segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Texto excelente de Edgar Morin, e que vale a pena ver de novo...


Edgar Morin por meio da visão integradora da totalidade, pensou os saberes na perspectiva da complexidade contemporânea, explorando novos ângulos, muitos dos quais ignorados pela pedagogia atual , 
para servirem de eixos norteadores à educação do próximo milênio 
Os saberes propostos por Morin que, como ele mesmo afirma, antecede qualquer guia ou compêndio do ensino, inserem-se na idéia de uma identidade terrena onde o destino de cada pessoa joga-se e decide-se em escala internacional, cabendo à educação a missão ética de buscar e trabalhar uma solidariedade renovadora que seja capaz de dar novo alento à luta por um desenvolvimento humano sustentável. 
Morin considera que há sete saberes fundamentais com os quais toda cultura e toda sociedade deveriam trabalhar, segundo suas especificidades. Esses saberes são respectivamente as Cegueiras Paradigmáticas, o Conhecimento Pertinente, o Ensino da Condição Humana, o Ensino das Incertezas, a Identidade Terrena, 
o Ensino da Compreensão Humana e a Ética do Gênero Humano. 
Esses saberes são indispensáveis frente à racionalidade dos paradigmas dominantes que deixam de lado questões importantes para uma visão abrangente da realidade. Para Morin, é impressionante como a educação, que visa transmitir conhecimentos, seja cega em relação ao conhecimento humano. Ao invés de promover o conhecimento para a compreensão da totalidade, fragmenta-o, impedindo que o todo e as partes se 
comuniquem numa visão de conjunto. 
Por outro lado, como diz Morin, o destino planetário do gênero humano é ignorado pela educação.
 A educação precisa ao mesmo tempo trabalhar a unidade da espécie humana de forma integrada com a idéia de diversidade. O princípio da unidade/diversidade deve estar presente em todas as esferas. 
Para tanto, torna-se necessário educar para os obstáculos à compreensão humana, combatendo o egocentrismo, 
o etnocentrismo e o sociocentrismo, que procuram colocar em posição secundária 
aspectos importantes para a vida das pessoas e das sociedades.
Mas vamos ao texto...

COMPLEXIDADE E LIBERDADE

A complexidade nos convoca para uma verdadeira reforma do pensamento, semelhante à produzida no passado pelo paradigma copernicano. Mas essa nova abordagem e compreensão do mundo, de um mundo que se "autoproduz", confere também um novo sentido à ação: trata-se de fazer nossas apostas, o que vale dizer que com a complexidade ganhamos a liberdade.
A grande descoberta do século é que a ciência não é o reino da certeza. Ela se baseia, seguramente, numa série de certezas local e espacialmente situadas. A rotação da Terra em torno do sol, por exemplo, nos parece certa; mas seria possível dizer isso, tanto 100 milhões de anos antes de nossa era quanto depois, sabendo-se que o Universo está submetido a flutuações e perturbações, às quais hoje chamamos de movimento caótico? A ciência é de fato um domínio de múltiplas certezas, e não o da certeza absoluta no plano teórico. A obra de Popper se tornou indispensável para a
compreensão de que uma teoria científica não existe como tal, a não ser que, na medida em que aceita ser falível, submete-se ao jogo da "falsificabilidade" e, portanto, aceita sua biodegradabilidade.
Ordem, separabilidade e lógica: os pilares da ciência clássica
A ciência clássica se apóia nos três pilares da certeza, que são a ordem, a separabilidade e a lógica.
Para ela, esses eram os fundamentos absolutos. A ordem do Universo, tal como entendida por Descartes e Newton, era o produto da perfeição divina. Com Laplace, a hipótese de Deus é descartada: a ordem funciona sozinha, é "autoconsolidada". A idéia de determinismo absoluto tornou-se objeto de uma crença quase religiosa entre os cientistas, que por isso se esqueceram de que ela não pode, de modo algum, ser demonstrada.
A segunda idéia-chave era a separabilidade. Conhecer é separar. Em face de um problema complicado, dizia Descartes, é preciso dividi-lo em pequenos fragmentos e trabalhá-los um após o outro. Assim, as disciplinas científicas são desenvolvidas a partir da divisão do interior das grandes ciências, a física, a biologia etc, o que dá origem a compartimentos sempre novos. No limite, pode-se dizer que a separação entre ciência e filosofia e, mais amplamente, entre ciência e cultura humanista – filosofia, literatura, poesia etc –, está instituída em nosso século como uma necessidade legítima.
Nas ciências, a separação entre o observador e sua observação, ou seja, entre nós, humanos, que consideramos os fenômenos, e estes (os objetos de conhecimento), tinha valor de certeza absoluta.
O conhecimento científico, objetivo, implicava a eliminação do indivíduo e da subjetividade. Se existisse um sujeito, ele causaria perturbação – seria um ruído.
Terceiro pilar: a lógica, a indução. Com base em um número importante e variado de observações, podia-se tirar delas leis gerais. Quanto à dedução, era um meio implacável de conduzir à verdade. Os princípios aristotélicos da identidade, da não-contradição e do terceiro excluído, permitiam eliminar
toda confusão, equívoco e contradição.
A lógica, a separabilidade e a ordem levaram para a ciência clássica essa certeza absoluta, na qual ela se baseia. E os resultados têm sido tão brilhantes que acabaram, paradoxalmente, colocando em xeque os princípios fundamentadores da separação. Foi a ordem, isto é, o determinismo (tudo o que escapa ao acaso, às perturbações e à imprevisão), que entrou primeiro em crise. Com efeito, a termodinâmica introduziu a desordem molecular no fenômeno chamado calor. Sabemos hoje que 1
Sociólogo, epistemólogo e filósofo francês, formado em História, Geografia e Direito.
Pesquisador emérito do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique). Formado em Direito, História e Geografia se adentrou na Filosofia, na Sociologia e na Epistemologia. Um dos principais pensadores sobre complexidade.

Nosso Universo tem uma origem calorífica, surgiu de um fenômeno térmico inicial, uma espécie de explosão seguida de enorme agitação.
A presença da desordem universal se revela em todos os níveis: microscópico, cosmofísico e também histórico, humano. Em relação a este, lembramos que a história não se reduz a processos determinísticos: é também feita de bifurcações, acasos, crises, daquilo que Shakespeare chamou de  "o som e a fúria". Isso não quer dizer, no entanto, que a desordem tomou o lugar da ordem. Um
Universo assim seria tão insensato e impossível como aquele em que reinasse a ordem pura.
No reinado da ordem pura não há criação, não há possibilidade de nada novo. Se só existisse adesordem, agitação, a álea, o Universo seria simplesmente inviável. É preciso, portanto, que desde o começo um certo número de princípios, considerados como de ordem, provoquem, sob certas
condições, alguns encontros nessa agitação de partículas. O princípio de interação forte ligará e formará núcleos; o princípio de interação eletromagnética impelirá os elétrons, para que eles se coloquem em volta do núcleo e formem os átomos; enfim, o princípio gravitacional atua no plano da formação dos astros, das galáxias...
Em outros termos, estamos diante deste paradoxo: as noções de ordem e desordem se repelem mutuamente. O Universo é um coquetel de ambas, uma mistura muito diferente segundo os casos, as condições, os lugares, os momentos...
De acordo com o ângulo de observação, um dado fenômeno pode ao mesmo tempo se inclinar para um lado ou para o outro. Os átomos de carbono, por exemplo, são formados nos sóis anteriores ao nosso, pela reunião instantânea de três núcleos de hélio.
No interior dessas fantásticas forjas que são os astros, as interações são inumeráveis e o encontro, no mesmo momento, de três núcleos de hélio, é tão raro quanto aleatório. Entretanto, uma vez ocorrido, uma lei entra em jogo: a do carbono que vai ser produzido.

É no encontro da ordem e da desordem que se produz a organização. Quando os três núcleos de hélio se reúnem, nasce uma delas, a do átomo de carbono. Essas organizações criam, no seu próprio interior, uma ordem que lhes é própria. O mundo dos seres vivos obedece a todas as leis da física e da química; sua ordem é baseada na autoprodução, na regeneração etc.
Quanto á separabilidade, percebeu-se que ela leva à divisão das partes constituintes dos conjuntos organizados em sistemas, o que proporciona um conhecimento insuficiente, mutilado. Pode-se extrair um corpo de seu meio natural, colocá-lo num contexto experimental, controlado pelas variações que sobre ele atuam. Não é possível conhecer, numa única avaliação, a relação profunda que existe entre o corpo e seu ambiente. Os seres vivos não são nada sem o seu meio. As experiências realizadas em cativeiro, para investigar a inteligência de seres sociais como os chimpanzés, não nos têm permitido saber o que eles aprenderam depois delas. Com efeito, no curso
de observações pacientes desses animais, em seu meio natural e em suas sociedades, pôde-se constatar que os indivíduos são diferenciados e que existem relações muito complexas entre eles. O chimpanzé adulto, por exemplo, não pratica o incesto.

A separabilidade perdeu seu valor absoluto. Uma das peculiaridades de um conjunto organizado em sistema decorre do fato de que, ao existir, essa organização produz qualidades novas, chamadas "emergências". Estas retroagem sobre o todo, e não podem ser identificadas quando se tomam os elementos isoladamente. Desse modo, a organização viva gera um certo número de qualidades, como autoprodução, autonutrição e auto-reparação. Tais qualidades não se encontram nas partes, mas as beneficiam. Da mesma forma, uma sociedade produz emergências culturais, como a linguagem, que retroage sobre os indivíduos e lhes permite, por sua aquisição (que é também conhecimento), tornarem-se plenamente humanos.
Consumou-se hoje, nas ciências, uma segunda transformação. A primeira aconteceu na Física, no começo deste século, e destronou a ordem. A outra começou na segunda metade do século, com as ciências ditas sistêmicas, que lidam com os sistemas ecológicos espontâneos, que nascem das
interações entre as plantas, os animais, o terreno geofísico, o clima. Todas essas interações produzem um conjunto mais ou menos auto-regulado, submetido a perturbações. Dessa maneira, a partir dos anos 80, a ecologia começou a levar em conta, além dos ecossistemas, o sistema ainda
mais complexo e mais ou menos regulado que é a biosfera. Isso permitiu acrescentar os seres humanos e sua civilização técnica, e prever com alguma certeza os riscos possíveis da desregulação.

A partir da descoberta da tectônica das placas, nos anos 60, as ciências da Terra (sismologia, vulcanologia, geologia), que não se comunicavam entre si, hoje são articuladas umas às outras. Essa circunstância tem permitido compreender o planeta como um conjunto articulado e complexo.
O ecologista, por exemplo, não conhece todos os dados da Zoologia, Botânica, Física, Geografia; tem um conhecimento parcial de cada uma, "um pouco de tudo", como dizia Pascal. No entanto, ao apelar para as competências dessas diferentes especialidades, ele dá um sentido a seus
conhecimentos e os articula entre si. Infelizmente, a Sociologia não fez essa revolução. A Biologia também não.
A cosmofísica, na realidade, tornou-se inseparável da cosmologia, que é um ensaio de compreensão do mundo. A revolução da ressurreição do cosmos (durante um século, o espaço-tempo — uma espécie de infinito — havia tomado o seu lugar) começou logo que se constatou o afastamento das
galáxias. Num determinado momento, supunha-se que elas eram muito próximas umas das outras e que havia existido um núcleo inicial. Hoje sabemos que o cosmos tem uma história e que ela sofreu transformações. O cosmólogo foi levado a refletir sobre o mundo, sua origem, seu propósito ou sentido, se é que existe um. Ele retoma assim a relação filosófica, reinventa uma filosofia em estado selvagem. Com efeito, por falta de interesse dos filósofos, os cientistas são obrigados a refletir sobre o sentido de suas descobertas.
A questão: "O que é o real?", que parecia tão evidente, reapareceu. O que é o Universo onde – para seguir d'Espagnat – as coisas obviamente separadas são, num certo nível, inseparáveis, a partir do momento em que interagem? Trata-se de falar de inseparabilidade na separabilidade. O grande desafio do conhecimento repousa sobre esse paradoxo: para uma mesma realidade, depara-se ao mesmo tempo com o contínuo e com o descontínuo. As célebres experiências sobre a onda e o corpúsculo, relativas à natureza da partícula, mostraram que ela se comporta tanto como ondulação quanto como grânulo. Ou seja: ora de modo contínuo, ora de forma descontínua – o que é contraditório do ponto de vista lógico. Reencontramos os mesmos problemas no que se refere à sociedade: se a consideramos de modo global, trata-se de um continuum – os indivíduos nela se dissolvem – como ainda imaginam numerosos sociólogos. Ou então, pode-se considerar que tanto
os indivíduos quando a sociedade se diluem, o que permite a certos autores dizer que esta não existe, e que só contam as interações entre as pessoas. No caso da espécie e do indivíduo é a mesma coisa: não existem senão indivíduos. Contudo, quando se leva em conta um longo espaço de tempo,
eles se dissolvem e surge a noção contínua de espécie.

