Ediouro, 2001.
BOWRA, Maurice. Grécia Clássica, Rio de Janeiro, José Olympio, 1969.
ROUANET, Sérgio Paulo. As razões do Iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia, São Paulo: Martins Fontes, 1998.
WILSON, Simon. Arte pop, Barceolona: Labor, 1995.
Lealcy B. Junior

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O Código de Platão...




Um cientista da Universidade de Manchester, na Inglaterra, afirma ter desvendado o “O Código de Platão” – mensagens secretas escondidas nos escritos do grande filósofo grego e que vêm desafiando os estudiosos há mais de dois mil anos.
Platão foi uma espécie de Einstein da Idade de Ouro da Grécia. Seu trabalho está na base de toda a cultura e da ciência ocidentais. Avance pela Teoria da Conspiração a respeito dos segredos deste código.

Com isto, os resultados do trabalho do Dr. Jay Kennedy poderão revolucionar a história das origens do pensamento ocidental – além de ser um feito na área da criptografia comparável apenas à decifração dos hieróglifos egípcios, realizado pelo francês Jean-François Champollion, com a ajuda da Pedra de Roseta, em 1822.

O livro da natureza

Em seu artigo, o Dr. Kennedy revela que Platão usou um padrão regular de símbolos, herdados dos seguidores de Pitágoras, cujos ensinamentos foram uma das bases para o conhecimento Rosacruciano, para dar a seus livros uma estrutura musical.
Os códigos escondidos em sua obra mostram que Platão antecipou a Revolução Científica cerca de 2000 anos antes de Isaac Newton, descobrindo a sua ideia mais fundamental – a noção de que “o livro da natureza” está escrito em linguagem matemática.
Um século antes, Pitágoras havia dito que os planetas e as estrelas produzem uma música inaudível aos ouvidos humanos comuns, uma “harmonia das esferas”. Em seus livros, Platão tentar imitar as harmonias dessa música.

O código secreto de Platão

O Dr. Kennedy passou meros cinco anos estudando a escrita de Platão – a maioria dos filósofos faz isso a vida toda, embora com outros objetivos – e descobriu que em sua obra mais conhecida, a República, o filósofo grego colocou grupos de palavras relacionadas à música depois de cada duodécimo do texto – em um doze avos, dois doze avos, e assim por diante.
Esse padrão regular representa as doze notas da escala musical grega. Algumas notas são harmônicas, outras dissonantes. Nos pontos onde estão as notas harmônicas, ele descreveu sons associados com o amor ou o riso, enquanto os pontos onde estão as notas dissonantes foram marcados por sons ou gritos de guerra ou de morte.
Este código musical foi a chave para desvendar todo o sistema simbólico de Platão – o “código secreto de Platão”.
“Quando lemos seus livros, as nossas emoções seguem os altos e baixos de uma escala musical. Platão toca seus leitores como se eles fossem instrumentos musicais,” diz o pesquisador.

Evangelhos de Platão

Para quebrar o código de Platão, o pesquisador afirma não ter havido milagres: “Não houve uma Pedra de Roseta. Para anunciar um resultado como este eu precisava de provas rigorosas e independentes, baseadas em evidências cristalinas.”
“O resultado foi incrível – foi como abrir uma tumba e encontrar uma nova série de evangelhos escritos pelo próprio Jesus Cristo. Platão nos enviou uma cápsula do tempo,” entusiasma-se ele.
Apesar de já ter apresentado seu trabalho e discutido o resultado com colegas em alguns eventos científicos, o trabalho deverá gerar controvérsias, porque os historiadores modernos sempre negaram que havia códigos secretos na obra de Platão.
“Isto é o começo de algo grandioso. Levará uma geração para traçarmos as implicações [desta descoberta]. Todas as 2000 páginas [de Platão] contêm símbolos até agora não detectados,” defende o pesquisador.

Filosofia secreta de Platão

“Os livros de Platão desempenharam um papel essencial na fundação da cultura ocidental, mas eles são misteriosos e terminam em enigmas,” explica o Dr. Kennedy. “Na antiguidade, muitos dos seus seguidores afirmavam que os livros continham camadas ocultas de significado e códigos secretos, mas isto foi rejeitado pelos estudiosos modernos.”
“É uma história longa e entusiasmante, mas basicamente eu desvendei o código. Eu demonstrei rigorosamente que os livros contêm códigos e símbolos e que a sua interpretação revela a filosofia secreta de Platão. “Esta é uma verdadeira descoberta, e não simplesmente uma reinterpretação,” afirma o historiador da ciência.
Se confirmado, realmente o achado não abre espaço para modéstia: um código secreto de Platão irá transformar a história do nascimento do pensamento ocidental e, especialmente, as histórias das antigas ciências, da matemática, da música e da filosofia.

A importância de Platão

Platão nasceu quatro séculos antes de Cristo, escreveu 30 livros e fundou a primeira universidade do mundo, chamada de Academia. Ele era um feminista, permitindo que as mulheres estudassem na Academia e foi o primeiro grande defensor do amor romântico, em oposição a casamentos arranjados, por motivos políticos ou financeiros. Ele também defendeu a homossexualidade em seus livros. Em um episódio menos conhecido de sua vida, ele foi capturado por piratas e vendido como escravo, sendo mais tarde resgatado por amigos.
“A importância de Platão não pode ser exagerada. Ele mudou a humanidade de uma sociedade guerreira para uma sociedade da sabedoria. Hoje os nossos heróis são Einstein e Shakespeare – e não cavaleiros de armaduras brilhantes – por causa dele,” diz o Dr. Kennedy.

