sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A Alquimia...


A Alquimia, ao longo dos séculos, sempre assustou e confundiu as pessoas que tentavam compreendê-la. Mas esse era o propósito dos alquimistas. Eles queriam realizar seu trabalho sem correr o risco de serem queimados nas fogueiras da ‘Santa Inquisição’. Muitos alquimistas trabalhavam escondidos em porões e até usavam os subterrâneos das antigas catedrais; alguns eram padres, sacerdotes religiosos e cientistas famosos. Portanto, o encobrir e o iludir faziam parte da alquimia. Além disso, a obra alquímica mexe muito com a nossa alma e por isto nos atemoriza. Outra característica dos alquimistas é o uso das figuras (imagens), o que normalmente desestabiliza o Ego. Os termos alquímicos, desde os mais simples até aos mais complicados, não podiam ser catalogados em um dicionário, pois eram usados com sentidos diferentes, até por uma mesma pessoa. Como fazer, para que matéria inicialmente tão complexa, deixe de sê-la?

Podemos nos imaginar nos dias de hoje fazendo um churrasco dominical e tentando afastar aquelas figuras indesejáveis que perguntam a toda hora se o churrasco está pronto ou mexem na carne que você acabou de virar. A tia que não encontramos desde o Natal, quer saber o segredo do seu molho de alho, manteiga e pimenta do reino. O sobrinho capeta estica o olhar guloso e pergunta sobre o coração de galinha. Para não causar constrangimento nas indiscretas figuras que mais parecem sair de um conto de Nelson Rodrigues ou de Kafka, você responde: “Fui no mercado ‘Estadual dos Produtores Associados Independentes’ e comprei a ‘substância protéica bovina desnaturada’, com cortes ‘longitudinais transcendentes e oblíquos’”. Os chatos se afastam ou vão embora por alguns momentos achando que você é um grande cozinheiro e, você fica livre das desagradáveis companhias.

Na Alquimia aconteceu coisa parecida. Não acredito que os alquimistas estavam em busca de ouro nem do elixir da longa vida. Eram na sua maioria pessoas introvertidas em busca do seu caminho espiritual. Eles queriam ficar em paz sem sofrer perseguição por parte do ‘poder constituído’.

Vamos agora tentar simplificar bastante o ‘processo alquímico’ e tirar deles aquela aura de mistério. Vamos deixar o ‘pano preto’ para os tímidos ou os ignorantes. Ao mesmo tempo olharemos os processos básicos da alquimia com uma visão psicológica, para ver que o evoluir da alma é dolorido, mas no final vale a pena o sacrifício da jornada.

Eles diziam, que deveríamos pegar a ‘prima materia’ (matéria prima) e trabalhá-la de diversos modos até alcançar o ‘Lapis Philosoforum’ (pedra filosofal) e com essa pedra poderiam transformar metais em ouro ou preparar o elixir da longa vida a partir do sereno ou de outros líquidos da natureza. Vocês podem achar que a colocação está muito simples, mas é isso mesmo, ir de A até B; sendo que A é o ‘bruto’ e B o ‘elaborado’. O complicado e o difícil era o caminho de A até B, pois esse era próprio de cada indivíduo. O processo para ir da ‘matéria prima’ à ‘pedra filosofal’ era longo, trabalhoso e cheio de tortuosidades e muitas vezes, acidentado.
Um caminho muito parecido com a busca espiritual dos religiosos. Um caminho muito parecido com o da individuação de Jung. Um caminho muito parecido com o ‘conhece-te a ti mesmo’ dos gregos.

Se formos listar os materiais usados como matéria prima, vamos encontrar mais de 500 nomes e, alguns esdrúxulos com: esterco de vaca, leite de virgem, urina de criança, menstruação de prostituta, etc. A própria pedra filosofal possuía várias denominações conforme o alquimista que escrevia, o século em que viveu ou seu país de origem. Mas no fundo se tratava de transformar algo bruto em um material refinado, o que corresponde a nossa transformação psíquica. Como eu disse, a complicação maior estava nos processos usados para a transformação, agravada pelo uso de nomes em latim. Podemos citar alguns desses processos alquímicos: mortificatio (morte), sublimatio (passar do sólido para o gasoso – sublimação), coagulatio (coagulação), calcinatio (queima), solutio (dissolver com água), putrefatio (decomposição da carne), separatio (separação), coniunctio (união), tinctur (tintura ou união) e daí por diante.
Por outro lado, um grande número de alquimistas afirmava: “as vias usadas no processo são duas e as chamamos de seca e úmida”. A via seca era sempre mais rápida, realizada no Athanor (forno) aberto, com fogo direto, vivo e forte e numa espécie de panela que normalmente era chamada de ‘cadinho’. A via úmida era mais eficaz, porém mais lenta. Normalmente feita em um recipiente fechado que levava o nome de ‘retorta’ ou ‘pelicano’ e cozinhada em fogo brando por bastante tempo. O forno também era fechado e muito maior do que na via seca. Podemos perceber no caminho da via úmida uma equivalência com a nossa longa estrada espiritual e do auto-conhecimento.

A maioria dos escritores dividia a via úmida em quatro estágios e os associava a cores e suas vibrações. Como não podia deixar de ser, os nomes eram em latim: Nigredo (preto), Cauda Pavonis (cauda do pavão ou arco-íris), Albedo (branco) e Rubedo (vermelho). Esses quatro processos ou etapas, se observados de uma maneira global, lembram um pouco as quatro fases da psicoterapia que Jung descreveu: Confissão, Esclarecimento, Educação e Transformação. Antes de tentarmos ver um por um os processos acima citados, temos de ter em mente que esse processo é cíclico, qual uma ‘espiral ascendente’ e praticamente nunca termina; tanto na alquimia como no processo de individuação de Jung.
Ou seja, quando terminamos uma Rubedo voltamos à Nigredo; quando terminamos uma Transformação, voltamos a uma Confissão. É claro que esse retorno nunca é a um ponto inicial do processo e, sim, um pouco mais para dentro e um pouco mais para cima. Funciona como uma longa estrada para alcançar o topo de um morro. A estrada vai contornando o morro de maneira suave e imperceptível, e de repente percebemos que já ultrapassamos as primeiras nuvens. Além disso, nada nos impede, estando numa Albedo, de retornar para a Nigredo; assim com, da Educação, retornar ao Esclarecimento. O importante é sabermos que por mais lento que seja o caminho ele é sempre para diante!