Eis o paradoxo do separável e do inseparável. Pascal não só já o havia colocado, mas tinha também indicado o caminho a seguir para avançar no conhecimento. Que dizia ele? Que "sendo todas as coisas ajudadas e ajudantes, causadas e causadoras, estando tudo unido por uma ligação natural e insensível, acho impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, e impossível conhecer o todo sem conhecer cada uma das partes". Nessa frase, de uma densidade e clareza extraordinárias, ele formula — no mesmo momento em que Descartes, triunfante, introduz o princípio da separação absoluta — o programa do conhecimento contemporâneo, que ainda não se conseguiu pôr em prática.
No que concerne à lógica, o umbral foi transposto no momento em que certos teóricos, ou pensadores, mostraram os limites da indução. Segundo o célebre exemplo de Popper, a regra geral que diz que "todos os cisnes são brancos" já não é una, porque não se pode pressupor que não existam, em algum lugar, cisnes negros. A indução não é certeza absoluta; significa, em muitos casos, a existência de fortes possibilidades, de quase-certezas. Essa "derrapagem", que ocorre também na dedução, foi assinalada pelos gregos. É o "paradoxo de Creta", segundo o qual um cretense disse: “Tudo o que os cretenses dizem é mentira”. Se o que ele disse é verdade, então ele
disse uma mentira. Se o que ele disse é mentira, então ele disse uma verdade.

Esse paradoxo foi retomado por Russell, que tentou superá-lo. Ele nos conduz ao teorema de Gödel, cujo sentido é múltiplo, desde que queiramos investigá-lo além de seus limites matemáticos. É um problema de lógica fundamental, que nos ensina que nenhum sistema tem a capacidade de dar a si próprio a prova de sua consistência, atribuir-se uma certeza suficiente a partir de suas próprias fontes. Conseqüência metalógica: nenhum ser humano pode se autoconhecer por completo. O mesmo acontece com a Humanidade. Eis uma abertura reveladora da inconclusibilidade do
conhecimento — e da lógica.
A partir daí, a ciência clássica se defrontou com a contradição e começou a temer o erro. Niels Bohr teve a coragem de afrontar a aporia da onda e do corpúsculo sem poder ultrapassá-la, o que significa reconhecer que se trata de dois termos contraditórios e complementares. Admite-se hoje que é
possível chegar, por meios racionais e empíricos, a essas contradições. De resto, Kant já havia mostrado que no horizonte da razão havia um certo número de impasses fundamentais.

Pode-se enfrentar esse problema não sonhando entrar numa nova lógica, que nos permita integrar as contradições, mas mostrando que é possível promover um incessante jogo de circularidade entre nossa lógica tradicional e as transgressões necessárias ao progresso de uma racionalidade aberta.
Esse propósito pode ser ilustrado tomando o aforismo de Heráclito: "Viver de morte, morrer de vida". Eis uma proposição extravagante. No entanto, sabemos hoje que os seres vivos – nosso organismo, por exemplo – ao funcionar degradam sua energia, isto é, as moléculas de suas células.
Estas morrem e são substituídas por outras. Dizendo de outra forma, nossa vida continua graças à morte celular, porque o organismo é dotado de um poder de regeneração contínua. Cada batimento do coração, cada movimento respiratório, é uma obra de regeneração. O oxigênio é um
detoxificante.

Do mesmo modo, uma sociedade vive da morte de seus indivíduos. Faz isso passando às novasgerações a cultura que começa a se decompor nos cérebros mais senis. É como viver da morte. Essa contradição lógica fundamental pode ser explicada, etapa por etapa, de modo segmentar, sem sair do caminho lógico (as células têm a capacidade de se reproduzir). Entretanto, para compreender esse fenômeno básico necessitamos do paradoxo (que vale também para os ecossistemas) chamado
circularidade trófica, que ilustra a recursividade da vida: o ciclo vital, que é também de morte. São duas faces da mesma realidade. Morrer de vida: esse é o nosso processo de rejuvenescimento contínuo. É "mortificante" remoçar, eis a trágica lição da vida.

Estas formulações nos permitem unir o que o pensamento clássico não conseguiu. Continua sendo verdade que o maior inimigo da vida é a morte, e que o maior desafio ao fenômeno da decomposição é o renascimento da vida. O pensamento deve ser capaz de confrontar os antagonismos, poder
enxergar as aporias, sem que para tanto precise renegar o valor da lógica, a dedução ou a indução.

O pensamento complexo

Desses três desafios – a relação entre a ordem, a desordem e a organização; a questão da separabilidade ou a distinção entre separabilidade e não-separação; e o problema da lógica – podem ser tiradas as três vertentes do pensamento complexo. Discutir sem dividir: a palavra complexus retira daí seu primeiro sentido, ou seja, "o que é tecido junto". Pensar a complexidade é respeitar a tessitura comum, o complexo que ela forma para além de suas partes.

A segunda linha fundamental é a imprevisibilidade. Um pensamento complexo deve ser capaz de não apenas religar, mas de adotar uma postura em relação à incerteza. As ciências físicas, que descobriram a incerteza, encontraram estratégias para lidar com ela, utilizando a estatística, por
exemplo. A eletrônica permite alcançar resultados de grande precisão, em termos de conhecimento desse mundo flutuante. O pensamento capaz de lidar com a incerteza existe no domínio das ciências, mas não nos âmbitos social, econômico, psicológico e histórico.

O terceiro ponto é a oposição da racionalização fechada à racionalidade aberta. A primeira pensa que é a razão que está a serviço da lógica, enquanto a segunda imagina o inverso. Racionalizar significa acreditar que, se um determinado sistema é coerente, é portanto perfeito e por isso não
precisa ser verificado. Vivemos sob o império de idéias racionalizadoras, que não conseguem se dar conta do que acontece e privilegiam os sistemas fechados, coerentes e consistentes. A ciência econômica contemporânea – formalizada e matemática – é um magnífico exemplo de racionalização. É inteiramente fechada, não consegue perceber as paixões, a vida, a carne dos seres humanos. Por isso, é incapaz de fazer previsões quando surgem eventos inesperados. Mais ainda que no século de Moliére, os Disfoirus triunfam.
O desafio é hoje generalizado. Falar da incerteza é falar do caos. Emprego esse termo em seu sentido original, e não no derivado das teorias sobre o tema. Trata-se, como no pensamento grego, da idéia de que o cosmos, ou universo ordenado, nasce do caos, isto é, que forças genésicas extremamente violentas, comportando potencialmente a ordem e a desordem indiferenciadas, podem se exprimir num determinado momento. Os gregos pensavam que a origem do organizado, ou racional, é aloucura. É o que sustenta Platão, quando diz que diké, a justiça, é filha de hubris, o delírio. O caos é um pouco daquilo que corresponde à palavra physis, isto é, o mundo no qual estamos e do qual as coisas nascem. Está continuamente presente sob o cosmos, ou – pouco importa – no interior dele.
O Universo é caos. Isso quer dizer que forças de desordem, ordem e organização brotam continuamente do seu seio, o que dá origem à constituição de novas estrelas, a colisões de galáxias e, em nossa Terra, ao conflito de impulsos de barbárie e associação.
De acordo com a teoria do caos, processos deterministas por natureza conduzem, com grande rapidez, a estados imprevisíveis e aparentemente desordenados. Por quê? Porque as interações sãoincontroláveis e o conhecimento total e absoluto dos estados iniciais não nos é permitido. É uma maneira de dizer que, mesmo na ocorrência de um determinismo inicial, há imprevisibilidade e desordem aparentes. O que compreendeu Henri Atlan, o termodinâmico de origem austríaca, quando disse que a vida existe à temperatura de sua própria destruição? Segundo o seu belo livro Entre le
Cristal et la Fumée [Entre o Cristal e a Fumaça], é preciso entender que não somos nem fumaça nem cristal. Não somos seres fluidos nem sólidos. Somos híbridos que vivem à temperatura de sua combustão e destruição.
No desafio da complexidade, certos filósofos podem nos ajudar: Heráclito, com o enfrentamento das contradições; Sócrates com a dialética, cujo jogo de oposições faz progredir o conhecimento;
Nicolás de Cusa, no plano místico; João da Cruz; Jacob Boehme; Pascal, em cuja obra não se reconheceu o papel central que desempenham as contradições; Hegel, evidentemente; Nietzsche, até certo ponto.

A emergência dos sistemas

Entretanto, para que adquiríssemos os meios intelectuais e conceituais necessários à entrada no universo da complexidade, foi preciso esperar pelos anos 50, quando surgiram três teorias novas. A primeira foi a cibernética de Norbert Wiener, que é ao mesmo tempo engenheiro e pensador. A ele
devemos a idéia de retroação e circularidade, que estava latente desde a obra de Marx, na qual a superestrutura retroage sobre a infra-estrutura. Essa idéia de ciclos retroativos, que quebram a causalidade linear, mostra que os fatos podem, eles próprios, tornar-se causadores, ao retroagir sobre
a causa, como Pascal já havia assinalado. Essa recursividade tem dois aspectos: um, regulador, que impede que os desvios destruam os sistemas; e outro potencialmente destruidor, chamado de feedback positivo, que os fazem explodir.

Nos anos 60, outro pensador, o nipo-americano Magoroh Maruyama, fez a seguinte proposição: não se pode ter criação, a não ser por meio dos feedbacks positivos. Em outros termos, quando um
sistema de desregula, há um desvio que se amplifica. Nesse caso, o sistema – sobretudo se é complexo (social ou humano) – em vez de se desgovernar pode transformar-se. A criação não é possível senão pela desregulação.
O segundo aporte conceitual é a teoria dos sistemas, que propõe que o todo é maior que a soma de suas partes, mas também que é menor que ela; assim, a totalidade pode oprimir as partes e impedir que estas dêem o melhor de si mesmas. Isso tem conseqüências político-sociais indiretas. Um grande império não é melhor porque é um todo: sua bancarrota pode ser salutar, ao liberar as potencialidades das partes dominadas.

A idéia capital aqui é a de emergência. As qualidades que aparecem podem ser induzidas, mas não podem, em contrapartida, ser deduzidas logicamente. As emergências estão em qualquer espécie de
flor. A evolução biológica levou, num determinado momento, a uma verdadeira explosão floral — mas persiste a questão de saber por que as flores têm necessidade de mostrar o seu sexo, de serem exibicionistas!

O terceiro aporte é a teoria da informação, de Shannon e Weaver. É um instrumento capaz de lidar com a incerteza, com o inesperado. Extrai-se do mundo do ruído algo de novo e muitas vezes surpreendente. A noção de informação, ao mesmo tempo física e semântica, nos introduz num
mundo onde o novo pode aparecer, ser reconhecido, assinalado... Captamos o novo nessa relação permanente de ordem e redundância, na integração do conhecido e na ordem do ruído.