Ciência e religião

Contudo, Platão não parece ter idealizado seus padrões secretos apenas para se divertir – eles serviam para sua própria segurança.
As ideias de Platão representavam uma ameaça perigosa para a religião grega. Ele afirmava que eram leis matemáticas, e não deuses, que controlavam o universo. O seu mestre, Sócrates, já havia sido executado por heresia.
Inversamente, o Dr. Kennedy propõe que a decodificação das mensagens musicais de Platão abre caminho justamente para unir a ciência e a religião.
A admiração e a beleza que sentimos na natureza, afirma Platão, mostra que ela é divina; descobrir a ordem científica da natureza significa aproximar-se de Deus. Isto, segundo Kennedy, “tem o potencial para transformar a atuais guerras culturais entre a ciência e a religião.”
Na opinião deste escriba, a descoberta vai trazer uma aproximação entre a Ciência Hermética e a Ciência Ortodoxa, visto que religiões dogmáticas apenas caminham na direção da fé cega e em oposição a estes dois núcleos de pesquisa, Espiritual e Material.

Fonte: http://www.manchester.ac.uk/aboutus/news/display/?id=5894
  

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A Majestosa Civilização de Cush



As escavações e estudos dessa civilização se concentram no atual Sudão, maior país da África.
Os cushitas, em épocas mais recentes, ocupavam o sul do Nilo com seu impressionante exército de arqueiros.

Cush foi o local do Jardim do Éden. Gen. 2: 11-14 - "Um rio saía do Éden para regar o jardim, e de lá se dividia em quatro braços. O primeiro chama-se Fison: é aquele que rodeia toda terra de Hévila, onde existe ouro; e o ouro dessa terra é puro, e nela se encontram também o bdélio e a pedra de ônix. O segundo rio chama-se Geon: ele rodeia toda a terra de Cush. O terceiro rio chama-se Tigre e corre pelo oriente da Assíria. O quarto rio é o Eufrates."
Nos escritos do Antigo Testamento, Cush é conhecido também por Núbia e muitas vezes citado como Etiópia.

Os historiadores gregos Homero e Heródoto deixaram registrados que os cushitas povoaram o Egito, a Arábia, a Palestina, a Ásia Ocidental e a Índia. Foram considerados, por Heródoto, como os mais altos, os mais bonitos; de maior longevidade entre as raças humanas e os mais justos dos homens. São citados nos anais de todas as civilizações. A arte de embalsamento, pelo qual são famosos os faraós egípcios, teve sua origem na civilização Cushita.

O Império de Cush construiu três vezes mais pirâmides que os egípcios e possuíram a cerâmica mais bela do mundo, assim considerada por todos os povos, inclusive os gregos.

A economia cushita era baseada em pedras preciosas, madeira de ébano, marfim, e também diversos produtos que contribuíram decisivamente para a manutenção e crescimento da civilização egípcia.
A 25ª dinastia do Egito é conhecida como dinastia etíope, em 712 a.C., porque o Egito foi conquistado pelo Império Cushita que governava o Egito e a Núbia.
A primeira capital do Império Cushita foi à cidade de Kerma, anterior a 5.000 a.C, considerada a cidade mais antiga da África, cujo tamanho compreendia 62 acres e possuindo mais de 200 casas, e edifícios maciços do tijolo que foram devotados ao comércio e às artes, com um templo e um palácio.

A segunda capital foi Napata, um centro sagrado e devotado aos deuses. O templo fundado em Jebal Barkal, uma montanha sagrada, transformou-se na fonte de reivindicações de Núbia ao trono egípcio.
Os reis de Núbia invadiram o Egito e estabeleceram a 25ª dinastia. O império de Núbia abrangeu a Síria no norte à Núbia no sul. Os reis de Núbia ajudaram o estado de Israel em seu esforço de guerra contra os Assírios. A terceira capital foi Meroé, a sua linhagem real durou mil anos. A cultura de Núbia em Meroé combinou tradições egípcias.

As mulheres tiveram papel proeminente na sociedade cushita, ocupando posições de poder e prestígio. Ao contrário das rainhas do Egito que possuíam o poder derivado dos seus maridos, as rainhas de Cush eram governantes independentes. Cush era uma sociedade matriarcal no período de Meroé. Os historiadores acreditam que em Meroé, uma das capitais do império cushita, nunca um homem reinou. O título de Candances para as rainhas foi originado do vocábulo ‘kentace’, e existiu por mais de quinhentos anos. Quatro dessas rainhas: Shanakdakete, Amanirenas, Amamishakete, Amamitere foram guerreiras temidas e comandaram seus bravos exércitos.

A Rainha Amamishakete e seu companheiro

A rainha Amanirenas reinou na cidade Meroé e quando o imperador romano Augustus tentou impor um imposto aos cushitas, Amanirenas e seu filho Akinidad, realizaram um ataque violento a um forte romano na cidade Asuan. Augustus mandou as tropas romanas; comandadas pelo general Peroneus, retaliaram, mas, encontraram uma forte resistência de Amanirenas comandando as tropas que derrotou os romanos e os obrigaram a negociar a paz. Os cushitas detiveram o avanço dos romanos na África, e colocaram um busto de César Augustus enterrado debaixo de uma entrada em um templo. Nesta maneira, todos que entraram pisariam em sua cabeça.

A rainha Amanirenas era alta, muito forte e cega de um olho; venceu as tropas romanas no ano 23 a.C., obrigando Roma a trocar embaixadores e fecharam um acordo, onde Roma devolveu um território cushita, anteriormente pago em imposto. Outras rainhas também enfrentaram as tropas romanas.
O exército africano de Cush derrotou inimigos egípcios, gregos e romanos.
A civilização de Cush, com seu alfabeto, comércio e triunfos arquitetônicos é considerada por alguns estudiosos, como superior às civilizações mais desenvolvidas do mundo antigo.

Fonte: Blog da CNNC


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Contribuição do Pai Olavo Solera para o Fórum Internacional Permanente

http://www.religiaoediversidade.blogspot.com/2011/12/contribuicao-do-pai-olavo-solera-para-o.html


SEXTA-FEIRA, 23 DE DEZEMBRO DE 2011



Como já é comum à minha pessoa, quando preciso escrever sobre um tema, busco na etimologia da palavra a tradução da mesma, e melhor, o caminho que devo trilhar.

