quinta-feira, 28 de julho de 2011

Jung e a Gnose.



"Desde o princípio de sua carreira psicanalítica até a morte, Jung manteve um vivo interesse e uma profunda simpatia pelos gnósticos. Já em 12 de agosto de 1912, Jung escreveu uma carta a Freud a respeito dos gnósticos, na qual qualificou a concepção gnóstica de Sofia de reaproveitamento de uma antiga sabedoria que poderia aparecer uma vez mais na moderna psicanálise. Não lhe faltava literatura capaz de estimular seu interesse pelos gnósticos, porque os eruditos do século XIX na Alemanha (embora quase que em nenhum outro país) devotavam-se diligentemente aos estudos gnósticos. Em parte como reação contra a rigidez da Alemanha bismarckiana e a seus efeitos conformistas, tanto teológicos como intelectuais, inúmeros eruditos excelentes (Reitzenstein, Leisengang e Carl Schmidt, entre outros), além de poetas e escritores criativos (Herman Usher,Albrecht Dieterich), e, pelo menos, alguns membros da intelectualidade francesa (M. Jacques Matter, Anatole France) investigaram a tradição gnóstica. Todos os biógrafos de Jung mencionaram seu profundo interesse por assuntos gnósticos. Uma das declarações mais reveladoras a esse respeito é citada por uma de suas ex-colaboradoras, Bárbara Hannah, que lhe reproduz as palavras sobre os gnósticos: "Senti como se finalmente tivesse um círculo de amigos que me entendessem". A mesma biógrafa também ressalta que Jung desenvolveu um interesse por Schopenhauer justamente porque o grande filósofo alemão lembrava-lhe os gnósticos e a ênfase que colocavam no aspecto do sofrimento do mundo; além disso, ele aprovava de todo o coração o fato de Schopenhauer "não falar nem da providência onisciente e todo-misericordiosa de um Criador, nem da harmonia do cosmo, mas ter afirmado abertamente que uma falha fundamental subjazia ao triste curso da história humana e à crueldade da natureza; a cegueira da Vontade criadora do mundo..." Que essas são afirmações completamente gnósticas não é preciso dizer. Como seu interesse por Schopenhauer remonta à infância, podemos considerar Jung, sob muitos aspectos, como um gnóstico "natural', possuidor de uma postura gnóstica mesmo antes de familiarizar-se com alguns dos ensinamentos do gnosticismo.

Apesar de Jung ter tido acesso a certo volume de literatura poética e erudita bem cedo na vida, o que estimulou seu interesse pelo gnosticismo, ele não contou com quase nenhum material de natureza gnóstica procedente de fontes originais à sua disposição. Como muitos outros, para informar-se sobre os gnósticos, Jung teve de se basear nos relatos fragmentados e sobretudo deslealmente distorcidos dos padres da igreja antignóstica, em particular Irineu e Hipólito. As pesadas engrenagens da erudição acadêmica apenas começavam, com extrema lentidão e mesmo relutância, a dedicar-se aos três códices coptas Codex Agnew, Codex Bruce, Codex Askew, que na época mofavam em vários museus, esperando para ser traduzidos e publicados. Pode-se considerar algo miraculoso que Jung tenha sido capaz de obter tanta compreensão e extrair tanta informação valiosa, favorável ao gnosticismo, das polêmicas dos padres caçadores de hereges da Igreja. A contribuição de Jung Aos estudos gnósticos em geral e a uma esclarecida interpretação contemporânea do gnosticismo em particular é pouco menos que notável em alcance e importância. É lamentável que essa contribuição não seja ainda apreciada por um número crescente de especialistas em gnosticismo, dentro do campo de estudos bíblicos, embora isso não seja particularmente surpreendente, em vista do fato de que a maioria desses eruditos provem de escolas de teologia e de religião com tendências ortodoxas. Além disso, muitos deles carecem por completo de qualquer apreciação séria da psicologia, especialmente do tipo de psicologia que Jung proclamou. Afirma-se que a guerra é por demais importante para ser confiada a generais; da mesma forma, seria igualmente justo dizer que o gnosticismo representa uma tradição de muito valor para ser consignada a estudiosos da Bíblia e a sofistas de palavras coptas. A falta de atenção e respeito dispensados a Jung por alguns desses eruditos é ainda mais inacreditável, considerando-se que a influência de Jung consiste praticamente na única responsável pelo projeto vital de publicação do maior acervo de escritos gnósticos originais descobertos na história: a Biblioteca de Nag Hammadi.

Os gnósticos foram prolíficos escritores da tradição sacra. Seus inimigos observaram com desaprovação que os seguidores do instrutor gnóstico Valentino costumavam escrever um novo evangelho a cada dia, e que nenhum deles era muito estimado, a menos que desse uma nova contribuição à sua literatura. Entretanto, de toda essa profusão de textos, muito pouco sobreviveu, devido à incansável supressão e destruição da literatura gnóstica a que se dedicaram os queimadores de livros e caçadores de hereges da Igreja que, com o apoio do poder constituído, obtiveram predominância sobre os seus rivais. Durante muitos séculos, não se soube da existência de nenhuma literatura gnóstica original. Foi somente nos séculos XVIII e XIX que viajantes, como o destemido e romântico escocês James Bruce, começaram a trazer para a Europa, do Egito e localidades vizinhas, fragmentos de papiros antigos contendo textos. Embora talvez escritos originariamente em grego, esses haviam sido traduzidos pelos escribas gnósticos para o copta, a língua popular do Egito helênico. Sendo realmente raros os eruditos coptas e demais pessoas interessadas em gnosticismo, a tradução desses textos procedeu-se muito lentamente. Então, um quase milagre aconteceu. Em dezembro de 1945, pouco após o término da II Guerra Mundial, um camponês egípcio encontrou uma coleção inteira de manuscritos gnósticos enquanto cavava para extrair fertilizantes na vizinhança de algumas cavernas, na caldeia montanhosa de Jabal al-Terif, próximo ao Nilo, no Alto Egito. Aparentemente, esses tesouros fizeram parte, em certa época, da biblioteca do vastocomplexo fundado na região pelo pai do monasticismo cristão, o monge copta São Pacômio.

Como seus predecessores, a descoberta de Nag Hammadi custou muito a se concretizar. Os métodos lentos dos acadêmicos foram, entretanto, bastante acelerados pela influência de um homem que não era nem erudito copta nem especialista bíblico, mas simplesmente um arqueólogo da alma humana. Esse homem era, é claro, Carl Jung. Ele se interessou pela descoberta de Nag Hammadi desde o princípio; foi um antigo amigo e colaborador de Jung, o professor Gilles Quispel, que tornou a iniciativa de traduzir e publicar os livros de Hag Hammadi. E, 10 de maio de 1952, embora a crise política e a dissenção acadêmica paralisassem todos os trabalhos relativos aos manuscritos, Quispel adquiriu um dos códices em Bruxelas, e desta porção da grande biblioteca, realizou-se a maior parte das primeiras traduções, envergonhando assim a comunidade erudita, que se viu na contingência de apressar o trabalho longamente adiado. Esse documento, intitulado Jung Codex, foi apresentado ao Instituto Jung de Zurique por ocasião do octogésimo aniversário do Dr. Jung, tornando-se o primeiro item da descoberta de Nag Hammadi a ser abertamente examinado por eruditos e leigos fora do turbulento ambiente não-cooperativo do Egito dos anos 50. O próprio professor Quispel declarou ter sido Jung, uma peça-chave no despertar da atenção sobre os manuscritos e na publicação da valiosa coleção de Nag Hammadi. Existem boas razões para se crer que, sem a influência de Jung, essa coleção também poderia ter sido relegada à obscuridade pela aparentemente sempre ativa conspiração da negligência erudita. (Para maiores detalhes sobre a história da Biblioteca de Nag Hammadi e a participação de Jung, ver: H.C. Puech, G. Quispel, W.C. Van Unnik: The Jung Codex, Londres, M.R. Mowbray, 1955). Qual era a verdadeira visão de Jung a respeito do gnosticismo? Ao contrário da maioria dos eruditos até bem recentemente, ele jamais acreditou que se tratasse de uma heresia cristão dos séculos II e III. Também nunca deu importância às infindáveis disputas de especialistas a respeito das possíveis origens do gnosticismo: indiana, iraniana, grega e outras. Antes de qualquer outra autoridade no campo dos estudos sobre os gnósticos, Jung reconheceu-se por aquilo que eram: videntes que produziram criações originais e primordiais, a partir do mistério que ele chamou de inconsciente. Quando, em 1940, perguntaram-lhe se o gnosticismo era filosofia ou mitologia, ele respondeu com seriedade que os gnósticos lidavam com imagens reais e originais e não eram filósofos sincretistas, como muitos supunham. Jung reconheceu que imagens surgem ainda hoje nas experiências interiores das pessoas, ligadas à individualização da psique: nisso ele via evidência do fato de que os gnósticos expressavam imagens arquetípicas reais que, como se sabe, persistem e existem independentemente do tempo ou de circunstâncias históricas. Ele identificou no gnosticismo uma poderosa e absolutamente primordial e original expressão da mente humana, uma expressão dirigida para a mais profunda e importante tarefa da alma, ou seja, a obtenção de sua plenitude. Os gnósticos, como Jung os percebia, interessavam-se acima de tudo por uma coisa - a experiência da plenitude do Ser. Considerando que isso incorporava seu interesse pessoal e também o objetivo de sua psicologia, é incontestável que sua afinidade com os gnósticos e com sua sabedoria era realmente grande. Essa visão do gnosticismo não se confinou aos trabalhos psicológicos de Jung, mas logo entrou no mundo dos estudos gnósiticos por intermédio do supracitado colaborador, Gilles Quispel, que, em seu importante trabalho Gnosis als Weltreligion (1951), apresentou a tese de que o gnosticismo não expressa nem uma filosofia nem uma heresia, mas uma experiência religiosa específica, que então se manifesta como mito e (ou) ritual. É de fato lamentável que, após mais de vinte e cinco anos da publicação desse trabalho, tão poucos tenham apreciado suas significativas implicações.

Em vista dessas considerações, pode-se compreensivelmente indagar: Jung era um gnóstico? Pessoas mal informadas responderam sim a essa pergunta, querendo dizer com isso que Jung não era nem um cientista respeitável nem um bom homem, de acordo com o significado religioso ortodoxo do termo. Em virtude do uso pejorativo da expressão gnóstico, muitos dos seguidores de Jung, e ocasionalmente o próprio Jung, negaram que ele fosse um gnóstico. Um exemplo bem típico dessas evasivas foi a declaração de Gilles Quispel, segundo a qual "Jung não era um gnóstico no sentido comum do termo". Por outro lado, é muito duvidoso que jamais tenha havido um único gnóstico no sentido comum do termo. O gnosticismo não constitui um conjunto de doutrinas, mas a expressão mitológica de uma experiência interior. Em termos de psicologia junguiana, poderíamos dizer que os gnósticos deram expressão em linguagem poética e mitológica às suas experiências dentro do processo de individualização. Ao faze-lo, eles produziram uma profusão do mais significativo material, contendo profundas percepções da estrutura da psique, do conteúdo do inconsciente coletivo e da dinâmica do processo de individualização. Como o próprio Jung, os gnósticos não descreveram apenas os aspectos conscientes e pessoais inconscientes da psique humana, mas exploraram empiricamente o inconsciente coletivo e forneceram descrições formulações das várias imagens e forças arquetípicas. Como afirmou Jung, os gnósticos foram muito mais bem sucedidos do que os cristãos ortodoxos na descoberta de expressões simbólicas adequadas do Ser, e essas expressões assemelham-se às formuladas por Jung. Embora Jung não tenha se identificado abertamente com o gnosticismo como escola religiosa , da mesma forma que não se identificou com nenhuma seita religiosa, pouca dúvida pode existir de que ele fez, mais do que qualquer outra pessoa, lançar luz sobre o impulso central das imagens e da prática simbólica gnósticas. Ele viu no gnosticismo uma expressão particularmente valiosa da luta universal do homem para readquirir a plenitude. Embora não fosse prático nem modesto que ele o dissesse, não há dúvida de que essa expressão gnóstica do anseio pela plenitude só foi reproduzida uma vez na história do Ocidente, e isso se deu no próprio sistema da psicologia analítica de Jung.

Que tipo de gnóstico era Jung? Certamente, não um seguidor literal de nenhum dos antigos mestres da Gnose, o que teria sido um empreendimento impossível, diante da insuficiência de informações detalhadas a respeito desses e de seus ensinamentos. Por outro lado, como os gnósticos do passado, ele formulou pelo menos os rudimentos de um sistema de transformações ou individualização, que se baseava não na fé numa fonte exterior (seja Jesus ou Valentino), mas na experiência interior, natural da alma que sempre representou a fonte de toda verdadeira Gnose.