Essas três teorias formam uma espécie de "rés-do-chão". No primeiro estágio, pode-se colocar a contribuição de Von Foerster e Von Neumann. Este, refletindo sobre a diferença entre as máquinas artificiais – as que produzimos a partir de elementos fabricados e confiáveis – e as máquinas
naturais, cujos elementos são pouco confiáveis (essas moléculas que se degradam por um nada!), perguntou-se: por que as primeiras, logo que começam a funcionar, iniciam seus processos de usura e degradação, enquanto que as segundas – os seres vivos – podem progredir, evoluir? A resposta é que os viventes têm o poder da auto-reparação, da auto-reforma.

A segunda idéia, de Von Foerster, é a "ordem a partir do ruído". Seu jogo experimental era o seguinte: tomava de uma caixa, dentro da qual colocava cubos com determinados lados imantados.
Em seguida provocava agitação, isto é, introduzia na caixa uma energia não-direcional e, portanto, a desordem. Apesar disso, a presença de um princípio de ordem – os ímãs – permitia que os cubos chegassem a uma arquitetura bem organizada. Eis o fenômeno da auto-organização.

O segundo estágio é o que se poderia chamar de auto-eco-organização. Um ser vivo precisa nutrir-se para regenerar sua energia. Para ser autônomo, tem necessidade do meio ambiente, de onde retira não energia bruta, mas já organizada. Do mesmo modo, temos gravada em nossa organização uma
ordem cósmica, a alternância do dia e da noite. Essa ordem (por uma espécie de mecanismo cíclico, que pode se tornar independente da luz e da obscuridade, como mostraram experiências em cavernas sem luz) nos permite alternar a vigília e o sono...

Tudo isso para dizer que a separação entre o conhecedor e o conhecido não pode ser alcançada.
Sabe-se, depois de Kant, que para conhecer o mundo projetamos nele nossas categorias, nossos a priori espaciais e temporais.

Por uma convivência solidária

Essa circunstância pode ser ainda confirmada pelo funcionamento do cérebro humano: isolado no interior de uma caixa fechada, ele todavia se comunica com o Universo pela mediação de terminais sensoriais. Os estímulos visuais, por exemplo, são transformados num código binário, que tecido cerebral retrabalha e transforma em percepção ou representação. O conhecimento não é senão uma tradução, uma reconstrução. Não conhecemos a essência das coisas exteriores. Sabemos das coisas objetivas, que podemos confirmar, mas não há conhecimento sem integração do conhecido. Essa
circunstância vale também para os fenômenos sociais e humanos. O sociólogo e o economista são parte da sociedade, e a totalidade desta – ou seja, a cultura, a linguagem – está também neles.

Num estágio superior, vejo a necessidade de uma reforma paradigmática dos conceitos dominantes e de suas relações lógicas, que controlam, inconsciente e incorrigivelmente, todo o nosso
conhecimento. O paradigma sob o qual vivemos é o da disjunção e da redução: e ele nos torna cegos, nesta era de globalidade e mundialização.
Não podemos produzir por decreto a reforma necessária, porque ela está inscrita no próprio curso da história; pensemos na passagem do paradigma ptolomaico ao copernicano. Tal reforma consiste em passar para um paradigma de religação, conjunção, implicação mútua e distinção. Ela pressupõeuma mudança no ensino, que por sua vez implica uma transformação do pensamento. É um círculo vicioso, do qual precisamos sair um dia... Um conhecimento pertinente é aquele que é capaz de
contextualizar, isto é, religar, globalizar. A ação adquire um novo sentido: fazer as apostas. Pascal – novamente ele – apostava em Deus. Nós apostamos em valores que não podem ser fundamentados.
Assim como o mundo, a ética se autoproduz.

Conhecer é também uma estratégia, que pode se modificar em relação ao programa inicial, que é flexível e leva em conta o que chamo de ecologia da ação. Sabe-se hoje que uma ação, lançada ao mundo, entra num turbilhão de interações e retroações, que podem se voltar contra a intenção inicial.

Por fim, uma última idéia: o sentimento de uma comunidade de destino profundo, que liga as idéias de solidariedade e fraternidade. O laço entre complexidade e solidariedade não é mecânico. Uma sociedade muito complexa proporciona muitas liberdades de jogo a seus indivíduos e grupos.
Permite-lhes ser criativos, algumas vezes delinqüentes. A complexidade tem, assim, seus riscos. Ao atingir o extremo da complexidade a sociedade se desintegra. Para impedi-lo, pode-se recorrer a medidas autoritárias; entretanto, supondo que desejemos o mínimo possível de coerção, o único
cimento que nos resta é a solidariedade vivida.

Nota – Este texto apareceu anteriormente na publicação de ensaios THOT, da Associação Palas
Athena, São Paulo (no. 67, 1998, pp. 12-19)

EDGAR MORIN é diretor emérito do Centre National de la Recherche Scientifique, em Paris, e
presidente da Association pour la Pensée Complexe, também sediada em Paris.







domingo, 6 de novembro de 2011

A Era Axial...


