quinta-feira, 23 de junho de 2011

Arquétipo e Representações Arquetípicas

 O Jardim das Delícias Terrenas de Hieronymus Bosch 
Arquétipo é um dos principais conceitos junguianos. Entretanto, freqüentemente vemos grandes confusões feitas com esse conceito. Assim, vou tentar apresentar a forma como pessoalmente compreendo a idéia de arquétipo, discutindo um pouco da teoria para torná-lo mais claro.
Arquétipo : O termo
O termo arquétipo foi utilizado por Jung pela primeira vez em 1919, em Londres, num simpósio intitulado “Instinto e Inconsciente”. O termo arquétipo já era conhecido da filosofia e, suas origens, poderiam remontar até Platão. Essa relação histórica com o Platonismo gerou um preconceito em relação a concepção de Jung. Em sua etimologia, o termo arquétipo é formado pelo termoarkhé, oriundo do grego, que significaria primeiro, antigo, regente, dominante, original; e typos, também oriundo do grego, que significaria marca, impressão, molde ou modelo. Desde modo, o termo arquétipo exprimiria a idéia de um molde, marca ou modelo original.
Arquétipo na Psicologia Analítica
Apesar do termo só ter sido introduzido em 1919, a idéia de arquétipo já estava presente nas publicações de 1912, onde Jung relatava seus estudos acerca das “imagens primordiais”, imagens que se manifestam na psique e que poderíamos observar uma relação com a mitologia. Por volta, de 1917, Jung começa a se referir dominantes do inconsciente coletivo.
Num primeiro momento, Jung relaciona ou mesmo justifica a teoria dos arquétipos considerando a teoria da evolução. Deve-se notar quem em 1912, por ocasião de palestras no EUA, Jung visitou manicômios destinados aos negros, para pode estudar os sonhos e delírios desses pacientes, o que ele pode notar era que os conteúdos eram semelhantes aos de seus pacientes na Suiça e, alguns delírios e percebeu claro paralelo com a mitologia grega.
Para Jung,  a universalidade dessas representações psíquicas estavam relacionadas com a história do homem. Segundo ele,
Assim como o corpo humano representa todo um museu de órgãos com uma longa história evolutiva, devemos esperar que o espírito também esteja assim organizado, em vez de ser um produto sem história. Por “história” não entendo aqui o fato de nosso espírito se construir por meio de tradições inconscientes (por meio da linguagem etc.), mas entendo antes sua evolução biológica, pré-histórica e inconsciente no homem arcaico, cuja psique ainda era semelhante à dos animais. Esta psique primitiva constitui o fundamento de nosso espírito, assim como nossa estrutura corporal se baseia na anatomia geral dos animais mamíferos. (JUNG, 2000a, p. 229-230)
Isso implica em dizer que os arquétipos não estão relacionados a nada metafísico, mas, sim são expressões do processo evolutivo, quem imprimiram padrões de basais de organização do psiquismo.  Esses padrões basais podemos reconhecer nos animais como instintos. Os arquétipos, seriam
(…) instintos centralmente representados, ou seja, que se manifestam como imagens. Os arquétipos só tomam a forma de imagens onde a consciência está presente; noutros termos, o auto-retrato configurado dos instintos é um processo psíquico de ordem superior. Pressupõe um órgão capaz de perceber essas imagens primordiais. (NEUMANN, 1995, p.215).
A referencia a imagens, num primeiro momento, podemos pensar nas imagens dos sonhos, as imagens em alucinações de pacientes psicóticos. Entretanto, devemos compreender que essas imagens (sonhos e alucinações) são representações visuais que atingem a consciência. É fundamental que compreendamos para Jung,  IMAGENS são REPRESENTAÇÕES, não apenas visualizações. As imagens arquetípicas, que prefiro chamar de representações arquetípicas, pode ser cinestésicas, assim sentidas no corpo, a analise bioenergética nos propicia uma percepção clara disso, pois, p.ex., através um dado exercício, é possível acessar o mesmo conteúdo emocional em indivíduos de diferentes culturas ou diferentes lugares do mundo. Ou seja, através de um movimento compatível com a dinâmica própria do arquétipo é possível ativa-lo ou ativar sua representação na esfera pessoal, essa pode se manifestar como imagens (sonhos, visões), sensações cinestésicas ou emoções/lembranças.
De forma geral, quando o arquétipo isto é, um padrão de organização psíquica basal, é ativado ele vai mobilizar  o individuo por inteiro, modificando a forma do individuo perceber ou reagir à realidade, isso porque sua força ou energia tende a engolfar o ego.
Assim, compreendo que o arquétipo é um padrão basal de organização psíquica, assim, o psiquismo se organiza em torno desses padrões, fazendo com que todos os indivíduos em toda parte tenham uma organização psíquica semelhante. Deste modo, falar em arquétipo significa reconhecer que temos uma predisposição a determinados comportamentos, assim como a predisposição a aprendizagem. Deve-se notar que essas predisposições são comuns a toda humanidade. Esses padrões vão assumir a forma da cultura em que o individuo se encontra(mas, sua essência permanece a mesma em toda cultura). Como por exemplo, a maternagem, ela se manifesta em todas as culturas e se caracteriza essencialmente pelo cuidado e nutrição da prole, contudo, o tempo e a forma como a mãe vai cuidar e nutrir de seus filhos, depende da cultura onde está inserida.
Há tantos arquétipos quantas situações típicas na vida. Intermináveis repetições imprimiram essas experiências na constituição psíquica, não sob a forma de imagens preenchidas de um conteúdo, mas precipuamente apenas formas sem conteúdo, representando a mera possibilidade de um determinado tipo percepção e ação. Quando ocorre na vida algo que corresponde a um arquétipo, este é ativado e surge uma compulsão que se impõe a modo de uma reação instintiva contra toda razão e vontade, ou produz um conflito de dimensões eventualmente patológicas. Isto é, uma neurose. (JUNG, 2000b, p.58).
Representações arquetípicas
Segundo Jung, seria provável que a verdadeira natureza do arquétipo é incapaz de tornar-se consciente, quer dizer, é transcendente, razão pela qual eu a chamo de psicóide. Além disto, qualquer arquétipo torna-se consciente a partir do momento em que é representado, e por esta razão difere, de maneira que não é possível determinar, daquilo que deu origem a essa representação (JUNG, 2000c, p77). Como podemos ver, o arquétipo não pode se tornar consciente por ser psicóide (isto é, quase psíquico, o arquétipo esta na zona limítrofe entre o físico e psíquico, por isso transcendente). Conforme disse acima, as chamadas “imagens arquetípicas” são “representações” do arquétipo. Para evitar confusões, prefiro me referir às manifestações do arquétipo apenas como “Representações arquetípicas”. Compreendo como as principais formações arquetípicas:

1 – Complexos : Os complexos de tonalidade afetiva ou complexos ideoafetivos são agrupamentos de ideias, pensamentos, imagens em torno de um núcleo arquetípico. Os complexos são como atualizações dos arquétipos na vida pessoal. Como dissemos, os arquétipos são padrões de organização psíquica, assim, as experiências individuais que possuem afinidade com um padrão arquetípico são atraídas e formam um conglomerado, que organizam e orientam nossas memórias de lembranças vividas, assim como orientam a percepção das experiências. Através dos complexos podemos apreender as dinâmicas arquetípicas e como elas organizam e orientam nossa vida.

2 – Símbolos culturais: Chamo de símbolos culturais todos os elementos que se mantém como referencia da cultura. Como os contos de fadas, mitos, provérbios, imagens, monumentos que expressam a dinâmica arquetípica. Segundo Jung,”o arquétipo é sempre uma espécie de drama sintetizado” (EVENS, 1973, p. 55), por isso, muitas das narrativas mítico-religiosas nos afeta, assim como as obras de arte que expressam um cena ou situação que similar a padrão arquetípico. Os símbolos culturais são importantes pois, servem de referencia para a constelação dos arquétipos em nossa vivência pessoal.

3 – Símbolos pessoais:  Os símbolos pessoais são formações que eclodem do inconsciente, intimamente relacionado com o momento do qual um individuo vive. Esses símbolos podem ser situações, pessoas, locais, lembranças, musicas, enfim, qualquer coisa que tenha uma similaridade arquetípica ou que sobre ao qual o arquétipo inconsciente tenha se projetado. O símbolo pessoal tem o objetivo de  possibilitar a passagem de energia do inconsciente para a consciência, com a finalidade de organizar e/ou dar um direcionamento ao Ego.

EVANS,R.Entrevistas com Jung e as Reações de Ernest Jones.Rio de janeiro:eldorado,1973.