A palavra DIVERSIDADE , do latim DIVERTERE, significa: "voltar-se em diferentes direções",   DIS = "para o lado" e VERTERE = "virar-se".

Desta forma meus amigos, ao sentar para escrever este texto sobre a diversidade nas religiões afro-brasileiras, deparei-me com duas vertentes que vivem em mim:  a do discípulo praticante, e a do acadêmico - teólogo.

Ao  olhar para estas diferentes situações, reconheci  em mim  a diversidade,  e se existe em mim, existe fora de mim. Sendo assim, o mesmo respeito que tenho para comigo passo a ter com os demais, sejam diferenças econômicas, sociais ou religiosas.

Acredito que isso é olhar para diferentes direções, sem pré-conceitos, sem discriminações, reconhecendo que as próprias religiões afro-brasileiras  mostram-se diversas em seus Cultos de Nação, as vertentes da Umbanda, o Catimbó, o Terecô, o Xambá, o Tambor de Mina, o Babassuê, o Batuque e muitos outros.
Minha vivência nas religiões afro-brasileiras inicia-se com Pai Rivas - Mestre Arhapiagha em 1979, e continua até hoje.

Iniciado por ele em 1983, caminho por esta estrada há 34 anos. Foi ele que me ensinou a reconhecer o diferente como algo bom, e se é bom tem que ser para todos.

Desta forma a diversidade nas religiões afro-brasileiras passaria a ser reconhecida pelas constantes ressignificações e mudanças,  tal qual a vida.

O respeito incondicional levará a todos à substituir o EU pelo NÓS, e quando chegar este dia  Orixá, Ancestral , Natureza e Homem, serão uma só unidade...

Mestre Ygbere
Discípulo de Pai Rivas - Mestre Arhapiagha

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Um sonho realizado...


Gostaria de participar aos amigos a grande alegria de realizar um sonho, fruto de muitos anos de trabalho. Busco  mostrar a todos a oportunidade que a FTU - Faculdade de Teologia Umbandista -  possibilitou a mim e a muitos outros alcançarem  uma graduação no meio acadêmico.
A aproximação da Academia, Religião e Religiosidade Popular propiciada pela FTU, tornou possível à grande massa dos excluídos obter condições de igualdade nesta sociedade desigual.
A FTU, com certeza, é um marco nas religiões afro brasileiras, pois possibilitou a  formação de pessoas com uma nova consciência política, social, econômica e espiritual, levando à sociedade como um todo, novas posturas no pensar, sentir e agir.
Agradeço ao Pai Rivas Neto - Mestre Arhapiagha -  que, corajosamente, decidiu tornar o sonho de uma humanidade melhor em realidade.
Assim, veiculo a imagem de meu diploma de Teólogo Umbandista, bem como a chancela do mesmo pela Universidade de São Paulo-USP.


Convido os amigos a conhecerem os site da Faculdade de Teologia Umbandista: ftu.edu.com.br


P.S.: A Faculdade de Teologia Umbandista é autorizada e credenciada pelo 
Ministério da Educação - MEC - Portaria 3864 - 18/12/2003 

Ygbere - Osvaldo Olavo Ortiz Solera

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Mitos e Estações no céu Tupi-Guarani



Com astronomia própria, índios brasileiros definiam o tempo de colheita, a contagem de dias, meses e anos, a duração das marés, a chegada das chuvas. Desenhavam no céu histórias de mitos, lendas e seus códigos morais, fazendo do firmamento esteio de seu cotidiano.

Scientific American - edição 45 - Fevereiro 2006
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 por Germano Afonso

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     A Via Láctea abriga as principais constelações da    astronomia  tupi-guarani, que incluem manchas claras e escuras no desenho de suas formas.
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A observação do céu sempre esteve na base do conhecimento de todas as sociedades do passado, submetidas em conjunto ao desdobramento cíclico de fenômenos como o dia e a noite, as fases da Lua e as estações do ano. Os indígenas há muito perceberam que as atividades de caça, pesca, coleta e lavoura estão sujeitas a flutuações sazonais e procuraram desvendar os fascinantes mecanismos que regem esses processos cósmicos, para utilizá-los em favor da sobrevivência da comunidade.

Diferentes entre si, os grupos indígenas tiveram em comum a necessidade de sistematizar o acesso a um rico e variado ecossistema de que sempre se consideraram parte. Mas não bastava saber onde e como obter alimentos. Era preciso definir também a época apropriada para cada uma das atividades de subsistência. Esse calendário era obtido pela leitura do céu. Há registros escritos sobre sua ligação com os astros desde a chegada dos europeus ao Brasil, mas é possível que se utilizassem desse conhecimento desde que deixaram de ser nômades.

É evidente, no entanto, que nem todos os grupos indígenas, mesmo de uma única etnia, atribuem idêntico significado a um determinado fenômeno astronômico específico, e a razão disso está no fato de cada grupo ter sua própria estratégia de sobrevivência. Além disso, considerando que não dependem, de maneira uniforme, de suas moradias, caça, pesca ou de trabalhos agrícolas, as constelações sazonais, por exemplo, oferecem aos distintos povos uma enorme diversidade de interpretação.

Para acessar essa cosmologia é preciso considerar, entre outros pontos, a localização física e geográfica de cada grupo, como os que habitam o litoral e o interior, ou diferentes latitudes. Junto à linha do Equador, por exemplo, não há muito sentido em referir-se às estações do ano em função de variação da temperatura local. Além de reduzidas, nem sempre essas oscilações refletem o que se pode caracterizar como verão ou inverno. O clima da região tropical é caracterizado, fundamentalmente, em função da maior ou menor abundância de chuvas.