A definição léxica de gnóstico é conhecedor, e não seguidor de alguém que pode ser um conhecedor. Jung sem dúvida era um conhecedor, se é que já houve algum. Negar que ele era um gnóstico nesse sentido equivaleria à negação de todos os dados reconhecidos sobre sua vida e seu trabalho. A mais provável indicação do caráter especificamente da linha seguida por Jung, no entanto, não é outra senão o tratado intitulado Sete Sermões aos Mortos, o qual, segundo admitem proeminentes Junguianos, constitui a fonte e a origem de seu trabalho posterior. Quem, a não ser um gnóstico, escreveria ou poderia escrever uma obra como esses sermões? Quem optaria por revestir suas revelações arquetípicas pessoais, que formam o esqueleto do trabalho de sua vida a terminologia e o estilo mitológico da Gnose Alexandrina? Quem preferiria eleger Basílides, em vez de qualquer outro vulto, como autor dos Sermões? Quem usaria com versada compreensão e finesse, termos como Pleroma e Abraxas para simbolizar estados psicológicos altamente abstratos? Há apenas uma resposta para essas perguntas: somente um gnóstico faria essas coisas. Como Carl Jung realizou tudo isso e muito mais, podemos portanto considera-lo gnóstico, tanto no sentido geral de um verdadeiro conhecedor das mais profundas realidades do ser psíquico como no sentido mais estrito de moderno restaurador do gnosticismo dos primeiros séculos da era cristã.

Jung e a Gnose Pansófica

De acordo com Morton Smith, notável descobridor do Evangelho Secreto de Marco, o termo gnostikoi em geral se aplicava a pessoas de tendência pitagórica e ou platônica, embora naturalmente a expressão Gnose apareça nos escritos de muitos autores ligados a outras escolas, incluindo Padres da igreja ortodoxa cristã, como Orígenes e Clemente de Alexandria. A Biblioteca Gnóstica de Nag Hammadi continha cópias da República de Platão e também de certos tratados herméticos que os eruditos puristas da vindima contemporânea jamais sonhariam incluir na literatura gnóstica. Tudo isso fornece indícios para convicção de que, já em tempos primitivos, quando as escolas gnósticas ainda estavam vivas fisicamente, o gnosticismo caracterizava-se por um considerável ecumenismo e flexibilidade. Os membros da suposta comunidade gnóstica do Alto Egito provavelmente teriam definido a literatura gnóstica como qualquer escritura de valor espiritual, capaz de produzir Gnose no leitor. Acadêmicos versados em gnosticismo podem aspirar ao status de puristas, mas os próprios gnósticos nunca o foram, nem poderiam ser. Assim, nos séculos posteriores, após a destruição das comunidades gnósticas primitivas e de suas escrituras, o espírito gnóstico continuou a viver sob muitos nomes e disfarces, servindo ainda a seus propósitos originais e imorredouros. Enquanto existir uma luz na individualidade mais recôndita da natureza humana, enquanto existirem homens e mulheres que se sintam semelhantes a essa luz, sempre haverá gósticos no mundo. Podemos considerar sua contínua existência resultante em grande medida da sobrevivência dos arquétipos gnósticos no inconsciente coletivo e da própria natureza dos processos de crescimento e desenvolvimento da psique em si. Jung, indubitavelmente sabia disso quando se referiu ao processo de confronto com a sombra (o reconhecimento da parte inaceitável ou má de nós mesmos) como um "processo gnóstico". Os padres da Igreja cunharam a frase anima naturaliter christiana (a alma que é cristã por natureza); entretanto os gnósticos, com muito maior legitimidade, poderiam ter dito que o conteúdo da alma e sua senda de crescimento são por natureza gnósticos. O inegável caráter arquetípico do gnosticismo não constitui a única causa de sua sobrevivência. Além do caráter gnóstico do inconsciente, que tende espontaneamente a produzir sistemas gnósticos de realidade, existe também um desenvolvimento histórico e uma continuidade ligando os antigos adeptos do gnosticismo a seus herdeiros de períodos históricos posteriores.

Movimentos subterrâneos raras vezes se prestam como objetos para o historiador. Compelidos ao segredo pelo ambiente hostil, sua principal preocupação é a sobrevivência, e portanto eles deixam relativamente poucos vestígios perceptíveis no solo do tempo. Grande parte, embora não a totalidade, da história gnóstica posterior aos séculos III e IV constitui-se de especulação e intuição em lugar de fatos. Contudo, nessa tênue estrutura de segredos e subterfúgios, de evasões e ocasionais declarações ousadas, certos dados significativos se sobressaem com singular força e brilho. Como um desses dados encontra-se a vida e o trabalho do esplêndido profeta Mani (215-277 d.C.), cuja estrela se elevou justamente quando a dos gnósticos declinava. Mani foi um gnóstico, tanto pela natureza de seu caráter como em virtude da tradição. Aos doze anos de idade, recebeu a visita de um anjo que lhe anunciou haver sido escolhido para grandes tarefas. Aos vinte e quatro anos o anjo voltou à sua presença e exortou-o a aparecer em público e proclamar a sua doutrina. O termo persa que designa esse anjo significa gêmeo; tratava-se do irmão gêmeo espiritual ou Eu Superior ( o Ser) de Mani. O tratado gnóstico conhecido como Pistis Sophia relata um incidente semelhante na vida de Jesus, que em sua juventude foi visitado por um anjo que parecia irmão gêmeo e a quem Jesus uniu-se quando se abraçaram. Esses mitos expressam o encontro junguiano ente o ego e o Self (Ser), com a conseqüente união dos opostos. Descobertas recentes parecem indicar, no entanto, que o pai de Mani, Patiq, viajou à Síria e à Palestina e lá juntou-se a um grupo judeu ou mandeano de caráter gnóstico. Portanto, com toda a probabilidade, Mani recebeu instrução gnóstica de seu pai ou dos mestres de seu pai.

Mani foi cruelmente executado por um traiçoeiro monarca instigado pelo clero zoroastriano, mas sua religião continuou a florescer em muitos lugares por vários séculos, tornando-se a principal fonte de transmissão da tradição gnóstica. Ainda em s813, a ordem maniqueísta do Lótus Branco e da Nuvem Negra continuava politicamente ativa na China, e parece haver indicações da existência de remanescentes maniqueístas no Vietnã em 1911. Ao contrário dos primeiros mestres gnósticos, Mani era um hábil organizador, e os missionários de sua igreja foram infatigáveis viajantes e pregadores. Na Europa, por duas vezes, a Gnose maniqueísta ergueu a cabeça com poderosa audácia: uma das regiões balcânicas da Bulgária e da Bósnia, onde seus seguidores eram conhecidos como bogomilos, e outra no sul da França, região em que seus adeptos ficaram conhecidos como cátaros ou albigenses. Embora sempre imersa em sangue, sua influência penetrou o campo religioso e cultural de muitos países, ajudando a reforçar a corrente oculta das tradições gnósticas, que continuariam a sobreviver em segredo.

Enquanto os herdeiros espirituais de Mani expunham seus ensinamentos gnósticos abertamente, a despeito de esmagadoras desvantagens, várias tradições estritamente secretas continuaram a existir, em especial na Europa e no Oriente Médio. Foi com uma dessas tradições ocultas da Gnose que Carl Jung estabeleceu um vínculo muito significativo. A tradição a que nos referimos é a Alquimia. Em discurso durante a apresentação do célebre Jung Codex, da coleção de Nag Hammadi, ao Instituto C. G. Jung, Jung destacou dois representantes principais da tradição gnóstica: a Cabala judaica e o que ele chamou de "Alquimia Filosófica". Jung estava familiarizado com a Cabala e era leitor assíduo de uma de suas maiores obras, a tradução latina do Zohar realizada por Knorr von Rosenroth e conhecida como Kabbalah Denudata. A pricipal modalidade da Gnose que muito atraiu Jung, no entanto, não foi a Cabala, mas a Alquimia. Ele teceu extensos comentários em muitos volumes de seus melhores escritos sobre seu intricado simbolismo e suas notáveis metáforas transformadoras.

Muitos têm curiosidade de saber por que Jung teria escolhido a obscura e amplamente ridicularizada disciplina oculta da Alquimia como um dos assuntos favoritos de sua pesquisa. A resposta para o dilema, embora tenha sido dada de forma clara pelo próprio Jung, não conseguiu provocar a devida reação. Durante cerca de doze anos, desde a I Guerra Mundial até 1926, Jung devotou-se com grande zelo ao estudo da literatura sobre o gnosticismo disponível na época. A despeito do caráter fragmentário e distorcido desse material literário, ele se informou bem sobre o assunto e imbuiu-se completamente de seu espírito, como o comprova o conteúdo dos Sete Sermões aos Mortos. O que Jung não conseguiu encontrar, no início, foi algum tipo de ponte ou elo que pudesse relacionar os antigos gnósticos com os dos períodos mais recentes, incluindo os contemporâneos. Necessitava-se de algum vaso sagrado, como o Graal, onde o precioso elixir, uma vez utilizado por mestres como Valentino e Basílides, fosse preservado e no qual fosse transportado ao longo dos séculos para atrair os possíveis Parsifais gnósticos de nossa era. A intuição indicou a Jung que devia existir essa ponte, um elo de ligação na cadeia da sabedoria, mas ele não conseguia perceber racionalmente onde procura-lo. Então, como sempre, foi auxiliado por um sonho. Esse transportou-o ao século XVII, quando a Alquimia ainda prosperava na Europa. Um reconhecimento despertou nele. Aqui está, pensou, o elo que faltava na estirpe da gnose! Assim, começou sua grande pesquisa, a qual levou-o finalmente a proclamar que a alquimia, de fato, representava e elo histórico com o gnosticismo e que, portanto, existia uma continuidade definitiva entre o passado e o presente. Jung declarou que, fundamentada na filosofia natural da Idade Média, a Alquimia formava, de um lado, a ponte em relação ao passado, com o gnosticismo, e, do outro, ao futuro, com a moderna psicologia profunda. Assim surgiu um dos marcos significativos da pesquisa histórica esotérica. Descobriu-se que a Alquimia constituía justamente a ponte através da qual a Gnose do passado atravessou a tempo adentrando o mundo moderno como a psicologia Junguiana do inconsciente. As implicações relativas às conexões do pensamento de Jung com o gonosticismo, apesar de raras vezes mencionadas no passado, são entretanto evidentes para todos. Pode-se resumi-las da seguinte maneira: Jung poderia ser visto como um gnóstico moderno que absorveu a Gnose, tanto por meio de sua transformação interior como por seus estudos que confirmam a literatura gnóstica. Ele sabia que expunha em sua psicologia uma disciplina essencialmente gnóstica de transformação, sob a aparência contemporânea. Jung precisava descobrir uma ligação histórica entre seus próprios esforços e aqueles dos mestres gnósticos da antiguidade. Também precisava de uma exposição do método gnóstico de transformação que não fosse fragmentária mas contivesse um vocabulário adequado de símbolos psicologicamente válidos para serem utilizados no contexto do estudo da mente humana hoje. Na Alquimia, encontrou exatamente o que procurava. Assim, a resposta a seus sonhos veio anunciada por um sonho.
Na Alquimia, Jung contatou um dos mais importantes ramos do que se tem por vezes chamado de Tradição Pansófica ou a herança de sabedoria originária de fontes gnósticas, herméticas e neoplatônicas, através de numerosas manifestações posteriores até a época contemporânea. Como Jung reconheceu, essa tradição pansófica ou teosófica, assumiu muitas formas no decorrer dos tempos, mas foi também particularmente expressa no fim do século XIX e início do XX dentro do movimento da Teosofia, enunciado pela aristocrata e cosmopolita russa, madame H.P. Blavastsky. Em obras como The Undiscovered Self e Civilization in Transition, Jung identificou claramente a moderna Teosofia como uma importante manifestação contemporânea do gonosticismo, comparando-a a uma cadeia de montanhas submarina que se estende sob as ondas das principais correntes de Cultura, com apenas os picos tornando-se visíveis de vez em quando, através da atenção recebida por Madame Blavastsky, Annie Besant, Krishnamurti e outros.