NEUMANN, E. História da Origem da Consciência, São Paulo: Cultrix Editora, 1995
JUNG, C.G. Vida Simbólica Vol. I, Vozes, 2ª Ed., Petrópolis, RJ, 2000a.
JUNG, C.G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Vozes, Petrópolis, RJ, 2000b.
JUNG, C.G.Natureza da Psique, Vozes, Petrópolis, RJ, 2000
Fabricio Fonseca Moraes é Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana (UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES).

domingo, 12 de junho de 2011

DEMIURGO - CONSTRUTOR(ES) DO(S) UNIVERSO(S)

A palavra Demiurgo significa “Construtor, Artífice” e é habitualmente referida, em termos cosmogônicos, relativamente ao surgimento e formação dos Universos. Foi usada por antigos e notáveis filósofos gregos, nomeadamente por Platão e, a partir daí, por diferentes escolas e autores, com maior ou menor propriedade. Visto que Platão expôs, na medida do possível, e sob os necessários véus, partes relevantes da Ciência Espiritual, é normal que, na exposição da Cosmogonia Oculta, se recorra por vezes a essa palavra.
Poder-se-á imediatamente pensar que “Demiurgo” designa, então, o Deus-Pai Criador de tudo quanto existe; porém, essa é uma formulação simplista e incorreta, que não pode, sem mais, ser subscrita pela Sabedoria Esotérica. Há imensas questões e vertentes a ponderar. Certamente, não poderíamos (ainda que o soubéssemos) expô-las todas. No entanto, não vamos iludir algumas das principais.
A dor e a imperfeição do mundo
Toda a Humanidade é digna de compaixão; contudo, individualmente considerados, somos ainda, muitas vezes, mesquinhos. Grande parte dos seres humanos assemelham-se assim a bonecos de corda. A imagem pode parecer algo dura mas tenta ilustrar uma atitude muito vulgarizada: as pessoas surgem neste mundo, mexem-se muito, fazem e dizem muitas coisas (um considerável número das quais, talvez, completamente inúteis); entretanto, nunca se questionaram por que e para que estão aqui; que é isso que nelas palpita como vida, lhes permite movimentar-se, pensar, ter sentimentos; que sentido real e profundo deve ter as suas existências. Quando o fazem, em grande parte dos casos rapidamente se entregam nos braços de alguma crença mais ou menos simplista ou, quando mais pertinazes, tornam-se fanáticos desta ou daquela Igreja (ou de qualquer outro sucedâneo). É infelizmente raro o genuíno investigador, que busca incessantemente a verdade, que não tem medo de enfrentar as questões e ver o mundo tal qual ele é, que exige respostas profundas, firmes e consistentes.
Não obstante, e até por entendermos que os leitores pelo tipo de temáticas em que mostram interesse, serão dados à reflexão, pensamos que não constitui nenhum exagero afirmar que, decerto, cada um de nós, ao menos uma vez na vida, experimentou a sensação de dor, de sofrimento, de vulnerabilidade ou de verdadeira tristeza. Isto sucede particularmente em momentos mais críticos, quando somos assaltados por uma doença, por um problema pessoal, pela morte (desencarne) de algum ente querido; também, quando observamos os horrores do mundo que nos cerca, especialmente no século que findou (e que também já se indiciam no recém-iniciado), em que a humanidade vem realizando grandes conquistas científicas e tecnológicas mas em que, com isso, construiu meios de destruição autenticamente assombrosos, e em que, aqui e ali, se cometeram iniqüidades que nos fazem quase desfalecer de horror ao delas tomarmos conhecimento; quando constatamos o oceano de dor e de loucura em que a humanidade em geral está imersa; quando, enfim, “apenas” sentimos aquela angústia, aquela insatisfação, aquele vazio fundamental que tantas vezes nos acompanha no dia a dia…
Nessas ocasiões, em alguma fase da nossa vida, seguramente nos teremos interrogado se não existe um Deus no “Céu” ou, se ele existe, por que permite que tais coisas possam acontecer no mundo.
O problema do mal
Mais ainda, aliás: quando vemos que não apenas a nós, humanos, nos toca a dor e a miséria, mas que o sofrimento pode ser tão cruento e brutal entre os animais, na sua luta pela sobrevivência e não só; quando vemos que até no reino vegetal há destruição; quando observamos que, na Natureza, há tentativas falhadas, insucessos ou mesmo (aparentes?) aberrações; quando constatamos que todo e qualquer ser que conheçamos é limitado e, portanto, imperfeito; quando, enfim, nos confrontamos com o problema do mal 1 - da existência evidente do mal no Universo -, verificamos como têm plena razão de ser as poéticas palavras do Buda Gautama: “Não te iludas, Ananda, toda a existência está plena de dor. Assim, chora a criança desde que nasce.”. E acrescentava Ele, face a tudo o que tentamos aludir: “Se Deus permite tais coisas, não pode ser bom; ou então, não tem o poder de evitá-las, e não pode ser Deus” 2.
De fato, se existe - se existisse - um Deus simultaneamente Absoluto, Criador, Todo-Poderoso e infinitamente Bom, como é que não quis ou não pôde fazer um mundo muito mais perfeito (aliás, infinitamente perfeito) e feliz (aliás, infinitamente feliz, bem-aventurado) do que este? 3.
Respostas incoerentes
A teologia das Igrejas Cristãs ufana-se - literalmente 4! - de ter uma resposta para esse problema. Sintetizando, a sua posição é esta: Deus é uma Pessoa - que é também três pessoas 5 - distinta do mundo, que criou do nada (concepção teísta), da mesma forma como cria as almas humanas (porque os animais, por exemplo, não teriam alma) cada vez que é concebido um corpo a que se vão associar. Deus criou o homem para ser feliz neste mundo, embora sempre numa limitada condição. Demoniacamente tentados a serem idênticos a Deus, para tanto comendo da Árvore do Conhecimento do bem e do mal, remotos antepassados nossos teriam cometido o pecado original, motivo pelo qual temos de sofrer - e muito! - neste mundo (assim interpreta o primeiro livro da Bíblia). Alguns milhões de anos depois, Deus enviou o seu Filho (que é Ele mesmo?!) para redimir (os que nele  crerem) do pecado que assim entrou no mundo e para os “conduzir à vida eterna”.
Dificilmente alguma vez se concebeu uma ideia tão incoerente, disparatada e ofensiva do mínimo sentido de justiça e de lógica! Se não, vejamos:
1) Existindo um Deus pessoal, infinitamente justo, criador e governante moral do Universo, onde intervém sempre que e como lhe parece conveniente 6 - que é o que sustentam tais teologias -, de que modo podemos entender e aceitar que milhares e milhares de gerações de seres humanos, muitos e muitos milhares de milhões de homens e mulheres continuem a sofrer as conseqüências de um fato para o qual não contribuíram, visto não existirem no momento em que esse fato foi - por outros - praticado (lembremos que as Igrejas Cristãs não aceitam a ideia da preexistência das Almas, da Reencarnação e, basicamente, do Karma)? Alguém acharia justo que um juiz nos aplicasse uma pena de prisão e uma multa (com juros e correção monetária, já agora.) por um delito cometido por um antepassado nosso que viveu há - mero exemplo - 100 000 anos atrás? Se tal acontecesse, qualquer cidadão no seu perfeito juízo sentiria a mais profunda revolta, indignação e sentimento de estar a ser alvo de uma injustiça colossal. Decerto, consideraria o juiz (ou, então, o legislador) iníquo, estúpido, monstruoso. Com grande probabilidade, haveriam manifestações de protesto, desacatos, violência. Como, então, admitir que o Legislador e Juiz divino, infinitamente justo e sábio, pudesse ter tal iniqüidade, insensatez e monstruosidade? E como se poderia, ainda assim, dirigir-se-lhe louvores (como os que, supostamente se fazem ou deveriam fazer a um tal Deus)?
Muitas vezes nos interrogamos como é que tais “explicações” podem ser concebidas e aceites, e só encontramos duas razões: o fanatismo retorcido e mal informado de alguns (os inventores de tal história) e a indiferença real do cidadão comum perante qualquer espiritualidade profunda, que de fato não leva a sério e que por isso não questiona - como o faria se estivessem em causa, por exemplo, valores monetários que o afetassem. Aí, e porque a questão lhe importaria, logo vislumbrava a imensidão da injustiça…
2) Se Deus é onipotente e infinitamente bom e faz todas as criaturas como quer, por que concebeu um ser limitado como o ser humano, mesmo no seu estado original de graça? E por que cria seres, como os animais, condenados também ao sofrimento - e, segundo tal teologia, à extinção -, não obstante terem sensibilidade à dor, emoções, sentimentos e até inteligência?