Separados mas Iguais
Durante nossas pesquisas em etnoastronomia tupi-guarani, tivemos diálogos informais e realizamos observações do céu com pajés de todas as regiões brasileiras. Além disso, utilizamos documentos históricos que relatam diversos mitos, constelações e a importância da astronomia no cotidiano das famílias indígenas.

Das várias famílias do tronco lingüístico tupi, a tupi-guarani é a mais extensa em número e na distribuição geográfica de suas línguas, que são várias, do mesmo tronco. São encontrados grupos tupis-guaranis em todas as partes do Brasil, bem como na Guiana Francesa, Argentina, Paraguai, Bolívia e Peru.

O que nos incentivou a rea-lizar este trabalho de resgate da astronomia tupi-guarani foi perceber, em 1991, que o sistema astronômico dos tupinambá do Maranhão de 1612 é muito semelhante ao utilizado, atualmente, pelos guaranis do sul do Brasil, embora separados pelas línguas (tupi e guarani), pelo espaço (mais de 3 mil km, em linha reta) e pelo tempo (quase 400 anos).

As observações do céu que realizamos com os indígenas permitiram localizar a maioria das constelações tupinambá e de diversas outras etnias da família tupi-guarani. Verificamos que etnias diferentes - distintas culturalmente, como seria de se esperar - possuem um conjunto muito semelhante de conhecimentos astronômicos, utilizados para materializar tanto o calendário como os sistemas de orientação. Esse conjunto comum se refere, principalmente, ao Sol, Lua, Vênus, Via Láctea, e às constelações do Cruzeiro do Sul, Plêiades e das regiões do céu onde se situam Órion e Escorpião, constelações ocidentais que surgem, respectivamente no verão e no inverno, no hemisfério sul.

Além disso, algumas das constelações dos tupis-guaranis, utilizadas no cotidiano, são as mesmas de outros índios da América do Sul e dos aborígines australianos. É o caso da "Ema" e do "Homem Velho", que também foram relatadas pelo capuchinho francês Claude d\\'Abbeville. Em 1612, o missionário passou quatro meses entre os tupinambás do Maranhão, perto da linha do Equador. Seu livro "Histoire de la Mission de Pères Capucins en l\\'Isle de Maragnan et terres circonvoisins", publicado em Paris em 1614, é considerado uma das mais importantes fontes da etnografia dos tupis. Ele registrou o nome de cerca de 30 estrelas e constelações conhecidas pelos índios da ilha. Infelizmente, identificou apenas algumas delas. Sempre que nos referirmos aos extintos tupinambás, estaremos utilizando essa obra de d\\'Abbeville, onde ele afirma: "Poucos entre eles desconhecem a maioria dos astros e estrelas de seu hemisfério; chamam-nos todos por seus nomes próprios, inventados por seus antepassados".

Astronomia e Biodiversidade
Os indígenas são profundos conhecedores do seu ambiente, plantas e animais, nomeando as várias espécies. 

Os tupis-guaranis, por exemplo, associam as estações do ano e as fases da Lua com o clima, a fauna e a flora da região em que vivem. Para eles, cada elemento da Natureza tem um espírito protetor. As ervas medicinais são preparadas obedecendo a um calendário anual bem rigoroso.
Em 1758, na 10ª edição de seu livro Systema naturae, o botânico e médico sueco Karl von Linné (1707-1778) classificou todos os seres vivos até então conhecidos com as noções de gênero e espécie. Ele incluiu 39 espécies (14 mamíferos, 15 aves, 2 répteis e 8 peixes) das 1.370 catalogadas pelo astrônomo alemão Georg Marcgrave (1610 -1644), considerado o primeiro naturalista a estudar a fauna brasileira. Linné considerou os índios guaranis como "primus verus systematicus", dando, assim, o devido crédito à contribuição intelectual desta etnia à ciência da sistemática ou taxonomia, por cuja criação ele é internacionalmente reconhecido.

Os tupis-guaranis, em virtude da longa prática de observação da Lua, conhecem e utilizam suas fases na caça, no plantio e no corte da madeira. Eles consideram que a melhor época para essas atividades é entre a lua cheia e a lua nova (lua minguando), pois entre a lua nova e a lua cheia (lua crescendo) os animais se tornam mais agitados devido ao aumento de luminosidade. Certa noite de lua crescente estava observando as constelações com os guaranis na ilha da Cotinga, Paraná.

De repente, um deles me disse que seria melhor observarmos quando não houvesse Lua. Rapidamente, com meu conhecimento ocidental, respondi que estava de acordo, pois o brilho da Lua ofuscava o brilho das estrelas, embora conseguíssemos enxergar bem a Via Láctea. Ao que ele retrucou dizendo que, na realidade, o que o incomodava era a quantidade de mosquitos, muito menor quando não há Lua. Nunca havia percebido essa relação, que de fato existe, entre as fases da lua e a incidência de mosquitos.

Os guaranis que atualmente habitam o litoral também conhecem a relação das fases da Lua com as marés. Além disso, associam a Lua e as marés às estações do ano (observação dos astros e dos ventos) para a pesca artesanal. Segundo eles, o camarão é mais pescado entre fevereiro e abril, na maré alta de lua cheia, enquanto a época do linguado é no inverno, nas marés de quadratura (lua crescente e lua minguante). Em geral, quando saem para pescar, seja no rio ou no mar, os guaranis já sabem quais as espécies de peixe mais abundantes, em função da época do ano e da fase da Lua.

Até o ritual do "batismo" (nimongarai ou nheemongarai, em guarani), em que as crianças recebem seu nome, depende de um calendário luni-solar e da orientação espacial: o plantio principal do milho (avaxi) ocorre, geralmente, na primeira lua minguante de agosto. Após a colheita do milho plantado nessa época é que realizam o batismo das crianças. Esse evento deve coincidir com a época dos "tempos novos", caracterizada pelos fortes temporais de verão, geralmente o mês de janeiro. O nome dado à criança guarani vem de uma das cinco regiões celestes: zênite, norte, sul, leste e oeste. Cada região possui nomes típicos, representando a origem das crianças.
A astronomia envolveu todos os aspectos da cultura indígena. O caráter prático dos seus conhecimentos pode ser reconhecido na organização social e em condutas cotidianas que eram orientadas por rituais cujas datas eram definidas pelas posições dos astros.