Como Jung várias vezes enfatizou, o cristianismo ortodoxo (deve-se incluir também o judaísmo ortodoxo) comprovadamente deixou de atender às mais profundas e essenciais necessidades da alma da humanidade ocidental. A teologia cristã era por demais racionalista, reducionista e insensível às profundas potencialidades da alma humana. Enquanto a Igreja aliava-se, uma após outra, a instituições seculares irremediavelmente não espirituais, de Constantino a Mussolini, seu espírito se atrofiou sob a influência perniciosa da lógica aristotélica e de outras estruturas de pensamento que sufocaram o anseio de transformação psíquica pessoal dos crentes. Nesse clima de aridez espiritual, que persistiu por cerca de 1700 anos, o desejo de individualização voltou-se quase sempre para a espiritualidade alternativa dos ensinamentos Pansóficos ou Teosóficos; estes, embora não exclusivamente gnósticos no sentido clássico, continham muitos ingredientes do gnosticismo.

O século XVII, para o qual Jung viu-se transportado em seu sonho alquímico, representou um dos pontos mais importantes na história do aparecimento dessa tradição alternativa da espiritualidade. Foi nessa época que o movimento que Francês Yates chamou de Iluminismo Rosacruciano induziu a Alquimia helenística a colaborar com o gnosticismo judaico da Cabala e os métodos de magia teúrgica, originários tanto do gnosticismo como do neoplatonismo.O maior luminar dessa contraparte espiritual do Renascimento literário e artístico foi um homem por quem Jung teve uma extraordinária e irresistível afinidade interior, Phillipus Aureolus Theophrastus Paracelsus Bombastus, de Hohenheim, que, como ele, era suíço, médico e um homem determinado a juntar os opostos da ciência e da espiritualidade em uma unidade operante.

Apesar de ser um exuberante e gigantesco homem da Renascença, cheio de curiosidade científica e de aspirações espirituais - sem falar das tendências emocionais e físicas de proporções igualmente heróicas - Paracelso foi sob muitos aspectos um verdadeiro gnóstico. Lutador, arrogante, intensamente independente (seu mote era "Aquele que pode ser ele próprio, não deveria ser outro"), nutriu supremo desprezo pelo mundo do poder, do dogma e dos valores estabelecidos. Viajante solitário e nômade, percorreu quase todo o mundo conhecido de seu tempo, morrendo misteriosamente e sozinho em Salzburgo, Áustria, onde até sua tumba foi encontrada vazia, anos depois. De maneira muito semelhante a Jung, ele considerava a enfermidade um fenômeno espiritual relacionado com o significado universal da vida dentro de um cosmo mágico. Seu epigrama "A Magia é uma Grande Sabedoria Oculta - A Razão é uma Grande Loucura Pública" poderia ser facilmente adaptado para caracterizar a descoberta que Jung fez sobre a significativa não racionalidade do inconsciente, repleto da sua própria magia simbólica e revelando-se nas maravilhas da sincronicidade. Bem no início de sua carreira (1929), falando na mesma casa onde Paracelso nasceu, em Einsiedeln, Suíça, Jung traçou repetidas comparações entre a filosofia do grande médico ocultista e os ensinamentos do gnosticismo. Jung reconheceu no princípio cosmogênico proposto por Paracelso, e por ele chamado de Hylaster, uma forma de demiurgo gnóstico ou divindade subordinada à divindade suprema, algumas vezes considerado o criador do mal. Ele relacionou a visão alquímica das potencialidades arquetípicas encerradas na matéria com o conceito gnóstico das centelhas de luz espalhadas pelo universo obscurecido. Com singular clareza, ele percebeu como o oculto materialismo de Paracelso e dos alquimistas não passava de uma forma nova do visível e extremo idealismo dos gnósticos. Jung constatou que o mesmo processo de transformação que os gnósticos simbolizavam como a viagem da alma através das regiões eônicas aparecia no simbolismo de Paracelso como a transformação gradual da negra prima matéria no ouro brilhante da obra alquímica. Embora pólos opostos na aparência, gnósticos e alquimistas compartilhavam uma busca comum. Eles também se opunham a um inimigo comum, o Cristianismo ortodoxo, que sempre foi incapaz de apreciar tanto as potencialidades de transformação da matéria como a santidade, de fato a divindade, naturalmente inerente e autêntica da psique humana. Em vez da apreciação de uma ou ambas dessas proposições gnósticas e alquímicas, a Igreja escolheu definhar no limbo psicológico composto pela lógica aristotélica e pela obsessão semítica com relação a leis morais e mandamentos. Paracelso e os alquimistas eram caros a Jung, por representarem para ele uma poderosa manifestação da Tradição Pansófica, proveniente do antigo gnosticismo.

Paracelso, Pico da La Mirandola, Ficino e seus companheiros podem ter iniciado a fusão Pansófica de disciplinas mágico-filosóficas de transformação. No entanto, essa síntese teosófica ou pansófica alcançou a realização máxima no século XVII, com os autores desconhecidos da Fama Fraternitatis, da Confessio Fraternitatis e de Chymical Wedding of Christian Rosen Kreuz, bem como os escritores e atividades dos ocultistas reanscentistas ingleses: John Dee, Thomas Vaughan e Robert Fludd.

A supracitada historiadora Francês Yates, prova, em seus mais convincentes trabalhos eruditos (Giordano Bruno e a Tradição Hermética, assim como The Art of Memory, The Theatre of the World e O Iluminismo Rosa-Cruz) que a arte, a ciência, a literatura e o teatro da Renascença possuem um vínculo orgânico com as realizações pansóficas, de certa forma, delas fazendo parte. Foram a magia gnóstica e hermética, a Alquimia e o misticismo heterodoxo que serviram como fonte das águas vivas, da qual as maiores luzes da cultura ocidental, de Galileu a Shakespeare, extraíram sua inspiração e alimento espiritual (o grifo é nosso).

O século XVII leva-nos assim ao XVIII, quando o martinismo, a franco-maçonaria, os iluminados e os neotemplários carregaram a tocha da tradição espiritual alternativa até a Idade da Razão. O Clube Jacobino e outras associações anticlericais e antimonarquistas, na França e em toda parte, constituíam ramificações politizadas das ordens esotéricas, em parte inclinadas a vingar os séculos de perseguições feitas aos representantes de espiritualidade heterodoxa, pelos poderes do trono e do altar. Conta-se que, ao ser conduzido ao cadafalso, o rei Luís XVI exclamou: "Esta é a vingança de Jacques de Molay"! Mas, embora tronos desmoronassem e as luzes dos altares se extinguissem, os defensores da nova aurora do espírito vieram a constatar que o triunfo da sabedoria ainda estava distante. Novos tiranos substituíram os monarcas do passado e o dogma eclesiástico cedeu lugar ao materialismo, aniquilador da alma, de uma arrogante ciência jovem.

A era das trevas começou. Religiões semimortas continuaram a combater a ciência, enquanto as chaminés encardidas da Revolução Industrial reduziam os camponeses a proletários e elevavam os mercadores e agiotas à categoria de capitalistas. Restaram apenas o artista e o poeta para reavivar a chama vacilante da tradição espiritual alternativa. William Blake, Shelley, Goethe, Holderlin e, posteriormente, W.B. Yates e Gustav Meyrink, assim como os pintores Moreau e Mucha - a exemplo dos pré-rafaelitas e de outros artistas esotéricos - consciente e por vezes desesperadamente, defendiam a tradição Pansófica. Mesmo no final da vida, Jung confidenciou a Miguel Serrano: "Ninguém compreende, só um poeta poderia começar a entender", falando, assim, pela situação de toda a corrente de transmissão esotérica nos séculos XIX e XX.

A aurora sempre irrompe no momento mais escuro da noite. Do torpor em que se encontrava a cultura do século XIX, novas figuras surgiram e, como arautos, magicamente produziram uma nova-velha luz solar. Wagner, Nietzsche, Kierkegaard e inúmeras figuras de menor importância, cada qual à sua maneira, expressaram elementos da tradição Pansófica. Como um trovador cátaro emergindo da pira da Inquisição, Richard Wagner cantou as glórias do Graal exibiu os Deuses despertos do passado pagão. Nietzche, o neopagão passional, expressou um verdadeiro desprezo gnóstico pelas estruturas pusilânimes daquilo que ele via como um cristianismo degenerado e alienado, enquanto Kierkegaard,o melancólico dinamarquês, evocou a angústia existencial e a alienação, repetindo a proeza dos primeiros gnósticos. Todas essas tentativas, porém, não conseguiram chegar ao passo decisivo, dado há muito tempo por Valentino, Basílides, Marcião e outros gnósticos, que não conseguiram nem um salto de fé nem um mergulho no desespero, mas o ingresso nas regiões eônicas da psique humana. Ali, os deuses arquetípicos aguardam o ego neófito a ser iniciado nos mistérios. A psicologia profunda tornou-se, dessa forma, a conclusão lógica de um longo processo que trouxe a tradição pansófica das costas ensolaradas do Mediterrâneo à Europa e à América, assim como da antiguidade clássica, passando pela Idade Média e séculos subseqüentes, aos tempos paradoxais das duas Guerras Mundiais, do nazismo, do fascismo e do marxismo, além dos demais surpreendentes elementos que compõem o século XX.

Religião, ciência, filosofia, arte e literatura representavam abordagens apenas parciais do grande mistério da alma; cada qual, como a faceta de uma gema lapidada, era fragmentária em seu próprio isolamento. Somente duas forças, surgidas no final do século XIX e início do XX, direcionaram-se para o fogo central do diamante multifacetado da alma e tentaram, a seu modo, entender a dinâmica do brilho de sua luz.
Essas duas forças foram o ocultismo moderno, introduzido pela Teosofia de Madame Blavatsky, e a moderna psicologia profunda, iniciada por Freud e levada a novas dimensões criativas por Jung. A primeira seguiu o antigo padrão da tradição espiritual alternativa, buscando uma abordagem particular ou quase religiosa. A segunda aspirava a tornar-se uma ciência, embora se revelasse mais uma disciplina semicientífica, meio arte e meio ciência. Só o tempo dirá se essa moderna disciplina da alma conseguirá corresponder às suas elevadas expectativas e cumprir sua promessa pendente. Na pessoa e no trabalho de C.G. Jung, a moderna psicologia profunda chegou muito perto de revelar o grande segredo; ela esteve próxima de aperfeiçoar o trabalho gnóstico-alquímico.

Será a magnum opus conduzida a novo estágio, rumo à realização? Quem serão os alquimistas, os gnósticos do futuro? 

quarta-feira, 27 de julho de 2011

JUNG E SINCRONICIDADE: O CONCEITO E SUAS ARMADILHAS



O CONCEITO DE SINCRONICIDADE


A sincronicidade é um conceito empírico que surge para tentar dar conta daquilo que foge à explicação causal. Jung diz que “a ligação entre os acontecimentos, em determinadas circunstâncias, pode ser de natureza diferente da ligação causal e exige um outro princípio de explicação” (CW VIII, par. 818). A física moderna tornou relativa a validade das leis naturais e assim percebemos que a causalidade é um princípio válido apenas estatisticamente e que não dá conta dos fenômenos raros e aleatórios.