A Nigredo, o negro, já nos sugere a morte, a sombra, o pesado, o denso, o sofrimento. Foi isso que nos disse Jung quando falou da confissão no consultório do psicólogo. Contamos nossa vida, nossos segredos, nossos aborrecimentos, nossos sonhos não alcançados e, na maioria das vezes choramos como um bebê que está com fome e quer mamar ou lhe tiraram o brinquedo predileto. Ou seja, morremos para uma vida que não valia a pena ou que simplesmente passou (valia a pena talvez naquela época, agora já não vale mais). Nessa ocasião ficamos parados, inativos, deprimidos, sem ânimo, introvertidos, quietos e sentimos que algo se ‘dissolve’ em nós. Por mais angustiante que seja o processo, o importante é seguir o que ele recomenda: ficar quieto e adiar tudo o que for possível.
Quando estamos jogando nossos ‘conflitos psicológicos’ nos problemas exteriores, ou seja, no mundo em que vivemos; eles se sobrepõem e se confundem, numa mistura homogênea. Podemos usar a metáfora do ‘copo com água e álcool’; você olha para aquela substância branca e não sabe quem é quem. Daí, as decisões nessa fase da vida possuírem uma chance muito grande de dar errado. Devemos identificar os problemas que são nossos e separá-los dos problemas do mundo. Continuando na metáfora do ‘copo’; é preciso colorir a água para poder separá-la com mais facilidade do álcool.

Depois disso é como se o preto que é a ausência de todas as cores transformasse no branco que é a presença de todas as cores. Só que é o branco decomposto em todas as cores por uma espécie de ‘cristal‘ e essa pedra cristalina é muitas vezes o nosso analista, outras vezes um padre, um sacerdote, um velho amigo ou até o travesseiro. É por isso que alguns alquimistas pulam a fase da ‘cauda pavonis’ e vão da Nigredo para a Albedo. Mas como Jung colocou muito bem, após a confissão de seus temores mais profundos, o paciente fica esvaziado e se fixa na figura do psicólogo; esse fenômeno levou o nome complicado de ‘Transferência’ (até a psicologia imita a alquimia em matéria de nomes complicados). Como o nome já sugere, transferimos para a figura do analista as figuras interiores que antes estávamos jogando no pai, na mãe, no irmão, no vizinho, na namorada, no marido etc. Essa transferência precisa ser ‘esclarecida’ e discutida com o paciente para que ele entenda o que está acontecendo em sua alma ainda conturbada, embora já bastante aliviada com o auxílio da confissão.
Muitos alquimistas representaram o desmembramento do branco com o desmembramento do corpo humano. Acontece na realidade o desmembramento de nossa psique; mas temos que manter essa dissociação da nossa psique sob o controle do Ego. É para isto que ele possui as características e a função de um ‘complexo gerenciador’. Um gerente de uma grande fábrica não olha diretamente o que cada operário faz, não consegue saber o nome de todos os seus 5.000 funcionários; mas, com uma rápida análise dos seus gráficos de produção ele sabe de tudo que acontece no seu negócio e pode se concentrar no que julga importante no momento.

Após esta etapa, naturalmente vem o branco, a Albedo, a brancura, o clareamento, o entendimento, o conhecimento, uma certa tranqüilidade. É como se todas as cores do arco-íris se fundissem e nos mostrassem a beleza do branco, da paz, do espiritual. Deve ser por isso que se diz que no fim do arco-íris está um pote de ouro. O problema é que nunca encontramos o fim do arco-íris, mas na maioria das vezes o caminhar é o verdadeiro tesouro. Nesse estado de brancura nos educamos e nos inteiramos que existe uma vida nova que pode ser seguida e quando olhamos para trás, o esforço já não parece tão grande.
Lembremos que educação é repetição, porque para assimilar alguma coisa precisamos repetir, precisamos tirar todos os véus dos preconceitos, precisamos entender que os problemas estão dentro de nós, precisamos ver que o outro está ali também na sua busca. Precisamos até entender que muitos buscam o mesmo Deus que nós buscamos, só que por caminhos diferentes, mas geralmente, também chegam lá. Corremos um risco de achar que o nosso gerente, o Ego, é o maior gerente do mundo, pois está tocando uma fábrica de grande porte. Cuidado com a estagnação, o equilíbrio é sempre dinâmico e só o conflito nos faz crescer e quando não crescemos, caímos. É mais ou menos como andar de bicicleta, quanto mais rápido mais equilíbrio, o movimento nos mantém em linha reta. Vocês poderiam dizer que algumas pessoas ficam em pé em um bicicleta parada. Mas o lugar deles é no circo e perdem o objetivo da locomoção, que é o objetivo da vida.

Quando estamos nesse processo de uma certa calmaria, as coisas vão entrando nos eixos. Mas é hora, por incrível que pareça, de colocar paixão, fogo, ardor, vermelho, Rubedo. Aí conseguimos transformação transformar é ser o que já era, sem precisar fazer força para isso. É quando não roubamos o vizinho; não com medo da prisão, mas porque acreditamos que isso não é o correto. É quando não batemos no inimigo; não com medo do revide, mas quando temos compaixão por outro ser humano. Na transformação conseguimos um movimento com um mínimo de atrito. É quando nos aproximamos dos pólos; lá o movimento como um todo é o mesmo, mas, o deslocamento menor. Temos mais consciência de fazermos parte de um mundo, percebemos que somos dependentes de tudo e ao mesmo tempo tudo é impermanente. Só nos resta a essência da alma, algo dentro de nós que não morre nunca. Estes processos nos levam a essência da vida por um caminho relativamente suave. Não deixem de buscá-la, senão a dor pode vir para nos lembrar de tudo isso. Quem já sentiu uma dor muito forte sabe que naquela hora não conseguimos pensar em mais nada, só em acabar com ela. Tentem lembrar de tudo que pensaram na hora da dor, tanto física quanto espiritual e estarão perto do que é a essência.

Podemos imaginar então que o processo está todo concluído… Vamos descansar. Ledo engano, a transformação ocorreu sim, mas em parte do nosso ser. Temos de voltar a Nigredo e a Confissão, temos de passar pelas cores até o branco e, de novo inflados com o esplendor da luz, vamos mais uma vez nos inflamar para chegar às brasas, ao rubro, a Rubedo. Esta é a roda da vida e não pára nunca, nela vamos girar sem parar por muito tempo. Mas posso garantir: quem fizer um primeiro ciclo vai aceitar todo os outros com galhardia, força e abnegação e principalmente com pequenos momentos de felicidade.
 