A comunidade científica conhece muito pouco da astronomia indígena e da sua relação com o ambiente, patrimônio que pode ser perdido em uma ou duas gerações pelo rápido processo de globalização, que tende a homogeneizar as culturas e assim perder as nuances da diversidade. Esse risco ocorre, também, pela falta de pesquisa de campo e pelas dificuldades em documentar, avaliar, validar, proteger e disseminar os conhecimentos astronômicos dos indígenas do Brasil. Atualmente, há um grande interesse internacional na proteção e conservação do conhecimento tradicional e de práticas ancestrais de indígenas e das comunidades locais, para a conservação da biodiversidade.

O Sol e os Pontos Cardeais
Para os tupis-guaranis o Sol é o principal regulador da vida na Terra e tem grande significado religioso. Todo o cotidiano deles está voltado para a busca da força espiritual do Sol. Os guaranis, por exemplo, nomeiam o Sol de Kuaray, na linguagem do cotidiano e de Nhamandu, na espiritual.

Os tupis-guaranis determinam o meio-dia solar, os pontos cardeais e as estações do ano utilizando o relógio solar vertical, ou gnômon, que na língua tupi antiga, por exemplo, chamava-se Cuaracyraangaba. Ele é constituído de uma haste cravada verticalmente em um terreno horizontal, da qual se observa a sombra projetada pelo Sol. Essa haste vertical aponta para o ponto mais alto do céu, chamado zênite. O relógio solar vertical foi utilizado também no Egito, China, Grécia e em diversas outras partes do mundo.

Na cosmogênese guarani, Nhanderu (Nosso Pai) criou quatro deuses principais que o ajudaram na criação da Terra e de seus habitantes. O zênite representa Nhanderu e os quatro pontos cardeais representam esses deuses. O Norte é Jakaira, deus da neblina vivificante e das brumas que abrandam o calor, origem dos bons ventos. O Leste é Karai, deus do fogo e do ruído do crepitar das chamas sagradas. No Sul, Nhamandu, deus do Sol e das palavras, representa a origem do tempo-espaço primordial. No Oeste, Tupã, é deus das águas, do mar e de suas extensões, das chuvas, dos relâmpagos e dos trovões.
O calendário guarani está ligado à trajetória aparente anual do Sol e é dividido em tempo novo e tempo velho (ara pyau e ara ymã, respectivamente, em guarani). Ara pyau é o período de primavera e verão, sendo ara ymã o período de outono e inverno.

O dia do início de cada estação do ano é obtido através da observação do nascer ou do pôr-do-sol, sempre de um mesmo lugar, por exemplo, da haste vertical. O Sol sempre nasce do lado leste e se põe do lado oeste.

No entanto, somente nos dias do início da primavera e do outono, o Sol nasce exatamente no ponto cardeal Leste e se põe exatamente no ponto cardeal Oeste. Para um observador no Hemisfério Sul, em relação à linha leste-oeste, o nascer e o pôr-do-sol ocorrem um pouco mais para o norte no inverno e um pouco mais para o sul no verão. Utilizando rochas, por exemplo, para marcar essas direções, os tupis-guaranis materializavam os quatro pontos cardeais e as direções do nascer e do pôr-do-sol no início das estações do ano.

Lua e as Marés
Para os tupis-guaranis, a Lua (Jaxi, em guarani), principal regente da vida marinha, é considerada do sexo masculino, o irmão mais novo do Sol. A primeira unidade de tempo utilizada pelos tupis-guaranis foi o dia, medido por dois nasceres consecutivos do Sol. Depois veio o mês (também chamado jaxi), determinado a partir de duas aparições consecutivas de uma mesma fase da Lua. Os tupis-guaranis consideravam essa fase como sendo o primeiro filete da Lua que aparecia do lado oeste, ao anoitecer, depois do dia da lua nova (jaxy pyau), dia em que a Lua não é visível por se encontrar muito próxima da direção do Sol.

Além de serem utilizadas como calendário mensal, as fases da Lua serviam para orientação geográfica, pois a Lua brilha por refletir a luz do Sol, ficando a sua parte iluminada no lado em que se encontra o Sol. Entre a lua nova e a lua cheia (jaxy guaxu) o hemisfério iluminado aponta para o lado oeste, enquanto entre a lua cheia e a lua nova, a indicação é do lado leste. As fases da Lua também permitiam obter as horas da noite: o primeiro filete, depois da lua nova, aparece ao anoitecer, do lado oeste, e desaparece minutos depois, a lua crescente (jaxy endy mbyte) aparece desde o anoitecer até meia-noite, a lua cheia do pôr-do-sol ao nascer-do-sol e a lua minguante (jaxy nhenpytu mbyte) fica visível da meia-noite ao amanhecer.

Segundo d\\'Abbeville, "os tupinambás atribuem à Lua o fluxo e o refluxo do mar e distinguem as duas marés cheias que se verificam na lua cheia e na lua nova ou poucos dias depois". Assim, mesmo antes dos europeus, os tupinambás já sabiam que perto dos dias de lua nova e de lua cheia as marés altas são mais altas e as marés baixas são mais reduzidas do que nos outros dias do mês. O conhecimento da periodicidade das marés antes dos europeus pode ser explicado em virtude de a relação entre as marés e as fases da Lua ser melhor observada entre os trópicos, região em que se localiza a maior parte do Brasil.
Eclipses e o Fim do Cosmos
Os eclipses sempre espalharam terror por transformarem em caos a ordem de repetição do Cosmos, de eterno retorno. Aparentemente, diversos povos antigos podiam prever esses fenômenos. Mas, por falta de registros, não conhecemos os métodos por eles utilizados. Os tupis-guaranis também observavam os movimentos do Sol e da Lua e se preocupavam em prever os eclipses.