Ao longo de sua obra, Jung deu várias definições ao conceito de sincronicidade. Aqui estão algumas delas:
> “... coincidência, no tempo, de dois ou vários eventos, sem relação causal mas com o mesmo conteúdo significativo.” (CW VIII, par.849)
> “... a simultaneidade de um estado psíquico com um ou vários acontecimentos que aparecem como paralelos significativos de um estado subjetivo momentâneo e, em certas circunstâncias, também vice-versa.” (CW VIII, par. 850)
> “Um conteúdo inesperado, que está ligado direta ou indiretamente a um acontecimento objetivo exterior, coincide com um estado psíquico ordinário.” (CW VIII, par. 855)
> “...um só e o mesmo significado (transcendente) pode manifestar-se simultaneamente na psique humana e na ordem de um acontecimento externo e independente.” (CW VIII, par.905)
> “um caso especial de organização acausal geral.” (CW VIII, par.955)
> “coincidência significativa de dois ou mais acontecimentos, em que se trata de algo mais do que uma probabilidade de acasos.” (CW VIII, par. 959)
> “uma peculiar interdependência de eventos objetivos entre si, assim como os estados subjetivos (psíquicos) do observador ou observadores.” (I Ching, p.17)
> “o princípio da causalidade nos afirma que a conexão entre a causa e o efeito é uma conexão necessária. O princípio da sincronicidade nos afirma que os termos de uma coincidência significativa são ligados pela simultaneidade e pelo significado”. (CW VIII, par. 906)
Jung define também três categorias de sincronicidade:
1. coincidência de um estado psíquico com um evento externo objetivo simultâneo.
2. coincidência de um estado psíquico com um evento externo simultâneo mas distante no espaço.
3. coincidência de um estado psíquico com um evento externo distante no tempo.
Através da definição destas categorias, podemos perceber que nos fenômenos sincronísticos, o tempo e o espaço são relativos, isto é, o fenômeno acontece independente destes. Basicamente o que define a sincronicidade são a coincidência e o significado.
Jung observou também que tais coincidências ocorrem principalmente quando um arquétipo está constelado. O arquétipos são fatores psicóides que possuem uma transgressividade pois “não se acham de maneira certa e exclusiva na esfera psíquica, mas podem ocorrer também em circunstâncias não psíquicas (equivalência de um processo físico externo com um processo psíquico).” (CW VIII, par. 954) 
Jung propõe que o princípio de sincronicidade seja acrescentado à tríade espaço, tempo e causalidade, dizendo que “o espaço, o tempo e a causalidade, a tríade da Física clássica, seriam complementados pelo fator sincronicidade, convertendo-se em uma tétrada, um quatérnio que nos torna possível um julgamento da totalidade”(CW VIII, par. 951). Um gráfico então ficaria assim:
Espaço

Causalidade --------------------------- Sincronicidade
Tempo
Porém através de sugestões de Pauli, Jung e ele modificam o gráfico substituindo o esquema clássico da física pelo moderno, ficando assim:
Energia Indestrutível

Conexão constante de Conexão inconstante 
fenômenos através do ------------------------------------------------------- através de contingência
efeito (causalidade) com identidade de significado (sincronicidade)

Continuum Espaço-Tempo
Através desse modelo, a microfísica e a psicologia profunda se aproximam, chegando na concepção dos arquétipos como constantes psicofísicos da natureza e fatores estruturantes criativos.
Jung referiu-se à sua definição de sincronicidade como sincronicidade em sentido estrito e a diferenciou de uma visão mais abrangente de sincronicidade que chamou de ordenação acausal. Os fenômenos sincronísticos em sentido estrito são “atos de criação” no tempo, e incluem a telepatia, fenômenos ESP e PK. Já a organização acausal geral inclui todos estes “atos de criação” e todos os fatores a priori como as propriedades dos números inteiros e as descontinuidades da física moderna.
É com base neste princípio de organização acausal geral que Jung tece suas considerações sobre o número. Ele diz que o cálculo é o método mais apropriado para se tratar do acaso, pois o número é misterioso, nunca foi despojado de sua aura numinosa. “Se, como diz qualquer manual de Matemática, um grupo de objetos for privado de todas as suas características, no final ainda restará o seu número, o que parece indicar que o número possui um caráter irredutível.” Pelo fato de o número ser o elemento ordenador mais primitivo do espírito humano, ele “é o instrumento indicado para criar a ordem ou para apreender uma certa regularidade já presente, mas ainda desconhecida, isto é, um certo ordenamento entre as coisas.” Por isso Jung chegou a chamar o número de “o arquétipo da ordem que se tornou consciente” e cita a estrutura matemática das mandalas, produtos espontâneos do inconsciente para chegar à conclusão de que “o inconsciente emprega o número como fator ordenador”. (CW VIII, par.870)


Os precursores históricos

Jung dedica uma parte do “Sincronicidade: um princípio de conexões acausais” para falar dos precursores históricos da sincronicidade. Ele afirma que a concepção chinesa da realidade, e particularmente o conceito de Tao, é, em grande parte, sincronística. Ele diz: “...segundo a concepção chinesa, há uma “racionalidade” latente em todas as coisas. Esta é a idéia fundamental que se acha na base da coincidência significativa: esta é possível porque os dois lados possuem o mesmo sentido.” (CW VIII, par. 912)
Aqui no ocidente esse princípio existiu por muito tempo. Jung diz que “a concepção primitiva, assim como a concepção clássica e medieval da natureza, postulam a existência de semelhante princípio ao lado da causalidade.” (CW VIII, par. 929) A idéia de uma unidade de toda a natureza (unus mundus) permeia essas concepções, e portanto nelas não existe uma diferença entre o micro e o macrossomo - há uma correspondência entre todas as coisas; também permeando essas concepções está a idéia de que existe na natureza uma fonte de todo conhecimento que se situa fora da alma humana, um conhecimento absoluto. Porém antigamente não se pensava em sincronicidade porque não se pensava em acaso. Tudo era atribuído a uma causalidade mágica que hoje nos parece ingênua. Com o advento do pensamento científico, essas concepções desaparecem. Jung aponta o que fez com que desaparecessem dizendo que “com a ascensão das ciências físicas, no século XIX, a teoria da correspondentia desaparece por completo da superfície e o mundo mágico dos tempos antigos parece sepultado para sempre.” (CW VIII, par. 929) Mas essa idéia de uma sincronicidade e de um significado subsistente à natureza, que é a base do pensamento chinês clássico e faz parte da concepção ingênua da idade média, embora pareça a alguns uma regressão, teve que ser retomada pela psicologia moderna uma vez que só o princípio da causalidade não explica toda a realidade dos acontecimentos.
Jung aponta como precursores da idéia de sincronicidade a “simpatia de todas as coisas” de Hipócrates; a idéia de que o sensível e o supra-sensível estão unidos por um vínculo de comunhão de Teofrasto; a idéia de uma necessidade e amizade que une o universo de Filo de Alexandria; a idéia de mônada, que também tem um significado de unidade de todas as coisas, do alquimista Zózimo; a alma universal de Plotino; a idéia do mundo como um único ser de Pico Della Mirandola; o “conhecimento” ou “idéia” inata dos organismos vivos de Agrippa von Nettesheim e a idéia da anima telluris de Johann Kepler. Jung cita também Schopenhauer e a idéia da vontade ou prima causa e da simultaneidade significativa (daí o termo “sincronicidade” usado por Jung). Mas o autor que Jung mais cita é Gottfried Wilhelm Leibniz. Leibniz explica a realidade através de quatro princípios: espaço, tempo, causalidade e correspondência (harmonia praestabilita). Este último é um princípio acausal de sincronismo dos acontecimentos psíquicos e físicos. Jung discorda de Leibniz em apenas um ponto: para Leibniz este é um fator constante, enquanto que para Jung os eventos sincronísticos ocorrem esporadica e irregularmente.

AS ARMADILHAS DO CONCEITO DE SINCRONICIDADE

Para o pensamento ocidental desde Descartes, a “explicação científica” remonta a uma validação causal: D é causado por C, C por B, B por A. Não é de espantar então que a discussão da hipótese de Jung de um princípio de sincronicidade tenha produzido inúmeros mal-entendidos.
Marie-Louise von Franz em seu artigo “A Contribution to the Discussion of C.G. Jung’s Synchronicity Hipothesis” aponta uma série de erros que já se cometeu ou que se pode cometer na interpretação desse conceito e que aqui serão resumidos e sistematizados.
A autora começa falando das dificuldades que muitos parapsicólogos têm em compreender esse novo modo de pensar e diz que:


Na minha opinião isso vem do fato de muitos parapsicólogos estarem sempre fazendo um esforço intenso por conseguir a aceitação de seu campo fundamentando-o em um método científico “rigoroso”, isto é, em métodos quantitativos e pensamento causal enquanto que justamente o que a hipótese de Jung propõe está em uma direção oposta para longe daquilo que até agora foi considerado o único modo “científico” de pensar. (p. 229)


Ela então continua falando de algumas pessoas que tendem a achar que a sincronicidade explica os fenômenos “psi” causalmente e afirma:


a hipótese da sincronicidade não “explica” causalmente os fenômenos psi, mas comparada com os resultados obtidos até hoje pelas pesquisas, ela os coloca em um contexto novo, mais amplo, isto é, no domínio dos arquétipos, um campo no qual estudos biológicos e psicológicos detalhados já foram feitos. Entretanto estes estudos infelizmente parecem ser desconhecidos da maioria dos parapsicólogos. (p. 230)


Outra tendência errônea é encontrada entre aqueles que buscam uma explicação neurológica para os fenômenos sincronísticos, quando na verdade o que caracteriza um evento sincronístico é justamente a ausência de uma relação causal. Há também aqueles que supõem que os eventos sincronísticos sejam causados pelo inconsciente do observador. Com relação a isto, ela diz:


De acordo com a visão junguiana, o inconsciente coletivo não é de forma alguma uma expressão de desejos e objetivos pessoais, mas uma entidade neutra, psíquica em sua natureza que existe de uma forma absolutamente transpessoal. Atribuir a ocorrência de eventos sincronísticos ao inconsciente do observador não seria nada além de uma regressão ao pensamento mágico primitivo, de acordo com o qual supunha-se antigamente que, por exemplo, um eclipse poderia ser “causado” pela malevolência de um feiticeiro. Jung chegou a advertir explicitamente contra considerar-se os arquétipos (ou o inconsciente coletivo) ou poderes psi como sendo a agência causal dos eventos sincronísticos. (p.231)


O fato do evento sincronístico não ter uma causa pode levar ao erro de se imaginar que tudo aquilo que não tem uma causa conhecida é um evento sincronístico. Quanto a isso Jung é bem claro, afirmando que: “Devemos obviamente nos prevenir de pensar todo evento cuja causa é desconhecida como “sem causa”. Isso é admissível apenas quando uma causa não é nem sequer imaginável. Este é especialmente o caso quando espaço e tempo perdem seu significado ou aparecem relativizados, caso em que uma conexão causal também torna-se impensável.” (CW VIII, par. 957)
A questão do significado, que é crucial na classificação de um evento sincronístico, também pode causar confusões. Afirmar que a existência de um observador que dê significado ao evento é fundamental não quer dizer que os eventos sincronísticos e seu significado sejam produzidos pelo observador. Essa questão do significado também traz outros problemas. Pelo fato do significado ser subjetivo, como podemos saber se não estamos fantasiando um significado quando na realidade ele não existe? Tudo o que diz respeito a fenômenos arquetípicos tem uma “lógica” de asserção que Jung chama de “necessary statements” (“afirmações necessárias”). Estas não são criadas pelo ego, são “impostas” pelo arquétipo e são esperadas sempre que um arquétipo está constelado, como é o caso dos eventos sincronísticos, nos dando um parâmetro para saber se o evento é mesmo significativo ou não. 
A ordenação acausal e o “conhecimento absoluto” que estão por trás dos eventos sincronísticos não devem ser confundidos com um “Deus” teológico. É possível postular um deus faber por trás destes eventos, mas isso vai além de qualquer possibilidade de prova e Jung nunca o fez.
Já que a constelação de um arquétipo é fundamental para a ocorrência de um evento sincronístico, é fácil incorrer no erro de considerar que foi o arquétipo que o ‘causou’. Jung diz que:


Eu me inclino, porém a admitir que a sincronicidade em sentido mais estrito é apenas um caso especial de organização geral, aquele da equivalência dos processos psíquicos e físicos onde o observador está em condição privilegiada de poder reconhecer o tertium comparationis. Mas logo que percebe o pano de fundo arquetípico, ele é tentado a atribuir a assimilação dos processos psíquicos e físicos independentes a um efeito (causal) do arquétipo, e assim, a ignorar o fato de que eles são meramente contingentes. Evitamos este perigo se considerarmos a sincronicidade como um caso especial de organização acausal geral. (...) ... devemos considerá-los [os acontecimentos acausais] como atos de criação no sentido de uma creatio continua (criação contínua) de um modelo que se repete esporadicamente desde toda a eternidade e não pode ser deduzido a partir de antecedentes conhecidos. (CW VIII, par. 516)


A organização arquetípica “aparece” ou torna-se “visível” em um evento sincronístico, mas não é a causa deste. O evento sincronístico é uma creatio, um surgimento espontâneo de algo inteiramente novo e que portanto não é predeterminado causalmente.
Embora Jung tenha sugerido que a ordenação acausal geral pode ser verificada experimentalmente através dos métodos de adivinhação, os eventos sincronísticos não são passíveis de serem investigados estatisticamente, uma vez que Jung é claro ao afirmar que os eventos sincronísticos são imprevisíveis, espontâneos e não podem ser repetidos.