Por Paulo C. de Souza

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Geometria Sagrada


Geometria sagrada e música


Qual é a relação entre Geometria Sagrada e Música?
Quando vi pela primeira vez no livro “O Arqueômetro” de Saint-Yves 

D´Alveydre, uma figura de uma Capela cujas cotas eram apresentadas, não com números, mas sim com notas musicais.
Essa figura mostrava que havia uma convergência entre arquitetura e música.
Mas como se dá à convergência entre a Geometria e Música?
Resposta: através do Número, das Proporções.

Vejam que interessante: Número, Geometria e Música – Aritmética, Geometria e Música (Harmonia), três das Ciências que formavam o Quadrivium na antiguidade grega.
Número, Espaço e Tempo (a quarta ciência é a Astrologia que trata do Número, do Espaço e do Tempo juntos).

E porque que era (é) possível transformar cotas em notas musicais? Por que os templos e as Catedrais eram mais do que simples medidas, eram proporções. O que se buscava eram relações harmônicas (e sonoramente harmônicos) do todo com as partes (um perfeito acordo, um perfeito acorde musical).

Pitágoras (540 A.C.) estudou a relação das proporções numéricas com as notas musicais utilizando-se de sinos de diversos tamanhos e do seu famoso monocórdio. Pitágoras ficou famoso pelo triângulo retângulo que acabou recebendo o seu nome (triângulo 3, 4 e 5). Mas na verdade esse triângulo era conhecido pelos antigos egípcios antes mesmo de Pitágoras e eles já o utilizavam para determinar o ângulo reto nas suas construções.

Esse triângulo tem qualidades excepcionais, além da questão dos quadrados dos catetos e da hipotenusa, que todos conhecem. Musicalmente, se imaginarmos a dimensão 1 como sendo uma nota dó, seu terceiro harmônico, que é a freqüência multiplicada por 3, será a nota Sol, a quinta justa de Dó, harmonicamente perfeito. O quinto harmônico, cuja freqüência é multiplicada por 5, será a nota Mi, a terça maior de Dó. Como o dobro da freqüência gera a mesma nota numa oitava acima, a dimensão 4 é duas oitavas acima do 1 (1, 2 o dobro e 4 o dobro de 2). Se juntarmos as três notas referentes ao triângulo teremos: Dó, Mi, Sol, o acorde perfeito de Dó Maior.

Quando tratamos de proporções e música, sempre temos que levar em consideração seus espelhamentos ou inversões. Lembremos que ao mesmo tempo em que uma nota uma oitava acima tem o dobro da freqüência, se pensarmos na corda (por exemplo de um violão), a mesma oitava acima tem a metade da corda.

E esse raciocínio é o que os grandes arquitetos utilizaram no projeto dos templos e das catedrais a partir das proporções harmônicas, em acordes perfeitos. São Bernardo de Clairvaux (1090-1153) que pertencia à Ordem Cisterciana, relatou que muitas igrejas da abadia desse período eram acusticamente ressonantes, e que podiam transformar o canto coral em música celestial. Imagine a magia de se cantar as notas de um acorde musical num espaço desenhado para ressoar esse acorde.
E vale sempre lembrar que a palavra acorde, acordo, concordar, tem a matriz etimológica cord, de coração (cárdio)...
Edson Tani - Arquiteto pela FAUUSP.



quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Dando continuidade ao texto anterior...


A Linguagem dos Símbolos
No início era o caos...
No vazio a substância escura aglutina-se em um infinito ponto, em um instante-tempo o processo para, a energia concentrada naquele ponto emerge em uma grande explosão – o Big Bang.
Naquele momento o Um se transforma em Três: o som, a luz e o movimento. Irrompe a vida, o vazio está agora limitado, surge o espaço, a forma, o sagrado torna-se plural.
            No instante em que um deus manifesta a vontade de dar nascença a si próprio ou ao outro deus, de fazer surgir o céu e a terra, ou o homem, emite um som. Expira, suspira, fala, canta, grita, ulula, expectora, vomita, troveja ou toca um instrumento musical. (Schneider, apud BEAINI, 1995, pág. 23)
O som, o conhecimento e o reconhecimento da natureza, instauram a manifestação da vida, a criação do nome, os gestos que recuperam a origem, fruto da experiência do homem com a natureza que o cerca.
Mircea Eliade define esta experiência de hierofania como algo de sagrado que se nos revela. (ELIADE, 2001, pág. 14-5), afirma que os mitos, enquanto uma expressão do sagrado, narram uma história, que remete àquilo que os deuses, os seres divinos fizeram no começo dos tempos. Assim, os mitos são narrativos que resgatam o início da existência de todas as coisas, isto é, revelam como tudo passou a existir. (ELIADE, 2001, p. 82-5)
Para Jung essas narrativas representam todo o material arquetípico que se faz presente nas relações coletivas. Os arquétipos são:
 Os elementos estruturais da psique inconsciente, formadores de mito... São certas estruturas das imagens primordiais da fantasia inconsciente coletiva e categorias do pensamento simbólico, que organizam as representações originadas de fora (MIELIETINSKI, 1987, p. 69).
Os mitos, para Jung, conduzem às fontes originárias, presentes no inconsciente coletivo. Os arquétipos possuem duas representações: primeiramente, são imagens, personagens, papéis a serem desempenhados; e em segundo lugar eles representam o processo de individuação, fazendo-se representar também na consciência individual. (JUNG, 2008, p.17)
Surge assim o símbolo, como o modo ou meio de significar o “ente” ou “algo” enquanto finito.
O termo símbolo, com origem no grego símbolon, ou sinbolê designa um elemento representativo que “... está em lugar de algo” (SANTOS, 2007, p.8), e que pode ser um objeto como um conceito ou idéia.
O símbolo é um elemento essencial no processo de comunicação, está disseminado pelo quotidiano e pelas mais variadas vertentes do saber humano. Usamos os símbolos para transmitir o intransmissível, como por exemplo, a natureza, os acontecimentos cósmicos, a vontade, o desejo, o sentimento e a forma de objetivá-los.
O símbolo surge na Arte, através das harmonias, cores e sons que os artistas ao observar a natureza sentem e expressam em suas criações.
A Filosofia interpreta seus códigos e abstrai da forma para chegar à essência.
A Ciência simboliza todos estes processos, compartimentando-os para interpretá-los e demonstrar as leis que regem os acontecimentos cósmicos.
Na religião, podemos ver os símbolos nos ritos e liturgias, através das palavras que determinam nos gestos que atraem, e nos sinais que fixam. Podemos ainda observá-los nas vestimentas, nos objetos, nas danças, nos cânticos e nos espaços destinados ao sagrado.
Os símbolos podem possuir uma série de características que Ferreira dos Santos (SANTOS, 2007, p.10-1) define assim:
a)    Polissignificabilidade – a polissignificabilidade dos símbolos consiste na aptidão a se referirem a mais de um simbolizado. Um símbolo pode ser deste ou daquele referido. A cruz, por exemplo, é símbolo das quatro estações do ano, dos quatro pontos cardiais, das quatro idades do homem, de Cristo, da morte, etc.
b)    Polissimbolizabilidade – Um simbolizado pode ser referido por vários símbolos. A solidão, como simbolizado pode ser significada por um rochedo isolado em alto mar, um pequeno barco na imensidade de um lago, uma águia no topo de uma montanha, uma árvore numa planície vazia.
c)     Gradatividade – O símbolo tem uma escalaridade de significabilidade a um simbolizado, pois ele pode ser melhor símbolo deste simbolizado do que daquele;
d)    Fusionabilidade – Capacidade de o símbolo fundir-se com o simbolizado ante a apreciação simbólica, como sucede frequentemente na parte exotérica das religiões, em que os símbolos terminam por serem os próprios simbolizados;
e)    Singularidade – Característica rara de alguns símbolos que conseguem alcançar uma significabilidade única, de um único simbolizado, como o Ser Supremo, como símbolo de Deus. Nestes casos dá-se até a fusionabilidade;
f)     Substituibilidade – os símbolos que se referem também a um mesmo simbolizado, entre muitos outros diversos a que se podem referir, permite a sua mútua substituição;
g)    Universalidade – Todas as coisas são símbolos da ordem a que pertencem. Todos os fatos são símbolos do conceito, que é um esquema abstrato. Dessa forma o símbolo é universal.