3) A isto, acresce uma infinidade de questões, de que só suscitaremos algumas, e, ainda assim, limitando-nos a deixar as perguntas sem mais comentários: deveria o ser humano permanecer infantilmente sem discernimento próprio, sem ciência (do bem e do mal)? O original do livro do Gênesis 7 fala em um Deus ou em os Elohim (uma pluralidade, uma hierarquia)? E por que, no mesmo livro, ora se fala nos Elohim ora em Jeová (e, ainda, no meio, em Elohim-Jeová)? E a primeira palavra bíblica, ainda no Genesis, palavra essa que é Berasit ou Berasheth significa no princípio (no sentido de, no início, no começo) ou significa Sabedoria (na qual foram criados os Céus e a Terra, etc.)? E como poderia ser Deus infinito e absoluto, se fez surgir mundos e criaturas do nada, (o que quereria dizer) de algo que não Ele próprio? E, por qual explicável e aceitável razão - visto que a Humanidade tem já uma Idade tão longa - Deus não teria desencadeado imediatamente o Seu plano de salvação, e só há apenas dois milênios (depois de incontáveis outros terem decorrido), o Seu Filho veio à Terra (lembremos que os menos de 4000 anos de Judaísmo e os 2000 anos de Cristianismo são uma ínfima fração da História da Humanidade)? Enfim, por que existem textos cosmogônicos e antropogenéticos muito mais antigos do que o Genesis e de que este é um simples resumo mais ou menos confuso?
O segundo Deus
O fato é que existe dor, limitação e falhas no Universo. Por alguma boa razão, os gnósticos cristãos de há cerca de dois milênios atrás - infelizmente considerados como hereges pelo Cristianismo deturpado que depois triunfou - consideravam Jeová como demiurgo de um mundo inferior, imperfeito, recusando a sua identificação com o Pai Celestial referido por Jesus e, menos ainda, com o Absoluto. Pretendiam, esses gnósticos - como Simão, Marcion, Valentino, Basílides e, de algum modo, o próprio S. Paulo -, cortar a ligação com o Jeová ciumento e vingativo que aparece em tantas páginas do Antigo Testamento. (Alguns gnósticos referiam-se a Ilda-Baoth como o criador do nosso globo físico, i.e., a Terra, como se poder ver no Codex Nazareus - o Evangelho dos Nazarenos e Ebionitas, e identificavam-no com Jeová. Ilda-Baoth é o “filho das Trevas”, num péssimo sentido. Para mais desenvolvimentos, cfr. “Ísis sem Véu” e “Glossário Teosófico”, de Helena Blavatsky). Por herético que este conceito hoje possa parecer, é difícil negar que ele encontra acolhimento no Evangelho segundo S. João. Lembremos partes do seu 1o Capítulo: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus… Ele estava no princípio junto de Deus… Ninguém jamais viu a Deus”. Ora, este Deus Supremo, que “ninguém jamais viu”, não pode ser o Jeová visto e descrito no Velho Testamento.
“Pronunciou Jesus, alguma vez, o nome de Jeová? Alguma vez pôs ele em confronto o seu Pai com esse Juiz severo e cruel; o seu Deus de misericórdia, amor e justiça, com o gênio judeu da retaliação? Jamais! Desde o memorável dia em que pregou o seu Sermão da Montanha, um imensurável vazio se abriu entre o seu Deus e aquela outra divindade que fulminava os seus mandamentos de uma outra montanha - o Sinai” 8 9.
Em qualquer caso, sempre os filósofos mais ilustrados se recusaram a identificar o Demiurgo com a Divindade Suprema, tendo ficado célebre a denominação que lhe foi dada por Filon : o segundo Deus.
O problema do mal acima mencionado tem perturbado alguns dos mais notáveis pensadores - veja-se, por exemplo, a preocupação de Leibniz 10 em tentar demonstrar que Deus tudo fez da maneira mais desejável, não podendo ter feito melhor.
Ainda o referido problema acabou por conduzir mesmo alguns honestos buscadores da Verdade a uma posição de ateísmo (ou, pelo menos, de agnosticismo).
A Ciência Oculta reconhece a incompatibilidade entre o fato de existir um Universo sublime e extraordinariamente ordenado, mas imperfeito, e a ideia de que tenha sido criado por um Deus Absoluto. Sustenta, aliás, que o Absoluto não poderia conceber nem criar (pelo menos, diretamente) o relativo e condicionado e, menos ainda, algo de externo a si; a Criação a partir do nada, suporia acrescentar algo ao Absoluto, o que é insustentável. Não obstante, o Ocultismo não é agnóstico (é por isso que é Ciência) e tão pouco é ateísta - exceto no sentido de rejeitar as concepções antropomórficas do Divino.
Várias acepções de divino
O Esoterismo associa a ideia de Divindade a três níveis fundamentais, que indicamos em seguida, de forma sucinta:
I). Um Princípio Universal, Impessoal, Ilimitado, Inominado e Inefável, absoluto Ser e não-Ser (bem como Consciência absoluta, e absoluta Inconsciência de qualquer coisa limitada), porque o seu único atributo é Ele mesmo. É Causa incausada, infinita e eterna; a Realidade Una e Absoluta, anterior e transcendente a tudo o que é manifestado ou condicionado.
Estamos perante o Parabrahman (ou, ainda, o Brahman Supremo, o Brahman Indiviso ou o Brahmam Nirguna, i.e., sem atributos) dos vedantinos, o Ain Soph dos cabalistas, o Deus Supremo Ignoto dos antigos gregos, o Deus Imanifestado ou Transcendente de uma teosofia cristã. Em última instância, porém, o uso da palavra “Deus” (mais a mais, atendendo ao sentido que vulgarmente lhe é dado) é equívoca. Aquilo a que se alude aqui não é a Deus ou a um Deus mas sim ao Espaço Infinito e Ilimitado, de onde tudo desponta, o Grande “Contendor”, o Arik-Anpin (o nome dado, neste sentido, ao Universo pelos cabalistas) - aquilo que Sempre é, foi e será, ainda que todos os mundos existentes desapareçam 11 12.
II) A 2a proposição da Doutrina Secreta 11 refere-se aos “Universos inumeráveis manifestando-se e desaparecendo… como o fluxo e o refluxo periódico das marés”.
Temos, deste modo, os Logos Criadores que, emanando ou radiando da Realidade Una e Imanifesta, se tornam a Divindade Manifestada e Imanente de um Universo - desde o Ser Supremo do Cosmos total aos Logos Solares ou, ainda, aos Logos Planetários. Cada um destes Seres pode ser considerado o Deus, o Brahman Inferior ou o Brahman Saguna (i.e., com qualidades) ou Ishvara do Seu próprio Universo, do qual é o mais elevado Espírito. Cada um destes Seres é o Demiurgo na esfera do Seu próprio Cosmos.
Entretanto, a referência a o Logos ou Demiurgo é, também ela, uma simplificação. O Logos é o mais elevado Hierarca de um Sistema ou Cosmos 13, i.e., o vértice superior de uma Hierarquia, de uma Legião, de um vasto conjunto de Criadores.; o Demiurgo expressa uma coletividade abstrata de Construtores.
A “Doutrina Secreta”, diz Helena P. Blavatsky, “admite um Logos, ou um Criador coletivo do Universo; um Demiurgo, no mesmo sentido em que se fala de um Arquiteto como Criador de um edifício; muito embora o Arquiteto nunca houvesse tocado em uma pedra sequer, mas simplesmente elaborado o plano, deixando todo o trabalho manual ao cuidado dos operários. No nosso caso foi, o plano, traçado pela Ideação do Universo, e a obra de construção entregue às Legiões de Forças e Potestades inteligentes. Mas aquele Demiurgo não é uma Divindade pessoal, isto é, um Deus extra-cósmico imperfeito, e sim a coletividade dos Dhyân-Chohans e das demais forças”.
Esta era igualmente a concepção de Platão. Ao referir-se ao Demiurgo, não pensava ele em um ou o Deus (ainda que, por vezes, certas traduções e interpretações, incapazes de se apartar dos preconceitos culturais e religiosos de hoje, pareçam fazer supor que sim). Com efeito, “Há que sublinhar o caráter politeísta do conceito de divindade que Platão nos apresenta no Timeu: a divindade é participada por vários deuses, cada um dos quais tem uma função e domínio próprios, sendo o demiurgo tão só o seu chefe hierárquico”; “Não há aqui qualquer sinal de monoteísmo: na crença da divindade está a crença nos deuses: a divindade é participada igualmente por um número indefinido de entes divinos, dos quais os mais elevados têm nos astros os seus corpos visíveis (Leis, 899-a-b)” 14.