Letícia Capriotti




Bibliografia
CARD, Charles. Symposia on the Foundations of Modern Physics. Editado por K.V. Laurikainen e C. Montown. Singapore: World Scientific, 1993.
JUNG, Carl Gustav. Dream Analysis. Editado por William Mc Guire. Bollingen Series: Princeton University Press, 1983.
______ Fundamentos de Psicologia Analítica. 6. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991. v.XVIII/1
______ Letters. Editado por Gerhard Adler. 1. ed. New Jersey: Princeton University Press, 1973. v.1.
______ Letters. Editado por Gerhard Adler. 2a. ed. New Jersey: Princeton University Press, 1991. v. 2.
______ Nietzsche’s Zarathustra. Editado por James L. Jarrett. Bollingen Series: Princeton University Press, 1988.
______ Psicologia e Alquimia. 4a. ed. Petrópolis, RJ: Vozes: 1991. V. XII
______ Sincronicidade. 5a. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991. v. VIII/3.
______ Um mito moderno sobre coisas vistas no céu. 2a. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991. v. X/4.
______ Visions Seminar. Editado por Claire Douglas.
Bollingen Series: Princeton University Press, 1997.
SAMUELS, Andrew. Why it is difficult to be a Junguian Analyst in today’s world. Anais do "13th Congress of the International Association for Analytical Psychology" realizado em agosto de 1995 em Zurich.
WEHR, Gerhard. An Illustrated Biography of C.G. Jung. 1a.ed. USA, Boston: Shambhala, 1989.
WILHELM, Richard. I Ching. 16a ed. São Paulo, SP: Pensamento. 1997.
______ O Segredo da Flor de Ouro. 8a. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996.


quarta-feira, 20 de julho de 2011

Estudando temas atuais pelo Arqueômetro


As tradições orais e a escrita...

É preciso somente pesquisar um pouco da Antigüidade em todas as partes do mundo para encontrar pistas concretas da importância da palavra humana, considerada como reflexo do Verbo Divino.
Sem dúvida, da Índia ã China, da Eslávia e da Escandinávia para a velha América, da Síria e da Caldéia ao Egito, a erudição não pode alcançar mais do que os desperdícios supersticiosos e mágicos da ancestral ciência dessa Palavra primordial e de seus alfabetos.
Mas essas mesmas relíquias são as testemunhas desta ciência perdida.
A Igreja síria atribui aos seus alfabetos ancestrais de XXII letras um valor litúrgico, dota cada letra de uma função divina, uma significação hierática.
Essa Universidade religiosa está por isso mais próxima da verdadeira ciência ancestral do que as interpretações mágicas da Antigüidade de decadência, acessíveis aos estudiosos.

Os Alfabetos

Entre os antigos alfabetos anteriores às civilizações anarquistas greco-latinas, classificamos aqueles de 22 letras numerais como equivalente típicos da palavra.
Nós os chamaremos de solares ou solar-lunares, entendendo-se que esses nomes astrais não são mais os signos de correspondência entre o Mundo da Glória e o mundo astral.
E devido ao esquecimento dessa diferença, tomando o efeito pela causa, as conseqüências pelos princípios, que algumas das antigas Universidades caíram no culto das Potências astrais, Anjos e Demônios; no sabeísmo, e inclusive no fetichismo, mais de um século atrás, Depois se precipitou no mais baixo e grosseiro dos materialismos astronômicos.
Classificamos como lunares os alfabetos de 28 letras, como horários zodiacais os de 24 letras, como mensais zodiacais aqueles de 30 letras, como decânicos os de 36 letras, etc, sempre com as ressalvas precedentes e referindo todos esses números aos alfabetos de XXII letras como padrão.
O alfabeto dos primeiros patriarcas é aquele que usamos no Arqueômetro pelas seguintes razões:
É morfológico, quer dizer, mais que geométrico; e, para suas formas rígidas ou flexíveis moldáveis de acordo com a nossa vontade, pode projetar o objeto que define, ou define com ele a sua forma, de acordo com regras que não precisam ser expostas aqui.
Os signos zodiacais e planetários derivam dele, assim como também a construção da esfera ou do planisfério que contém esses signos.
Em conseqüência, a função e o lugar cosmológico de cada letra são determinados por sua semelhança de forma com os signos astrais, cuja posição é determinada astronomicamente.
Como resultado disso, a colocação das letras dessa forma independe da mão humana, assim como sua posição, seus agrupamentos binários, ternários, etc, e todas as suas relações entre elas, em resumo, são autológicas e não antropológicas. Nós acrescentamos ali, sobre o Arqueômetro, os alfabetos siríaco, assírio (chamado de hebraico), samaritano e caldeu. todo eles solares, solar-lunares, de XXII letras equivalentes tanto literal como numéricas.
De modo que, quando a semelhança da letra arqueométrica e do signo zodiacal correspondente deixa a simples vista alguma indecisão, esta será dissipada pela letra análoga dos outros alfabetos e, principalmente, do alfabeto samaritano.

Alfabeto Morfológico dos
 Primeiros Patriarcas

Os brâmanes fazem um grande mistério com este alfabeto, e este certamente é o protótipo ariano de todos os alfabetos deste gênero, chamados semíticos, e que poderiam ser chamados com mais propriedade de esquemáticos.
O excepcional é que ele é morfológico, é o protótipo das letras védicas e sânscritas, e que certamente é da família da Universidade Brahmânica, tão antiga quanto as Universidades primordiais dos primeiros patriarcas.
O alfabeto se deriva de um ponto, de uma linha, da circunferência, do triângulo eqüilátero e do quadrado; e, mesmo que os brâmanes o chamem de vattan, ele se firma por si mesmo como: "Adão, Eva e Adama", por suas cinco formas, mães da morfologia.

Os signos astrais, zodiacais e planetários derivam, sem dúvida, desse alfabeto, assim como também a maior parte das letras e das cifras mais ou menos alteradas que recebemos de uma fonte pura comum, por diversos rios mais ou menos barrentos.
O resultado disto, repetimos propositalmente que cada letra tem o seu lugar determinado pelo signo zodiacal ou planetário que se deriva dela, a palavra arqueométrica é autológica bem como todos os seus equivalentes.
Esse alfabeto esquemático foi examinado por Moisés no versículo 19, capítulo II de seu Sepher Berashith.
Os termos magia e arcano, usados pelos brâmanes em sua descrição acima, acordam forçosamente no espírito científico cristão dos sinônimos:
Superstição e Ignorância
Superstição: decadência ou superestação de elementos arqueológicos e de fórmulas mais ou menos alteradas, mas que um estudo mais profundo pode às vezes, como é o caso agora, relacionar com um ensinamento prévio, científico e consciente, e não metafísico nem místico.
Ignorância: mais ou menos grande dos fatos, das leis e dos princípios que constituíram este ensinamento primordial. Nunca a magia nem os arcanos têm solicitado mais das inteligências submetidas à vertigem de todo o desconhecido e de todos os abismos que nas épocas de incredulidade, de anarquia e de decadência da Índia, do Egito, da Caldéia, da Pérsia, do Império grego ou do Império romano; e isso, pela mesma necessidade de fé, de princípio e de relevância.
Mas o que salvará a cristandade européia é a retidão, a lealdade que a ciência impõe à consciência e, reciprocamente, trata-se da religião, da arte ou da vida.
A descrição brahmânica anterior revela um tempo de decadência: do Império universal dos patriarcas, que começou na época do Kali-Youg, cerca de quatro mil anos antes da era cristã.
É por isso que tomamos na contramão uma indicação tão precisa, mas também tão inexata, encerrada nessa descrição. Ela afeta as concordâncias zodiacais e planetárias, as vogais acrescentadas, ou melhor, seu conjunto de vogais e de ditongos acrescentados.
Porém essa masorahm, quase pré-histórica, não tinha nada a ver com a origem, mas com o solfejo dos hinos.
Entretanto, o alfabeto das 22 letras, que substituímos por esses signos de solfejo, encerra nele todas as vogais que comportam sua série orgânica e sua numeração cosmológica solar e lunar-solar.

O alfabeto solar das 22 letras.

O número XXII, em letras adâmicas, escreve-se Ka-Ba. Se acrescentamos a esse nome a letra Lá, que significa Potência, obtemos, assim, a Potência das XXII letras.
Essa é a famosa Cabala antiga, da qual os judeus mantiveram somente a superstição babilônica, a decadente, a estéril, a mágica, a Qábalah.
A ciência das XXII Letras, pelo contrário, é uma verdadeira ciência, com todo o rigor e com toda a lealdade deste termo. É a ciência da palavra cosmológica solar, criadora e fecunda até o infinito, como será visto mais adiante.
São Paulo manifesta uma aparente insinuação na "Primeira Epístola aos Coríntios", capítulo I, versículos 7, 8, 9.
São João fala ainda com mais firmeza, no início de seu evangelho, referindo-se ao primeiro termo da Gênese de Moisés: O Princípio.a
Devemos acrescentar ainda que, desde o Yodhisthir, o ponto de partida e de retorno da série cosmológica das letras tem sido transposto, pela Universidade vedo-brahmânica, da letra Y, primeira letra do triângulo de Jesus, para a letra M, primeira letra do triângulo de Maria, da substância chamada Terra de Imanência para a substância chamada das Águas Vivas ou da Emanação.

ALFABETO LUNAR: SIGNOS VÉDICOS DERIVADOS DO PONTO DO AUM

Depois de ter-nos aprofundado durante muitos anos nos ensinamentos orais dos mais sábios pontífices, também rejeitamos a transposição da letra Y para a letra M, baseando-nos em nosso estudo pessoal de seus mistérios e em indicações muito precisas contidas nos Evangelhos e nas Epístolas.

Construção do Arqueômetro em Forma de Duplo Transportador
Semicircular, com Todos os Equivalentes da Palavra,
Correspondentes às Letras Sânscritas e Adâmicas.

Vemos, a seguir, como utilizamos as XXII letras na construção do Arqueômetro. Sobre essas XXII, III dão os centros de cada semicírculo, o diâmetro e a circunferência apresentadas no duplo semicírculo.
No Evangelho encontramos esta chave: "Eu sou o Alef e o Thau", que foi traduzido em grego: "O Alfa e o Ômega".
Essa tradução nos fez passar do mistério do real para o misticismo, sendo a língua grega um idioma soudras, prácrito ou selvagem, e não uma língua arqueométrica.
Nas escrituras assírias, chamadas hebraicas, a letra A se compõe de uma barra transversal e de dois pontos . / .
Nas escrituras morfológicas adâmicas, a barra indica o raio ou o diâmetro, e, por si só, é a letra A; nas mesmas escrituras, os dois pontos indicam um centro desdobrado e a letra S; as letras Th indicam uma circunferência desdobrada em dois semicírculos invertidos, dessa forma:
É por essa razão que, considerando o Alef como duplo diâmetro, seus dois pontos como centros e o Thau como duplo semicírculo, alteramos estas três letras morfológicas na construção da figura que recebe o nome de Zodíaco da Palavra, em forma de duplo transportador.

É a serpente de bronze de Moisés, da qual há alusões no Evangelho. É o caduceu órfico.
Essas três letras adâmicas, A, S, Th, as duas letras assírias, A, Th, significam então a Tríplice Potência divina que constitui o Universo Tipo; o círculo significa o infinito; o centro significa o absoluto; o raio ou diâmetro significam sua manifestação, sua colocação em relação.
Assim, sobre as XXII letras, III se referem à potência constitutiva. As XIX restantes se referem às potências distributivas da harmonia e da organização universal.
Das últimas XIX letras, XII são involutivas e VII são evolutivas, no Mundo da Glória ou do Verbo, e, conseqüentemente, nos Céus astrais. Dito de outra forma, XII letras são zodiacais e VII são planetárias, ou melhor ainda, VI planetárias evolucionam em torno de uma letra solar, que os judeus e gregos ignoravam.
Fica, então, por saber qual o ponto de partida e de retorno da evolução e da involução.
Para esclarecer esse ponto, é suficiente somar as cifras de XIX que dará 1+9=10. Dessa forma, 10 é o equivalente à letra Y, a primeira letra do nome IEVE e de Jesus Verbo: IShO, YPhO.
A seguir, o desenho de nossa construção do Arqueômetro em forma de duplo transportador articulado.
É de notar-se, na parte inferior da figura, a antiga relação entre 7 e 22 = 3,1428571, que se aproxima ao número É, transmitido por Euclides, mas empírico e incerto.
A partir da letra Y, I ou J, de 30° em 30°, a coroa zodiacal da palavra compõe-se das letras: L, M, W, Ph, K, R, E, O, Z, E, T.
As homologias dessas letras, a 180° de distância, quer dizer, nas duas extremidades do diâmetro, são: YR, LHa ou LHe, MÔ, WZ, PhE, K.T, e inversamente RY, EL, OM, ZWou, EPh, TaK.

O resultado disso são duas héxadas de nomes autológicos, nomes radicais ou raízes monossilábicas. IR, Ira, significa em sânscrito palavra, a Divindade da Palavra.
Lá ou Le significam o Rei dos Ciclos, o Mestre de Swarga ou Paraíso; Indra é um do doze Adityas, e também o Mestre interior, a alma, a consciência.
 