Segundo o pensamento junguiano, os símbolos constituíram a psique humana tanta coletiva como individualmente. (JUNG, 2002, p. 53)
Jung, fala sobre o conceito de arquétipo assim:
“... constitui um correlato indispensável da idéia do inconsciente coletivo, indica a existência de determinadas formas na psique, que estão presentes em todo o tempo e em todo lugar”. (JUNG, 2002, p. 53)
Nas pesquisas mitológicas denomina – as de “motivos’ ou “temas”,
 “... na psicologia dos primitivos elas correspondem aos conceitos das représentations colectives  de LEVY-BRUHL. (JUNG, 2002, p. 53)
Para as religiões comparadas, são definidas com “categorias da imaginação” por HUBERT e MAUSS. (JUNG, 2002, p. 53)
ADOLF BASTIAN designou-as como “pensamentos elementares” ou “primordiais”. (JUNG, 2002, p. 53)
JUNG define o inconsciente coletivo como:
... algo que não se desenvolve individualmente, mas é herdado. Consiste de formas preexistentes, arquétipos, que secundariamente podem tornar-se conscientes, conferindo uma forma definida aos conteúdos da consciência. (JUNG, 2002, p.54)
Define ainda o Inconsciente Coletivo com uma parte da psique que pode distinguir-se de um inconsciente pessoal pelo fato de que não deve sua existência à experiência pessoal e o Inconsciente Individual como aquele que é constituído essencialmente de conteúdos que já foram conscientes e, no entanto, desapareceram da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos. (JUNG, 2002, pág.54).
Alguns símbolos existem em todas as culturas e em todos os tempos. Exemplo:
. Símbolos Celestes: sustentam os ritos de ascensão, de escalada, de iniciação, de realeza, etc., os mitos (a Árvore Cósmica, a Montanha Cósmica, a cadeia de flechas que liga o Céu à Terra).
. Simbolismo Aquático: As Águas existem antes da Terra. As águas representam a soma universal das virtudes, precedem toda a forma e sustentam toda a criação. A imersão na água simboliza a regressão ao pré-formal, a emersão na água simboliza a manifestação formal. Morte e Renascimento.  O simples contato com a água comporta uma regeneração, uma purificação. Ex: dilúvio, submersão periódica (Atlântida), morte iniciática (batismo). Portanto, o dilúvio é comparável ao batismo, o velório ao nascimento. Portanto a função da água é sempre o mesmo, independente da religião onde ela surja: desintegrar, abolir as formas, lavar os pecados, purificar, e enfim, regenerar.
. Terra Mater: Ser depositado na terra, ao nascer ou ao morrer dá uma idéia de interdependência entre a Raça e a Terra. Está presente tanto na Europa, ainda hoje, como na África, China e Oriente Médio, América.
. A mulher, a terra e a fecundidade: A mulher, como a terra, dá a luz e é fecunda. Foi a mulher que descobriu a agricultura, e da terra tirou o sustento do clã. Até pouco tempo atrás, era a mulher que plantava e colhia. E ainda é assim entre índios, e africanos. Ao homem cabia a caça e a proteção do clã. O Deus-Céu e a Terra-Mãe servem de exemplo para os casamentos humanos, que procuram imitar essa hierogamia, justificando a estrutura cósmica do ritual conjugal e do comportamento conjugal. Segundo Mircéia Eliade, a orgia agrária é uma regressão à Noite Cósmica, ao pré-formal, às “Águas”, a fim de assegurar a regeneração total da Vida e, por conseqüência, a fertilidade da Terra e a opulência das colheitas. (ELIADE, 2001, pág. 28)
. Árvore Cósmica: A capacidade infinita do Cosmos em se regenerar é comparável à Árvore gigante. Simboliza também a Vida, a Juventude, a Imortalidade, e a Sabedoria. Este símbolo está presente na cultura germânica (Yggdrasil), na Ásia (Bhoudhi), no Antigo Testamento (sarça ardente), na Mesopotâmia, na Índia (arbusto ashvatha) e no Irã. Na cultura africana, a árvore representada pelo Iroko, significa o centro do mundo, onde as divindades faziam o giro em torno dele; era ao pé de uma árvore que se enterrava o cordão umbilical (a sua individualidade), passando aí a simbolizar a força física e espiritual daquele indivíduo. No contexto geral, a árvore simboliza o Axis Mundi, conexão entre a Terra e o Céu (mundo espiritual).
. Montanha: é um símbolo do Universo. Se no meio do mar, simboliza as  Ilhas dos Bem-Aventurados (Paraíso dos taoístas). Geralmente são ricas em grutas. Estas são retiros secretos, morada dos Imortais Taoístas e local das Iniciações.
Remonta à idéia de Monte e Lago primordiais.
. Pedras: Significando Poder, Firmeza, a Permanência, a Irredutibilidade e o absoluto do Ser. Consideradas morada de espíritos ou deuses. Eram utilizadas como lápides, marcos ou objetos de veneração religiosa. Sempre foram importantes em todas as culturas, desde o Judaísmo (p.ex., Jacó), Celtas (Bretanha e Stonehenge), nos jardins do Zen-Budismo, e nos cultos africanos.
. Lua: Ritmos lunares. Nascimento, morte e ressurreição. Consegue explicar ao homem fatos que poderiam ser desconexos. Ex: nascimento, o porvir, a morte, a ressurreição, as Águas, as plantas, a mulher, a fecundidade, a imortalidade, as trevas cósmicas, a vida pré-natal, a existência além-túmulo seguida de um renascimento, a tecelagem (fio da vida), o destino, a temporalidade, a morte. Idéia de ciclo, dualismo, polaridade, oposição, conflito, reconciliação dos contrários.  A lua reconcilia o homem com a Morte.
. Sol: Embora em constante movimento, ele é imutável. Autonomia, Soberania, e Inteligência. Ex: Apolo, Júpiter, Osíris, Hórus, Adônis.
            Analisaremos agora os símbolos concernentes à cada raça raiz que formou o povo brasileiro.
. Aves: O pássaro sempre esteve presente em todos os cultos religiosos primitivos e ainda hoje permanece como símbolo do Espírito Santo para os cristãos, está presente no sincretismo como a Congada e a Folia de Reis, nos estandartes e fitas usadas. Na África, a pomba é o símbolo do Espírito, ligado aos cultos das Yamis; a galinha d’angola simboliza a criação e da iniciação.  Entre os Xamãs, o pássaro é símbolo do Espírito.
. Animais: Cavernas e rochas com desenhos de animais sempre tiveram uma conotação religiosa, sendo investido de grande temor e respeito pela população local.  Certamente serviam de local para ritos mágicos de caça, e fertilidade. O totem animal simboliza o próprio animal, sua força, sua agilidade e seu poder.
. Cruz: está presente na história de muitos povos, entre eles egípcio, celta, persa, romanos, etc. É a união de dois eixos opostos, vertical e horizontal, em 90º, separando o mundo em quatro quadrantes, determinando os pontos cardiais (norte, sul, leste e oeste). Os eixos também simbolizam o sol (vertical) e lua (horizontal)
. Arco e Flecha: símbolo do Destino. O Arco representa firmeza, vontade e determinação. A Flecha simboliza a libertação, o direcionamento para o Alto, a Luz projetada, a Imortalidade. Os dois juntos representam o Plano Espiritual e o Físico, o consciente e o inconsciente.
. Cobra: Na Grécia era relacionada com a Sabedoria e o Conhecimento. Era componente do Bastão de Esculápio. Símbolo do Poder, e também símbolo fálico. Na Índia, era o símbolo do Kundalini e dos deuses Nagas. O Ouroboros é um símbolo da Alquimia, do Hermetismo e do Ocultismo, e simboliza a Eternidade, o Eterno Retorno e o Conhecimento Iniciático.
. Círculo: É o símbolo da Psique. Platão descreveu a psique como uma esfera. Está presente nos cultos da Lua, do Sol, nas mandalas, mitos e sonhos. Representa a unidade, a perfeição humana. (JUNG, 2008, pág. 324). As mandalas estão presentes no Oriente e também no Cristianismo (Rosáceas das catedrais). O círculo também aparece nas pinturas rupestres, no período neolítico.
. Quadrado: e também o retângulo é símbolo da matéria terrestre, do corpo, da realidade. (JUNG, 2008, pág. 324).
. Triângulos: Dois triângulos que se interpenetram, um apontando para cima, o outro para baixo, simbolizam a união de Shiva e Shakti, as divindades masculina e feminina. Simbolizam a união dos opostos, a união do mundo temporal (ego) e atemporal (não-ego). É a união da alma com Deus.