Toda geração talvez acredite ter chegado a um ponto crítico da história, porém nossos problemas parecem particularmente difíceis e nosso futuro se mostra cada vez mais incerto. Muitas de nossas dificuldades mascaram uma crise espiritual mais profunda. Ao longo do século XX, assistimos à erupção de uma violência sem precedentes. Infelizmente, nossa capacidade de nos infligir danos e mutilações tem acompanhado nosso extraordinário progresso econômico e científico.
Parece nos faltar sabedoria para refrear nossa agressividade e mantê-la dentro de limites seguros. A explosão das primeiras bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki revelou a autodestruição e o niilismo existentes no bojo das brilhantes
ealizações de nossa cultura moderna. Corremos o risco de uma catástrofe ambiental porque já não vemos a terra como sagrada, mas a consideramos um simples "recurso". Se não houver uma revolução espiritual à altura de nosso gênio tecnológico, é improvável que salvemos nosso planeta. Uma educação puramente racional não será suficiente. Descobrimos, com pesar, que uma grande universidade pode funcionar perto de um campo de concentração. Auschwitz, Ruanda, Bósnia e a destruição do World Trade Center constituem sinistras demonstrações do que pode acontecer quando perdemos o sentido da sagrada inviolabilidade de cada ser humano.
A religião, que deveria nos ajudar a cultivar esse sentido, com freqüência parece refletir a violência e o desespero de nossa época. Praticamente todo dia nos deparamos com exemplos de terrorismo, ódio e intolerância de motivação religiosa.
Um número crescente de pessoas considera irrelevantes e inacreditáveis as doutrinas e práticas religiosas tradicionais e busca nas artes plásticas, na música, na literatura, na dança, no esporte ou nas drogas a experiência transcendente que parece necessária aos seres humanos. Todos ansiamos por momentos de êxtase, quando vivemos nossa humanidade com uma plenitude maior que a habitual e nos sentimos profundamente tocados por dentro e elevados acima de nós mesmos.
Somos criaturas à cata de sentido e, ao contrário de outros animais, facilmente nos desesperamos, se não conseguimos ver significado e valor em nossas vidas. Alguns procuram novas maneiras de ser religiosos. Desde a década de 1970 vem ocorrendo, em muitos lugares do mundo, um renascimento espiritual, e a devoção militante que muitas vezes chamamos de "fundamentalismo" é apenas uma manifestação de nossa busca pós-moderna de esclarecimento.
Em nossa atual conjuntura, creio que podemos encontrar inspiração no período que o filósofo alemão Karl Jaspers chamou de Era Axial, porque foi decisivo para o desenvolvimento espiritual do gênero humano. Entre aproximadamente 900 e 200 a.C., surgiram, em quatro regiões distintas, as grandes tradições mundiais que continuam alimentando a humanidade: confucionismo e daoísmo na China, hinduísmo e budismo na Índia, monoteísmo em Israel e racionalismo filosófico na Grécia. Essa foi a época de Buda, Sócrates, Confúcio e Jeremias, dos místicos das Upanishads, de Mêncio e Eurípides. Nesse período de intensa criatividade, gênios espirituais e filosóficos inauguraram um tipo inteiramente novo de experiência humana. Muitos trabalharam no anonimato, porém outros se tornaram luminares que ainda conseguem nos emocionar, porque nos mostram como uma criatura humana deveria ser. A Era Axial foi um dos períodos mais seminais de mudança intelectual, psicológica, filosófica e religiosa que a história
registra; não haveria nada comparável até a Grande Transformação Ocidental, que instituiu nossa modernidade científica e tecnológica.
Mas como os sábios da Era Axial, que viveram em circunstâncias tão diversas, podem falar a nossa atual condição? Por que haveríamos de buscar ajuda em Confúcio ou em Buda? Certamente um estudo desse período distante só pode ser um exercício de arqueologia espiritual, quando o que precisamos é criar uma fé mais inovadora que reflita as realidades de nosso próprio mundo. Contudo, nunca superamos de fato os achados da Era Axial. Em momentos de crise espiritual e social, homens e mulheres constantemente se voltaram para esse período à procura de orientação. Podem ter dado interpretações distintas às descobertas axiais, porém nunca as ultrapassaram. O judaísmo rabínico, o cristianismo e o islamismo, por exemplo, são rebentos tardios da Era Axial original. Como veremos no último capítulo, essas três tradições redescobriram a visão axial e a traduziram esplendidamente num idioma que falava direto às circunstâncias de seu tempo.
Os profetas, místicos, filósofos e poetas da Era Axial foram tão avançados e expuseram uma visão tão radical que gerações posteriores trataram de diluí-la.
Com isso, muitas vezes produziram exatamente o tipo de religiosidade que os reformadores axiais queriam eliminar. A meu ver, é o que tem acontecido no mundo moderno. Os sábios axiais deixaram uma importante mensagem para nossa época, porém seus achados serão surpreendentes - até chocantes - para muitos que se julgam religiosos hoje em dia. Com freqüência, presume-se, por exemplo, que ter fé é acreditar em certas proposições doutrinais. Na verdade, é comum chamar as pessoas religiosas de "crentes", como se acatar os artigos de fé fosse sua principal atividade. No entanto, a maioria dos filósofos axiais não tinha o menor interesse em doutrina ou metafísica. As crenças teológicas de um indivíduo eram totalmente indiferentes para um Buda. Alguns sábios se recusavam com firmeza até a discutir teologia, argumentando que era nocivo e desviava a atenção.
Outros diziam que era imaturo, irrealista e perverso procurar o tipo de certeza absoluta que muita gente espera encontrar na religião.
Todas as tradições que se desenvolveram na Era Axial empurraram as fronteiras da consciência humana e descobriram em seu bojo uma dimensão transcendente, mas não necessariamente a consideraram sobrenatural e, em geral, se recusaram
a discuti-la. Precisamente porque a experiência é inefável, a única atitude correta é um reverente silêncio. Por certo os sábios não tentaram impor aos outros sua visão dessa realidade suprema. Muito pelo contrário: acreditavam que, em matéria de fé, ninguém jamais deveria receber qualquer ensinamento. É essencial questionar tudo e testar todo ensinamento religioso empiricamente, através da própria experiência pessoal. De fato, como veremos, a insistência de um profeta ou de um filósofo em doutrinas obrigatórias em geral indica a perda de impulso da Era Axial. Se tivessem perguntado a Buda ou a Confúcio se acreditava em Deus, ele provavelmente teria estremecido e explicado - com grande delicadeza - que essa não era uma pergunta oportuna. Se tivessem perguntado a Amós ou a Ezequiel se era "monoteísta", se acreditava num Deus único, ele teria ficado igualmente perplexo. Monoteísmo não era a questão. Há pouquíssimas asserções inequívocas de monoteísmo na Bíblia, mas - curiosamente - a estridência de algumas dessas afirmações doutrinais contraria o espírito essencial da Era Axial.
O importante não é em que um indivíduo acredita, mas como ele se comporta.
Religião tem a ver com fazer coisas que produzem mudanças profundas no adepto. Antes da Era Axial, o ritual e o sacrifício de animais estavam no centro da busca religiosa. Vivenciava-se o divino em dramas sagrados que, como uma grande experiência teatral da atualidade, conduziam o espectador a outro nível de existência. Os sábios axiais mudaram esse quadro; ainda valorizavam o ritual, porém lhe conferiram um novo significado ético e punham a moralidade no âmago da vida espiritual. A única maneira de encontrar o que chamavam de
"Deus", "Nirvana", "Brahman" ou "Caminho" era levar uma vida compassiva. Na verdade, religião eracompaixão. Hoje em dia, muitas vezes achamos que, antes de adotar um estilo de vida religioso, temos de provar, para nossa própria satisfação, que "Deus", ou o "Absoluto", existe. É uma boa prática científica: estabelecer um princípio e só depois aplicá-lo. Mas os sábios axiais diriam que isso equivale a pôr o carro na frente dos bois. Primeiro, é preciso comprometer-se com a vida ética; depois, uma benevolência disciplinada e habitual - não uma convicção metafísica - forneceria indícios da transcendência que se procura.
Isso significa que se tem de estar pronto para mudar. Os sábios axiais não estavam interessados em dar a seus discípulos um pequeno enaltecimento edificante, após o qual eles poderiam retomar, com renovado vigor, suas vidas de sempre, centradas neles mesmos. Seu objetivo era criar uma espécie inteiramente distinta de ser humano. Todos pregavam uma espiritualidade de empatia e compaixão; insistiam na necessidade de abandonar o egocentrismo e a cobiça, a violência e a rudeza. Errado não era só matar um semelhante; não se devia nem pronunciar uma palavra áspera ou fazer um gesto irritado. Ademais, praticamente todos os sábios axiais entendem que nossa benevolência deve abranger o mundo inteiro, e não se restringir a nossa própria gente. Com efeito, a delimitação de horizontes e afinidades constitui mais uma indicação de que a Era Axial estava chegando ao fim. Cada tradição formulou sua própria versão da Regra de Ouro: não faças aos outros o que não farias a ti mesmo. Para os sábios axiais, religião é o respeito pelos sagrados direitos de todos os seres - e não a crença ortodoxa. Se agíssemos com bondade e generosidade para com o próximo, conseguiríamos salvar o mundo.
Temos de redescobrir o ethos axial. Em nossa aldeia global, não podemos mais nos dar ao luxo de uma visão estreita ou exclusivista. Precisamos aprender a viver e a nos conduzir tendo em mente que indivíduos de países distantes do nosso são tão importantes quanto nós. Os sábios da Era Axial não criaram sua ética da compaixão em circunstâncias idílicas. Essas tradições se desenvolveram em sociedades que, como a nossa, estavam, mais que nunca, despedaçadas pela violência e pela guerra; na verdade, o primeiro catalisador de mudança religiosa geralmente era uma honesta rejeição da agressividade que os sábios viam a seu redor. Quando se puseram a procurar as causas da violência na psique, os filósofos axiais penetraram em seu mundo interior e passaram a explorar um campo da experiência humana até então desconhecido.
O consenso da Era Axial é um eloqüente testemunho da unanimidade da busca espiritual do gênero humano. Todos os povos axiais descobriram que a ética da compaixão funciona. Todas as grandes tradições surgidas nessa época concordam quanto à suprema importância da caridade e da benevolência, e isso nos diz algo crucial sobre nossa humanidade. Descobrir que nossa fé se harmoniza tão profundamente com outras é uma experiência afirmativa. Sem nos afastar de nossa própria tradição, podemos, portanto, aprender com os outros a aprimorar nossa busca particular da empatia.
Para apreciar as realizações da Era Axial, temos de entender o que houve antes - ou seja, temos de conhecer a religião pré-axial da mais remota antigüidade. Nela encontramos certas características comuns que seriam fundamentais para a Era
Axial. A maioria das sociedades acreditava, por exemplo, num Deus Alto, comumente chamado de Deus Céu, por estar associado com o firmamento. Sendo algo inacessível, ele tendia a desvincular-se da consciência religiosa. Alguns diziam que ele "desapareceu"; outros, que fora violentamente deposto por uma geração mais jovem de divindades mais dinâmicas. Os indivíduos em geral sentiam o sagrado como uma presença imanente no mundo que os rodeava e dentro de si mesmos.
Alguns pensavam que deuses, homens, mulheres, animais, plantas e pedras partilhavam a mesma vida divina e estavam sujeitos a uma ordem cósmica responsável por toda a existência. Até os deuses tinham de obedecer a essa ordem e cooperavam com os homens para preservar as energias divinas do cosmo. Se tais energias não se renovassem, o mundo poderia mergulhar num vazio primordial.
O sacrifício de animais era uma prática religiosa universal na antigüidade.
Uma forma de reciclar as forças esgotadas que mantinham o mundo vivo. Havia uma firme convicção de que vida e morte, criatividade e destruição estavam inextricavelmente interligadas. As pessoas achavam que sobreviviam apenas porque outras criaturas davam a vida por elas, e, assim, reverenciavam a vítima animal por seu auto-sacrifício. Como não podia haver vida sem essa morte, alguns imaginavam que o mundo surgira em função de um sacrifício realizado no começo dos tempos. Outros contavam histórias de um deus criador que matara um dragão - símbolo comum do informe e indiferenciado - para arrancar a ordem do caos.
Quando encenavam esses eventos míticos em sua liturgia, os devotos se sentiam projetados no tempo sagrado. Com freqüência empreendiam um novo projeto, executando um ritual que representava a cosmogonia original para infundir força divina em sua frágil atividade mortal. Nada podia perdurar se não era "animado", ou provido de "alma".
A religião antiga dependia do que se denomina filosofia perene, porque está presente, de algum modo, na maioria das culturas pré-modernas. Cada pessoa, cada objeto, cada experiência aqui na terra era uma réplica - uma pálida sombra - de uma realidade existente no mundo divino. O mundo sagrado era, portanto, o protótipo da existência humana, e, por ser mais rico, mais forte e mais duradouro que qualquer coisa da terra, homens e mulheres queriam desesperadamente participar dele. A filosofia perene ainda é um fator crucial na vida de algumas tribos indígenas. Para os aborígines australianos, por exemplo, o reino sagrado do Tempo do Sonho é muito mais real que o mundo material. Vislumbres do Tempo do Sonho lhes ocorrem durante o sono ou em visões; o Tempo do Sonho é atemporal e "para sempre". Constitui um cenário estável para a vida cotidiana, constantemente enfraquecida pela morte, pelas vicissitudes, pela incessante mudança.
Quando vai caçar, o aborígine australiano imita de tal modo o procedimento do
Primeiro Caçador que se sente em completa união com ele, integrado a sua realidade mais poderosa. Depois, quando se afasta dessa riqueza primordial, teme que o reino do tempo o absorva e o reduza a nada, juntamente com tudo que ele faz.
Essa era também a experiência dos povos da antigüidade. Só existiam de verdade quando imitavam os deuses em rituais e abandonavam a solitária e frágil individualidade de sua vida secular. Só cumpriam sua humanidade quando deixavam de ser apenas eles mesmos e repetiam os gestos de outros.
Nós, seres humanos, somos profundamente artificiais. Vivemos em luta para aprimorar nossa natureza e aproximar-nos de um ideal. Mesmo hoje em dia, quando abandonamos a filosofia perene, há os que se curvam servilmente aos ditames da moda e até violentam o rosto e o corpo para reproduzir o padrão de beleza vigente. O culto da celebridade mostra que ainda reverenciamos modelos que sintetizam a "super-humanidade". Há pessoas que se desdobram para ver seus ídolos e sentem uma exaltação extática por estar perto deles. Copiam seu traje e sua conduta. Parece que temos uma propensão natural para o arquetípico e o paradigmático.
Os sábios axiais chegaram a uma versão mais autêntica dessa espiritualidade e ensinaram a buscar no próprio íntimo o eu ideal e arquetípico.
A Era Axial não é perfeita. Uma de suas maiores falhas é a indiferença pelas mulheres. Quase todas essas espiritualidades se desenvolveram num ambiente urbano, dominado pelo poderio militar e pela atividade mercantil agressiva, em que as mulheres tendiam a perder o status que detinham numa economia mais rural. Não existem sábias axiais, e, mesmo quando recebiam permissão para desempenhar um papel ativo na nova fé, as mulheres costumavam ser postas de lado. Não podemos dizer que os sábios axiais as odiavam; na maior parte do tempo, eles simplesmente não tomavam conhecimento de sua existência.
Quando falavam sobre o "grande homem", ou o "homem iluminado", não se referiam a "homens e mulheres" - apesar de que, se questionados, a maioria talvez admitisse que as mulheres também são capazes dessa liberação.
Descobri que, justamente por ser a questão das mulheres tão irrelevante para a Era Axial, qualquer discussão continuada desse tema acaba sendo maçante. Esse assunto me pareceu incômodo, todas as vezes que tentei abordá-lo. Creio que merece um estudo específico. Os sábios axiais não eram rematados misóginos, como alguns padres da Igreja, por exemplo. Eram homens de sua época e estavam tão preocupados com o comportamento agressivo de seu próprio sexo que raramente pensavam duas vezes nas mulheres. Não podemos seguir os reformadores axiais com servilidade; na verdade, tal atitude constituiria uma profunda violação ao espírito da Era Axial, segundo o qual esse tipo de conformismo nos aprisiona numa versão inferior e imatura de nós mesmos. O que podemos fazer é estender a todos, inclusive ao sexo feminino, o ideal axial de preocupação universal. Ao tentar recriar a visão axial, temos de levar em conta os melhores achados da modernidade.
Os povos axiais não tiveram uma evolução homogênea. Cada qual se desenvolveu em seu próprio ritmo. Às vezes atinaram com algo realmente digno da Era
Axial, porém recuaram. Os indianos sempre estiveram na vanguarda do progresso axial. Em Israel, profetas, sacerdotes e historiadores se acercaram do ideal esporadicamente, a intervalos, até ser exilados na Babilônia, no século VI, e viver um breve e intenso período de extraordinária criatividade. Na China houve um progresso lento e cumulativo, até Confúcio desenvolver a primeira espiritualidade axial plena, no final do século VI. Quanto aos gregos, desde o início tomaram um rumo totalmente distinto do dos outros povos.
Jaspers via na Era Axial uma contemporaneidade maior do que a existente.
Achava que Buda, Laozi, Confúcio, Mozi e Zoroastro, por exemplo, eram mais ou menos coetâneos. Estudiosos modernos revisaram essa datação. Agora sabemos que Zoroastro não viveu no século VI, e sim muito antes. É muito difícil datar com precisão alguns desses movimentos, sobretudo na Índia, onde havia pouco interesse em história e não se fez nenhuma tentativa de manter registros cronológicos precisos. Atualmente a maioria dos indólogos concorda, por exemplo, que Buda nasceu um século depois do que se pensava. E Laozi, o sábio daoísta, não é especulativas e é provável que nunca tenhamos certeza sobre elas.
No entanto, apesar dessas dificuldades, o desenvolvimento geral da Era Axial nos fornece alguns dados sobre a evolução espiritual desse importante ideal.
Seguiremos esse processo cronologicamente, mapeando o progresso dos quatro povos axiais lado a lado e observando a trajetória da nova visão, que pouco a pouco se arraigou, teve um crescimento e se esvaeceu no final do século III. Mas a história não acabou aí. Os pioneiros da Era Axial lançaram os alicerces sobre os quais outros puderam construir. Cada geração tentaria adaptar esses achados originais a suas próprias e peculiares circunstâncias, e essa deve ser nossa tarefa hoje em dia.
Karen Armstrong
Escritora

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O Paganismo filosófico combatido por Pitágoras...