MO, raiz de MÔX e de MÔXA, significa redenção, salvação, liberação das amarras do corpo e das misérias da vida.
WZ, ou também OUZ, encontra-se novamente sob a forma US e significa, na linguagem Veda, o ardor e o brilho luminoso.
PhE, Pa, significa a potência que governa.
KT. A letra K significa a alma; a letra Ta significa a ambrosia, a essência imoral.
Inversão

RY ou RâJ, ser rei, reinar.
El, Al. conter (hebraico). Salvação, glorificação, exaltação.
ÔM, o AÛM.
ZWou, SWa, Bens.
EPh (hebraico). Que cobre e protege, garantia, segurança.
TaK (hebreu), suportar, sustentar; (caldeu), sede, trono.

Para ir acostumando pouco a pouco o arquiteto à leitura desses signos e de seus equivalentes, tomaremos do Zodíaco do Verbo as letras indicadas pelos ângulos dos dois primeiros trígonos, o de Jesus e o de Maria.
Limitamo-nos às letras homólogas, aquelas cujas cores reconstituem o raio branco e que, em conseqüência, formam pares, combinações binárias, das quais cada elemento está situado a 180° de distância um do outro.
A utilidade da coroa dos graus se verificará assim, ao mesmo tempo que o autologia da coroa zodiacal das letras.
Motivamos acima nossa seleção da letra I, Y ou J como pontos de partida e de retorno das séries harmônicas e orgânicas da palavra e de seus equivalentes.
Os equivalentes de I são o raio azul emissivo e remissivo, o número 10, a sonometria e as formas harmônicas que resultam dela, o signo da Virgem, a sabedoria ou a Rainha dos Céus dos anciãos patriarcas, Mercúrio trismegisto aos pés da Virgem, o Rafael trismegisto dos anciãos patriarcas, o Bouddah vedo-brahmânico, etc.
A homóloga dessa letra é R, da qual o leitor encontrará por si mesmo as correspondências sobre o Arqueômetro. Essa combinação binária dará um nome arqueométrico radical, uma raiz monossilábica autológica.
Assim, somente temos que abrir um dicionário sânscrito; adotar uma língua, por exemplo a devanagárica, línguas da Cidade ou da Civilização divina, porque ela tem sido articulada sobre uma língua arqueométrica do templo, a adâmica, da qual escolhemos o alfabeto.
O Verbo vai ainda nos dizer, ele mesmo, se tivemos razão contra os nossos amigos brâmanes ao tomar como ponto de partida da Palavra Criadora a letra I, e não a letra M.
IR, IRâ, significa, em sânscrito, "Palavra, a Divindade da Palavra".
A resposta é divinamente concludente. Sem deixar a base do trígono de Jesus, nós nos reportaremos para a letra O, da qual seus equivalentes são:
O vermelho, as línguas de fogo do Espírito Sagrado; a pomba vermelha; o número 6, gerador sonométrico do acorde perfeito menor que
chamamos de orgânico interno, gerador por igual dos modos de beleza resultantes dessa corda, o signo de Touro, o sinal de Vênus celestial e da Ionah. A combinação binária é dada, a 180° de distância, sobre a base invertida de triângulo de Maria, pela letra M, primeira desse nome e desse triângulo.
Deixaremos o leitor encontrar por si próprio os equivalentes da letra M, e assim abriremos o dicionário sânscrito.
ÔM, ou AÛM dos brâmanes, o AVAM dos Coranistas esotéricos, o AM, o Ave Maria dos primeiros patriarcas e dos cristãos de hoje em dia.
Meditando, com o Arqueômetro na mão, a recombinação do raio branco pelas cores complementares, ou melhor, as homólogas, O e M, e considerando as homólogas dos outros equivalente dessas duas letras, os orientais saberão cientificamente as origens de seu AÛM. Saberão por que esse nome, pronunciado sagrada exatamente na hora certa, arremessa sua vida na outra vida, aquela do triângulo das Águas viventes, em direção à fonte central, enearmônica, da Luz.
Tomaremos agora a letra Ph ou P, aquela da Porta de Deus e dos Anjos. Seus equivalentes são: o raio fotogênico amarelo, o Natal da Glória, dos Céus astrais e do Verbo Encarnado, o número 80, sua sonometria musical, a morfologia de beleza gerada por esta sonometria, Capricórnio e seu anjo, Saturno e seu anjo, etc.
Sua homologia é E ou H, o raio violeta, o número 8, a nota Lá, a sonometria musical e morfológica de 8, a porta inferior do Reino, a porta supraterrestre do homem, a descida e a volta das almas na geração terrestre e na regeneração celeste, o trono do Anjo Gabriel, o anjo da Anunciação e da Ave Maria, o Anjo do signo de Câncer e da Lua.
Sobre a vertical dos solstícios do Mundo da Glória e do mundo astral, o raio branco se reconstitui no centro arqueométrico pela combinação Norte-Sul do amarelo e do violeta. Esta cópula do casal de letras PhE e Pa-H.
Abrindo o dicionário sânscrito, Pa-H significa "a Potência que governa a vida orgânica". Vimos que esta Potência toma posse desse governo universal, quando passa da letra triangular P, ?, para a letra triangular que forma uma bissetriz que aparece no eixo do mundo: ?, Sh.
Essas respostas diretas são incontestáveis, não deixam nada a desejar. Porém, como a razão divina não se preocupa com a razão humana, que quer possuí-la inteiramente na plenitude de sua admiração e de sua adoração, vamos interrogar, então, cada um desses termos binários pelas suas inversões.
YR dará RY; RY, em sânscrito dará RâJ, que significa ser Rei, reinar. Assim, juntando os dois sentidos, o direto e o invertido, obtemos então; o Verbo, o Deus da Palavra, o Rei do Reino eterno.
ÔM dará MÔ em sânscrito, MÔx, MÔxa, que significa "a Redenção, a libertação das amarras do corpo e das misérias da existência física."
Unindo o dois sentidos, o AUM, significa: "a dilatação de alma na vida de adoração o impregna das águas vivas da vida celestial e lhe dá o sabor antecipado da salvação, da redenção, da libertação das amarras do corpo e das misérias da existência física".
PaH ou PhE dará, em hebraico, EPh, a providência que garante, protege e abriga em segurança.
Unindo o dois sentidos, temos: a potência que governa a vida, a protege, a abriga e lhe dá segurança quando essa vida se reintegra nela.
Depois de ter orientado o leitor como deve interrogar o Arqueômetro, sobre a estrela dos solstícios do Verbo nessas letras homólogas, nós nos limitaremos, no que se relaciona à estrela equinocial dos ângulos, a fazer a mesma experiência sobre a linha do horizonte.
Situamo-nos, então, entre os dois ângulos I e M dos trígonos de Jesus e de Maria. Encontraremos aí a letra L, sobre o trígono do Éter divino. Seus equivalentes são o verde-azulado, o número 30, sua sonometria musical e morfológica, o Arcanjo São Miguel, a porta horizontal e ocidental dos Anjos, dos ALaHIM encarregados de dar toda a vida mental, amante ou corporal, seus alimentos e seus elementos, o Equinócio do Outono, o signo da Balança e do juízo, Vênus noturno, etc.
A homologia, no ponto de partida do trígono de Fogo, é a letra E ou H, e tem por equivalente o Cordeiro de Deus, Agnus Dei, o Agni dos vedo-brâmanes, o cordeiro pascal dos judeus, o Amor divino até o sacrifício absoluto do próprio Eu, a Páscoa, a Crucificação do Verbo Encarnado e sua Ressurreição no terceiro dia, a cor vermelho-laranja do sangue, o equinócio da primavera, o número 5, sua sonometria musical e morfológica, o signo do Carneiro e do Cordeiro, Marte noturno ou o Centurião, o Sol sobre o seu trono, etc.
A recombinação do raio branco, entre o verde-azul e o laranja-vermelho, das letras LaH ou LH ou também Le.
O dicionário sânscrito responde: o Rei dos Céus, o Mestre de Swarga, o Senhor do Paraíso, um dos doze Adityas, que o chama Indra, que nós aceitamos como sobrenome de Jesus, e não de outra forma.
Acrescentemos, passando pela teobiologia até a ontobiologia do homem: o Mestre interior da alma, a consciência.
Invertendo, o hebraico dará: EL, AL, significando: a Salvação, a Exaltação, a Glorificação. Juntando os dois sentidos:
"O Mestre interior da alma, o Senhor da consciência humana, pregado na cruz para a sua salvação, exaltado e glorificado na sua primeira glória como Verbo, é o Senhor e Rei do Paraíso."
Coroa Planetária da Palavra

A mesma prova experimental, realizada para a coroa planetária da palavra, daria outras respostas igualmente maravilhosas.
Nós nos limitaremos agora aos exemplos que precedem e que estão de acordo com a lei da homologia e as regras de suas combinações binárias para a leitura dos "Mentras arqueométricos" nesta ordem.

Para dar mais certeza ainda acerca da exatidão autológica do Arqueômetro, tomaremos, sobre cada ângulo dos trígonos de Jesus e de Maria, a combinação binária da letra zodiacal e da planetária do ângulo, e depois a sua inversão.
Não utilizaremos mais a língua sânscrita e dos dicionários em uso para provar mais uma vez a referência ariana do Arqueômetro nas antigas Universidades patriarcais.
No ponto inicial do trígono de Jesus, as duas letras Ya e Tsa dão o termo YA ÇA, que significa emissão da glória e do esplendor.
ÇI é a inversão do termo anterior e significa remissão, repouso, sonho.
Existe, então, para o ângulo do ponto inicial e de retorno das letras, uma perfeita concordância desta combinação binária com aquela que caracterizamos como homológica.
Ph e Sh são duas letras do ângulo Norte, que coincidem em Capricórnio e em Saturno, no ponto do Natal, em nosso 24 de dezembro, à meia-noite, momento em que o Sol começa a subir sobre a Eclíptica, para gerar o ano-novo. Portanto, em sânscrito, PoeSha significa o mês de dezembro-janeiro, confirmando absolutamente tudo o que dissemos sobre a autologia arqueométrica.
Pa quer dizer Potência; Pâ quer dizer Salvador.
Sha significa Paraíso.
SaP é a inversão das letras anteriores, e significa adorar.
Unindo o sentido do Mundo Astronômico ao Mundo da Glória, obtemos: No ponto de partida do primeiro mês astronômico, revela-se a adoração, a Potência do Salvador, o Rei do Paraíso.
Depois de ter visto a interpretação arqueométrica das letras do ângulo correspondente ao Pai, e as do ângulo correspondente ao Filho, interrogaremos o ângulo que corresponde à terceira pessoa da Trindade fundamental.
OG da OGA, que significa a potência que une e reúne, a força que fecunda e multiplica. Em latim, Augere, aumentar.
GO, inversão do precedente, significa (em veddo) o que tende à união, tudo o que é bom. Mas é pelo menos singular no que diz respeito ao seu sentido astronômico do mês de dezembro-janeiro, o termo GO significa também, em sânscrito, o sentido astronômico zodiacal do signo correspondente à letra O: Touro, Boi.
MaKa é um termo formado pelas duas letras zodíaco-planetário do ângulo do trígono inicial de Maria, significa Sacrifício; MaGa, significa felicidade e sacrifício.
KaMa significa o amor, o desejo, a vontade da qual o amor é o princípio.
RD, situado no segundo ângulo do trígono do Maria, forma o nome RaD, que significa dar, concordar.
DR, DaRa, significa o que comporta, o que contém e possui. Porém aqui, um sentido astronômico é dado por DRu que significa o que flui, liquefaz-se e se funde, ou corre rápido na água, concordando com o signo de Peixes.
HB, no ângulo sul do triângulo de Maria, dará o termo HEBE, que verte para dar de beber aos deuses, na mitologia órfica derivada da vedo-bramânica.
Em sânscrito, esse nome se decompõe em Ka, que significa Água etérea ou Ar vaporoso, e Ba que significa uma, o que concorda astronomicamente com Câncer, signo de água e com a correspondência da marcha da Lua e do estado de todos os fluidos e líquido sublunares.
BH, inversão do termo anterior, dará BaHu, o BoHu hebraico, mistura fluida de onde sai BaHuKa, que significa cisterna, que concorda também com o sentido astronômico do signo.