Texto de Osvaldo Olavo Ortiz Solera - Ygbere

Referências Bibliográficas

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ELIADE, M. História das Crenças e das Idéias Religiosa. Rio de janeiro: Zahar Editores, 1978, Tomo I, vol I, pág.13
Frobenius, L. A gênese Africana: contos, mitos e lendas da África. São Paulo: Landy Editora, 2007, pág 13.
GORDON, B; MEDEIROS, S. Popol Vuh. São Paulo: Ed. Iluminuras, 1997, 480 pág.
JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2ª Ed., 2008, 429 pág.
JUNG, C. G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Ed. Vozes, 2ª Edição, 2002, 447 pág.
KI-ZERBO, J. História da África Negra. Paris: Ed. Europa-américa, 1972. Vol.I, pág. 130.
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PALLAS, A. 3333 Pontos Riscados e Cantados.  Rio de Janeiro: Ed. Pallas, 5ª Ed., 2008, vol I e II, 287 pág.
PRIORE, M. D. Religião e Religiosidade no Brasil Colonial. 5ª edição. São Paulo: Ed. Ática, 2004, pág. 52.
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RIVAS, F. R. Umbanda – O Arcano dos 7 Orixás. São Paulo: Ícone Editora, 1999, 247 pág.
RIVAS, F. R. Umbanda – A Proto-Sintese Cósmica. São Paulo: Ed. Pensamento, 2002, 392 pág.
RIVAS, M. E. O Mito de Origem – Uma Revisão do Ethos Umbandista no Discurso Histórico. 2008. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado na Faculdade de Teologia Umbandista, São Paulo.
SANTOS, G. A. Selvagens, Exóticos, Demoníacos. Idéias e Imagens de Gente de Cor. In: ESTUDOS AFRO-ASIÁTICOS, Ano 24, vol. 2, 2002, pág. 275-89.
SANTOS, G. S. Pontos Cantados e Riscados.  Rio de Janeiro: Ed. Orphanake, 5ª Ed., 2003, 164 pág.
SANTOS, M. F. Tratado de Simbólica. São Paulo: Ed. E.Realizações, 2007, 352 pág.
SILVA, W. W. M. Umbanda de Todos Nós. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos, S. A., 1969, 366 pág.






domingo, 28 de novembro de 2010

Após demonstrar os alfabetos pelo mundo falaremos sobre...