A distinção entre o Divino Imanifestado e o surgimento do Demiurgo no plano de transição do manifestado/Imanifestado 15, justificam a sua já referida designação como “Segundo Deus”, que “é a Sabedoria do Deus Supremo” 16.
O Demiurgo forma o Cosmos do Caos. É o vórtice que actua na Substância Pré-Cósmica (na Raiz da Substância, ou Mulaprakriti, como a denominam os vedantinos) e que a activa, despertando-a para a existência Cósmica. O Eterno Pensamento Divino Absoluto, no Imanifestado, volve-se em Ideação Cósmica, com o Plano concreto para um Universo. A Mente Cósmica vem então à existência - passa da potência ao acto -, porque despertam os Ah-Hi 17, os Dhyan-Chohans 18, os deuses, as Potências Criadoras, os Filhos Radiantes da Aurora Manvantárica, as Estrelas que exsurgem das Trevas Primordiais e que passam a ser a substância e o continente dessa Mente Cósmica 19 ou Alma Universal 20 ou Sofia ou Ennoia-Ofis 21 ou Binah 22 …
Damos novamente a palavra a Helena Blavatsky, em dois excertos da sua obra principal: “O Caos, segundo Platão e os pitagóricos, tornou-se a Alma do Mundo. O Primogênito 23 da Divindade Suprema nasceu do Caos e da Luz Primordial, o Sol Central. Esse Primogênito não era, contudo, senão o agregado da Legião dos Construtores, que as teogonias antigas chamavam de Antepassados, nascidos do Abismo ou Caos e do primeiro Ponto”; “As diferentes cosmogonias mostram que a Alma Universal era considerada por todas as nações arcaicas como a Mente do Demiurgo criador; e que era chamada a Mãe, Sofia ou a Sabedoria feminina, pelos gnósticos; Sephira pelos Judeus e Sarasvati ou Vâch pelos hindus - sendo também o Espírito Santo um princípio feminino.”
O Universo é construído de acordo com os modelos dos Eide ou Ideias a que se referia Platão, e das quais o Demiurgo - a coletividade de Inteligências Espirituais que o integram - se serve para ordenar a Substância e transformar o Caos em Cosmos. Assim, o Demiurgo é o agente das Leis Divinas que regem o Universo.
III) Cada um dos Dhyâni Chohans, Inteligências Divinas, Potências Criadoras - ou deuses, por outras palavras - que, como dissemos, integram coletivamente o Demiurgo, o Logos, o Verbo Criador do Pensamento Divino, colaborando na construção, sustentação e direção de todo o Universo objetivo, de cada uma das suas formas, de cada um dos seus átomos. Assim, todas as Entidades, no seu próprio plano de raiz divina - como deuses -, integram uma das grandes Hierarquias Criadoras, em que as Mónadas Humanas, os Homens Divinos se incluem. O Universo existe (ou é) trans-temporalmente no Pensamento Divino mas vai-se executando num longo devir, através do concurso de todas as unidades de vida divinas (as realidades íntimas de todas as existências) que vão progredindo, em graus cada vez mais elevados, através da ativação da sua inteligência criadora latente. E todos somos co-responsáveis em tornar o Universo mais perfeito.
Os Dhyâni-Chohans ou Hierarquias Criadoras são mencionados nas tradições mais ocidentais (e, sem muito rigor, chamadas “monoteístas”) como Filhos de Deus, Homem Primordiais, Elohim, Anjos (diferentes dos lamentáveis e abusivos tratamentos que lhes são dados em literatura recentemente muito vulgarizada), Arcanjos, Tronos, Virtudes, Potestades, Dominações, Principados, Querubins, Serafins, Potências, Degraus, Anuphaim, Sete Espíritos diante do Trono, Anciãos, etc.
O Demiurgo e a Substância
O Ocultismo afirma a eternidade da Matéria, ou antes, da Substância, ou melhor ainda, do Espaço que é a sua matriz e essência supersensível. “A matéria é tão indestrutível e eterna como o próprio espírito imortal, mas (…) não como formas organizadas”(11). Reproduzimos aqui perguntas endereçadas a dois grandes Sábios e as respostas que estes deram: “Qual é a única coisa eterna no universo, independente de outras coisas? O Espaço. Que coisas são co-existentes com o espaço? (I) A duração. (II) A matéria. (III) O movimento, porque este é a vida imperecível (consciente ou inconsciente, conforme o caso) da matéria, mesmo durante o Pralaya 24″ 25. Deve salientar-se, pois, que, para o Ocultismo, não existe tal coisa como Matéria morta. A Vida Una e Onipresente “… não só penetra mas é a essência de cada átomo da Matéria; e, portanto, ela não apenas tem correspondência com a Matéria mas possui também todas as suas propriedades…” 25. Como também já referimos inúmeras vezes, na concepção Esotérica, a Matéria não é apenas a Substância física que os nossos sentidos apreendem e que as ciências experimentais estudam, visto que existem níveis de substancialidade imensamente mais subtis, numa hierarquia septenária de Planos. Existe, por exemplo, substância ou matéria do Plano Mental… e de outros ainda mais elevados, habitualmente ditos Espirituais (em todos os Planos existem os dois pólos, Espírito e Matéria, interrelacionados, embora em diferentes condições e peso relativo). O que, afinal, a Ciência Oculta afirma é que nada é destituído de substância; que tudo tem, necessariamente, um substratum ontológico; e que o Ser, no nível primevo do Cosmos, é a Essência Una tanto do pólo Espírito, como do pólo Matéria.
Assim, o Demiurgo forma o Universo a partir de uma matéria prima já existente, porque eterna - a chamada criação ex nihil (a partir do nada) não faz sentido, porque nada pode ser nada, porque o nada não pode existir, exceto se dermos à palavra nada o sentido de “sem atributos”. Nos níveis inferiores da existência universal a matéria é mais densa, e as Ideias, de acordo com as quais os mundos são formados e evoluem, manifestam-se menos cristalinamente e também são menos elevadas e perfeitas as Potências Criadoras operantes. Como já referira Platão no “Timeu” (a sua principal obra cosmogónica), o Demiurgo não é onipotente: produz o Cosmos tão bom “quanto possível” (30-b) e tem de conformar-se com os efeitos contrários da “necessidade” (47e-48a) - da necessidade da existência condicionada e da necessidade Kármica.
A importância da Cosmogênese Ocultista
Embora, haja quem possa entender árido e inútil abordar as questões mais subtis e profundas da Cosmogênese, a sua compreensão tem implicações incontornáveis nos paradigmas culturais, científicos, religiosos vigentes e que condicionam o mundo.
Por exemplo: a clara noção de uma Ser-dade (Be-Ness, na expressão de H. Blavatsky), como Princípio Absoluto, Incriado e Incriador (de qualquer coisa relativa) e, distintamente, do Logos ou Demiurgo, como “agregado coletivo de todas as inteligências espirituais criadoras” - mas não absolutas nem perfeitas, por isso que se manifestam no espaço e no tempo relativos , evoluindo para patamares cada vez mais amplos e elevados 26, permite encarar o já referido - e dramático - “problema do mal”; torna evidente a realidade da justiça no Universo, já que ele depende do querer coletivo de todos os Filhos do Divino; responde satisfatória e plenamente à pergunta dos cientistas: “Se o Universo é obra de um Deus perfeito e Onipotente, como é que a Natureza parece revelar tentativa e erro, ou seja, tentativas falhadas?” (V., exemplificativamente, “Cosmos”, de C. Sagan); põe termo às perguntas “Deus existe?”, “Crê em Deus ou não?” e “Se Deus criou tudo, quem é que criou Deus?”, porque a resposta seria evidente e as perguntas descabidas e sem sentido: O Ser (o Espaço no sentido mais radical e profundo) é eterno e necessário.
José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural
1 Seja o mal físico, metafísico ou moral.
2 O Senhor Buda Siddharta Gautama referia-se aqui, naturalmente, a uma Divindade pessoal ou distinta do Universo, concepção que rejeitava. Porém, tinha TAT - O Absoluto Incognoscível em si mesmo - como pressuposto incontornável. O Budismo é às vezes considerado ateísta (somente) por recusar a existência de um Deus mais ou menos antropomórfico; e, nesse sentido, tal recusa é bem compreensível e louvável.
3 Parte do que aqui escrevemos havia por nós sido expresso na série de conferências que deu origem ao livro “Para um Mundo Melhor” (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 1997).
4 A título meramente exemplificativo, cfr. “História da Filosofia” de Humberto Padovani e Luís Castagnola, obra com Nihil Obstat, Imprimi Potest e Imprimatur.