O Paganismo filosófico é resultado desta regressão mental, seguindo a marcha de uma criança que se torna um letrado e domina a Europa atual, já escravizada na época de Pitágoras. É contra ele que o grande Iniciado e as Ordens que fundou de acordo com os planos da síntese órfica tentaram, em vão, agir como terapeutas sociais, entre as sobras (detritos) das Terceiras Ordens jônicas e fenícias que haviam corrompido o espírito e subvertido as antigas organizações da Grécia e da Itália, dos celto-eslavos e dos pelasgos, das quais falamos antes.
Esses seculares teólogos laicos, principalmente Pitágoras e Aristóteles, que se destacaram sobre o fundo banal do seu tempo como homens de outra raça e de outro Ciclo, vieram dos seus templos metropolitanos do politeísmo para esforçar-se em debelar uma dupla praga instalada perpetuamente no seu povo, como a revolução civil e seu corretivo militar, a guerra. São Paulo, em suas Epístolas aos romanos, define maravilhosamente a mediocridade da terceira casta mental e moral e podemos dizer até que estes filósofos a haviam previsto.
A história comprova mais que suficientemente, ó, o quão refratários permaneceram esses meios à ação desses homens, a todo espírito hierárquico, a toda a sociologia, e como somente a segunda raça mental, a dos Estados-Maiores militares, poderia uni-los em paz forçada.
Esse admirável Pitágoras, que criou a palavra Filosofia no idioma grego, era um filósofo no sentido em que entendemos o termo Filosofia: possuir sua própria sabedoria? Um religioso, sim; um fundador de Ordens, que seja; o São Benito do quase divino Orfeu, bem; porém um filósofo, é dizer muito, e não é o bastante.
Os chefes das confrarias órficas que naquela época dirigiam a Grécia e a Itália foram chamados, por muitos séculos, de teólogos e profetas.. Antes de Pitágoras, Numa tinha sido um dos enviados à nascente anarquia dos romanos. Era o rei eleito de um Colégio Sacro etrusco de acordo com os ritos patriarcais. Os Mestres mediterrâneos do Grande Samien possuíam as mesmas características: Epimênides; Ferécido, de Siros; Aristeas, de Proconesis; todos eram teólogos e profetas, o segundo é taumaturgo; o terceiro é sacerdote. Seu antecessor na Itália, Xenófanes, pai espiritual dos Eléates, era igualmente teólogo, combateu a peito aberto o Paganismo dos jônicos e mesmo o seu politeísmo, como também o dos fenícios.
Além disso, os hierofantes que instruíram Pitágoras não eram filósofos: Temístocles era grande sacerdotisa de Delfos; Abaris era sacerdote do Verbo Solar entre os hiperbóreos; Aristeas, já mencionado; Zalmoxis era o chefe dos sacerdotes trácidas; Aglaofemo era grão-sacerdote de Lesbetra, etc, etc.
Não mencionamos aqui mais que os chefes dos templos da proto-Grécia, a Órfica, a Eslava, que se interligam com as federações celto-eslavas e pelasgas, as quais se remontam à Igreja patriarcal que Manu e Moisés designam pelos nomes de Koush e Rama.
Mas vamos prosseguir com Pitágoras nas metrópoles iniciáticas da África e da Ásia. Seus Mestres sacerdotais são: em Sais, o profeta de Oshi; em Om, Heliópolis; no templo no qual Moisés, com o nome de Oshar-Sif, tinha sido o profeta de Oshi-Rish e o iniciador de Orfeu, o profeta Hôn-Ofi. Na Babilônia é Nazarath (este nome é sugestivo, porque o profeta Daniel, o nazareno, era então o Grão-Mestre da Escola Sacra dos magos). Na Pérsia, é o chefe dos neo-zoroastrianos, o Gheber Zarothosh. No Nepal, visitado também por Lao-Tsé, é o primeiro pandit do Sacro Colégio de Brahma, depois de Krishna, e antes deste último de IShVa-Ra.
Detemo-nos aqui para mostrar algumas etapas importantes da antiga unidade religiosa. Esta contava com numerosas sínteses e alianças superpostas, como segue:
1º A Universal de IShVa-Ra;
2° A Índia das raças morenas e douradas, as de Bharat e de IShVa-Ra;
3º A Ária conquistadora, a de Pavan, do Hanouman, escrita de Rama;
4º O sistema de Nareda, que foi aderido à proto-síntese;
5° A brahmânica concordatáría, a de Krishna, fonte do abrahamismo dos cashidim, sendo estes últimos uma ramificação dos iyotishikas de Caçi, Cashi. O egipcianismo concordatário segue os Pouranikas, de Tirohita.

Essa superposição dos sistemas pré e pós-diluvianos, de seus Ciclos e das suas doutrinas, é quase impossível de captar em razão da inversão do Selo de AMaTh, que, feito por Krishna cerca de 3 mil anos antes de Pitágoras, envolve a Palavra do Verbo BRA-ShITh, do seu ShéMa e do SéPheR. Mas, com o Arqueômetro, é relativamente fácil de reconhecê-la (a inversão), e a sobreposição indicada anteriormente se torna então muito clara.
Moisés chama à proto-síntese a primeira aliança: Adão, em veda AD-Am, Unidade-Universalidade; e ela se multiplica em tantas Igrejas étnicas quanto Moisés, seguindo os egípcios, os caldeus, os brâmanes, os magos, o Kouo-Tsé-Kien do Extremo Oriente e os Votánidas do Extremo Ocidente, mencionam os patriarcas até Noé.
Então, começam a deutosíntesis e a segunda aliança universal. Se tivéssemos que mencionar todos os documentos históricos dessas duas Igrejas católicas, este livro quase não seria o bastante para isso. Moisés, que os teve todos sob sua vista, registra alguns entre eles, com sua habitual precisão, os que concernem, e interessam hoje mais do que nunca para a vanguarda da raça branca na Ásia, no Nepal e na Pérsia. A seguir, a tradução das palavras, extremamente misteriosas e ocultas com uma arte grande, porque seu fundamento é muito simples, muito real e, sobretudo, sem metáforas, nem filosofia.
Bereshith, c. VI, vers. 1, 2, 3, 4.
1. "Tendo-se pervertido a Igreja do patriarca Adão, em razão da multiplicação das raças e da sua mistura, sobre a face visível (PhaNa-I) da Terra espiritual (ADa-MaH), resultando na formação de numerosas confrarias de virgens.
2. "Os filhos dos Alhim celestiais amaram estas filhas de Adão. Tomaram-nas por esposas espirituais, por inspiradas, por Nashim, aquelas cujo amor os tinha cativado mais em espírito: (B'HaROu, inversão de BaROu-aH).
3. "Porque os Nephilim* existiram sucessivamente sobre a Terra astral desses Ya-Mim, Épocas e Ondas luminosas do Yá. Com efeito, desde que os filhos dos Alhim tinham freqüentado as confrarias virginais da Igreja de Adão, a aliança ghiborea, a grã Boreal havia nascido desta inspiração e havia fundado, desde a mais remota Antigüidade, o Anosh-yá, a corporação masculina do Yá, o Estado-Maior sagrado de Ha-Shem, do Shema celestial da glória divina."
Eis a antiga aliança chamada hoje em dia ariana, fundada por uma reação das virgens inspiradas contra a decadência universal. Pitágoras não esquecerá, como chefe de Ordens, de agradecer ao verdadeiro feminismo toda a sua Missão, toda a sua parte legítima de influência.
Além da aliança citada, porém muitos séculos depois, temos que mencionar a aliança que data do patriarca Koush antes da Revolução Nemródica. As metrópoles orientais, cujos Sacros Colégios tinham como correspondentes todos os outros centros mais ou menos aderidos à Antiga Ordem, eram: a capital de Jana-Cadesha; Mithilâ, para a seção das ciências divinas e humanas chamadas Purânicas, ou Humanidades Santas, e Kashi, para a seção das ciências chamadas positivas ou iyóticas, porque a Astronomia, levada até a fisiologia cósmica, era considerada a síntese dessas ciências.
São dessas épocas históricas que datam, muito antes de Moisés, as relações sacerdotais da Índia com o Oriente e o Extremo Oriente, de uma parte, e o Norte da Ásia e a Europa, incluindo Grécia e Itália, de outra. E por último, com Egito e Etiópia. Foi de Kashi, hoje em dia Benares, que veio o Colégio dos Kashidim (literalmente, dado por Kashi), os caldeus. Era aí também que os magos do velho Irã iam terminar seus Altos Estudos Iyóticos. Mas, depois do primeiro Zoroastro e da reputação do culto dos Devas, que considerava como oponente a velha Ortodoxia, abstiveram-se de Mithilâ, o Grande Colégio Purânico freqüentado pelos sacerdotes egípcios, cólquidos, délficos e outros.
Pitágoras era, pois, um religioso, um piedoso peregrino da Unidade e da Universidade Patriarcal, um fiel de sua dupla revelação e de seu duplo critério, que estudaremos mais adiante: a vida e a ciência. A vida, vida eterna, porque sem ela o Thanatismo, que é a finalidade de todo ser, seria o Princípio da vida, o que é absurdo. A ciência, não a do homem, mas aquela que antes dele já estava escrita, com todos os seus feitos, desde o infinitamente grande até o infinitamente pequeno. A biologia do Universo invisível e a fisiologia do Universo visível.
À parte disso, escutemos por intermédio dos seus discípulos, e eles nos dirão se os critérios da verdade são objetivos ou subjetivos, reais ou metafísicos, vivos ou .mortos, universais ou singulares.
"A razão humana não tem, por si mesma, mais do que um valor de conjetura. A ciência e a sabedoria pertencem somente à Divindade e nós só temos a capacidade de obter esse conhecimento de acordo com o nosso grau de receptividade."
Essas palavras, a que nos refere Proclo, exalam cheiro de incenso, aos altares do Verbo, seu Cristianismo Uno e Universal, sua Revelação descontínua desde os primeiros patriarcas até os de nosso tempo.
Comecemos pelos altares do Verbo.
É historicamente certo que Pitágoras reconstituiu, graças ã documentação dos templos, um dos livros de Orfeu: O Verbo hierático. Dedicou-o à memória desse profeta eslavo, renovador da Grécia e da Itália patriarcais. Com certeza, os sacerdotes egípcios conservavam, com o nome de Thoth, livros provenientes da proto-síntese pré-diluviana do Verbo, e, debaixo do livro de Thoth, os da Deuto-sínteses pós-diluviana. Não temos dúvidas de que o fundamento desses livros era comum às Universidades religiosas da Europa, da África, da Ásia e inclusive da América, até a revolução política e filosófica que, em 3100 antes da Encarnação, quebrou esta Santa aliança e a obrigou a ser ocultada. É indiscutível que entre os títulos miriônimos do Verbo, disseminados entre essas duas sínteses, figura desde toda a Antigüidade seu nome direto e invertido; em etíope ShOu-I, em zenda IOSh, em caldeu IShO, em veda IshVa, em sànscrito ISOua, em chinês ShOuI e SOul. É o IeShU, Rei dos patriarcas de nossas liturgias. Esse mesmo nome era o de Moisés, escrito tal como o do Infante Thermouthis, que foi: M'OShI, dedicado a OShI.
Os Qabbalistas têm toda a razão, quando dizem por hábito de tradição: o nome de Deus está dentro do de Moisés; porém eles não podem apresentar as provas disso: elas estão no que precede.
Nós teremos que voltar detalhadamente sobre todos esses pontos; porém o que notamos aqui demonstra que o ponto de apoio tomado por Pitágoras sobre o Verbo nos Templos de Europa e da Ásia é religioso e não filosófico. Pertence à revelação universal una e contínua da Igreja e das Igrejas Patriarcais. Dessa forma, Pitágoras não pôde deixar de repudiar o Paganismo lônico, seu politeísmo ateu, sua anarquia mental, suas políticas anti-sociais. E nisso não fez mais que seguir as pegadas de Numa e de Xenófanes no Ocidente, de Lao-Tsé na China, de Daniel na Caldéia, de Zaratas na Pérsia. Muito mais ainda, o próprio Invisível o teria enviado.
Seus biógrafos, gregos e alexandrinos, dizem efetivamente que recebeu a graça de sua primeira teofania ou sua vocação em Creta, pelo ano de 550 ou 553. Tinha então alcançado e até ultrapassado seu trigésimo ano. Estava assim em uma das condições ritualísticas impostas pelas Igrejas Patriarcais ao segundo nascimento, o espiritual, para a abertura dos sentidos fisiológicos na biologia divina, a entrada, pela Porta da Morte, para sua experiência da imortalidade.
Levando o Verbo Encarnado ao cumprimento total de sua própria lei, como Verbo Criador, observou esse rito no seu retiro no deserto.
Foi assim que Pitágoras teria visto o céu e o Inferno pela primeira vez, e, nos círculos mais espantosos deste último, os dois corifeus do Paganismo, os dois magos do Jonismo mediterrâneo: Hesíodo e Homero, cujos admiráveis cantos haviam deleitado sua elegante juventude na casa do seu pai, o rico banqueiro de Samos. Desolado, não ousava acreditar no que seus olhos viam, olhava para esses espíritos vítimas do Espírito das Trevas, da turba dos Demônios, da sua luz preta e vermelha. "Por quê?", gritou-lhes. E eles lhe responderam: "Oh! Por ter maculado a deuses e homens; aos deuses, por haver-lhes dado como Mestre o Ateísmo, caluniando-os, mostrando que são corruptos como nós homens; e aos homens, divinizando seus vícios".
Eis pois uma antinomia perfeitamente resolvida cortada pela raiz pelo espírito de primeira linha de Pitágoras. De um lado, o profeta Orfeu e o Verbo Divino cuja santidade é ocultada na sua majestade celestial; de outro lado, a tagarelice humana nua e crua, notoriamente de sua arte emprestada à arte sagrada do panteísmo, em que tudo é Deus, com exceção do próprio Deus, de seu teosofismo, no qual tudo é divinamente verdadeiro, com exceção da verdade, e de Amath, o Selo do Verbo eterno, e d'Ele mesmo.
O Orfismo, mil anos antes de Pitágoras, havia sido na Europa um dos máximos esforços da aliança Templária contra a invasão da revolução asiática, de seus retóricos, de seus sofistas, de seus exploradores, de seus políticos suplantadores e escravistas.
Na época de Moisés e de Orfeu, a Creta das cem cidades tinha sido reafiliada à Santa aliança dos Templos de Manu e de Menes. Os curetes eram uma missão sacerdotal dos Kouros celebrados nos poemas hindus. A Minoa de Minos22 os tinha visto renovar um dos nós górdios,23 símbolos do Orço24 e do Orcus órfico, do juramento de aliança com Deus. A filosofia e as políticas cortaram facilmente estes nós sagrados, para desgraça dos povos; somente a religião poderia refazer a sua paz.
Estes nomes - Mínoa, Minos, Menes, Manu - significam, na língua do Bereshith: Na-NoaH, a regra, a ortodoxia de Noé. Durante este tempo, o O-Rifeo, o Ribhou dos Vedantas, o filho dos reis Sármatas daTrácia, Orfeu, renovava o mesmo prazo no santuário eslavo e pelasgo de Delfos. É a Daliph egípcia, a Daliph sânscrita. Em devanagárico,25 Dalapha ou Dalapa expressa um desses lugares santos, neutralizados, e também um desses tesouros sagrados da aliança. A mesma observação para Dodona,* uma das Dyomnas do Danu védico e dos Dodonim de Moisés.
A Grande Soberania Noaquídes, renovando o Adâmica, semeou de Dalaphas semelhantes a sua marcha sacerdotal de um extremo a outro do planeta.
Na Europa, existiam siríngos26 desse gênero do Cáucaso até os Pireneus, e o catálogo dessas bibliotecas subterrâneas era propriedade dos soberanos pontífices metropolitanos. A Cólquida também teve sua Dalapha, que motivou a expedição órfica dos Argonautas.27 Este último nome designa uma das antigas épocas da aliança chamada Arga ou Arka. Seu conselho de vigilância era chamado de Argus, o cachorro de Pan, de Phanés e do Grande Pan.
Orfeu havia sido encarregado de ser, na Europa, o renovador da Anfictionia celto-eslavo e pelasga, cuja data vem de Krishna no que concerne ao culto dos Deuses, dos Devas, dos Alhim, fruto pagão da revolução das burguesias asiáticas.
Atrás desse neoconcordato, havia-se salvaguardado a antiga ortodoxia dos OSI-oï, da qual os pontífices de Delfos conservaram, porém, o Santo Nome. Havia assim mesmo ligado a paz sagrada - na Cólquida, na Grécia; na Táurida, na Itália; e até na Gália, na Espanha - aos invasores revolucionários, contidos de século em século sobre a Europa pela represa oriental dos magos e depois pelos reis da Pérsia. Seus ensinamentos, registrados na língua deva e depois na dórica sobre placas de cobre, eram, em cada cidade central, guardados por famílias nativas que, até mesmo em Atenas, desfrutavam ainda de grandes prerrogativas no tempo de Pitágoras. Com maior razão, esses costumes subsistiam ainda na Grécia e na Itália.
A obra destruída de Orfeu foi, como já dissemos, reconstituída por Pitágoras, o qual, para selar melhor sua imparcialidade de pensamento, a submissão de sua própria razão suprema, desprezando colher os louros fáceis dos jônicos, não escreveu nem destruiu suas próprias obras para não confiar na essência delas mais que à memória de seus adeptos. Esse desprezo por toda a sua doutrina, de todos os sucessos individuais, junto com muitos outros sinais, faz de Pitágoras um grego sem igual; aproxima-o tanto dos sacerdotes patriarcais quanto o afasta dos filósofos.