Símbolos e sSinais Sagrados da Umbanda

Introdução
            A Umbanda é uma religião genuinamente brasileira, formada pelo congraçamento da três raças matrizes deste povo, o índio, o branco e o negro. 
Toda essa riqueza cultural contribuiu para a formação de inúmeras escolas dentro da Umbanda, cada uma com sua interpretação do Sagrado.
            Xambá, Toré, Babassuê, Terecô, Candomblé de Caboclo, Jurema e enfim, Umbanda. A Umbanda é o recipiente onde se misturaram conceitos tão diversos como reencarnação, cabala, pajelança, orixás, magia, chackras.
            A tradição oral de cada povo foi responsável pela propagação e sincretismo dos sinais e símbolos religiosos.  E neste caso, na Umbanda foram denominados de Sinais de Pemba ou Pontos Riscados.
            A raiz ameríndia é aventada por pesquisadores como Lund, Hartt, Ameghino, Hardick, como sendo a origem da Humanidade, contradizendo a hipótese européia de que seria na África essa origem (ITAOMAN, 1990, p. 24). E mesmo nos livros sagrados como o Popol Vuh (GORDON, B; MEDEIROS, S. 1997, p. 58) e na Bíblia Cristã é no barro (vermelho) que se originou a humanidade.  Então a origem estaria na raça vermelha e não na raça negra? Esta hipótese é a fonte de grandes conflitos no meio acadêmico.
            A equipe da Prof.ª Maria Beltrão (Unicamp) é a responsável por desmistificar a imagem de selvagens do povo ameríndio, mostrando que eles tinham profundos conhecimentos de astronomia, e que a datação dos instrumentos e pinturas encontrados nas grutas de Tocas e Cosmos chegam a 300.000 anos. (ITAOMAN, 1990, p. 25).
            Possuidores de uma cultura completamente diferente dos brancos colonizadores, os ameríndios foram subjugados e dizimados em poucos séculos.  E o sincretismo entre sua religiosidade e o Catolicismo originou a Santidade e a Pajelança no Pará e Amazonas, e o Caatimbó no restante do país. (BASTIDE, 1960; ITAOMAN, 1990, p. 27-31). E foi no Caatimbó, em sua riqueza ritualística, que o negro mais tarde, principalmente o povo Banto, faria seu sincretismo religioso (RIVAS, M., 2008). Surge então, o Candomblé de Caboclo. Oxalá representando Tupã, Yemanjá como Janaína, Ogum como Cariri, Oxosse como Sultão das Matas, Exu como Caipora, Babás e Eguns como Caboclos Tupinambá, Tupiara, Jaú, Irerê, Pedra Negra, entre outros. (ITAOMAN, 1990, p. 30).
            Com a raiz negra (africana) se conheceu a escravidão na sua forma mais cruel, o mercantilismo hediondo.  As guerras tribais, a islamização, os interesses europeus e o silêncio vergonhoso da Igreja foram os responsáveis por esta mácula na história do povo brasileiro.
            E foi com Frobenius que se pode compreender o requinte, a complexidade e a grandeza da religiosidade iorubana, podendo ser comparada à religiosidade grega. (FROBENIUS, 2007, p. 13).
            Iorubás, Jejes, Haussás, Minas, Cambindas, Angolas, Sudaneses e Bantos, todos chegaram ao Brasil por meio da escravidão. E foi em terras brasileiras que essas etnias, envolvidas há tanto tempo em guerras e disputas tribais, agora equiparadas pela escravidão que a todos tornava iguais, encontraram o silêncio e a reflexão. Diante da necessidade de sobreviverem e preservarem sua cultura, fé e tradição, tornaram-se irmãos novamente.
            Sincretizaram-se com o Catolicismo e com a Pajelança/Caatimbó. Mantiveram o conceito de Deus Supremo (Olorum), eterno masculino (Obatalá), eterno feminino (Oduduá), conceito de dinamizador da existência (Exu), forças vitais (Iwá-Aché-Abá), mediador (Orixá), universos paralelos (Aiyé e Orum), destino (Odu), Ancestrais (Egun-Agbá), sociedades secretas (Egungun e Geledé), Iniciação e Pais Babalawos. (ITAOMAN, 1990, p. 39-40).
            A raiz branca veio representada pelos Indo-europeus (arianos) e pelos Judaico-cristãos (Heleno-semítico).
Foram os ingleses que trouxeram a cultura ariana, Brahmânica e Budista.  Trouxeram conceitos como reencarnação, karma, prana, chakras,  kundalini, tantra.  A Teosofia (Blavatsky, Besant, Neels) influenciou definitivamente o Kardecismo.
A bacia do mediterrâneo foi influenciada pela cultura e religiosidade do Egito, matemática, geometria, medicina, alquimia, astrologia, gnose. Gregos, persas, árabes, judeus, todos foram povos que trouxeram para a Europa o conhecimento iniciáticos dos templos do Vale do Nilo.  Heranças como Cabala, Alquimia e conceitos essênios causaram abalos profundos na formação do povo brasileiro.
E como se deu a formação dos símbolos e mitos que nortearam a formação do inconsciente coletivo?
No vazio, a substância escura aglutina-se em um infinito ponto, em um instante-tempo o processo pára, a energia concentrada naquele ponto emerge em uma grande explosão – o Big Bang.  O Um se transforma em Três, Luz – Som – Movimento. Irrompe a vida, o vazio está agora limitado, surge o espaço, a forma, o Sagrado torna-se plural.
O som, o conhecimento e o reconhecimento da natureza, instauram a manifestação da vida, a criação do nome, os gestos que recuperam a origem, fruto da experiência do homem com a natureza que o cerca.  Mircea Eliade define esta experiência de hierofania como algo de sagrado que se nos revela. (ELIADE, 2001, p. 14-5)., afirma que os mitos, enquanto uma expressão do sagrado, narram uma história, que remete àquilo que os deuses, os seres divinos fizeram no começo dos tempos. Assim, os mitos são narrativas que resgatam o início da existência de todas as coisas, isto é, revelam como tudo passou a existir. (ELIADE, 2001, p. 82-5).
Para Mielietinski, certas estruturas das imagens primordiais da fantasia coletiva e categorias do pensamento simbólico que organizam as representações originadas de fora são os elementos estruturais da psique inconsciente. (MIELIENTINSKI, 1987, p. 69).
Para Jung, os mitos conduzem às fontes originárias, presentes no inconsciente coletivo. E os arquétipos representam imagens, papéis a serem desempenhados, e também o processo de individualização, o consciente individual. (JUNG, 2008, p.17).
Surge assim o símbolo como modo de significar o “ente” ou “algo” enquanto finito. O símbolo está em lugar de algo. (SANTOS, 2007, p. 8). No pensamento junguiano, os símbolos constituíram a psique humana tanto coletiva como individualmente. (JUNG, 2002, p. 53).
Jung define inconsciente coletivo como algo que é herdado, consistindo de formas preexistentes, arquetípicos, que podem se tornar conscientes. (JUNG, 2002, p. 54). Fala também do inconsciente individual como sendo constituído essencialmente de conteúdos que já foram conscientes e, no entanto, desapareceram da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos. (JUNG, 2002,  p. 54).
Na religião podemos ver os símbolos nos ritos e liturgias, através das palavras que determinam, nos gestos que atraem, e nos sinais que fixam. Podemos observá-los nas vestimentas, nos objetos, nas danças, nos cânticos e nos espaços destinados ao sagrado.
Alguns símbolos existem em todas as culturas e em todos os tempos.
A árvore, a montanha, a água (morte e renascimento), a terra, a mulher, a pedra, a lua, o sol, as aves, os animais, a cruz, o arco e a flecha, a cobra, o círculo, o quadrado, os triângulos, todos estão presentes em maior ou menor grau na cultura de todos os povos. 
Quais foram os símbolos mais utilizados por cada raça? Que símbolos trouxeram com elas ao chegarem ao Brasil? Como se deu esse sincretismo e o que resultou hoje na Umbanda?
E os pontos riscados? Como surgiram?
Os pontos riscados são sinais gráficos feitos no chão, paredes, ou tábuas de madeira, com um bastão de giz mineral (pemba). São riscados apenas por sacerdotes com finalidade magística ou para identificar e qualificar a entidade presente.
Embora a pemba tenha sido trazida pelos Yorubás, muito se perdeu dos sinais sagrados devido à islamização, visto que os altos sacerdotes de Ifé eram perseguidos e mortos, e alguns poucos sobreviventes, vendidos para o Brasil como escravos. O Islamismo, portanto, destruiu a cultura Yorubá.