Um dos mitos tupi-guarani sobre o fenômeno relata que a onça (xivi, em guarani) sempre persegue os irmãos Sol e Lua. Na ocasião do eclipse solar (kuaray onheama) ou do lunar (jaxy onheama), os indígenas fazem a maior algazarra, com o objetivo de espantar a Onça Celeste, pois acreditam que o fim do mundo ocorrerá quando a ela devorar a Lua, o Sol e os outros astros, fazendo com que a Terra caia na mais completa escuridão.
No céu, a cabeça da onça desse mito indígena é representada pela estrela vermelha Antares, da constelação zodiacal do Escorpião, e pela estrela Aldebaran, também vermelha, da constelação zodiacal do Touro. Essas duas constelações ficam no zodíaco onde, observados da Terra, passam o Sol, os planetas e a Lua. Assim, de fato, pelo menos uma noite por mês e um dia por ano, a Lua e o Sol, respectivamente, aproximam-se de Antares e de Aldebaran.

Os antigos astrônomos não sabiam que era a Terra que orbitava em torno do Sol (movimento de translação). Ao nascer e ao pôr-do-sol, observavam que a posição do Sol mudava, dia a dia, em relação às estrelas fixas, em um movimento cíclico de um ano. Perceberam que os eclipses solares e lunares ocorriam apenas quando a Lua estava próxima a essa trajetória do Sol entre as estrelas, no céu. Devido a esta relação com os eclipses, denominaram essa trajetória aparente do Sol de eclíptica. O mito sobre os eclipses demonstra o grande conhecimento empírico de astronomia dos tupis-guaranis.

As Crateras Lunares
Lua, irmão do Sol, entrava tateando no escuro, no quarto da irmã de seu pai, com a intenção de fazer amor com ela. Para saber quem a importunava todas as noites, sua tia lambuzou os dedos com resina e de noite, enquanto Lua a procurava, passou a mão em sua face.

No dia seguinte, bem cedo, Lua foi lavar a face para retirar a resina. No entanto, a substância não saiu, e ele ficou mais sujo ainda. Por esse motivo, Lua tem sempre a face manchada.


Desde então, a lua nova lava seu rosto, fazendo chover para tentar tirar as manchas de resina, que ficam mais visíveis quando ela se torna cheia. Esta fábula ensina aos tupis-guaranis que não devem cometer incesto.

A Mulher da Lua
O planeta Vênus era muito observado pelos tupis-guaranis por ser, depois do Sol e da Lua, o objeto mais brilhante do céu. Vênus era utilizado principalmente para orientação, por ser visto pouco antes do nascer ou logo após o pôr-do-sol, sempre próximo ao Sol. Os indígenas pensavam que se tratava de duas estrelas que apareciam em períodos diferentes: a estrela matutina (kaaru mbija), que chamamos de estrela D\\'alva, e a vespertina (ko\\'e mbija), que chamamos de Vésper, cada uma delas visível por cerca de 263 dias.

Os tupis-guaranis chamam o planeta Vênus, quando aparece como estrela vespertina, de "Mulher da Lua". Eles contam que a mulher da Lua é muito linda, vaidosa e nunca envelhece. Ela só fica ao lado do seu marido enquanto ele é jovem, afastando-se dele à medida que fica mais velho.

Ao anoitecer, no dia seguinte à lua nova, os dois astros se encontram bem próximos, no lado oeste. Nas noites seguintes, a Lua vai crescendo e se distanciando de Vênus. Na crescente, Vênus continua aproximadamente no mesmo lugar, mas a Lua se encontra no alto do céu, perto da linha norte-sul. Na lua cheia, ao anoitecer, a Lua está no lado leste e sua mulher, bem afastada, no lado no oeste. Na lua minguante, Vênus e a Lua não são mais visíveis ao mesmo tempo. Na lua nova, o ciclo recomeça.

Esse mito, que pode ser considerado uma maneira alternativa de explicar as fases da Lua, nos foi relatado pelos guaranis do Sul do Brasil e pelos tembés do Norte do país, duas etnias da família tupi-guarani que não têm contato entre si.

Constelações na Via Láctea
As constelações formam figuras imaginárias, criadas há mais de 6 mil anos para reunir grupos de estrelas (jaxy tatá), aparentemente próximas, visíveis a olho nu, tendo em vista que nomear cada uma delas era uma tarefa difícil. A maioria dos povos antigos observava as constelações ao anoitecer e as utilizavam como calendário e orientação. Cada cultura tinha as suas próprias constelações. As constelações dos tupis-guaranis diferem das concepções das sociedades exteriores ocidentais principalmente em três aspectos.
Primeiro, as principais constelações ocidentais registradas pelos povos antigos são aquelas que interceptam o caminho imaginário que chamamos de eclíptica, por onde aparentemente passa o Sol, e próximo do qual encontramos a Lua e os planetas. Essas constelações são chamadas zodiacais. As principais constelações indígenas estão localizadas na Via Láctea (Tapi\\'i Rape), a faixa esbranquiçada que atravessa o céu, onde as estrelas e as nebulosas aparecem em maior quantidade, facilmente visível à noite. A Via Láctea é conhecida como Caminho da Anta ou como a Morada dos Deuses pela maioria das etnias dos tupis-guaranis.

Os desenhos das constelações ocidentais são feitos pela união de estrelas. Mas, para os tupis-guaranis, as constelações são constituídas pela união de estrelas e, também, pelas manchas claras e escuras da Via Láctea, sendo mais fáceis de imaginar. Muitas vezes, apenas as manchas claras ou escuras, sem estrelas, formam uma constelação. Os guaranis chamam a Grande Nuvem de Magalhães de Bebedouro da Anta (Tapi\\'i Huguá) e a Pequena Nuvem de Magalhães de Bebedouro do Porco-do-Mato (Coxi Huguá).