LETRAS MORFOLÓGICAS E ARITMOLÓGICAS

Chamamos zodíaco-solares os alfabetos orgânicos de XXII letras, tais como o siríaco litúrgico, o assírio dos judeus, o samaritano, etc. Escolhemos este gênero de alfabeto porque é cientificamente regular como processus de letras e de números correspondentes, ao que se podem reduzir todo alfabeto empírico ou vulgar. E, nesse tipo alfabético, escolhemos o mais antigo, o adâmico, desconhecido na Europa, mas conservado pelos brâmanes com o nome de vattan. Nós o adotamos porque ele é exato, não somente como processus de letras e de números, mas também como processus de formas.
É um alfabeto morfológico, ou parlante exatamente por suas formas que são geradas de um ponto, da linha, do ângulo, do círculo e do quadrado:

As ciências e as artes relativas à aplicação das formas para os usos da Arquitetura, Estatuária e Ornamentação de todo Gênero encontrarão nestas letras, remetidas por mim a seu ponto exato de correspondência sobre o cosmômetro pantográfico, uma morfologia parlante.
Em Arquitetura tão-somente, este novo gênero, este estilo parlante, é derivado da correspondência com as cores do pantógrafo.
Esse estilo consiste na utilização do ferro ou de qualquer outro metal e do vidro colorido, utilizando-se o ferro não só como armação mas também como engaste parlante dos muros de vidro colorido, como o ouro, a platina e a prata servem de engaste às pedras preciosas.
Veremos mais adiante por que, do alfabeto de XXII letras, extraímos três letras: aaa, A, para o número 1, , S, para o número 60, ?
Th, para o número 400, quer dizer, o Raio Gerador, os Pontos e o Sinal de união das zonas.
Restam XIX letras, XII modais e VII diatônicas. Elaborando a tabela das correspondências morfológicas, resultou no seguinte: (1º) entre as XII modais e os XII signos zodiacais, entre as VII Diatônicas e os VII signos planetários.
A comparação mostra que esses signos astrais são derivados dessas letras, e somente este fato se refere a uma época universitária dos patriarcas anterior ao Paganismo, ao Sabeísmo, ao Antropomorfismo e ao Zoomorfismo; É por essa razão que chamamos zodíaco-solares a esses alfabetos de XXII letras e zodíaco-lunares aos alfabetos de XXVIII, XXIX e XXX letras, como o Musnad e o Coreïsh.
Aritmologia dos Alfabetos Cosmológicos Solares
Sendo as XXII letras aritmológicas, tivemos que reconstituir sua aritmologia de acordo com seu ponto de partida e de retorno, com seu módulo emissivo que, sendo a letra Y, é o número 10, com o número 6 como módulo menor. Pelo contrário, no sistema lunar vedo-brahmânico, sendo o ponto de partida e de retorno a letra M, é o número 40, com o número 8 como módulo menor.
É útil ressaltar ao arquiteto que esta aritmologia restabelece toda uma parte perdida das ciências aritméticas, a dos números qualitativos inversamente proporcionais às cifras quantitativas.
O maior destes números é a unidade e todos os outros são as funcionalidades internas dela.
Além do mais, essa aritmologia qualitativa pode ser demonstrada fisicamente com experiências, seja sobre uma corda sonora, seja sobre as placas vibrantes, de acordo com os números e com as formas equivalente das placas.
Revela-se com isso a qualidade musical dos números, enquanto as cifras revelam a quantidade das vibrações físicas.
Esse conhecimento, do qual deriva a música cosmológica das formas ou morfologia, é indispensável para a arquitetura e todas as artes a que ela preside, passando do artista e de sua obra do estado inconsciente ao estado de ciência e da consciência plena e inteira, quer dizer, de cooperação direta com os princípios metrológicos e morfológicos.
A síntese religiosa ou a sabedoria é dessa forma uma aliança divina real e positiva, tanto na ciência como na arte e na vida, da qual a ciência e a arte são seus instrumentos.
Em resumo, como os números constituem também palavras, o arquiteto notará que aquelas que resultam das principais séries numéricas do alfabeto adâmico poderão ser lidas seguindo a numeração decimal sânscrita. Assim, perceberá facilmente a grande importância destas palavras reveladoras.
Uma vez mais, a vontade humana não faz parte desta autologia que nós dará o critério de certeza utilizado nas mais antigas Universidades patriarcais.


Critério de Certeza

Não se acredita em nada sem convicção, sem o poder da vida que apela no Verbo, mesmo com uma irresistível certeza que coloca uma luz no coração, como um calor sagrado.
O Arqueômetro é o revelador dessa Revelação, dá esta certeza e ele apela a essa força da vida que arrastará o arquiteto a uma aliança e a uma colaboração real com o projeto de sua arte.
É por essa razão que chamo a atenção, com muita gravidade, sobre o que vem a seguir:
Olhando a tabela da aritmologia das XXII letras, encontraremos:
1º) Que as letras que têm a chave do número 10 são Y, I ou J.
2º) Que esse número 10 não é o resultado da soma das interioridades do número 4 + 3 + 2 + 1 = 10, como nos outros sistemas decadentes da Antigüidade, mas da Unidade da Trindade e da interioridade dessa Trindade, assim: 3 + 2 + 1 = 6, que significa: sestilidade.
O número 1 corresponde à incognoscível Unidade de Deus, o número 3 corresponde à sua Trindade constituinte de toda a manifestação, a seu Verbo cognoscível. Jesus disse: "Quem me vê, vê ao Pai".
O número 6, que é do Espírito Santo, representa a própria inferioridade de 3 + 2 + 1 = 6.
Esses três números, 1, 3, 6, igualam-se ao 10, sem ser necessário recorrer ao 4 para obter, com a soma, o número 10.
Tudo o que precede pode ser feito experimentalmente sobre a corda sonora.
Com efeito, 1 representa a corda inteira, 2 representa uma oitava nos dois lados, para a direita e para a esquerda a partir do meio da corda. A dualidade não consiste numa potência de oposição, mas de simetria com a própria unidade.
Três sobre a corda sonora dará a quinta a 2/3, mas cada terço isolado dará também essa quinta à oitava; o número 3 é, então, autônomo em 1, como palavra do número 1.
Quatro, pelo contrário, representa a subsimetria de 2, que é ela mesma a potência simétrica de 1.
Quatro dará os ¾ da quarta, sendo a metade geométrica da oitava, porém cada quarto isolado reproduz a oitava, sendo ela mesma a dupla oitava.
Dessa forma, sendo 2 a potência simétrica da unidade, 4 é a potência subsimétrica, ou interferencial. Este número, então, não é autônomo nem diretamente parlante, não mais em Sonometria que em Morfologia, como veremos mais adiante.
Em 6, interioridade de 3, o respaldo de sua potência simétrica, que então resulta 3, como 2 é respaldo de 1 na simetria interna.
Em 6, tudo responde com a maior segurança sobre a corda sonora; tudo ali é verbal e autônomo, como em 3, e que essa palavra, que corresponde, em morfologia, ao hexágono, dará a onda sonora, seu acorde menor perfeito, que nós chamamos orgânico interno, com propulsão de 2 quintos nos agudos, quer dizer, uma dupla promulgação do verbal 3.
Continuaremos nas próximas inserções...

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Carta de Saint Yves D'Alveydre a Papus.


Meu querido amigo,
tenho um grande prazer em responder a vossa excelente carta. Não tenho nada que acrescentar a vosso notável livro sobre a Cabala judaica. Pode ser classificado entre os de primeira linha pela eminente e merecida apreciação feita pelo saudoso Sr. Frank, do Instituto, o homem mais capacitado a tecer um juízo sobre esse tema.
Vossa obra completa a dele, não somente quanto à erudição mas também na bibliografia e na exegese dessa tradição especial, e, mais uma vez, crio este livro definitivo. Mas, sabendo meu respeito pela tradição e, ao mesmo tempo, minha necessidade de universalidade e de verificação por todos os processos dos métodos atuais, conhecendo, além do mais, o resultado dos meus trabalhos, não deveis temer que eu venha a ampliar o tema, e, ao contrário quereis pedi-lo.
Não aceitei até agora devido ao benefício que pode trazer ao inventário dos livros sobre a Cabala judaica, apesar do seu interesse.
Porém, uma vez feito o inventário, as minhas pesquisas pessoais encaminharam-se para a universalidade anterior, de onde procedem esses documentos arqueológicos, desde o começo, bem como as leis que puderam provocar esses feitos do espírito humano.
Para os judeus, a Cabala provém dos caldeus, elaborada por Daniel e Esdras.
Entre os israelitas anteriores à dispersão das dez tribos não judias, a Cabala provinha dos egípcios, composta por Moisés.
Tanto para os caldeus como para os egípcios, a Cabala formava parte do que todas as Universidades metropolitanas chamavam de Sabedoria, isto é, a síntese das Ciências e das artes reintegradas ao seu Princípio comum. Esse Princípio era a Palavra do Verbo.
Um precioso testemunho da antigüidade patriarcal pré-mosaica confirma essa sabedoria perdida ou transformada aproximadamente 3.000 anos antes de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esse testemunho é Jó, e a antigüidade desse livro é autologicamente confirmada pela posição das constelações que ele menciona: "Que foi da Sabedoria, onde, pois, está?", disse esse Santo patriarca.
Em Moisés, a perda da unidade anterior e o desmembramento da sabedoria patriarcal são indicados com o nome de divisão da línguas e época de Nimroud. 

Essa época caldéia corresponde à época de Jó.
Outro testemunho da antigüidade patriarcal é o Brahmanismo. Ele conservou todas as tradições do passado, superpostas com os diferentes acontecimentos geológicos da Terra. Todos os que o estudaram do ponto de vista moderno ficaram surpreendidos pela riqueza de seus documentos e a impossibilidade de uma classificação mais satisfatória, tanto do ponto de vista cronológico como do científico. Suas divisões em seitas bramânicas, vishnavistas, sivaistas, por não falar mais daquelas, contribuíram da mesma forma para essa confusão.
Não é menos certo que os brámanes do Nepal remontam ao começo da época do Kaly-Yuga, à ruptura da antiga universalidade e à unidade primordial de ensino.
Essa síntese primitiva levava, muito antes do nome de Brahma, o de Isvha-Ra, Jesus Rei: Jesus Rex Patriarcarum, contam as nossas letanias.
É a essa síntese primordial que São João faz alusão no início de seu Evangelho; porém, os brámanes estão longe de duvidar que seu Isoua-Ra seja nosso Jesus, Rei do Universo, como Verbo Criador e Princípio da Palavra Humana. Sem isso, seriam todos cristãos.
O esquecimento da Sabedoria Patriarcal de Isvha-Ra data da época de Krishna, o fundador do Brahmanismo e de sua Trimurti. Aí também existe concordância entre os brámanes, Jó e Moisés, tanto quanto aos fatos como à época.
Desde esse tempo babélico, nenhum povo, nenhuma Universidade, tem possuído mais do que restos de pequenos fragmentos da velha Universidade dos Conhecimentos divinos, humanos e naturais, reduzidos a seu princípio: o Verbo Jesus. Santo Agostinho define como Religio Vera essa síntese Primordial do Verbo.
A Cabala dos Rabinos, relativamente de redação recente, era conhecida do começo ao fim pelos adeptos judeus, em suas fontes escritas ou orais, no primeiro século de nossa era. Certamente não havia segredos para um homem de valor da ciência de Gamaliel. Porém, não os havia também para seu primeiro e proeminente discípulo, São Paulo, que se tornou o apóstolo do Cristo Ressuscitado.
 
Vejamos agora o que diz São Paulo na sua Primeira Epístola aos Corintios, capítulo 2, 

versículos 6-8:
"Predicamos a sabedoria aos perfeitos, não a sabedoria deste mundo, nem dos principais deste mundo, que se destroem; mas, predicamos a sabedoria de Deus, encerrada em seus Mistérios; sabedoria que havia permanecido oculta, que Deus, antes de todos os séculos, havia predestinado e preparado para a nossa glória; 
que nenhum dos primeiros deste mundo a tem conhecido; pois se a tivessem conhecido, nunca teriam crucificado ao Senhor da Glória."
Essas palavras são pesadas em quilates como o ouro e os diamantes, e não existe uma só dentre elas que não seja infinitamente precisa e preciosa. Elas proclamam a insuficiência da Cabala judaica. Antes de tudo, verifiquemos a origem do termo Cabala: ele tem dois sentidos de acordo com a forma em que é escrito, conforme os judeus. Se o escrevemos com Q, isto é, adotando a vigésima letra do alfabeto assírio, a que corresponde ao número 100, ou com a letra C, a décima primeira letra do mesmo alfabeto, que corresponde ao número 20.
No primeiro caso, o nome significa transmissão, tradição, e a coisa fica assim indecisa, pois, tanto vale o transmissor quanto a transmissão; tanto vale o traditivo quanto vale a tradição.
Acreditamos que os judeus nos transmitiram bastante fielmente o que receberam de seus sábios em sua escrita caldéia original, e que foi refundido nos livros anteriores por Esdras, guiado pelo Grande Mestre Daniel, da Universidade dos magos de Caldéia. Mas do ponto de vista científico, isso não amplia muito a questão, que foi recuando no tempo por meio do levantamento dos documentos assírios, e assim subseqüentemente até chegar à fonte primordial.
No segundo caso, Ca-Ba-Lá, significa a potência das XXII letras, CaBa, já que C = 20 e B = 2.
Mas, então, a questão é resolvida exatamente, pois se trata do caráter científico determinado pelos antigos patriarcas ancestrais para os alfabetos de vinte e duas letras numerais.
Temos que considerar esses alfabetos como um monopólio das raças chamadas semitas? Talvez seja realmente um monopólio, ou muito pelo contrário.
Segundo as minhas pesquisas sobre os antigos alfabetos da Ca-ba-Lá, de XXII letras, o mais oculto, o mais secreto, que me serviu de protótipo não tão-somente para todos os outros do mesmo gênero mas também aos signos védicos e às letras sânscritas, trata-se do alfabeto ário. É aquele alfabeto que fui feliz em transmitir e que obtive de eminentes bramanes, os quais nunca, nem em sonho, exigiram-me guardar segredo dele.