5 As três “Pessoas” da Santíssima Trindade. Confunde-nos muitíssimo a frase muito repetida, nas Igrejas Cristãs, que Deus é uma Pessoa. Uma Pessoa!!!…
6 Se intervém, se precisa de intervir, é (seria) porque a Ordem que dispôs não é perfeita…
7 O primeiro da Bíblia.
8 In “Ísis sem Véu”, de Helena Blavatsky (Ed. Pensamento, S. Paulo, 1990).
9 Nem a autora destas palavras nem nós deixamos, entretanto, de ter profundo respeito pelo conhecimento oculto - cabalístico - existente no seio do Judaísmo.
10 Cfr. “Discurso de Metafísica”. Leibniz (1646-1716) foi indiscutivelmente uma das maiores inteligências da moderna civilização ocidental. Como faz notar Helena Blavatsky, conciliando o seu sistema com o de Spinoza (e abstraindo dos eufemismos a que a ditadura ideológica da época os obrigava), têm-se muitas das noções fundamentais do Ocultismo.
11 Cfr. “A Doutrina Secreta”, de Helena P. Blavatsky (Ed. Pensamento, S. Paulo, 1973).
12 Tratámos também desta temática, mais amplamente do que neste artigo, no nosso livro “Transcendência e Imanência de Deus” (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2001).
13 No pequeno Cosmos que é o homem, o (seu) Logos é o 7o Princípio (Atman; o Espírito, a Vontade Espiritual); Cfr. “Consciência e Imortalidade”, de Subba Row (Ed. Kier, Buenos Aires, 1994).
14 “História da Filosofia, Vol. I” de Nicola Abbagnano (Ed. Presença, Lisboa, 1976)
15 . Nível ou momento por vezes identificado com o 2o Logos. Cfr. “The Divine Plan”, de Geoffrey Barborka (Theosophical Publishing House, Adyar, 1964) e “Transactions of the Blavatsky Lodge” (The Theosophy Company, Los Angeles, 1987).
16 Filon, “Quoest, et Solut”.
17 Ah-Hi - Dragões da Sabedoria ; Dhyan-Cohans.
18 Dhyan-Chohans - “Senhores da Luz” ou “Senhores da Meditação Profunda”. As Inteligências Divinas encarregues da construção e superintendência do Cosmos.
19 Mahat, em sânscrito.
20 Ou Anima Mundi.
21 Entre alguns Gnósticos, nomeadamente Basílides e os Ofitas.
22 Binah - Uma das Três Supremas da Árvore da Vida. Entendimento, Inteligência, Leis regentes do Universo. Chamada o Grande Mar e a Mãe Suprema ou Grande Mãe e equivalente a Sofia.
23 Quando São Paulo falava de Cristo como o “primogênito” referia-se ao Logos, ao Cristo Cósmico. Há uma analogia precisa entre o Macro e o Microcosmo. O Homem Espiritual vem a ser o Logos dos seus veículos. Lembremos outra frase de Paulo: “Cristo em nós, esperança de glória”.
24 Pralaya - um Período de noite ou repouso cósmico, total ou relativo. O contrário de Manvantara (período de actividade cósmica).
25 “Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett” (Ed. Teosófica, Brasília, 2001)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

DEUSES, ÍDOLOS E DEMÔNIOS

Quase todos nós fomos educados na convicção de que, com a única excepção, e mesmo assim parcial, dos judeus, todos os povos da Antiguidade pré-cristã eram idólatras. É-nos ensinado que adoravam falsos deuses e que acreditavam que os ídolos de pedra (ou de representação pictórica) eram as próprias divindades. É deste modo que se nos apresentam os antigos gregos, os antigos romanos, os antigos egípcios, os antigos caldeus e todas as civilizações arcaicas (e é assim que, ainda hoje, alguns pretendem, grosso modo, caracterizar as subsistentes religiões orientais). Depois, acrescenta-se, veio a luz claríssima do Cristianismo, completando a promessa do Antigo Testamento e trazendo a religião perfeita, e desapareceu a idolatria, bem como a superstição e as crenças insensatas e cruéis.
Mas… terá sido mesmo assim?
Idolatria de Ontem e de Hoje
Não podemos, certamente, negar que, na Antiguidade, pessoas incultas e irreflectidas tenham acreditado em superstições absurdas ou abomináveis. O mesmo se verifica nos nossos dias, tanto nos países católicos, como nos de maioria dita “protestante”, como na mescla que são os Estados Unidos da América; na Índia como no Islão; na China, como em África ou na América do Sul - ou onde quer que habitem seres humanos. A zoolatria, por exemplo, existiu e existe; mas, perguntamos, que diferença existe em cultuar ou reverenciar o cordeiro e a pomba dos cristãos ou a vaca, a íbis, o gato ou… as serpentes-dragões? Na verdade, a nosso ver, inexiste qualquer diferença. A única distinção relevante é a de se entenderem - ou não - os símbolos que subjazem a cada uma dessas formas animais incluídas nas religiões ou mitologias dos povos. Compreendidos, revelam um mundo maravilhoso e sapientíssimo de significados; de outro modo, são objecto de crenças e cultos sem sentido ou de explicações superficiais de quem é incapaz de decifrar os mistérios que velam.
Voltemos, entretanto, à questão: eram os povos da Antiguidade simples idólatras, que acreditavam que, por exemplo, estátuas de pedra eram elas-mesmas divindades? A nossa resposta só pode ser esta: não eram mais (talvez fossem menos) idólatras (no sentido que a palavra adquiriu) do que milhões de cristãos do nosso tempo, cujas igrejas estão repletas de imagens.
Ídolos, Imagens…
Imagens… Ah, sim, pode dizer-se: mas nas Igrejas cristãs há imagens e ninguém pensa que essas imagens são o próprio Deus, Jesus, Maria, os santos, os anjos. São unicamente imagens representativas.
Na realidade, em tantos casos, não é assim: estátuas e outras representações são tocadas para obter favores, desde a boa fortuna ao casamento ou à gravidez. Fixemo-nos, contudo, na ideia de simples imagens representativas.
Assim sendo, os ídolos dos Antigos não eram mais nem menos do que isso. A nossa palavra “ídolo” vem do latim Idólus, que, por sua vez, deriva do Grego Eidolon. E o que significava Eidolon? Justamente… imagem 1.
Os crédulos e irreflectidos daquele tempo tomavam - e continuam hoje a tomar - a imagem representativa pela própria realidade. Os mais sábios e conscientes sempre reprovaram a superstição, acima da qual procuravam elevar os outros. As palavras de Xenófanes ou de Platão, nesse sentido, são alguns entre muitos exemplos da postura dos grandes Conhecedores da Antiguidade.
Satiricamente, escrevia Xenófanes:
“Há um Deus Supremo acima de todos os deuses,
mais divino que os mortais /
Cuja forma não é parecida com a dos homens, como também não é semelhante a sua natureza; /
Mas os fúteis mortais imaginam que, como eles mesmos, os deuses são procriados /
Com sensações humanas, com voz e membros corpóreos. /
Dessa forma, se os bois ou os leões tivessem mãos e pudessem trabalhar à moda dos homens, /
E pudessem esculpir com cinzel ou pintar a sua concepção da divindade, /
Então os cavalos retratariam os deuses como cavalos, os bois os representariam como bois, /
Cada tipo de animal representaria o Divino, com a sua forma, e dotado com a sua natureza” 2.
O Divino reconhecido por Xenófanes, “esta única divindade, identifica-se com o Universo, é um deus-tudo” 3.
Para Platão 4 “… a pior aberração é a superstição dos que crêem que a divindade possa ser propiciada com dons e ofertas: esses põem a divindade a par dos cães que, amansados com presentes, deixam depredar os rebanhos, e até abaixo dos homens comuns, que não atraiçoam a justiça aceitando presentes oferecidos com intenção delituosa” 3.
Entretanto, os monoteístas 5 fanáticos pisotearam o conhecimento dos sábios da Antiguidade 6 e colaram-lhes o selo da ignorância, fingindo desconhecer que a compreensão desses sábios era bem diferente da superstição dos homem crédulos (de todos os tempos). Para o engrandecimento das novas “fés” - cujos seguidores eram e continuam a ser tão ignorantes, supersticiosos e manipuláveis como o povo inculto da Antiguidade -, afirmaram capciosamente que, para os “pagãos”, os eidola (ídolos) não eram simples imagens ou representações mas, sim, a(s) própria(s) divindade(s). Essa falsidade continua a ser repetida incessantemente até hoje.
Demónios?