O terceiro aspecto que diferencia as constelações Tupis-Guaranis das ocidentais está relacionado ao número delas conhecido pelos indígenas. A União Astronômica Internacional (UAI) utiliza um total de 88 constelações, distribuídas nos dois hemisférios terrestres, enquanto certos grupos indígenas já nos mostraram mais de 100 constelações, vistas de sua região de observação. Quando indagados sobre quantas constelações existem, os pajés dizem que tudo que existe no céu existe também na Terra, que nada mais seria do que uma cópia imperfeita do céu. Assim, cada animal terrestre tem seu correspondente celeste, em forma de constelação.

A Hora pelo Cruzeiro do Sul
O Cruzeiro do Sul (Curuxu) fica em plena Via Láctea, sendo a constelação mais conhecida dos habitantes do Hemisfério Sul. Ela é formada, em sua parte principal, por cinco estrelas, quatro delas representando uma cruz, e uma quinta fora do braço da cruz. Essas estrelas, pela ordem de brilho, são conhecidas, popularmente, como Magalhães, Mimosa, Rubídea, Pálida e Intrometida. Magalhães (a mais brilhante) e Rubídea (avermelhada) formam o braço maior da cruz; Mimosa e Pálida compõem o menor. A Intrometida (a mais apagada) não consta da representação dessa constelação pelos tupis-guaranis.
Primeiro, as principais constelações ocidentais registradas pelos povos antigos são aquelas que interceptam o caminho imaginário que chamamos de eclíptica, por onde aparentemente passa o Sol, e próximo do qual encontramos a Lua e os planetas. Essas constelações são chamadas zodiacais. As principais constelações indígenas estão localizadas na Via Láctea (Tapi\\'i Rape), a faixa esbranquiçada que atravessa o céu, onde as estrelas e as nebulosas aparecem em maior quantidade, facilmente visível à noite. A Via Láctea é conhecida como Caminho da Anta ou como a Morada dos Deuses pela maioria das etnias dos tupis-guaranis.

Os desenhos das constelações ocidentais são feitos pela união de estrelas. Mas, para os tupis-guaranis, as constelações são constituídas pela união de estrelas e, também, pelas manchas claras e escuras da Via Láctea, sendo mais fáceis de imaginar. Muitas vezes, apenas as manchas claras ou escuras, sem estrelas, formam uma constelação. Os guaranis chamam a Grande Nuvem de Magalhães de Bebedouro da Anta (Tapi\\'i Huguá) e a Pequena Nuvem de Magalhães de Bebedouro do Porco-do-Mato (Coxi Huguá).

O terceiro aspecto que diferencia as constelações Tupis-Guaranis das ocidentais está relacionado ao número delas conhecido pelos indígenas. A União Astronômica Internacional (UAI) utiliza um total de 88 constelações, distribuídas nos dois hemisférios terrestres, enquanto certos grupos indígenas já nos mostraram mais de 100 constelações, vistas de sua região de observação. Quando indagados sobre quantas constelações existem, os pajés dizem que tudo que existe no céu existe também na Terra, que nada mais seria do que uma cópia imperfeita do céu. Assim, cada animal terrestre tem seu correspondente celeste, em forma de constelação.



O Cruzeiro do Sul está próximo do Pólo Sul Celeste (PSC), prolongamento do eixo de rotação da Terra no nosso céu, parecendo girar em torno dele de leste para oeste, devido ao movimento de rotação da Terra de oeste para leste. Assim, dependendo do dia e da hora, a cruz pode estar de cabeça para baixo, deitada, inclinada ou em pé, sempre fazendo uma circunferência em torno do Pólo Sul Celeste.

A posição da constelação do Cruzeiro do Sul é utilizada pelos tupis-guaranis para determinar os pontos cardeais, o intervalo de tempo transcorrido durante a noite e as estações do ano. Quando a cruz se encontra em pé, o prolongamento do seu braço maior aponta para o ponto cardeal Sul. Olhando para o Sul, às nossas costas temos o Norte, à direita o Oeste e à esquerda, o Leste.

Tendo em vista que o Cruzeiro do Sul efetua uma volta completa em cerca de 24 horas, o tempo gasto, por exemplo, para ir da posição deitada até a posição em pé é de 6 horas. Assim, podemos determinar o intervalo de tempo transcorrido em uma noite observando duas posições do Cruzeiro do Sul.

O início de cada estação do ano é determinado pelos tupis-guaranis considerando a posição da cruz ao anoitecer: no outono ela fica deitada do lado esquerdo do Sul, isto é, para leste; no inverno, fica em pé apontando para o Sul; na primavera, ela se encontra deitada para o lado oeste e no verão de cabeça para baixo, abaixo da linha do horizonte, sendo visível somente após a meia-noite.

As Plêiades e a Chuva
As Plêiades (Eixu, em guarani) são um aglomerado de estrelas jovens, azuis, que se localizam na constelação ocidental do Touro. A olho nu, longe da iluminação artificial e sem Lua, podemos ver, normalmente, sete dessas estrelas e, por isso, as Plêiades são conhecidas, também, como as sete estrelas ou as sete irmãs. Muitas etnias indígenas utilizavam as Plêiades para construir seu calendário. Eles consideravam principalmente os dias do nascer helíaco, do nascer anti-helíaco e do ocaso helíaco das Plêiades.

Cerca de um mês por ano, as Plêiades não são visíveis porque ficam muito próximas da direção do Sol. O nascer helíaco das Plêiades ocorre perto do dia 5 de junho, o primeiro dia em que elas se tornam visíveis de novo, perto do horizonte, no lado leste, antes do nascer do sol. Esse dia marcava o início do ano.
Por volta do dia 10 de novembro, as Plêiades nascem logo após o pôr-do-sol, este dia recebe o nome de nascer anti-helíaco das Plêiades, pois o Sol se encontra no lado oeste e as Plêiades no lado leste. Perto de 1o de maio, acontece o ocaso helíaco das Plêiades, pois elas desaparecem do lado oeste, logo após o pôr-do-sol. Depois desse dia, elas não são mais visíveis à noite, até perto do dia 5 de junho quando ocorre, novamente, seu nascer helíaco. Pode-se admitir, então, um ano sideral, baseado no nascer helíaco das Plêiades.