Segundo Max Müller:
É inevitável, é uma necessidade inerente à linguagem, se reconhecemos nesta a forma externa do pensamento: a mitologia é, em suma, a obscura sombra que a linguagem projeta sobre o pensamento, e que não desaparecerá enquanto a linguagem e o pensamento não se superpuserem completamente: o que nunca será o caso. Indubitavelmente, a mitologia irrompe com maior força nos tempos mais antigos da história do pensamento humano, mas nunca desaparece por inteiro. Sem dúvida, temos hoje nossa mitologia, tal como nos tempos de Homero, com a diferença apenas de que atualmente não reparamos nela, porque vivemos à sua própria sombra e porque, nós todos, retrocedemos ante a luz meridiana da verdade. Mitologia, no mais elevado sentido da palavra, significa o poder que a linguagem exerce sobre o pensamento, e isto em todas as esferas possíveis da atividade espiritual. (MULLER, 1876)
            Ao chegar ao fim deste trabalho de conclusão de curso, deparei-me com as afirmações do eminente escritor acima citado e pude compreender a longa viagem que o povo brasileiro fez em busca de sua identidade espiritual, cultural, social e econômica.
Ficou claro que os processos sincréticos aos quais ele foi submetido configuraram em sua psique a atuação maciça de três raças matrizes, a vermelha, a negra e a branca. Este caldeamento racial culminou por meio do amalgamento destas culturas em um mestiço, o homo brasilienses. Neste momento, tínhamos um legítimo cidadão planetário.
Sua capacidade em suportar culturas diferentes fez dele um ser diferenciado.
Todo o povo brasileiro é naturalmente místico, em todos os rincões deste país sobejam às crendices e a fé no sobrenatural. Assim sendo, não acreditamos que a Umbanda tenha sido fundada em 1908, já que há relatos de fenômenos religiosos há mais de 500 anos por Padre Manoel da Nóbrega ao qual citamos no início deste trabalho. (PRIORE, 2004, pág. 52)
Estando inserido constantemente no mito, vive ele sempre em um momento atemporal. Sua maneira de ver ou conceber teorias passa sempre por processos intuitivos, valorizando o sujeito (essência), em detrimento do objeto (forma).
JUNG define a estrutura do Inconsciente Coletivo por algo que adquirimos por meio da hereditariedade, e o Inconsciente Individual por meio de arquétipos que estão esquecidos momentaneamente. (JUNG, 2002, pág. 53)
As Escolas Umbandistas ao utilizarem todos esses símbolos e sinais evocam esta herança, fazendo com que o indivíduo-adepto traga à tona os arquétipos esquecidos constituidores da Inconsciência Individual.
O povo brasileiro, que recebeu estas cargas de informação ancestral das raças matrizes acaba funcionando como um elemento de convergência, facilitando nele os processos de abstração espiritual e mística que o remete assim, à Síntese.
É por isso que podemos ver na diversidade da Umbanda, a única religião brasileira, uma amostragem fidedigna destas atuações sincréticas. O adepto desta corrente Filo-Religio-Científica utiliza os símbolos e sinais como ponte para o sobrenatural.
Ao traçar um sinal que denomina de Lei de Pemba estabelece um Espaço Sagrado que ora vai habitar, é neste momento que ao fazer o círculo, inserindo nele os símbolos arquetipais, aproxima o céu da terra, fazendo com que não exista mais o sujeito e o objeto e acaba assim imergindo no mundo Sagrado.
Eliade propõem que “o sagrado não é um momento histórico da consciência humana e sim um elemento estrutural desta mesma consciência. Logo, ao ler atentamente esses sinais, pudemos constatar que os mesmos possuem formas da construção cósmica (Cosmogênese). (ELIADE, 1978, Tomo I, vol. I pág. 13).
E sendo o homem o microcosmo dentro do macrocosmo, teria sido ele estruturalmente construído da mesma maneira (Antropogênese), pois vivenciou os processos minerais, vegetais e animais bastando ver a sua constituição psicofísica para saber que está impresso nela toda esta memória ancestral.
Observando o espaço veremos que em sua formação, existem constelações em formas de foices, espirais, machadinhas, flechas, animais, tal qual um dia os antigos observaram e nomearam estas mesmas constelações.
Veremos ainda, que esses mesmos sinais podem ser analisados e  situados dentro das inúmeras escolas umbandistas, notando que em algumas escolas os sinais obedecem a um momento histórico, demonstrando que estas ainda estão polarizadas em um aspecto sincrético de uma determinada raça. Veremos que umas utilizam símbolos e sinais judaicos – cristãos outras estão arraigadas nos cultos de nação, cultos indígenas e o espiritismo de Kardec.
Aguardamos o momento da Síntese...
Resumo do Trabalho de Conclusão de Curso de :Osvaldo Olavo Ortiz Solera - Ygbere