Esse alfabeto se distingue dos outros chamados semitas porque suas letras são morfológicas, isto é farlantes exatamente pelas suas formas, o que o transforma num alfabeto absolutamente único. Mais ainda, um estudo cuidadoso me levou a descobrir que as mesmas letras são o protótipo dos signos zodiacais e planetários, o que é também de máxima importância.
Os bramanes chamam a esse alfabeto de vattan; e parece que se remonta à primeira raça humana, pois, pelas suas cinco formas matrizes, rigorosamente geométricas, confirma ele mesmo: Adão, Eva e Adamah.
Moisés parece apontá-lo no versículo 19 do capítulo II de seu Sepher Bereshit. Mais ainda, esse alfabeto se escreve de baixo para cima, e suas letras se agrupam de tal maneira que formam imagens morfológicas falantes. Escrevem-no da esquerda para a direita e de cima para baixo.
 Por todas as razões precedentes, esse alfabeto protótipo de todos os Kaba-Lim pertence à raça ária. Não podemos continuar a denominar com o nome de semitas os alfabetos desse gênero, pois não são o monopólio das raças que se denomina assim, com razão ou erradamente.
E possível, e deve-se, chamar esses alfabetos de esquemáticos. Agora, bem, o esquema não significa somente signos da palavra, mas também signos da glória. Esses alfabetos existem também em outras línguas, como o eslavo; assim, por exemplo, a etimologia do termo eslavo é slovo e slava, que significam palavra e glória.
Esses sentidos nos conduzem a significados muito altos. O sânscrito costuma corroborar essa elevação. Sama, que encontramos também nas línguas de origem celta, significa similar, identidade, proporcionalidade, equivalência, etc.
O termo Cabala, tal como o compreendemos, significa o Alfabeto das XXII Potências, ou a Potência das XXII letras desse alfabeto. Esse tipo de alfabeto tem um protótipo ário ou jafético, que pode ser designado, certamente por direito, com o nome de Alfabeto da Palavra ou da Glória.
Palavra e Glória! Por que estes dois termos estão relacionados em duas línguas antigas tão distantes uma da outra como o eslavo e o caldeu? Isso é sustentado por uma constituição primordial do espírito humano, em um Princípio comum ao mesmo tempo científico e religioso: o Verbo, a Palavra cosmológica e seus equivalentes.
Jesus, em sua última oração tão misteriosa, lança nisso, como em tudo, uma luz esclarecedora sobre o mistério histórico que nos ocupa agora:
"Oh Pai! coroa-me com a glória que tive antes de que este mundo fosse!"
O Verbo Encarnado faz alusão, com isso, à Sua Obra, à Sua Criação direta como Verbo Criador.
Criação designada com o nome de Mundo divino e eterno da Glória, protótipo do mundo astral e temporal, criado pelos Alahim sobre este modelo incorruptível.
Que o Princípio Criador seja o Verbo, a antigüidade não possui sobre este ponto mais que uma voz unânime. Falar e criar são, aqui, o sinônimo de todas as línguas.
Entre os brâmanes, os documentos anteriores ao culto de Brahma apresentam a ISOu-ra, Jesus Rei, como Verbo Criador.
Entre os egípcios, os livros de Hermes Trismegisto dizem a mesma coisa, e OShI-Ri é Jesus Rei, lido da direita para a esquerda.
Entre os trácios, Orfeu, iniciado nos Mistérios do Egito pela mesma época que Moisés, escreveu um livro intitulado "O Verbo Divino". Enquanto para Moisés, o Princípio é o motivo da primeira frase de seu Sepher. Não se trata da Essência de Deus, IHOH, que é nomeado somente no sétimo dia, mas de seu Verbo Criador da héxada divina: BaRa-Shith, em que Bara significa falar e criar; Shith, significa a héxada. Em sânscrito, temos o mesmo significado para BaRa-Shith.
Este termo, BaRa-Shith, tem dado lugar a polêmicas e inúmeras discussões. São João não defende o termo como Moisés desde o começo de seu Evangelho, e escreve em Siríaco, língua cabalística de XXII letras: "O Princípio é o Verbo. Jesus tinha dito: 'Eu sou o Princípio'".
O sentido exato é fixado assim por Jesus, que confirma toda a universalidade pré-mosaica anterior. O que precede explica por que as Universidades verdadeiramente antigas consideraram o Verbo Criador como a incidência, da qual a palavra humana é o reflexo exato, quando o processo alfabético se encaixa perfeitamente no planisfério do Cosmos.
O processo alfabético, junto com todos os seus equivalentes, representa, então, o Mundo Eterno da Glória; e o processo cósmico representa o mundo dos Céus astrais.
E por isso que o Rei Profeta, eco de toda a antigüidade patriarcal, disse: "CÉli enarrant Dei Gloriam", ou, em francês: "O mundo astral reflete o mundo da Glória divina." O Universo invisível fala por meio do Universo visível.
Permanecem assim dois casos a serem resolvidos: primeiro, o processo cósmico das escolas antigas; segundo, o dos alfabetos correspondentes.
Para o primeiro ponto, III Formas matrizes: O centro, o rádio ou diâmetro e o círculo; XII signos involutivos; VII signos evolutivos.
Em ambos os casos: III + XII + VII = XXII = CaBa, pronunciando-se: C = 20, B = 2, dando um total de 22, C, Q, F, D.
Os alfabetos das 22 letras correspondiam, pois, a um Zodíaco solar ou solar-lunar, montado a partir de um setenário mais evoluído. Eram os alfabetos esquemáticos.
Os outros, de acordo com o mesmo método, provinham das 24 letras, dos horários dos precedentes, de 28 letras seus lunares; por 30, seus mensais solar-lunares; por 36, seus decânicos, etc. Sobre os alfabetos das 22 letras, a regia, a emissiva da ida, a remissiva da volta, era o I, o Y e o J, e colocada sobre o primeiro triângulo eqüilátero inscrito, devia formar antologicamente, com as outras duas, o nome do Verbo e o de Jesus, IshVa-(Ra), OshI-(Ri).
Pelo contrário, todos os povos que têm adotado o Cisma Naturalista e Lunar escolhem a letra M como Regia, que governa o segundo trígono elemental.
Todo o sistema védico, e depois o brahmânico, tem sido regulado posteriormente por Krishna dessa forma, a partir do Kaly-Youg. Essa é a chave do Livro das Guerras de IEVE, guerra da letra Regia I ou Y contra a ursupadora M.
Tendes visto, meu querido amigo, as moderníssimas provas, fruto da simples observação e da experiência científica, pelas quais a mais antiga tradição foi ao mesmo tempo restabelecida e verificada por mim. Portanto, não falarei mais do que o estritamente necessário para o esclarecimento do fato histórico da Cabala.
Conforme os patriarcas que os têm precedido, os brâmanes têm dividido as línguas humanas em dois grandes grupos: (1º) Devanagáricas, são as línguas da cidade celestial ou da civilização reintegrada ao seu Princípio Cosmológico divino; (2º) Prácritas, são as línguas das civilizações selvagens ou anárquicas. O sânscrito é uma língua devanagárica de quarenta e nove letras; o veda, igualmente, com suas oitenta letras e signos, derivados do ponto do AUM, ou seja, da letra M.
Essas duas imagens são cabalísticas em seu sistema particular, no qual a letra M é o ponto de partida e de retorno. Porém, têm sido, desde sua origem e continuando até os nossos dias, articuladas sobre uma fatia do templo de vinte e duas letras, da qual a letra Regia primeira é o I.
Todas as retificações se tornam possíveis e fáceis graças a esta chave, no triunfo e maior glória de Jesus, verbo de IEVE, dito de outra forma, da síntese primordial dos primeiros patriarcas.
Os atuais brâmanes conferem a seu alfabeto de vinte e duas letras uma virtude mágica; porém esses termos não possuem para nós mais do que uma conotação de superstição e ignorância.
Superstição, decadência e superestação de elementos arqueológicos e de fórmulas mais ou menos alteradas, porém, com um estudo mais profundo se poderia, como neste caso, relacionar uma experiência ou um ensinamento anterior de forma científica e consciente e não de forma metafísica ou mística. Esse ensinamento primordial foi motivado principalmente pela maior ou menor ignorância dos fatos, das leis e dos princípios.
Por outra parte, a Escola lunar vedo-brahmânica não é a única na qual a ciência com sua síntese solar, a religião do Verbo, tem degenerado em Magia. Basta que se explore um pouco a universalidade terrestre a partir da época babélica para ver uma crescente decadência, atribuída cada vez mais à influência envolta de um caráter de superstição e magia, que exercem cada vez mais os alfabetos antigos.
Da Caldéia até a Tessália, da Escitia até a Escandinávia, dos Kouas de Fo-Hi e dos Musnads da antiga Arábia aos Runas dos Varaighes, podemos observar a mesma degeneração.
A verdade, nisso como no todo, é infinitamente mais maravilhosa que o erro, e conheceis, querido amigo, esta admirável verdade.
Por último, como nada se perde na humanidade terrestre, da mesma forma que no Cosmos inteiro, o que tem acontecido ainda é testemunho da antiga universalidade da que nos fala Santo Agostinho, em suas Retrações.
Os brâmanes cabalizam com os oitenta signos védicos, com as quarenta e nove letras do sânscrito devanagárico, com as dezenove vogais, semivogais e ditongos, isto é, toda a mistura de Krishna, acrescentada por ele ao alfabeto vattan ou adâmico.
Os árabes, os persas e os soubbas cabalizam com seus alfabetos lunares de vinte e oito letras e os marroquinos com seu Koreish.
Os tártaros manchus cabalizam com seu alfabeto mensal de trinta letras. As mesmas observações podem ser feitas entre os tibetanos e os chineses, etc, as mesmas reservas podem ser feitas quanto às alterações da ciência antiga dos equivalentes cosmológicos da palavra.
Resta saber em que ordem devem ser dispostos funcionalmente esses XXII equivalentes sobre o Planisfério do Cosmos.
Querido amigo, tendes sob os olhos o modelo de acordo com aquele que foi legalmente depositado sob o nome de Arqueômetro.
Vos sabeis que as chaves deste instrumento de precisão, para serem usadas em elevados estudos, têm sido dadas pelo Evangelho, por certas palavras precisas ditas por Jesus e comparadas com as de São Paulo e São João.
Todas as Universidades religiosas, asiáticas e africanas, abastecidas pelos alfabetos cosmológicos, solares, solar-lunares, horários lunares, mensais, etc, servem-se de suas letras de forma cabalística.
Trata-se da ciência pura, da poesia interpretando a ciência ou da inspiração divina, todos os livros antigos, escritos em línguas devanagáricas e não prácritas, que não podem ser compreendidas se não fosse a Cabala dessas línguas.
Porém, aquelas devem ser reintegradas às XXII equivalentes esquemáticas, e estas, às suas posições cosmológicas exatas.
A Cabala dos Judeus está, pois, motivada por toda a constituição anterior do espírito humano; porém, ela tem necessidade de ser arqueométrica, isto é, medida por um princípio regulador, controlada sobre o instrumento de precisão do Verbo e de sua síntese primordial.
Não sei, querido amigo, se estas páginas respondem a vossa afetuosa espera. Não pude mais do que resumir capítulos inteiros em algumas linhas.
Rogo-vos, pois, desculpar as imperfeições e olhar o que precede como um testemunho da minha boa vontade e da minha velha amizade.