Os tupinambás conheciam muito bem o aglomerado estelar das Plêiades e o denominavam "Seichu". Quando elas apareciam, afirmavam que as chuvas iam chegar, como chegavam, efetivamente, poucos dias depois. Como a constelação aparecia alguns dias antes das chuvas e desaparecia no fim para tornar a reaparecer em igual época, eles reconheciam perfeitamente o intervalo de tempo decorrido de um ano a outro. Da mesma maneira, atualmente para os tembés, que habitam o Norte do Brasil, o nascer helíaco das Plêiades anuncia a estação da chuva e o seu ocaso helíaco aponta a estação da seca. Para os guaranis, do Sul do país, o nascer helíaco das Plêiades anuncia o inverno, enquanto o ocaso helíaco indica a proximidade do verão.

É interessante observar que culturas diferentes, habitando regiões distintas e vivendo épocas desencontradas, utilizavam as Plêiades como calendário, mesmo considerando que seu nascer helíaco, nascer anti-helíaco e ocaso helíaco não correspondessem exatamente ao início das estações do ano. Pensamos que, além de sua beleza, outro motivo contribui para essa escolha: as Plêiades estão situa-das a cerca de quatro graus da eclíptica. Por isso, alguns de seus componentes são freqüentemente ocultos pela Lua e ocasionalmente pelos planetas do nosso Sistema Solar. Essas ocultações oferecem um belo espetáculo da Natureza, sendo observadas mesmo a olho nu.

A Constelação da Ema
Na segunda quinzena de junho, quando a Ema (Guyra Nhandu) surge em sua totalidade ao anoitecer, no lado leste, indica o início do inverno para os índios do sul do Brasil e o início da estação seca para os do norte.
A constelação da Ema (Rhea americana alba) se localiza numa região do céu limitada pelo Cruzeiro do Sul e Escorpião. Sua cabeça é formada pelo Saco de Carvão, nebulosa escura que fica próxima à estrela Magalhães. A Ema tenta devorar dois ovos de pássaro que ficam peerto de seu bico, representados pelas estrelas alfa Muscae e beta Muscae.

As estrelas alfa Centauro e beta Centauro estão dentro do pescoço da Ema. Elas representam dois ovos grandes que a Ema acabou de engolir. Uma das pernas da Ema é formada pelas estrelas da cauda de Escorpião. As manchas claras e escuras da Via Láctea ajudam a visualizar a plumagem da Ema.

Conta o mito guarani que a constelação do Cruzeiro do Sul segura a cabeça da Ema. Caso ela se solte, beberá toda a água da Terra e morreremos de seca e sede.

O Homem Velho
Na segunda quinzena de dezembro, quando o Homem Velho (Tuya\\'i) surge totalmente ao anoitecer, no lado leste, trata-se do início do verão para os índios do sul e o início da estação chuvosa para os do norte.

A constelação do "Homem Velho" é formada pelas constelações ocidentais do Touro e de Órion. A cabeça do Homem Velho é formada pelas estrelas do aglomerado estelar Híades, em cuja direção se encontra Aldebaran, a estrela mais brilhante da constelação do Touro, de cor avermelhada. Acima da cabeça do Homem Velho fica o aglomerado estelar das Plêiades, um penacho que ele tem amarrado à cabeça.

A estrela Bellatrix fica na virilha do Homem Velho, sendo que a estrela vermelha Beltegeuse representa o lugar em que sua perna foi cortada. O Cinturão de Órion (Três Marias) formado pelas estrelas Mintaka, Alnilam e Alnitak, representa o joelho da perna sadia. A estrela Saiph representa o pé da perna sadia. O braço esquerdo do Homem Velho é constituído por estrelas do escudo de Órion. Na sua mão direita ele segura um bastão para se equilibrar.
Conta o mito guarani que essa constelação representa um homem casado com uma mulher muito mais jovem do que ele. Sua esposa ficou interessada no irmão mais novo do marido e, para ficar com o cunhado, matou o marido, cortando-lhe a perna na altura do joelho direito. Os deuses ficaram com pena do marido e o transformaram em uma constelação.

Itacoatiara de IngáPode-se dizer que existem dois tipos principais de constelação indígena: uma relacionada ao clima, à fauna e à flora do lugar, conhecida pela maioria da comunidade e que regula o cotidiano da aldeia; a outra está relacionada aos espíritos indígenas, sendo conhecida, em geral, apenas pelos pajés e é mais difícil de visualizar. Os guaranis, por exemplo, chamam de Nhanderu a mancha escura que aparece perto da constelação ocidental do Cisne. O Deus Maior Guarani aparece sentado em seu banco sagrado, utilizando seu cocar divino e segurando o Sol e a Lua em suas mãos. Ele anuncia a primavera.

Às margens do rio Ingá, na Paraíba, existe um monólito de rocha gnaisse, duríssima, cuja superfície está recoberta por cerca de 500 inscrições de baixo-relevo, que muitos pesquisadores afirmam serem únicas no mundo, Trata-se da famosa Itacoatiara de Ingá, com cerca de 23 m de largura e 3 m de altura. Há várias hipóteses sobre a origem dos grafismos. A nossa é de que Itacoatiara de Ingá serviu de local para rituais religiosos relacionados a elementos astronômicos. Identificamos ali alguns espíritos da mitologia tupi-guarani, e supomos que o painel indica parte da Vila Láctea. Diversos pajés reconheceram alguns dos espíritos nas gravuras, puderam nomeá-los e localizá-los no céu.