Referências Bibliográficas
BASTIDE, R. As Religiões Africanas no Brasil. São Paulo: Livraria e Editora Pioneira, 1960, 240 pág.
ELIADE, M. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2001, 191 pág.
ELIADE, M. História das Crenças e das Idéias Religiosa. Rio de janeiro: Zahar Editores, 1978, Tomo I, vol I, pág.13
Frobenius, L. A gênese Africana: contos, mitos e lendas da África. São Paulo: Landy Editora, 2007, pág 13.
GORDON, B; MEDEIROS, S. Popol Vuh. São Paulo: Ed. Iluminuras, 1997, 480 pág.
ITAOMAN, M. Pemba a Grafia Sagrada dos Orixás. 1ª Ed. Brasília: Thesaurus, 1990.  317 pág.
JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2ª Ed., 2008, 429 pág.
JUNG, C. G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Ed. Vozes, 2ª Edição, 2002, 447 pág.
KI-ZERBO, J. História da África Negra. Paris: Ed. Europa-américa, 1972. Vol.I, pág. 130.
KI-ZERBO, J. História da África Negra. Paris: Ed. Publicações Europa-américa, 1972. Vol.I, pág. 19-20.
KI-ZERBO, J. História da África Negra. Paris: Ed. Europa-américa, 1972. Vol.I, pág. 256-66.
PALLAS, A. 3333 Pontos Riscados e Cantados.  Rio de Janeiro: Ed. Pallas, 5ª Ed., 2008, vol I e II, 287 pág.
PRIORE, M. D. Religião e Religiosidade no Brasil Colonial. 5ª edição. São Paulo: Ed. Ática, 2004, pág. 52.
PRIORE, M. D. Ancestrais. 9ª edição. Rio de Janeiro: Elsevier Editora, 2004, pág. 32-40.
RIVAS, F. R. Sacerdote, Mago e Médico – Cura e Autocura Umbandista. São Paulo: Ícone Editora, 2003, pág. 459.
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RIVAS, M. E. O Mito de Origem – Uma Revisão do Ethos Umbandista no Discurso Histórico. 2008. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado na Faculdade de Teologia Umbandista, São Paulo.
SANTOS, G. A. Selvagens, Exóticos, Demoníacos. Idéias e Imagens de Gente de Cor. In: ESTUDOS AFRO-ASIÁTICOS, Ano 24, vol. 2, 2002, pág. 275-89.
SANTOS, G. S. Pontos Cantados e Riscados.  Rio de Janeiro: Ed. Orphanake, 5ª Ed., 2003, 164 pág.
SANTOS, M. F. Tratado de Simbólica. São Paulo: Ed. E.Realizações, 2007, 352 pág.
SILVA, W. W. M. Umbanda de Todos Nós. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos, S. A., 1969, 366 pág.




terça-feira, 16 de novembro de 2010

Mais alfabetos...

Alfabeto Glozel...
Glozel é uma pequeníssima aldeia a sudeste de Vichy, na França. No dia 1º de março de 1924, o jovem de 17 anos Émile Fradin, juntamente com seu avô, lavrava uma área de pastagem quando um dos animais que puxava o arado atolou devido ao brusco afundamento do terreno. Ao liberar o animal, Fradin constatou a existência de uma construção, afundada no terreno. Escavando, encontrou pedras assentadas, tijolos, cacos de cerâmica, uma tábua coberta de curiosos sinais e alguns instrumentos de pedra.

Os achados começaram a ser analisados por um médico de Vichy e também arqueólogo amador, o Dr. Antonin Morlet, que em seu primeiro relatório afirmou que o achado não tinha qualquer ligação com os estabelecimentos romanos ou gauleses conhecidos. As escavações continuaram, e começaram a sair vasos de cerâmica, pedras com inscrições e diversos implementos de pedra e osso de rena. Dois anos após o primeiro achado, o número de objetos retirados era da ordem de dois mil, bem como ossos humanos, uma parte dos quais se apresentava fossilizada.
Mesmo assim, devido à política nada científica dos cientistas oficiais, o achado foi considerado uma fraude. O conservador chefe do Museu de Saint Germain, professor Salomon Reinach, de sólida reputação, escavou no local, e no tocante às inscrições afirmou aceitar a existência de uma escrita, bem como sua originalidade, sem qualquer ligação com as identificadas até então. Ao mesmo tempo, pesquisadores portugueses chegaram à conclusão de que também em seu país havia um sítio com material similar em Alvão (região de Trás-os-Montes), que foi localizado em 1894 (são as famosas “Pedras do Alvão”, atualmente em um museu daquela cidade e não abertas à visitação pública).

Fradin chegou a ser processado por falsificação em 1930, mas foi absolvido, por total falta de provas (era muito material para ser falsificado por um homem só, ignorante em arqueologia e sistemas de escrita). Com o início da Segunda Guerra Mundial e a morte do Dr. Morlet, o silêncio caiu sobre o assunto, para somente ser ressuscitado nos anos de 1970.

Émile Fradin, que se tornou um eminente arqueólogo, com muito esforço veio a formar um importante museu com o material recolhido em Glozel – ver o website oficial do museu - www.museedeglozel.com – , no qual encontram-se quase duas mil e quinhentas peças, entre cerâmicas, pedras trabalhadas e gravadas, ossos humanos e de animais, sendo que os ossos mostram uma tendência generalizada para a fossilização, o que pode indicar grande antigüidade.

Os ossos de animais apresentam-se com desenhos, similares ao do período pré-histórico denominado Magdalenense, pois mostram lobos, caçadores, renas, e diferem daqueles pelo fato de existirem alguns com sinais de escritura, do tipo denominado “glozeliano”. Isso não significa que o material seja do período Magdalenense, mas é um fato intrigante!

Depois de décadas, uma parte do material de Glozel terminou por ser autenticado. Assim, o Museu Nacional de Antigüidades da Escócia, a Comissão de Energia Atômica Dinamarquesa de Risö e o Centro Francês de Estudos Nucleares de Fontenay-aux-Roses, em exames paralelos de termoluminescência, concluíram que as peças eram autênticas, datadas de pelo menos 2500 anos (cerca de 500 a.C.). Posteriormente foram realizados testes de carbono-14 em diversos ossos com inscrições; obteve-se uma datação de pelo menos 8 mil anos, havendo inclusive algumas peças que atingiram 12 mil anos [tais peças foram descartadas depois, sendo consideradas como “contaminadas” por substâncias que interferiram na datação].

As ossadas humanas revelaram datas bem diferenciadas, sendo algumas contemporâneas dos ossos com inscrições, outras medievais e outras bem mais antigas, com até 18 mil anos.



Textos extraidos do blog de Paulo Stekel.