Estudos do Arquêometro...



É preciso somente pesquisar um pouco da Antigüidade em todas as partes do mundo para encontrar pistas concretas da importância da palavra humana, considerada como reflexo do Verbo Divino.
Sem dúvida, da Índia à China, da Eslávia e da Escandinávia para a velha América, da Síria e da Caldéia ao Egito, a erudição não pode alcançar mais do que os desperdícios supersticiosos e mágicos da ancestral ciência dessa Palavra primordial e de seus alfabetos.
Mas essas mesmas relíquias são as testemunhas desta ciência perdida.
A Igreja síria atribui aos seus alfabetos ancestrais de XXII letras um valor litúrgico, dota cada letra de uma função divina, uma significação hierática.
Essa Universidade religiosa está por isso mais próxima da verdadeira ciência ancestral do que as interpretações mágicas da Antigüidade de decadência, acessíveis aos estudiosos.

Os Alfabetos

Entre os antigos alfabetos anteriores às civilizações anarquistas greco-latinas, classificamos aqueles de 22 letras numerais como equivalente típicos da palavra.
Nós os chamaremos de solares ou solar-lunares, entendendo-se que esses nomes astrais não são mais os signos de correspondência entre o Mundo da Glória e o mundo astral.
E devido ao esquecimento dessa diferença, tomando o efeito pela causa, as conseqüências pelos princípios, que algumas das antigas Universidades caíram no culto das Potências astrais, Anjos e Demônios; no sabeísmo, e inclusive no fetichismo, mais de um século atrás, Depois se precipitou no mais baixo e grosseiro dos materialismos astronômicos.
Classificamos como lunares os alfabetos de 28 letras, como horários zodiacais os de 24 letras, como mensais zodiacais aqueles de 30 letras, como decânicos os de 36 letras, etc, sempre com as ressalvas precedentes e referindo todos esses números aos alfabetos de XXII letras como padrão.
O alfabeto dos primeiros patriarcas é aquele que usamos no Arqueômetro pelas seguintes razões:
É morfológico, quer dizer, mais que geométrico; e, para suas formas rígidas ou flexíveis moldáveis de acordo com a nossa vontade, pode projetar o objeto que define, ou define com ele a sua forma, de acordo com regras que não precisam ser expostas aqui.
Os signos zodiacais e planetários derivam dele, assim como também a construção da esfera ou do planisfério que contém esses signos.
Em conseqüência, a função e o lugar cosmológico de cada letra são determinados por sua semelhança de forma com os signos astrais, cuja posição é determinada astronomicamente.
Como resultado disso, a colocação das letras dessa forma independe da mão humana, assim como sua posição, seus agrupamentos binários, ternários, etc, e todas as suas relações entre elas, em resumo, são autológicas e não antropológicas. Nós acrescentamos ali, sobre o Arqueômetro, os alfabetos siríaco, assírio (chamado de hebraico), samaritano e caldeu. todo eles solares, solar-lunares, de XXII letras equivalentes tanto literal como numéricas.
De modo que, quando a semelhança da letra arqueométrica e do signo zodiacal correspondente deixa a simples vista alguma indecisão, esta será dissipada pela letra análoga dos outros alfabetos e, principalmente, do alfabeto samaritano.

Alfabeto Morfológico dos Primeiros Patriarcas

Os brâmanes fazem um grande mistério com este alfabeto, e este certamente é o protótipo ariano de todos os alfabetos deste gênero, chamados semíticos, e que poderiam ser chamados com mais propriedade de esquemáticos.
O excepcional é que ele é morfológico, é o protótipo das letras védicas e sânscritas, e que certamente é da família da Universidade Brahmânica, tão antiga quanto as Universidades primordiais dos primeiros patriarcas.
O alfabeto se deriva de um ponto, de uma linha, da circunferência, do triângulo eqüilátero e do quadrado; e, mesmo que os brâmanes o chamem de vattan, ele se firma por si mesmo como: "Adão, Eva e Adama", por suas cinco formas, mães da morfologia.

Os signos astrais, zodiacais e planetários derivam, sem dúvida, desse alfabeto, assim como também a maior parte das letras e das cifras mais ou menos alteradas que recebemos de uma fonte pura comum, por diversos rios mais ou menos barrentos.
O resultado disto, repetimos propositalmente que cada letra tem o seu lugar determinado pelo signo zodiacal ou planetário que se deriva dela, a palavra arqueométrica é autológica bem como todos os seus equivalentes.
Esse alfabeto esquemático foi examinado por Moisés no versículo 19, capítulo II de seu Sepher Berashith.
Os termos magia e arcano, usados pelos brâmanes em sua descrição acima, acordam forçosamente no espírito científico cristão dos sinônimos:
Superstição e Ignorância
Superstição: decadência ou superestação de elementos arqueológicos e de fórmulas mais ou menos alteradas, mas que um estudo mais profundo pode às vezes, como é o caso agora, relacionar com um ensinamento prévio, científico e consciente, e não metafísico nem místico.
Ignorância: mais ou menos grande dos fatos, das leis e dos princípios que constituíram este ensinamento primordial. Nunca a magia nem os arcanos têm solicitado mais das inteligências submetidas à vertigem de todo o desconhecido e de todos os abismos que nas épocas de incredulidade, de anarquia e de decadência da Índia, do Egito, da Caldéia, da Pérsia, do Império grego ou do Império romano; e isso, pela mesma necessidade de fé, de princípio e de relevância.
Mas o que salvará a cristandade européia é a retidão, a lealdade que a ciência impõe à consciência e, reciprocamente, trata-se da religião, da arte ou da vida.
A descrição brahmânica anterior revela um tempo de decadência: do Império universal dos patriarcas, que começou na época do Kali-Youg, cerca de quatro mil anos antes da era cristã.
É por isso que tomamos na contramão uma indicação tão precisa, mas também tão inexata, encerrada nessa descrição. Ela afeta as concordâncias zodiacais e planetárias, as vogais acrescentadas, ou melhor, seu conjunto de vogais e de ditongos acrescentados.
Porém essa masorahm, quase pré-histórica, não tinha nada a ver com a origem, mas com o solfejo dos hinos.
Entretanto, o alfabeto das 22 letras, que substituímos por esses signos de solfejo, encerra nele todas as vogais que comportam sua série orgânica e sua numeração cosmológica solar e lunar-solar.