O mesmo aconteceu com os daemones. Com a sua cegueira e intolerância (essa, sim, demoníaca no pior dos sentidos), os fanáticos do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo só puderam ver entidades diabólicas nos daemon ou daimónion dos sábios dos tempos áureos da Grécia Antiga (e de Alexandria, dos neoplatónicos, etc.). “Demónio” deriva, justamente do grego daimónion, da raiz daemon. No entanto, daemon não significava (necessariamente) uma entidade maligna. Mais frequentemente aludia a um ser diáfano, de formas mais subtis e consciência mais elevada - e, para os mais esclarecidos, o próprio ser espiritual, a natureza mais excelsa do Homem. É em conformidade com esta acepção que, por exemplo, Plutarco, no seu ensaio “Sobre o Daemon de Sócrates”, escreveu: “O nous de Sócrates era puro e não estava misturado com o corpo mais do que a necessidade exigisse. Toda a alma possui alguma parcela de nous, de razão; um homem não pode ser um homem sem ela (…). Cada alma não se mistura de uma única maneira; algumas mergulham no corpo e, assim, durante essa vida, os seus corpos são corrompidos pelo desejo e pela paixão; outras estão parcialmente misturadas mas a parte mais pura [nous] permanece sempre fora do corpo. Ela não mergulhou no corpo mas paira 7 acima dele e cobre 8 a parte mais extrema da cabeça do homem; ela cumpre o efeito de uma corda que sustentaria e dirigiria a parte rebaixada da alma, enquanto esta for obediente e não se deixe dominar pelos desejos da carne. A parte que mergulhou no corpo é chamada de alma; mas a parte incorruptível é chamada nous, e o vulgo pensa que ela está neles, como também imagina que o ser cuja imagem se reflecte num espelho está realmente naquele espelho. No entanto, os mais inteligentes, que sabem que ele está fora, chamam-no Daemon.” - “um deus, um espírito” 9.
Valerá a pena aqui referir que o notável filósofo judeu Filon, em “Sobre os Gigantes”, era bem mais lúcido do que “legiões” de fanáticos das religiões ocidentais, ao escrever que “Aos seres que os filósofos de outros povos distinguem pelo nome de demónios [daemones], Moisés chamava anjos”. De facto, Filon tinha nascido em Alexandria e estava imbuído de concepções pitagóricas, platónicas e estóicas, ainda que moldando-as à religião judaica…
Conclusão
Concluímos que é geralmente sinal de ignorância tomar uma religião ou uma cultura em particular como se fosse um modelo universal, e diabolizar aquilo que outras culturas, filosofias e religiões cultuam como divino ou a que prestam reverência e reconhecem razão de ser. Pelo contrário, seria bom que reconhecêssemos a Ciência Espiritual onde quer que ela se tenha manifestado e que expandíssemos os horizontes da nossa compreensão. Entretanto, para que tal aconteça plenamente, é preciso descartar a ideia de que alguma religião (por exemplo, o Cristianismo) é um caso único e especial, uma Revelação pura vida do próprio Deus - se tal Deus pessoal existira… -, sem linhagem e sem conexão com todo o património da Sabedoria Universal.
Nesta mesma revista, em outro artigo 10, falaremos da colectividade de potências criadoras ou deuses (ou Dhyan-Chohans) que constituem o Demiurgo do Universo. Referindo-se-lhes (e tendo em consideração o universo sublime, mas com imperfeições, que construíram), escreveu Helena Blavatsky: “… por muitas que sejam as provas de existir uma Inteligência directora por trás do véu, nem por isso deixa de haver defeitos e lacunas, remontando muitas vezes em insucessos evidentes; segue-se que nem a Legião colectiva (Demiurgo), nem qualquer das Potências que actuam, individualmente consideradas, comportam honras e cultos divinos. Todos têm, no entanto, direito à reverência e gratidão da Humanidade; e o homem deve sempre esforçar-se por ajudar a evolução divina das Ideias 11, tornando-se, na medida dos seus recursos, um colaborador da Natureza na sua tarefa cíclica. Só o incognoscível Karana, a Causa sem Causa de todas as causas, deve ter o seu santuário e o seu altar no recinto sagrado e inviolável do nosso coração; invisível, intangível, inominado, salvo pela voz tranquila e silencios da nossa consciência espiritual”.
1 Cfr. “Termos Filosóficos Gregos”, de F. E. Peters. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2aed., 1983
2 Este trecho de Xenófanes foi preservado por Clemente de Alexandria, um dos melhores e mais ilustrados dos cristãos dos primeiros séculos da nossa Era, na sua obra “Sromata”. Clemente incorporou no Cristianismo muitos elementos da filosofia grega (o seu pendor era neoplatónico), chamou-se a si mesmo um ecléctico - foi discípulo do grande Amónio Saccas -, mencionou respeitosamente Buddha e, naturalmente, foi em certos momentos atacado como herege. Quanto a Xenófanes (c. 580 a 488 A.C.), foi o iniciador da escola eleática, em que se vieram a destacar o grande Parménides e Zenão, e pôs grande parte da sua tónica na unidade do Ser.
3 Cfr. “História da Filosofia, Vol. I”, de Nicola Abbagnano (Editorial Presença, Lisboa, 1976)
4 Embora possa ser vulgar, numa cultura medíocre, menosprezar Platão (428-347 A.C.) - seja pela via da alusão ao “amor platónico”, num sentido banal que aquele filósofo nunca lhe pretendeu dar, seja considerando-o como destituído de objectividade -, a história tem-no justificado continuamente. Esperamos, em próximo artigo, demonstrar como, desde a Renascença até aos modelos interpretativos da Ciência contemporânea, o fio da tradição pitagórica e platónica provou as suas extraordinárias potencialidades. Foi redescobrindo essa tradição, nomeadamente na sua ênfase matemática e geométrica, que a pintura e a arquitectura progrediram colossalmente nos Sécs. XIV e XV; que a ciência moderna surgiu à luz do dia (Copérnico, Kepler e Galileu, por exemplo, inspiraram-se nesse legado. Aliás, muito antes, Arquimedes, Aristarco de Samos e Eratóstenes haviam feito o mesmo. Permita-se-nos recomendar o livro de Alexandre Koyré “Galileu e Platão”, Gradiva, Lisboa); que os mais notáveis filósofos da Idade Moderna deixaram as suas obras grandiosas - veja-se Giordano Bruno, um mártir da Liberdade, do Bem e da Verdade, veja-se Spinoza, com a sua “Ética… demonstrada à maneira dos geómetras”, veja-se o respeito e o interesse de Leibniz, Descartes e Kant pela matemática. As portas da Academia Platónica só eram franqueadas a quem conhecesse geometria; os pitagóricos haviam desenvolvido a matemática. E esta é hoje o grande instrumento da Física nas suas investigações e formulações de leis. Muito antes ainda, os neoplatónicos e neopitagóricos constituíram as luzes maiores da Era Cristã, pelo menos nas chamadas (sem muito rigor) civilização e cultura ocidentais. Recordemos que Platão se imbuiu de grande parte das ideias pitagóricas e que estas têm as suas raízes no Egipto e na Índia. Há um fio dourado de Sabedoria que perpassa todos os tempos e latitudes, mesmo nas circunstâncias mais adversas.
5 Também fomos normalmente educados no pressuposto da superioridade das religiões ditas monoteístas: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Na realidade, foram e são estas as mais intolerantes, separatistas, tantas vezes sanguinárias e que, constituindo réplicas mais ou menos desvirtuadas de outras com maior antiguidade, perderam em inúmeros aspectos as referências originais de onde ramificaram. Aliás, não é rigorosa esta divisão, comum na vigente catalogação cultural, entre religiões monoteístas e politeístas. Em boa verdade, qualquer religião digna desse nome é ambas as coisas (monoteísta e politeísta): também são monoteístas as religiões arcaicas, com o Uno inominável acima de todas as potências criadoras e operantes (deuses), e também são politeístas o Judaísmo, o Cristianismo e até o Islamismo com os seus anjos, arcanjos, querubins, serafins, tronos, etc. (e, no caso do Judaísmo, com o Jeová ciumento dos outros deuses), para já não falar nos santos e na Virgem Maria, tão semelhante, na formulação dogmática católica, à deusa egípcia Ísis, a Devaki (Mãe de Krishna), à rainha Maha-Maya, mãe de Buddha, e a todas as mães divinas da Antiguidade. O Ocultismo congraça o Monoteísmo e o Politeísmo, afirmando que “Há uma só vida, que integra inúmeras Vidas” ou “Tudo quanto existe, existe num Ser maior”. Sobre este tema, cfr. o que escrevemos no o 10 da Biosofia na secção “Entre o Céu e a Terra” e o artigo “Demiurgo” na presente edição.
6 Sobre a destruição da grande parte do património da Sabedoria acumulada (e precipitada em obras) por gerações sucessivas de sábios da Antiguidade, destruição essa perpetrada pelos fanatismos “cristão” e “islâmico”, cfr. os os 15 e 16 (sobretudo este último) da “Biosofia”, especificamente no artigo “Cristo”.