O alfabeto solar das 22 letras.
O número XXII, em letras adâmicas, escreve-se Ka-Ba. Se acrescentamos a esse nome a letra Lá, que significa Potência, obtemos, assim, a Potência das XXII letras.
Essa é a famosa Cabala antiga, da qual os judeus mantiveram somente a superstição babilônica, a decadente, a estéril, a mágica, a Qábalah.
A ciência das XXII Letras, pelo contrário, é uma verdadeira ciência, com todo o rigor e com toda a lealdade deste termo. É a ciência da palavra cosmológica solar, criadora e fecunda até o infinito, como será visto mais adiante.
São Paulo manifesta uma aparente insinuação na "Primeira Epístola aos Coríntios", capítulo I, versículos 7, 8, 9.
São João fala ainda com mais firmeza, no início de seu evangelho, referindo-se ao primeiro termo da Gênese de Moisés: O Princípio.a
Devemos acrescentar ainda que, desde o Yodhisthir, o ponto de partida e de retorno da série cosmológica das letras tem sido transposto, pela Universidade vedo-brahmânica, da letra Y, primeira letra do triângulo de Jesus, para a letra M, primeira letra do triângulo de Maria, da substância chamada Terra de Imanência para a substância chamada das Águas Vivas ou da Emanação.

ALFABETO LUNAR: SIGNOS VÉDICOS DERIVADOS DO PONTO DO AUM

Depois de ter-nos aprofundado durante muitos anos nos ensinamentos orais dos mais sábios pontífices, também rejeitamos a transposição da letra Y para a letra M, baseando-nos em nosso estudo pessoal de seus mistérios e em indicações muito precisas contidas nos Evangelhos e nas Epístolas.

Construção do Arqueômetro em Forma de Duplo Transportador
Semicircular, com Todos os Equivalentes da Palavra,
Correspondentes às Letras Sânscritas e Adâmicas.

Vemos, a seguir, como utilizamos as XXII letras na construção do Arqueômetro. Sobre essas XXII, III dão os centros de cada semicírculo, o diâmetro e a circunferência apresentadas no duplo semicírculo.
No Evangelho encontramos esta chave: "Eu sou o Alef e o Thau", que foi traduzido em grego: "O Alfa e o Ômega".
Essa tradução nos fez passar do mistério do real para o misticismo, sendo a língua grega um idioma soudras, prácrito ou selvagem, e não uma língua arqueométrica.
Nas escrituras assírias, chamadas hebraicas, a letra A se compõe de uma barra transversal e de dois pontos . / .
Nas escrituras morfológicas adâmicas, a barra indica o raio ou o diâmetro, e, por si só, é a letra A; nas mesmas escrituras, os dois pontos indicam um centro desdobrado e a letra S; as letras Th indicam uma circunferência desdobrada em dois semicírculos invertidos, dessa forma:
É por essa razão que, considerando o Alef como duplo diâmetro, seus dois pontos como centros e o Thau como duplo semicírculo, alteramos estas três letras morfológicas na construção da figura que recebe o nome de Zodíaco da Palavra, em forma de duplo transportador.

É a serpente de bronze de Moisés, da qual há alusões no Evangelho. É o caduceu órfico.
Essas três letras adâmicas, A, S, Th, as duas letras assírias, A, Th, significam então a Tríplice Potência divina que constitui o Universo Tipo; o círculo significa o infinito; o centro significa o absoluto; o raio ou diâmetro significam sua manifestação, sua colocação em relação.
Assim, sobre as XXII letras, III se referem à potência constitutiva. As XIX restantes se referem às potências distributivas da harmonia e da organização universal.
Das últimas XIX letras, XII são involutivas e VII são evolutivas, no Mundo da Glória ou do Verbo, e, conseqüentemente, nos Céus astrais. Dito de outra forma, XII letras são zodiacais e VII são planetárias, ou melhor ainda, VI planetárias evolucionam em torno de uma letra solar, que os judeus e gregos ignoravam.
Fica, então, por saber qual o ponto de partida e de retorno da evolução e da involução.
Para esclarecer esse ponto, é suficiente somar as cifras de XIX que dará 1+9=10. Dessa forma, 10 é o equivalente à letra Y, a primeira letra do nome IEVE e de Jesus Verbo: IShO, YPhO.
A seguir, o desenho de nossa construção do Arqueômetro em forma de duplo transportador articulado.
É de notar-se, na parte inferior da figura, a antiga relação entre 7 e 22 = 3,1428571, que se aproxima ao número É, transmitido por Euclides, mas empírico e incerto.
A partir da letra Y, I ou J, de 30° em 30°, a coroa zodiacal da palavra compõe-se das letras: L, M, W, Ph, K, R, E, O, Z, E, T.
As homologias dessas letras, a 180° de distância, quer dizer, nas duas extremidades do diâmetro, são: YR, LHa ou LHe, MÔ, WZ, PhE, K.T, e inversamente RY, EL, OM, ZWou, EPh, TaK.

O resultado disso são duas héxadas de nomes autológicos, nomes radicais ou raízes monossilábicas. IR, Ira, significa em sânscrito palavra, a Divindade da Palavra.
Lá ou Le significam o Rei dos Ciclos, o Mestre de Swarga ou Paraíso; Indra é um do doze Adityas, e também o Mestre interior, a alma, a consciência.
MO, raiz de MÔX e de MÔXA, significa redenção, salvação, liberação das amarras do corpo e das misérias da vida.
WZ, ou também OUZ, encontra-se novamente sob a forma US e significa, na linguagem Veda, o ardor e o brilho luminoso.
PhE, Pa, significa a potência que governa.
KT. A letra K significa a alma; a letra Ta significa a ambrosia, a essência imoral.
Inversão

RY ou RâJ, ser rei, reinar.
El, Al. conter (hebraico). Salvação, glorificação, exaltação.
ÔM, o AÛM.
ZWou, SWa, Bens.
EPh (hebraico). Que cobre e protege, garantia, segurança.
TaK (hebreu), suportar, sustentar; (caldeu), sede, trono.

Para ir acostumando pouco a pouco o arquiteto à leitura desses signos e de seus equivalentes, tomaremos do Zodíaco do Verbo as letras indicadas pelos ângulos dos dois primeiros trígonos, o de Jesus e o de Maria.
Limitamo-nos às letras homólogas, aquelas cujas cores reconstituem o raio branco e que, em conseqüência, formam pares, combinações binárias, das quais cada elemento está situado a 180° de distância um do outro.
A utilidade da coroa dos graus se verificará assim, ao mesmo tempo que o autologia da coroa zodiacal das letras.
Motivamos acima nossa seleção da letra I, Y ou J como pontos de partida e de retorno das séries harmônicas e orgânicas da palavra e de seus equivalentes.
Os equivalentes de I são o raio azul emissivo e remissivo, o número 10, a sonometria e as formas harmônicas que resultam dela, o signo da Virgem, a sabedoria ou a Rainha dos Céus dos anciãos patriarcas, Mercúrio trismegisto aos pés da Virgem, o Rafael trismegisto dos anciãos patriarcas, o Bouddah vedo-brahmânico, etc.
A homóloga dessa letra é R, da qual o leitor encontrará por si mesmo as correspondências sobre o Arqueômetro. Essa combinação binária dará um nome arqueométrico radical, uma raiz monossilábica autológica.
Assim, somente temos que abrir um dicionário sânscrito; adotar uma língua, por exemplo a devanagárica, línguas da Cidade ou da Civilização divina, porque ela tem sido articulada sobre uma língua arqueométrica do templo, a adâmica, da qual escolhemos o alfabeto.
O Verbo vai ainda nos dizer, ele mesmo, se tivemos razão contra os nossos amigos brâmanes ao tomar como ponto de partida da Palavra Criadora a letra I, e não a letra M.
IR, IRâ, significa, em sânscrito, "Palavra, a Divindade da Palavra".
A resposta é divinamente concludente. Sem deixar a base do trígono de Jesus, nós nos reportaremos para a letra O, da qual seus equivalentes são:
O vermelho, as línguas de fogo do Espírito Sagrado; a pomba vermelha; o número 6, gerador sonométrico do acorde perfeito menor que
chamamos de orgânico interno, gerador por igual dos modos de beleza resultantes dessa corda, o signo de Touro, o sinal de Vênus celestial e da Ionah. A combinação binária é dada, a 180° de distância, sobre a base invertida de triângulo de Maria, pela letra M, primeira desse nome e desse triângulo.
Deixaremos o leitor encontrar por si próprio os equivalentes da letra M, e assim abriremos o dicionário sânscrito.
ÔM, ou AÛM dos brâmanes, o AVAM dos Coranistas esotéricos, o AM, o Ave Maria dos primeiros patriarcas e dos cristãos de hoje em dia.
Meditando, com o Arqueômetro na mão, a recombinação do raio branco pelas cores complementares, ou melhor, as homólogas, O e M, e considerando as homólogas dos outros equivalente dessas duas letras, os orientais saberão cientificamente as origens de seu AÛM. Saberão por que esse nome, pronunciado sagrada exatamente na hora certa, arremessa sua vida na outra vida, aquela do triângulo das Águas viventes, em direção à fonte central, enearmônica, da Luz.
Tomaremos agora a letra Ph ou P, aquela da Porta de Deus e dos Anjos. Seus equivalentes são: o raio fotogênico amarelo, o Natal da Glória, dos Céus astrais e do Verbo Encarnado, o número 80, sua sonometria musical, a morfologia de beleza gerada por esta sonometria, Capricórnio e seu anjo, Saturno e seu anjo, etc.
Sua homologia é E ou H, o raio violeta, o número 8, a nota Lá, a sonometria musical e morfológica de 8, a porta inferior do Reino, a porta supraterrestre do homem, a descida e a volta das almas na geração terrestre e na regeneração celeste, o trono do Anjo Gabriel, o anjo da Anunciação e da Ave Maria, o Anjo do signo de Câncer e da Lua.
Sobre a vertical dos solstícios do Mundo da Glória e do mundo astral, o raio branco se reconstitui no centro arqueométrico pela combinação Norte-Sul do amarelo e do violeta. Esta cópula do casal de letras PhE e Pa-H.
Abrindo o dicionário sânscrito, Pa-H significa "a Potência que governa a vida orgânica". Vimos que esta Potência toma posse desse governo universal, quando passa da letra triangular P, ?, para a letra triangular que forma uma bissetriz que aparece no eixo do mundo: ?, Sh.
Essas respostas diretas são incontestáveis, não deixam nada a desejar. Porém, como a razão divina não se preocupa com a razão humana, que quer possuí-la inteiramente na plenitude de sua admiração e de sua adoração, vamos interrogar, então, cada um desses termos binários pelas suas inversões.
YR dará RY; RY, em sânscrito dará RâJ, que significa ser Rei, reinar. Assim, juntando os dois sentidos, o direto e o invertido, obtemos então; o Verbo, o Deus da Palavra, o Rei do Reino eterno.
ÔM dará MÔ em sânscrito, MÔx, MÔxa, que significa "a Redenção, a libertação das amarras do corpo e das misérias da existência física."
Unindo o dois sentidos, o AUM, significa: "a dilatação de alma na vida de adoração o impregna das águas vivas da vida celestial e lhe dá o sabor antecipado da salvação, da redenção, da libertação das amarras do corpo e das misérias da existência física".
PaH ou PhE dará, em hebraico, EPh, a providência que garante, protege e abriga em segurança.
Unindo o dois sentidos, temos: a potência que governa a vida, a protege, a abriga e lhe dá segurança quando essa vida se reintegra nela.
Depois de ter orientado o leitor como deve interrogar o Arqueômetro, sobre a estrela dos solstícios do Verbo nessas letras homólogas, nós nos limitaremos, no que se relaciona à estrela equinocial dos ângulos, a fazer a mesma experiência sobre a linha do horizonte.
Situamo-nos, então, entre os dois ângulos I e M dos trígonos de Jesus e de Maria. Encontraremos aí a letra L, sobre o trígono do Éter divino. Seus equivalentes são o verde-azulado, o número 30, sua sonometria musical e morfológica, o Arcanjo São Miguel, a porta horizontal e ocidental dos Anjos, dos ALaHIM encarregados de dar toda a vida mental, amante ou corporal, seus alimentos e seus elementos, o Equinócio do Outono, o signo da Balança e do juízo, Vênus noturno, etc.
A homologia, no ponto de partida do trígono de Fogo, é a letra E ou H, e tem por equivalente o Cordeiro de Deus, Agnus Dei, o Agni dos vedo-brâmanes, o cordeiro pascal dos judeus, o Amor divino até o sacrifício absoluto do próprio Eu, a Páscoa, a Crucificação do Verbo Encarnado e sua Ressurreição no terceiro dia, a cor vermelho-laranja do sangue, o equinócio da primavera, o número 5, sua sonometria musical e morfológica, o signo do Carneiro e do Cordeiro, Marte noturno ou o Centurião, o Sol sobre o seu trono, etc.
A recombinação do raio branco, entre o verde-azul e o laranja-vermelho, das letras LaH ou LH ou também Le.
O dicionário sânscrito responde: o Rei dos Céus, o Mestre de Swarga, o Senhor do Paraíso, um dos doze Adityas, que o chama Indra, que nós aceitamos como sobrenome de Jesus, e não de outra forma.
Acrescentemos, passando pela teobiologia até a ontobiologia do homem: o Mestre interior da alma, a consciência.
Invertendo, o hebraico dará: EL, AL, significando: a Salvação, a Exaltação, a Glorificação. Juntando os dois sentidos:
"O Mestre interior da alma, o Senhor da consciência humana, pregado na cruz para a sua salvação, exaltado e glorificado na sua primeira glória como Verbo, é o Senhor e Rei do Paraíso."
Coroa Planetária da Palavra

A mesma prova experimental, realizada para a coroa planetária da palavra, daria outras respostas igualmente maravilhosas.
Nós nos limitaremos agora aos exemplos que precedem e que estão de acordo com a lei da homologia e as regras de suas combinações binárias para a leitura dos "Mentras arqueométricos" nesta ordem.

Para dar mais certeza ainda acerca da exatidão autológica do Arqueômetro, tomaremos, sobre cada ângulo dos trígonos de Jesus e de Maria, a combinação binária da letra zodiacal e da planetária do ângulo, e depois a sua inversão.
Não utilizaremos mais a língua sânscrita e dos dicionários em uso para provar mais uma vez a referência ariana do Arqueômetro nas antigas Universidades patriarcais.
No ponto inicial do trígono de Jesus, as duas letras Ya e Tsa dão o termo YA ÇA, que significa emissão da glória e do esplendor.
ÇI é a inversão do termo anterior e significa remissão, repouso, sonho.
Existe, então, para o ângulo do ponto inicial e de retorno das letras, uma perfeita concordância desta combinação binária com aquela que caracterizamos como homológica.
Ph e Sh são duas letras do ângulo Norte, que coincidem em Capricórnio e em Saturno, no ponto do Natal, em nosso 24 de dezembro, à meia-noite, momento em que o Sol começa a subir sobre a Eclíptica, para gerar o ano-novo. Portanto, em sânscrito, PoeSha significa o mês de dezembro-janeiro, confirmando absolutamente tudo o que dissemos sobre a autologia arqueométrica.
Pa quer dizer Potência; Pâ quer dizer Salvador.
Sha significa Paraíso.
SaP é a inversão das letras anteriores, e significa adorar.
Unindo o sentido do Mundo Astronômico ao Mundo da Glória, obtemos: No ponto de partida do primeiro mês astronômico, revela-se a adoração, a Potência do Salvador, o Rei do Paraíso.
Depois de ter visto a interpretação arqueométrica das letras do ângulo correspondente ao Pai, e as do ângulo correspondente ao Filho, interrogaremos o ângulo que corresponde à terceira pessoa da Trindade fundamental.
OG da OGA, que significa a potência que une e reúne, a força que fecunda e multiplica. Em latim, Augere, aumentar.
GO, inversão do precedente, significa (em veddo) o que tende à união, tudo o que é bom. Mas é pelo menos singular no que diz respeito ao seu sentido astronômico do mês de dezembro-janeiro, o termo GO significa também, em sânscrito, o sentido astronômico zodiacal do signo correspondente à letra O: Touro, Boi.
MaKa é um termo formado pelas duas letras zodíaco-planetário do ângulo do trígono inicial de Maria, significa Sacrifício; MaGa, significa felicidade e sacrifício.
KaMa significa o amor, o desejo, a vontade da qual o amor é o princípio.
RD, situado no segundo ângulo do trígono do Maria, forma o nome RaD, que significa dar, concordar.
DR, DaRa, significa o que comporta, o que contém e possui. Porém aqui, um sentido astronômico é dado por DRu que significa o que flui, liquefaz-se e se funde, ou corre rápido na água, concordando com o signo de Peixes.
HB, no ângulo sul do triângulo de Maria, dará o termo HEBE, que verte para dar de beber aos deuses, na mitologia órfica derivada da vedo-bramânica.
Em sânscrito, esse nome se decompõe em Ka, que significa Água etérea ou Ar vaporoso, e Ba que significa uma, o que concorda astronomicamente com Câncer, signo de água e com a correspondência da marcha da Lua e do estado de todos os fluidos e líquido sublunares.
BH, inversão do termo anterior, dará BaHu, o BoHu hebraico, mistura fluida de onde sai BaHuKa, que significa cisterna, que concorda também com o sentido astronômico do signo.

LETRAS MORFOLÓGICAS E ARITMOLÓGICAS

Chamamos zodíaco-solares os alfabetos orgânicos de XXII letras, tais como o siríaco litúrgico, o assírio dos judeus, o samaritano, etc. Escolhemos este gênero de alfabeto porque é cientificamente regular como processo de letras e de números correspondentes, ao que se podem reduzir todo alfabeto empírico ou vulgar. E, nesse tipo alfabético, escolhemos o mais antigo, o adâmico, desconhecido na Europa, mas conservado pelos brâmanes com o nome de Wattan. Nós o adotamos porque ele é exato, não somente como processus de letras e de números, mas também como processo de formas.
É um alfabeto morfológico, ou falante exatamente por suas formas que são geradas de um ponto, da linha, do ângulo, do círculo e do quadrado:

As ciências e as artes relativas à aplicação das formas para os usos da Arquitetura, Estatuária e Ornamentação de todo Gênero encontrarão nestas letras, remetidas por mim a seu ponto exato de correspondência sobre o cosmômetro pantográfico, uma morfologia falante.
Em Arquitetura tão-somente, este novo gênero, este estilo falante, é derivado da correspondência com as cores do pantógrafo.
Esse estilo consiste na utilização do ferro ou de qualquer outro metal e do vidro colorido, utilizando-se o ferro não só como armação mas também como engaste falante dos muros de vidro colorido, como o ouro, a platina e a prata servem de engaste às pedras preciosas.
Veremos mais adiante por que, do alfabeto de XXII letras, extraímos três letras: A, para o número 1, , S, para o número 60, ?
Th, para o número 400, quer dizer, o Raio Gerador, os Pontos e o Sinal de união das zonas.
Restam XIX letras, XII modais e VII diatônicas. Elaborando a tabela das correspondências morfológicas, resultou no seguinte: (1º) entre as XII modais e os XII signos zodiacais, entre as VII Diatônicas e os VII signos planetários.
A comparação mostra que esses signos astrais são derivados dessas letras, e somente este fato se refere a uma época universitária dos patriarcas anterior ao Paganismo, ao Sabeísmo, ao Antropomorfismo e ao Zoomorfismo; É por essa razão que chamamos zodíaco-solares a esses alfabetos de XXII letras e zodíaco-lunares aos alfabetos de XXVIII, XXIX e XXX letras, como o Musnad e o Coreïsh.
Aritmologia dos Alfabetos Cosmológicos Solares
Sendo as XXII letras aritmológicas, tivemos que reconstituir sua aritmologia de acordo com seu ponto de partida e de retorno, com seu módulo emissivo que, sendo a letra Y, é o número 10, com o número 6 como módulo menor. Pelo contrário, no sistema lunar vedo-brahmânico, sendo o ponto de partida e de retorno a letra M, é o número 40, com o número 8 como módulo menor.
É útil ressaltar ao arquiteto que esta aritmologia restabelece toda uma parte perdida das ciências aritméticas, a dos números qualitativos inversamente proporcionais às cifras quantitativas.
O maior destes números é a unidade e todos os outros são as funcionalidades internas dela.
Além do mais, essa aritmologia qualitativa pode ser demonstrada fisicamente com experiências, seja sobre uma corda sonora, seja sobre as placas vibrantes, de acordo com os números e com as formas equivalente das placas.
Revela-se com isso a qualidade musical dos números, enquanto as cifras revelam a quantidade das vibrações físicas.
Esse conhecimento, do qual deriva a música cosmológica das formas ou morfologia, é indispensável para a arquitetura e todas as artes a que ela preside, passando do artista e de sua obra do estado inconsciente ao estado de ciência e da consciência plena e inteira, quer dizer, de cooperação direta com os princípios metrológicos e morfológicos.
A síntese religiosa ou a sabedoria é dessa forma uma aliança divina real e positiva, tanto na ciência como na arte e na vida, da qual a ciência e a arte são seus instrumentos.
Em resumo, como os números constituem também palavras, o arquiteto notará que aquelas que resultam das principais séries numéricas do alfabeto adâmico poderão ser lidas seguindo a numeração decimal sânscrita. Assim, perceberá facilmente a grande importância destas palavras reveladoras.
Uma vez mais, a vontade humana não faz parte desta autologia que nós dará o critério de certeza utilizado nas mais antigas Universidades patriarcais.


Critério de Certeza

Não se acredita em nada sem convicção, sem o poder da vida que apela no Verbo, mesmo com uma irresistível certeza que coloca uma luz no coração, como um calor sagrado.
O Arqueômetro é o revelador dessa Revelação, dá esta certeza e ele apela a essa força da vida que arrastará o arquiteto a uma aliança e a uma colaboração real com o projeto de sua arte.
É por essa razão que chamo a atenção, com muita gravidade, sobre o que vem a seguir:
Olhando a tabela da aritmologia das XXII letras, encontraremos:
1º) Que as letras que têm a chave do número 10 são Y, I ou J.
2º) Que esse número 10 não é o resultado da soma das interioridades do número 4 + 3 + 2 + 1 = 10, como nos outros sistemas decadentes da Antigüidade, mas da Unidade da Trindade e da interioridade dessa Trindade, assim: 3 + 2 + 1 = 6, que significa: sestilidade.
O número 1 corresponde à incognoscível Unidade de Deus, o número 3 corresponde à sua Trindade constituinte de toda a manifestação, a seu Verbo cognoscível. Jesus disse: "Quem me vê, vê ao Pai".
O número 6, que é do Espírito Santo, representa a própria inferioridade de 3 + 2 + 1 = 6.
Esses três números, 1, 3, 6, igualam-se ao 10, sem ser necessário recorrer ao 4 para obter, com a soma, o número 10.
Tudo o que precede pode ser feito experimentalmente sobre a corda sonora.
Com efeito, 1 representa a corda inteira, 2 representa uma oitava nos dois lados, para a direita e para a esquerda a partir do meio da corda. A dualidade não consiste numa potência de oposição, mas de simetria com a própria unidade.
Três sobre a corda sonora dará a quinta a 2/3, mas cada terço isolado dará também essa quinta à oitava; o número 3 é, então, autônomo em 1, como palavra do número 1.
Quatro, pelo contrário, representa a subsimetria de 2, que é ela mesma a potência simétrica de 1.
Quatro dará os ¾ da quarta, sendo a metade geométrica da oitava, porém cada quarto isolado reproduz a oitava, sendo ela mesma a dupla oitava.
Dessa forma, sendo 2 a potência simétrica da unidade, 4 é a potência subsimétrica, ou interferencial. Este número, então, não é autônomo nem diretamente falante, não mais em Sonometria que em Morfologia, como veremos mais adiante.
Em 6, interioridade de 3, o respaldo de sua potência simétrica, que então resulta 3, como 2 é respaldo de 1 na simetria interna.
Em 6, tudo responde com a maior segurança sobre a corda sonora; tudo ali é verbal e autônomo, como em 3, e que essa palavra, que corresponde, em morfologia, ao hexágono, dará a onda sonora, seu acorde menor perfeito, que nós chamamos orgânico interno, com propulsão de 2 quintos nos agudos, quer dizer, uma dupla promulgação do verbal 3.
Continuaremos nas próximas inserções...