7 Para tornar mais claras as afirmações de Plutarco à luz da Sabedoria Oculta, nada melhor do que as palavras contidas nas “Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett” (Ed. Teosófica, Brasília, 2001): “… Nem Atman nem Buddhi jamais estiveram dentro do homem - um pequeno axioma metafísico que você pode estudar com proveito em Plutarco e Anaxágoras. Este último fez do seu Nous autokrates o espírito poderoso por si mesmo, o nous que era o único a reconhecer noumena, enquanto Plutarco ensinava, com base em Platão e Pitágoras, que o demonium ou este Nous sempre permanecia fora do corpo…”, etc. Lembremos que, no septenário dos princípios humanos, Buddhi (Intuição, Razão Pura) e Atman (Espírito, Vontade Espiritual), contando desde baixo, são, respectivamente, o 6o e o 7o Princípios - isto é, os dois superiores. No mesmo sentido, cfr. ainda o livro “Luzes do Oculto” (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 1a ed.,1998; 3a ed., 2001), especificamente a resposta o 15.
8 No sentido do adombrer francês.
9 Esta oportuna adição explicativa às palavras de Plutarco foi feita por Helena Blavatsky, na sua magnífica obra “Ísis Sem Véu” (Vol. III da edição brasileira; Ed. Pensamento, S. Paulo, 1990), ao citar aquele autor.
10 “Esoterismo de A a Z”.
11 Helena Blavatsky faz aqui uma alusão à filosofia platónica, que ela tanta apreciava, como expressamente escreveu, desde logo, no início do seu primeiro livro (o já citado “Ísis sem Véu”). Segundo Platão, a criação demiúrgica era feita em obediência aos modelos das Ideias ou formas (Eide, plural de Eidos), existentes na Mente Cósmica, no Universo Inteligível (Kosmos Noetos). Dizia ele que os deuses eram “amigos dos eide”.
12 In “A Doutrina Secreta, Vol. I” (Ed. Pensamento, S. Paulo, 1973).
José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

SÓLIDOS PLATÓNICOS

É hoje relativamente corrente a afirmação axiomática de que “a substância do Universo é ‘mental’”. O Universo é a substanciação ou objectivação de um portentoso Pensamento (sob um ponto de vista religioso, o Pensamento Divino), que gera formas de acordo com uma Ordem pré-estabelecida. Podemos, assim, repetir, à maneira platônica: “Deus Geometriza.”.
Em vários dos seus escritos (1), Helena P. Blavatsky, a grande pioneira do moderno movimento teosófico e esotérico, refere-se às sete chaves necessárias para abrir completamente a porta dos Mistérios (devendo cada uma dessas chaves girar sete vezes), entre elas incluindo a geométrica e numérica.
A  luz dos pressupostos acima enunciados, pode caber a noção de que os números são a própria essência do Universo e de que a sua relação constitui a estrutura (o esqueleto) arquitetural desse mesmo Universo. Eles contêm a medida exata das potências geradoras do Aspecto “Forma”, ou seja e em suma , da Geometria, dentro da Suprema Ordem Matemática do Cosmos.
Neste número da rubrica “Arquiteturas”, propomo-nos aduzir elementos significativamente representativos desta última asserção, detendo-nos nos 5 únicos sólidos facetados regulares existentes e possíveis na Natureza, os quais encerram profundos significados simbólicos e cosmogônicos. Abordaremos mais definidamente alguns aspectos respeitantes ao Cubo, justificando-se, também, uma especial consideração da simbologia do Dodecaedro, que representa o expoente máximo da Manifestação na Natureza.
Na Antiguidade (2), estas temáticas (incluindo, basicamente, as propriedades ocultas dos números) integravam o estudo e preparação do Candidato aos “Mistérios”. Os referidos poliedros (por vezes, ainda hoje, nomeados “Sólidos Platônicos”) eram tidos como símbolos visíveis e demonstrativos da Orgânica do Universo e, bem assim, das diferentes fases da Evolução do Ser na sua peregrinação pelos Mundos da Manifestação. Também os Caldeus, que tinham no topo da sua Hierarquia governativa os Reis-Sacerdotes ou Magos, da mesma forma como a Teocracia do Antigo Egipto, veneravam e custodiavam tais Segredos da Natureza. Aliás, utilizavam mesmo esse Conhecimento Sagrado no mundo externo para gerir os respectivos Reinos e assentar os fundamentos civilizacionais - numa base mágico-científica fiel aos arquétipos superiores -, objetivando harmonicamente a sua sintonia com o Plano Natural e Divino.
Através do (re)conhecimento de certas leis, propriedades e significações da Geometria, franqueiam-se as portas para um conhecimento mais vasto, dando acesso às chaves das Leis Maiores e Ocultas da Natureza, as Leis Arquetípicas que governam o Macro e o Microcosmo.
Esses sólidos regulares (convexos) são, como se sabe, o Tetraedro, o Cubo (Hexaedro), o Octaedro, o Dodecaedro e o Icosaedro. Apresentamos em seguida um quadro com as características elementares dos mesmos:
Alinharemos agora um conjunto de premissas visando fornecer importantes dados da antiqüíssima Tradição e Cosmogonia dos Hindus, as quais nos permitirão fazer algumas curiosas correlações com o significado simbólico encerrado nos poliedros regulares:
- A soma de um “Dia e Noite de Brahmâ” é o equivalente a 8.640.000.000 anos terrestres;
o Uma “Idade de Brahmâ” é uma centena de “Anos Divinos”, ou seja, 311.040.000.000.000.000 de anos terrestres;
- Cada um desses “Anos Divinos” corresponde a 360 “Dias de Brahmâ”;
- A soma de “Anos Divinos” dos 4 Yugas ou “Idades do Homem” é de 12.000 (ou seja: Kryta ou Satya Yuga = 4.800 anos; Tretâ Yuga = 3.600 anos; Dwâpara Yuga = 2.400 anos; Kali Yuga = 1.200 anos (5)), o que equivale a 4.320.000 anos dos mortais;
- Um “Ano de Brahmâ” (ou Divino) é igual a 3.110.400.000.000.000 anos terrestres.
A soma dos graus dos ângulos da totalidade dos sólidos fundamentais - que, no seu conjunto, representam a estruturação arquitetônica do Universo - é 14.400 (repare-se que um dos seus múltiplos, é o número 144.000 referido no Apocalipse, XIV, 1). Este valor multiplicado por três é igual a 43.200 - a centésima parte de um composto dos 4 Yugas. Registramos também que 14.400 é equivalente a 40 “Anos Divinos”. E, por seu turno, 40 é a medida de uma decantação ou purificação: 40 “dias filosóficos” designam um período de purgação alquímica; 40 foram os dias passados por Moisés no Sinai; o Dilúvio - ou “purificação pelas Águas” - teve a duração de 40 dias; é, ordinariamente, de 40 dias o tempo estimado para qualquer “quarentena”, por exemplo, depois de um surto epidêmico; também, tradicionalmente, 40 são os dias de luto ou de “oferenda de purificação” pelo defunto; os hebreus permaneceram 40 anos no Deserto antes de se tornarem merecedores de entrar na “Terra Prometida”; Jesus jejuou 40 dias; a Quaresma tem a duração de 40 dias e culmina com a “Ressurreição” ou “Renascimento espiritual”.
De acordo com a divisão septenária presente em todo o Universo, também  “Ano Divino” se pode desdobrar em 7 Grandes Ciclos (ou, também chamados, “Grandes Dias”) e suas sucessivas subdivisões septenárias (temos, assim, as 7 Cadeias de um Esquema Planetário, as 7 Rondas de uma Cadeia, os 7 Períodos globais de cada Ronda, as 7 Gerações ou Raças em cada Período, os 7 Reinos da Natureza, etc.). Podemos simbolicamente figurar aqueles 7 Grandes Dias como a “Semana da Criação”. Nessa conformidade, encontramos a jornada do 6o Dia (6), do Gênesis, no qual o homem foi criado. Assim, temos 360 X 6 = 2.160 - o o de graus dos ângulos do CUBO, ao qual corresponde o Homem, na Criação.
Constatamos igualmente que 2.160 é 1/2 de 4.320. Em média, o coração humano bate 4.320 vezes numa hora e a contagem das respirações dá-nos a cifra de 18 vezes por minuto, o que totaliza 4.320 vezes em 4 horas, e 25.920 vezes num dia.
A soma total de triângulos elementares - equiláteros e isósceles (no caso do Cubo) - contidos nos sólidos correspondentes aos 4 Elementos é 120 + 48 + 24 + 24 = 216 = 33 + 43 + 53, sendo que a progressão desta base 3 / 4 / 5 corresponde ao número de lados dos polígonos que vêm a gerar os 5 Poliedros regulares. Ressalta, primariamente, que a soma de 3 / 4 / 5 é 12, número de faces do Dodecaedro - o contendor da 5a Essência geradora dos 4 Elementos constituintes do aspecto “Forma” do Universo (e o único poliedro regular no qual todos os outros se inscrevem). O Dodecaedro, considerado como o símbolo por excelência da Harmonia Cósmica por Platão (cuja reverência por Pitágoras era bem evidente), representa a amplificação, a três dimensões, da simetria pentagonal e da potência da “Secção Dourada” ou “Número de Ouro”, patentes em todo o Universo Formal (7), e de que esperamos poder vir a falar um pouco mais alargadamente em posterior artigo.
O “Número de Ouro” - 1,618 - é, com efeito, a “Jóia da Geometria” (assim chamado por Kepler no seu “Mysterium Cosmographicum”), a soberana propriedade do Dodecaedro, encerrando a chave de todas as outras propriedades de todos os outros corpos poliédricos “celestes”. Constituem estes 5, pois, em conjunto, a base material, o modelo para todas as formas no Universo Manifestado.
O Cubo
Sustenta a Ciência Esotérica que o Cubo é representativo do Homem - sendo este a cúpula da evolução respeitante ao “Quaternário” ou “Mundos da Forma”-, na sua relação com o Macrocosmo (homogêneo e unívoco, por isso representado pela Esfera).
Entre outras singularidades, verificamos no caso do Cubo que o resultado da soma dos ângulos da totalidade das suas faces é 2160o - exatamente o número que o relaciona com 1 ciclo astronômico da Terra no seu transcurso aparente pelas constelações do Zodíaco (em cada 30o descritos nesse périplo), ou seja, 1/12 do círculo descrito na chamada Precessão dos Equinócios.
Também segundo a Sagrada Ciência, a Lei dos Ciclos de certo tipo de Manifestação Avatárica aponta precisamente (no longo transcurso das Idades, como uma média ou padrão) para o surgimento, em cada um destes ciclos astronómicos, de um Avatar, ou seja, de um Instrutor do Mundo - um Bodhisattva -, a Ponte e o Liame, hipostáticos, entre os Deuses e o Homem. Etimologicamente (em sânscrito), Bodhisatva é aquele que vibra ao ritmo de Bodhi, que está equilibrado, polarizado ou estabilizado em Bodhi (Sabedoria Iluminada, Intuição). É, pois, o protótipo do assim chamado Homem Perfeito, ou Homem Superior, o Mestre dos Três Mundos, aquele que se elevou por inteiro acima da personalidade mortal.
A Cruz Mística
A Cruz é o Septenário. O Cubo “aberto”, volvido em cruz, revela a consumação do Homem: o domínio dos seus Aspectos inferiores, ou Quaternário, e a sua união perfeita entre estes e a Tríade Superior ou Espiritual (que assume o comando). É na intercepção dessas duas Naturezas - constituindo ele a Ponte que assiste, garante e permite o acesso dos reinos inferiores aos mundos celestiais (8) - que o Homem floresce, iluminado.
Postulado pitagórico: “O Homem Perfeito é um Quaternário e um Ternário”. O braço transversal da Cruz simboliza a Tríade Superior ou Espiritual e domina e submete o braço vertical, representativo da Natureza inferior do Homem, o Quaternário de níveis da sua personalidade mortal.
Em todos os Reinos inferiores ao Homem, nos quais ainda se não definiu uma Individualidade, os poliedros contêm triângulos, ou seja, figuras geométricas cujos ângulos são agudos (virados para dentro).
O Homem - ou Cubo - marca o ponto de transição do pólo “Consciência”: os ângulos que definem os quadrados que o constituem são retos (de 90o, pois); por outro lado, os ângulos que se conformam a partir das arestas (diedros) são, também eles, retos. Unicamente quando o homem abdica de si e “morre na cruz” (nascendo para a verdadeira Vida), se abre para o Cosmos e o Infinito - e aí temos, em seqüência, a suprema representação do Dodecaedro (com polígonos de ângulos obtusos, de 108o - outro número de relevante importância na Aritmomancia pitagórica -, e, agora, ângulos diedros também obtusos, ou seja, abrindo-se para fora, expandindo-se para o todo) - o Homem Celeste, que se prolonga e consubstancia nesse Infinito e que é o cumprimento e a identificação plena com a medida do Macrocosmo.
1) Cfr., nomeadamente, A Doutrina Secreta, Ísis Sem Véu e Collected Writings.
2) Designadamente, reportando-nos às origens do Hermetismo Pitagórico e Platónico.
3) Não ignoramos que o Platonismo, nos seus círculos exotéricos, atribuía outras correspondências dos 4 Elementos aos poliedros (o Tetraedro era conotado com o Fogo, o Cubo com a Terra, o Octaedro com o Ar e o Icosaedro com a Água). E essas características e virtualidades foram as que, precisamente, nos chegaram até hoje. Todavia, nos círculos internos, as virtualidades e significações simbólicas mais ocultas dos poliedros eram bem conhecidas e cuidadosamente preservadas.
Dois séculos antes, os pitagóricos ainda eram mais circunspectos a respeito do tema: inclusive, a alusão e mesmo a pronúncia do nome do “Dodecaedro” - o mais sagrado de todos os poliedros, que encerrava as mais importantes chaves numérico-cosmogónicas - eram rigorosamente interditos no “recinto externo”.
4) Akasha ou a “Anima Mundi”. Platão, no Timeu, define a “Alma do Mundo” como a matriz a partir da qual a composição de todas as proporções matemáticas é repercutida no Mundo Sensível por acção da inefável providência de Deus.
5) Curiosamente, neste cômputo das “4 Idades do Homem”, temos a relação 1 / 2 / 3 / 4, matriz da Tetraktys Pitagórica. Relembremos que o Kryta ou Satya Yuga corresponde à Idade de Ouro; o Tretâ Yuga, à Idade da Prata; o Dwâpara Yuga, à Idade do Bronze; o Kali Yuga, à Idade Negra ou Idade do Ferro.
6) Em concordância com esta simbologia numérica, vale a pena referir que, segundo a cosmogonia Etrusca, o Homem foi criado no 6o Milenium. Tal encontra correspondência, ainda, na concepção Egípcia de 6.000 anos (sendo que estes “anos” evidentemente devem ser entendidos como “Idades”) e com a “cronologia” Hebraica - obviamente, na sua figuração exotérica, porquanto a ciência esotérica explica que esses 6.000 anos são “Anos de Brahmâ”. (Ver H.P.Blavatsky, A Doutrina Secreta)
7) O Pentágono regular é a figura real: ela inscreve o Pentagrama Estrelado (a Estrela de 5 Pontas), que contém a chave do “Número de Ouro”, o 1,618.
Esta (assim considerada) “Divina Proporção” - 1,618 - mantém uma íntima relação com a chamada “Música” ou “Harmonia das Esferas”, conceito tão caro a Pitágoras, de cujos fundamentos a ciência renascentista (em especial, Johannes Kepler, outro iluminado “mestre” das ciências matemáticas) retirou - designadamente - a ilação da relação matemática do posicionamento dos Planetas no Sistema Solar. Pitágoras foi também, pelo menos no Ocidente, o pai da Escala Diatónica de 7 tons (com as suas paradigmáticas correspondências com a harmonia da mecânica celeste). Estamos em presença do “Mito de Apolo” tocando a sua Lira heptacórda e presidindo à Harmonia do Complexo Celestial.
Refira-se que a Aritmética, a Geometria, a Música e a Astronomia eram precisamente as ciências obrigatórias dos pitagóricos (as quais os escolásticos designavam Quadrivium, e consideravam ser os “quatro últimos Caminhos das Sabedoria”).
 “Ninguém vai ao Pai senão por Mim”- palavras do Cristo (João, XIV, 6), um exemplo de Bodhisattva - neste caso, da Era de Peixes. Esta afirmação tem um sentido profundo, mais além da interpretação literal e pessoalizada. Refere-se ao Princípio Crístico, mediador entre o Espírito (o Pai) e a Matéria: o Filho de Deus (Alma Espiritual, Atma-Buddhi) e o Filho do Homem (Buddhi-Manas). Lembremos estoutra frase de Cristo nos Evangelhos “Fareis obras maiores do que aquelas que Eu fiz” (João, XIV, 12) ou, ainda, a expressão de S.Paulo “Cristo em nós, esperança de glória” (Colossenses, I, 27).
Isabel Nunes Governo

Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural