quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Depois de férias merecidas...


As Sefirot e a Teoria das Cordas

Rabi Moshe Chaim Luzzatto (1707-1746), um dos maiores Sábios e cabalistas na história judaica, escreveu que o mundo físico é um espelho do mundo espiritual. Cada fenômeno que existe em nosso mundo é um reflexo de uma realidade sobrenatural.

Como ensina o Midrash, D'us buscou na Torá e criou o mundo. Isto significa que a Torá é o plano-mestre de toda a criação e o mundo é o produto resultante. Fazendo-se uma analogia: se o mundo fosse um computador e as Ciências o estudo de seu funcionamento, a Torá - e particularmente a Cabalá - seria o manual que descreve sua conceituação e modelagem.
A Torá se inicia com o relato da Criação do Universo por D'us. Como tudo o que existe foi emanado de Um D'us, único e indivisível, deve existir uma unidade subjacente no cerne de toda a Criação. Por outro lado, como relata a própria Torá, D'us criou um mundo de enorme diversidade. E, com efeito, assim é o mundo - contém uma multiplicidade de seres, geralmente em vastas quantidades.
A Cabalá explica a Criação - a forma como a diversidade se originou da Unicidade Absoluta - através da doutrina das Sefirot. Estas são o modo mais básicos do poder criativo de D'us, que criou o universo emanando dez de Seus próprios atributos. Estes constituem a estrutura interna e externa do universo. É através das Sefirot que D'us interage com Sua criação e nada existe ou acontece no universo que não seja através das mesmas.
Por isso, por um lado deve haver unidade em toda a Criação, já que todas as Sefirot se originam de D'us, Fonte da unidade absoluta. Por outro, as Sefirot são dez, e não apenas uma, e sua combinação é o que responde por um mundo com tanta diversidade. Há uma boa razão para as Sefirot serem descritas como "os membros e funções do corpo humano". No corpo humano, todos os sentidos e funções biológicas são, a um só tempo, diferenciados e interdependentes. Coração e cérebro são órgãos diferentes, mas são interdependentes. De modo similar, as Sefirot são forças diferentes que funcionam em sincronia.
Há várias definições para o termo Sefirá, entre as quais, Safar (número) e Sefar (limite). As Sefirot geralmente são chamadas de Midot, literalmente "medidas" ou "dimensões". De acordo com a Cabalá, o universo tem dez dimensões e tudo o que existe em nosso mundo é constituído por uma ou mais das Sefirot. No Sefer Yetzirá, obra mais antiga da Cabalá, está escrito que as Dez Sefirot são as dimensões que constituem a totalidade da existência. Estas dez dimensões definem um caminho até o Ser Infinito que está além de toda a Sua Criação.
As Dez Sefirot
Nossa proposta, neste artigo, não é fazer uma descrição profunda de cada uma das Sefirot, portanto, apenas o faremos de forma breve. Estes atributos são divididos em duas categorias: três são intelectuais e sete, emocionais. A alma do homem possui esses dez atributos e isto explica o significado da afirmação de que o ser humano foi criado à imagem de D'us. Como dissemos, a Criação consiste das Dez Sefirot. Assim sendo, cada uma das criaturas, fenômenos, ações e eventos pode ser explicada através da manifestação de uma ou mais Sefirot.
Comecemos com as três Sefirot intelectuais. Para explicá-las, descreveremos uma experiência familiar a quase todos nós: a tentativa de solucionar difíceis problemas matemáticos. Um aluno está petrificado diante de um problema, mas nada lhe vem à mente. De repente, um estalo! Apesar de ainda não ter resolvido o problema, ele já não está no escuro; surgiu-lhe uma idéia. Este estalo é Chochmá (Sabedoria) - a primeira Sefirá intelectual. Mas Chochmá, por si só, não basta. Para solucionar o problema, o aluno terá que encontrar um caminho pela dificuldade, analisar tudo, talvez fazer alguns gráficos ou plugar alguns números. Este processo de análise é Biná (Compreensão) - a segunda Sefirá intelectual. É a ponte entre Chochmá e o terceiro atributo intelectual, Daat (Conhecimento). Quando o aluno solucionar o problema, obtiver a resposta correta e internalizar o conhecimento adquirido no processo, terá atingido a Sefirá de Daat.
As outras sete Sefirot referem-se às emoções. A primeira é Chessed (Bondade, Benevolência), que é a origem de todas as interações humanas. É através de Chessed que nos aproximamos e nos doamos aos outros. A segunda Sefirá emocional é Guevurá (Justiça, Disciplina, Força, Contenção). Guevurá é o meio pelo qual nos concentramos e direcionamos nossos esforços. Enquanto Chessed nos impele a chegar até os outros, a Guevurá nos permite estabelecer limites e fronteiras. A terceira Sefirá, Tiferet (Compaixão, Verdade, Beleza), mescla Chessed com a disciplina da Guevurá. Tiferet é o caminho intermediário, que integra amor e disciplina de maneira equilibrada e saudável.
Descendo pela Árvore das Sefirot, estão outros três Atributos da emoção. A quarta, Netzach, é a Sefirá das emoções da Ambição, Vitória, Eternidade, que dá origem à ambição e determinação, dando ao homem a força de lutar por suas crenças e o ímpeto de realizar seus objetivos. A quinta Sefirá emocional, Hod (Humildade, Submissão), é a raiz dos sentimentos de humildade, que nos permite deixar de lado nosso próprio ego. É, também, o que nos dá o poder de enfrentar um desafio e submeter nossa própria vontade à vontade de D'us. A sexta é Yessod (Vínculo, Fundamento). Constitui a essência da conexão emocional. É a capacidade que temos de nos ligar a outros - família, amigos, mestres. É o que cria o canal de vinculação entre quem dá e quem recebe, canalizando todas as outras cinco Sefirot emocionais em um único elo construtivo, criando a união entre os seres humanos.
A décima Sefirá é Malchut (Liderança, Nobreza, Soberania). É o que nos dá um sentido de propósito, independência e confiança, e um sentimento de certeza e autoridade. Esta Sefirá é, também, associada com a capacidade da comunicação e tradução dos pensamentos e sentimentos em ações.
Este mundo e tudo o que contém são produto da Emanação Divina através das Sefirot. D'us emana Chochmá, Biná, Daat, Chessed, Guevurá, Tiferet, Netzach, Hod, Yessod e Malchut, por meio das quais o mundo existe. Estas Sefirot são a base de tudo. Uma pessoa criativa personifica Chochmá; um grande analista emprega, em geral, Biná ; a pessoa que adquiriu grande conhecimento possui Daat. Açúcar e água são a objetificação da Sefirá de Chessed, ao passo que pimenta e fogo são a objetificação de Guevurá. Uma paisagem bonita e um belo ser humano refletem Tiferet. A pessoa ambiciosa personifica Netzach, enquanto a humilde, Hod. Carisma é o reflexo de Yessod, ao passo que liderança e autoridade refletem Malchut.
As Sefirot são os blocos formadores do Universo. A estrutura interior do mundo e de todos os seus constituintes é formada pelas Sefirot. A maçã, o peixe, a alma humana, um pensamento, decisão, palavra ou ação - todos partilham a mesma origem: as dez emanações cuja fonte é Deus, Uno e Único. É imperativo observar que nenhuma das Sefirot é D'us, Ele Próprio. Alertaram-nos os Sábios que aqueles que confundem as Sefirot com D'us estão cometendo grave erro, tão grave como a idolatria. As Sefirot, como tudo a mais, inclusive o Universo como um todo, emanam e residem dentro de D'us, mas não constituem D'us, Todo Poderoso. O Criador transcende tudo, inclusive todos os Atributos e toda a Criação.
Teoria das Supercordas
Em 1931, o jornal The New York Times reportava que Albert Einstein tinha terminado sua teoria do campo unificado - uma teoria que prometia reunir todas as forças da natureza em uma única trama matemática. Einstein pode não ter sido um judeu observante, mas algo em seu íntimo o levou a desvendar a subjacente unidade do universo. Einstein tinha a obsessão de comprovar pela Ciência algo que é um tema recorrente no estudo da Cabalá: o fato de que apesar da multiplicidade que há no mundo, existe uma unidade subjacente em toda a Criação que reflete a unidade absoluta de seu Criador.
A teoria do campo unificado de Einstein demonstrou ser falha, mas ele não desistiu. Mesmo em seu leito de morte, continuava rabiscando equações sem fim, na esperança desesperada de que se materializasse sua teoria. O que não ocorreu. Mas sua esperança estimulou outros cientistas a irem em busca da teoria unificada. Estes tinham percebido que sem tal teoria, muitas questões fundamentais sobre o universo não poderiam ser estudadas. Nos últimos 300 anos, o estudo das Ciências seguiu o caminho da unificação e consolidação: conceitos outrora considerados totalmente estanques demonstraram ser profunda e inextricavelmente vinculados. No século 17, Isaac Newton descobriu as leis do movimento, aplicáveis tanto a um planeta que se move pelo espaço quanto a uma maçã que cai da árvore. Newton revelou ser uma única a Física na Terra e nos Céus. Duzentos anos mais tarde, Michael Faraday e James Clerk Maxwell demonstraram que as correntes elétricas produzem campos magnéticos e que os ímãs em movimento podem produzir correntes elétricas. Os dois cientistas demonstraram que essas duas forças são unidas. No século 20, Albert Einstein provou que espaço, tempo e gravidade são entrelaçados. Seu sonho era descobrir uma teoria superior a todas as demais, que fundiria a gravidade e o eletromagnetismo em uma única teoria-mestre sobre as forças da natureza.
Após sua morte, outros grandes físicos continuaram a busca da teoria unificada. Na década de 1960, as pesquisas de Sheldon Glashow, Abdus Salam e Steven Weinberg, que lhes valeram o Prêmio Nobel, revelaram que quando submetidas a elevadas energias, as forças eletromagnéticas e as baixas forças nucleares combinavam de forma perfeita. Em trabalhos subseqüentes, outros demonstraram que submetida a energias ainda mais altas, uma força nuclear mais forte também combinaria. Isto convenceu muitos físicos de que não havia obstáculo fundamental em unificar três das quatro forças existentes na natureza. Durante décadas, a força da gravidade foi a única força que apresentou problema para a teoria da unificação. O problema que tanto perturbara Einstein foi a disjunção entre sua própria teoria da relatividade geral, que é relevante para objetos extremamente maciços, como as estrelas, e a mecânica quântica, que é a estrutura usada pela Física para tratar dos objetos muito pequenos, como os átomos e suas partes constituintes. Alguns dos mistérios resultantes dessas teorias conflitantes incluem o motivo da gravidade ser tão fraca em relação a outras forças físicas fundamentais, tais como o eletromagnetismo, e a razão para o universo ser tão grande. Essas questões surgem porque em uma escala diminuta ao extremo, as partículas que compõem nosso mundo parecem comportar-se de maneira totalmente diferente do que se poderia imaginar. Na década de 1980, emergiu, na Física, uma nova abordagem a esse enigma científico. É chamada de Teoria das Supercordas, ou simplesmente, Teoria das Cordas. Os difíceis e complexos cálculos dos físicos John Schwarz e Michael Green, que passaram anos imersos em sua pesquisa, trouxeram fortes evidências de que a nova teoria não apenas unificaria a gravidade e a mecânica quântica, mas também as demais forças da natureza.
A Teoria das Cordas oferece uma nova perspectiva sobre os componentes fundamentais da matéria. A matéria era vista como constituída de pontos ínfimos, quase sem tamanho - os átomos, que são compostos de prótons, nêutrons e elétrons - e os quarks, que são um tipo genérico de partículas físicas que se combinam de formas específicas para formar prótons e nêutrons. A Teoria das Cordas revela que os componentes de qualquer matéria são, pelo contrário, filamentos minúsculos e vibrantes, como cordas. Assim como diferentes vibrações de um violino produzem diferentes notas musicais, as diferentes vibrações das cordas da teoria produzem diferentes tipos de partículas. Os pioneiros estudiosos da teoria perceberam que uma dessas vibrações produziria a força gravitacional, demonstrando que a Teoria das Cordas abrange ambas, a gravidade e a mecânica quântica. Portanto, soluciona a incompatibilidade entre a mecânica quântica e a relatividade geral.
A Teoria das Cordas está sendo aqui descrita de maneira genérica, praticamente sem usar linguagem científica, mas se trata de um estudo que envolve uma análise rigorosa e complexos cálculos matemáticos. Há mais de 20 anos vem-se pesquisando intensamente a Teoria das Cordas, que tem sua coerência matemática comprovada por cálculos longos e intrincados. Até o presente, não houve contestação quanto à sua exatidão. Impressiona, também, o fato de que muitas descobertas na Física, nos últimos dois séculos, encontram-se na Teoria das Cordas. Isto indica que a mesma é a chave de entrada para esta complexa ciência.
Não causa surpresa o fato de que esta teoria tenha chamado a atenção de tantos cientistas e matemáticos. Muitos deles acreditam que a mesma forneça a infra-estrutura para a construção da tão buscada teoria unificada. Como ensina que qualquer coisa em seu nível mais microscópico consiste de combinações de cordas em vibração, esta teoria fornece um marco único de explicação capaz de englobar não apenas tudo o que é matéria, mas também todas as forças. As partículas da força são associadas a padrões específicos de vibração de corda. Assim como a matéria, estas partículas são unificadas sob a mesma rubrica de oscilações microscópicas das cordas.
A teoria das cordas às vezes é descrita como a teoria de tudo - a teoria final, suprema. Muitos de seus defensores acreditam que uma tal teoria explicaria as propriedades das partículas fundamentais e as propriedades das forças que as fazem interagir e influenciar umas às outras. De modo mais simplista, tudo o que existe e tudo o que ocorre no universo é uma reação entre as partículas fundamentais que, de fato, são cordas que vibram.
A Cabalá e a Teoria das Supercordas
Ensina-se, na Cabalá, que D'us criou o mundo através das Dez Sefirot. Na verdade, existe um atributo adicional, Keter. Esta Sefirá está tão além de nossa compreensão que não costuma ser incluída como uma das Sefirot. Exprime a Vontade de D'us - Seu desejo de criar. Como não podemos sequer pretender imaginar os desejos Divinos, a Cabalá costuma mencionar apenas as Dez Sefirot. No entanto, o desenho da Árvore das Sefirot obrigatoriamente inclui a décima-primeira, Keter.
Assim como a Cabalá fala das Dez Sefirot, que, de fato são onze, também a Teoria das Cordas fala de dez dimensões, que, na realidade são onze. Alegam os cientistas que para que as cordas formem adequadamente nosso universo, elas devem vibrar em onze dimensões. Todos podem observar três dimensões espaciais e uma temporal, mas os modelos da Física sugerem outras sete.
A doutrina das Sefirot e da Teoria das Supercordas dizem, essencialmente, a mesma coisa através de linguagens diferentes. A teoria é a descoberta científica dos fenômenos que os cabalistas conhecem há milênios. Quer saiba ou não, um físico que estuda as Supercordas está estudando a Cabalá pelo prisma das Ciências. As cordas são a manifestação física das Sefirot. De fato, muito antes da descoberta dessa teoria, a Cabalá falava de cordas sobrenaturais. Ao descrever a criação do universo, o misticismo judaico revela que D'us escondeu Sua Luz Infinita, criando, destarte, um espaço que parece despojado de Sua Presença. Neste domínio, que parece ser um vácuo, Ele criou nosso mundo. E o fez através de um raio da Luz Divina, chamado de "corda". Através dessa corda inicial, foram emanadas as Dez Sefirot - as outras dez cordas - e estas, continuamente criam tudo o que existe e tudo o que transpira no universo. É interessante observar que há um mandamento particular na Torá, o de Tsitsit, que envolve cordas.
Os homens judeus são obrigados a atar Tsitsit - cordas de lã - a roupas com quatro cantos. Este mandamento é tão importante que é considerado equivalente em importância a todos os demais, juntos. É, também, um dos poucos mandamentos mencionados no Shemá Israel: "Isto vos servirá de Tsitsit, cordas visíveis, e vendo-o recordar-vos-ei de todos os mandamentos do Eterno, para observá-los". O Talmud coloca uma questão: como Tsitsit é uma palavra no plural, não deveria, então, estar escrito: ... e vendo-os"...? E responde que quando olhamos para os Tsitsit, o que devemos ver não é "a elas" - as cordas ou franjas do Tsitsit - mas a "Ele" - D'us, em toda a Sua plenitude.
À luz do que discutimos acima - as Sefirot e a Teoria das Cordas - podemos inferir que o Shemá Israel, prece de suma importância e misticismo, sugere que os Tsitsit simbolizam as cordas que constituem a Criação unificada, encaminhando-nos na direção de D'us Único. Em outras palavras, os blocos formadores do universo, quer os denominemos de Sefirot ou de cordas, quer sejam discutidos por cientistas ou por estudiosos da Torá, apontam na direção do Infinito Criador.
Muitas pessoas erroneamente acreditam que Torá e Ciências são conflitantes. Pois não o são: como indicou o Rabi Luzzatto, o físico é uma mera reflexão do espiritual. Aquele que crê que Torá e Ciências estão em contradição certamente não entende bem uma das duas. Isto explica a razão para que muitos de nossos maiores sábios - o Rambam, o Gaon de Vilna, o Baal HaTanya e o Lubavitcher Rebe - tivessem tamanha compreensão das Ciências.
A Teoria das Supercordas é a Cabalá estudada sob a lente da Física. E assim como o estudo das Sefirot, a teoria nos ensina que este universo de diversidades e de multiplicidades é, com efeito, elegantemente disposto e unificado. A unidade do universo é o reflexo da Unicidade de D'us e o fato de ter sido elegantemente projetado nos faz lembrar que foi concebido por um Desenhista Perfeito. `
Diz-se que uma rosa é uma rosa, ainda que lhe troquemos o nome. De forma similar, D'us, seja encoberto pela linguagem da Física ou pela da Cabalá, é D'us, Único, Senhor dos Céus e da Terra, e de tudo o que contêm estes dois mundos.
Tev Djmal

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A ÁRVORE COMO SÍMBOLO E A DIMENSÃO VERTICAL DA EXISTÊNCIA...


O exercício humano de apreensão e compreensão da própria existência,  e do universo, sempre dispôs de inúmeras formas de interpretação da  realidade. Na maioria das vezes essas diferentes formas de representação utilizam-se de imagens que visam representar as experiências vividas pelos indivíduos e pelos grupos. No passado, assim como hoje, esse exercício constitui a origem do conhecimento abstrato humano, ou seja a idéia de que a experiência vivida pode ser de alguma forma perenizada por meio de um símbolo que expresse o seu valor. Os ritos e rituais que caracterizam o caminho iniciático é em grande parte resultado dessa tentativa humana de transmitir a experiência vivida aos seus descendentes, utilizando-se para isso de símbolos capazes de expressar os ciclos da vida e a conexão com a o processo de criação através de sua representação.
A vida, a morte, a matéria, o espírito/alma, o começo, o fim, e todas as faces da criação são percebidas pela humanidade no ciclo ininterrupto da vida natural.  A tentativa de compreender esse ciclo  pode ser feita de muitas formas, através da Religião, da Ciência, da Arte, da filosofia… enfim, toda a criação humana pode ser vista como uma tentativa de compreender a própria existência.
O caminho iniciático não é uma particularidade do universo místico/religioso, mas é uma configuração presente em todo processo humano de desenvolvimento pessoal. É por essa razão que o uso de determinadas imagens simbólicas será recorrente nas mais diversas culturas. Essa “coincidência” nos fala de que o recurso simbólico exemplifica a busca de satisfação de necessidades humanas essenciais, inerentes a todos de nossa espécie, necessidades estas que expressam  a busca pela (re)ligação do sujeito com sua origem e sua essência primordial, ou seja, é como se de alguma forma, todos nós inconscientemente buscássemos o vínculo de nossa existência com algo que transcenda nossa vida ordinária e do dia-a-dia, algo que nos conecte para sempre com a dinâmica do universo e nos aproxime da imortalidade, que é representada pelas figuras divinas.
Tanto as experiências de nossa vida cotidiana quanto as figuras que transcendem essas experiências são representadas em linguagem simbólica, seja por meio de parábolas e/ou metáforas. Existem símbolos que são universalmente aceitos e podem ser encontrados nas mais diversas culturas, alguns associam-se ao nosso desejo de transcender, como as Montanhas; outros expressam nossa luta cotidiana no plano da existência material, como a Espada; outros traduzem a nossa interdependência do mundo físico, como a caverna; e há aqueles que visam simbolizar a interação dinâmica entre esses vários níveis da experiência, a Árvore é o principal deles.
A Árvore como um símbolo sagrado é encontrada em várias culturas humanas e nas mais diversas épocas de nossa história. A Árvore representa a estrutura do universo, sendo que seus galhos simbolizam a conexão com as dimensões superiores da existência, ao passo que a raiz evoca a nossa vinculação com os aspectos mais primitivos e funcionais de nossas vidas. Da mesma forma, as múltiplas dimensões da Árvore e seus frutos representam os atributos positivos do eterno. A Árvore Sagrada faz parte da tradição de povos tão distintos quanto Maias, Escandinavos, Chineses, Maoris, Africanos e Hebreus.
Em nossa maneira de tentar explicar a nossa própria existência em suas diferentes dimensões, conferimos às experiências vividas valores distintos, em função basicamente das sensações e sentimentos desencadeados por cada um dos eventos que experienciamos. Um dos recursos simbólicos que utilizamos para eternizar uma experiência e dar-lhe significado é a metáfora espacial. A metáfora espacial implica na distribuição dos eventos no espaço geográfico de forma que sua função esteja associada a um determinado local/região do nosso campo de percepção/ação. Por exemplo, a Mandala, sua forma circular confere uma ênfase especial ao centro que representa o ponto de origem, e que por conseguinte encerra a idéia de união, assim como de equilíbrio, já que todo o movimento circular gira em torno desse ponto, que se torna tanto o distribuidor quanto o catalisador do movimento. Encontraremos essa metáfora espacial da Mandala/Círculo em lugares tão diversos quanto “O Esquema Cabalístico da Criação”(Herne, 10/02/02) quanto nas Danças Circulares Sagradas.
A Metáfora Espacial revela a força que as dimensões espaciais possuem em nossa interpretação do mundo, assim como pode nos ajudar a entender suas conotações arquetípicas. Os conceitos de “acima” e “abaixo”, por exemplo, possuem numerosas associações conotativas que tem um caráter universal. Em culturas de línguas diferentes, a idéia de sentir-se bem é associada a dimensão espacial do alto, do movimento crescente: “pra cima”, “10/1000”, “no topo”. Por outro lado, quando nos sentimos tristes, derrotados, apáticos usamos expressões que remetem a dimensão espacial do baixo, do movimento decrescente: “no fundo do poço”, “no limbo”, “na sarjeta”, etc. Da mesma forma, acreditamos que podemos “superar dificuldades”, que nosso padrão de vida está “caindo” ou “subindo”, que nossas chances “foram pelo ralo” ou que atingimos “o topo”.
Na Mitologia, nos Contos de fadas, nas Religiões, assim como nas expressões do dia-a-dia, encontraremos imagens que reportam ao espaço geográfico do alto como sendo símbolo de ascensão física e/u espiritual, em paralelo, os lugares subterrâneos como cavernas, poços e minas estarão associados a idéias tristes como morte, queda e todo tipo de perda. Os Deuses que habitam os lugares altos costumam apresentar características menos humanas como inveja, luxúria, cobiça, etc., que os Deuses que habitam as profundezas da terra. Mesmo quando características muito humanas são encontradas em Deuses do alto, isso é colocado de forma lúdica, jocosa, ao passo que nos Deuses dos subterrâneos essas características são mostradas de forma destrutiva e agressiva. Também é nos subterrâneos que habitam criaturas monstruosas e primitivas como ogros e dragões, e todo a sorte de seres rastejantes,venenosos e mortais, ao passo que grande parte dos seres míticos/mitológicos tidos como superiores apresentam alguma habilidade de vôo, que muitas vezes pode ou não ser representada por asas, ou qualquer outro tipo de deslocamento que independa do contato com o solo.
Dessa forma, objetos e estruturas verticais geralmente simbolizam níveis superiores e/ou inferiores da experiência, a existência e do ser, e a Árvore Sagrada é um dos símbolos humanos que apresenta essa estrutura. A imagem do Buda Sakiamuni recebendo sua iluminação, após 49 dias de meditação profunda, sentado sob a árvore Bodhi, normalmente representada como uma figueira da índia (na verdade, um trabalho profundo de iluminação dos 49 níveis de sua mente pela energia sagrada da kundalini, simbolizada pela Árvore do Bem e do Mal), é um forte exemplo do caráter simbólico da Árvore como expressão dos mundos superiores e inferiores. Um outro bom exemplo disso é Yggdrasil, a árvore mítica escandinava representada por um gigantesco Freixo situado no cimo de uma montanha, cujos galhos mais altos atingem o Valhalla, a morada dos deuses, e suas raízes (as forças primárias) estendem-se até duas fontes: a da primavera e a da sabedoria, guardadas pelo lobo Fenris (a Lei) e pelo gigante de gelo Mimir (as forças instintivas da natureza).
Assim como podemos também ver na Árvore da Vida dos Cabalistas, cujas raízes estão em Malkut, ou reino e o topo em Kether ou a Coroa, a árvore como símbolo arquetípico indica uma conexão entre os mundos superiores e inferiores. Tal conexão se torna possível por meio de uma terceira estrutura da árvore, o seu tronco. É através do tronco que podemos ascender da raiz à copa, do mundo material ao mundo espiritual. No corpo humano, o simbolismo vertical de conexão entre os mundos aparece na coluna vertebral, que representaria a idéia de progresso moral e espiritual, servindo de conexão entre as funções inferiores (sexualidade, atividades de liberação de toxinas) e superiores (conhecimento, iluminação espiritual). Dessa forma, assim como o tronco, a coluna vertebral torna-se um símbolo de transcendência ou transformação.
A necessidade do tronco para se atingir a copa da árvore, fala-nos de algo muito próprio do caminho iniciático, que é a idéia de que o processo de iluminação não implica na eliminação de nossa porção animal, física, material, mas na integração desta ao movimento dinâmico da existência, de forma que isso nos permita usar essa energia telúrica, terrena, para nosso próprio crescimento. Em verdade, essa é a proposta de formas de conhecimento como a Yoga e a Dança do Ventre, por exemplo.
Na Yoga, entende-se ser necessário o despertar da energia Kundalini, localizada na base da coluna vertebral e representada por uma serpente. Essa energia associa-se fundamentalmente as forças da terra, as necessidades básicas de sobrevivência como comer e reproduzir e aos sentimentos de manutenção das condições necessárias para isso, sua força de ação fundamenta-se no contato do corpo com o solo através de pernas e pés. O despertar da Kundalini, tem por finalidade a condução dessa energia coluna acima, a fim de que ao subir pela coluna ela desperte vários centros espirituais (Chacras), até atingir o mais alto deles, o “Lótus de mil pétalas”, localizado no topo da cabeça, e assim, promover a conexão entre os dois níveis da existência.
Na Dança do Ventre o processo é similar, inicia-se o aprendizado por meio do trabalho de conscientização corporal através de exercícios de pés, pernas e quadril que representam a ligação da mulher com a terra, isso vai promovendo o desbloqueio dos movimentos da região do ventre e membros inferiores, e favorecendo a circulação da energia corporal. Há a inclusão progressiva de movimentos dos membros superiores, e por fim o trabalho de coordenação entre os dois níveis corporais, levando por fim aos estágios mais avançados da Dança que são caracterizados pela harmonização entre os membros inferiores e superiores do corpo feitas sob o pulsar rítmico da musica. Esse envolvimento integral do corpo e mente da Dançarina com a musica pode ser expresso na dança de transe ritual conhecida como Zaar, e em outras formas de compreensão do aspecto iniciático e mítico dos símbolos e movimentos utilizados na Dança.
Esses breves exemplos servem como ilustração da função simbólica da Árvore como veículo de conexão do ser humano com os diversos níveis da existência. De certa forma… “o ser humano é o ponto de encontro entre o Céu e a Terra, é uma imagem da criação, e por essa razão pode ser entendido como uma árvore em miniatura completa mas irrealizada, e situada em um grau inferior ao dos anjos, o homem tem a escolha de elevar-se galgando os próprios ramos, até atingir o derradeiro fruto” (Z’ev ben Shimon Halevi, 1991). Nesse sentido a coluna vertebral, como símbolo correspondente ao tronco da Árvore Sagrada, nos torna um símbolo vivo da dinâmica universal e nosso próprio veículo de ascensão aos níveis superiores da existência.
A partir dessa concepção talvez seja mais fácil compreender o fascínio infantil por “trepar” em árvores, esse exercício único que nos permite atingir a copa, os galhos mais altos por nossos próprios méritos, e de lá descortinar o mundo, ou colher o fruto do nosso esforço, compartilhando o espaço com os passarinhos – os seres de asas, aqueles que atingem as alturas – conhecer o inacessível e tornar-se uno com ele.
*Angelita Viana Corrêa Scárdua é Psicóloga Clínica; Mestre em Psicologia Social pela USP (SP); Especialista em Abordagem Junguiana; em Neurociências e Comportamento e Professora Universitária.


Mitos e Arquétipos...


Muitos termos empregados livremente pelo senso comum possuem uma origem acadêmica, ou seja, são conceitos desenvolvidos dentro de disciplinas formais a partir de uma perspectiva “científica”. Por essa mesma razão, esses conceitos possuem delimitações muito claras quanto ao seu emprego e significado. Alguns dos conceitos psicológicos mais utilizados vulgarmente são os deArquétipo, Símbolo e Mito.Símbolo e Mito são conceitos empregados em várias disciplinas acadêmicas como Antropologia, Filosofia, História, Sociologia, etc.


Na Psicologia os conceitos de Símbolo e Mito recebem determinações e explicações diferentes em função da abordagem teórica. Mas, em geral, o uso (muitas vezes indevido e deturpado) que se faz desses conceitos no senso comum, deriva das interpretações dadas pela Psicologia. Em particular, essa apropriação pelo senso comum das interpretações psicológicas dos conceitos deSímbolo e Mito, quase sempre remetem à Psicologia Analítica criada pelo psiquiatra suiço Carl Gustav Jung (1875-1961). Isso se dá em especial, pelo fato dos conceitos de Símbolo e Mito estarem na maioria das vezes associados ao deArquétipo, esse sim criado pelo próprio Jung. Tais conceitos são tomados como recurso auxiliar de explicação da experiência subjetiva humana nas mais diversas formas, mas poucas vezes atribuem-lhes o sentido original em que foram concebidos por Jung.

Então para que possamos entender do que tratam esses conceitos numa perspectiva junguiana,  é bom partirmos do raciocínio que permitiu a elaboração dos mesmos.

Começando pelo Arquétipo. Imagine-se como um(a) integrante de um dos primeiros grupos de humanos sobre a Terra: 70% do que você come, do que te mantém vivo, inclusive a água vem da terra, a coleta de raízes e frutos vem especialmente das florestas. Quanto aos outros 30% da sua alimentação que é a caça, também vem indiretamente da terra. Todos os animais precisam de água, além do que, os animais carnívoros se alimentam em grande parte de animais herbívoros que se alimentam de vegetais (como nós dos bois e os leões dos cervos). Além do alimento os animais também podem te conferir abrigo e aquecimento através de suas peles. Os animais também podem te oferecer adornos e enfeites por meio de suas penas, chifres e ossos e com isso você pode se tornar mais atraente e garantir a conquista de parceiros e a reprodução/sobrevivência da espécie humana. Logo, podemos ver que o ciclo da vida está intimamente ligado a terra.

Agora, imagine que uma mulher do seu grupo pré-histórico deu a luz! Bom, para começar o nascimento da criança foi anunciado pela água (o estouro da bolsa), ao nascer a criança é alimentada no seio da própria mãe, cujo corpo também mantém a criança aquecida. Ora, você pensa: “a mulher é tal e qual a terra, ela dá a vida. A mulher provê alimento, água, aquecimento e proteção para seu filho, da mesma forma que a terra faz conosco”. A associação é imediata e faz todo sentido, não é mesmo?! Pois bem, aqui temos configurado o Arquétipo da Mãe!! Ou seja: a idéia/imagem/vivencia/experiência de que há uma fonte nutridora e protetora que nos garante a vida é representada por esse Arquétipo.

Tudo o que se relacionar a vida, seu surgimento e recursos para sua manutenção, se encontrará representado por imagens representativas desse Arquétipo. Sendo assim: a Floresta, a Água, a Terra, a Mulher em idade reprodutiva, grávida e em aleitamento e tudo o mais que você possa usar para expressar a idéia de Terra-vida serão Símbolos do Arquétipo da Mãe. Nesse sentido os Arquétipos seriam a matéria-prima psíquica e afetiva através da qual nossos antepassados atribuíram significado à experiência humana de interação com o mundo, experiência essa cujas raízes remetem a condição biológica da própria espécie. O Arquétipo então, seria a matriz, a fonte, que coordena a formação dos elementos que estruturam a nossa psiquê, os Símbolos.

Dessa forma, o Símbolo não é uma criação literária ou uma invenção pessoal, mas uma propriedade subjetiva da condição humana e todo pensamento e toda ação consciente que temos, seria uma conseqüência do processo inconsciente de simbolização de um evento vivido. Por essa razão o Símbolo é o veículo de comunicação entre a psique individual e o inconsciente coletivo – entre o inconsciente e o consciente – aonde os Arquétipos ganham forma.

Bom, mas ai você e o seu grupo pré-histórico ainda não conhecem a escrita, não há como vocês registrarem essa grande descoberta que vocês fizeram sobre a ligação entre a Terra, a Mulher e a Vida. E embora essa experiência esteja simbolizada ao nível do inconsciente, vocês não têm consciência disso. Em especial, porquê é característica do Símbolo que sua vivência se expresse por meio de um pressentimento, um sentimento, um sentido, algo afetivo que nos revela um significado que antes era desconhecido. É o símbolo que nos orienta para conteúdos psíquicos desconhecidos, levando-nos assim ao encontro dos Arquétipos que habitam no inconsciente.

Então o que vocês fazem para assegurar que esse conhecimento do mundo e da vida seja transmitido aos seus descendentes? Vocês contam estórias!

Para quem não conhece a Biologia e os mecanismos genéticos de reprodução, a vida pode ser vista unicamente como um acontecimento mágico e divino. Logo, esse acontecimento mágico é com certeza presidido por uma Deusa e por um Deus – assim como o nosso nascimento é presidido pelo encontro entre um macho e uma fêmea. Com esse conhecimento adquirido, as estórias do seu grupo pré-histórico vão ganhando um colorido todo especial, elas se desenvolvem a partir da percepção da presença divina em suas vidas – ou seja, da presença de algo que transcende a capacidade humana de explicar os fenômenos vivenciados pelo grupo. Então, as histórias contadas por você e seu grupo são estórias da vida dos deuses, mais do que isso, são estórias que falam da presença dos deuses e do mundo sobrenatural em nossas vidas, essas estórias são os Mitos.

Os Mitos são relatos expressivos de tempos imemoriais, de acontecimentos, vivências e fenômenos cuja origem se perde na memória da humanidade.

Com sua narrativa simbólica os Mitos contam estórias de um tempo em que não havia História, um tempo em que a experiência humana não podia ser registrada pela escrita ou pela fotografia. O tempo histórico do Mito é o tempo da luta humana para fixar-se como espécie sobre a face da terra e por isso mesmo um tempo heróico e fabuloso em que as forças da natureza ora eram vistas como ameaças devastadoras, ora eram vistas como recursos essenciais à sobrevivência do ser humano. Essas forças indomáveis do mundo natural tinham para nossos ancestrais a invencibilidade do sobrenatural, ou seja, daquilo que se sobrepõe à própria natureza e que é maior e melhor do que ela e, por isso mesmo, a única coisa capaz de gerá-la e expressá-la: os deuses.

O impulso de nossos ancestrais para criar Mitos, é a ação na qual todas as relações entre o ser humano e o mundo ganham sentido e assim o que antes não tinha significado passa a ter.

Segundo Jung, os Arquétipos: “não são idéias herdadas, mas possibilidades herdadas”. Sendo assim, os Arquétipos não seriam determinados quanto ao seu conteúdo mas apenas quanto à sua forma. Logo, já que o Mito é mais que apenas uma recordação ancestral de situações naturais e culturais, ou uma elaboração fantasiosa sobre fatos reais, eles seriam uma expressão simbólica dos sentimentos e atitudes inconscientes de um povo. E a medida que a humanidade vai passando por novas experiências, adquire novos conhecimentos e novas habilidades, os Mitos se transformam e novos Símbolospassam a exprimir as imagens contidas no Arquétipo primordial. Com o advento da agricultura, por exemplo, os grupos humanos descobriram que era possível “manipular” a terra, tratá-la e cuidar de forma que ela nos respondesse com mais e mais frutos. Mitos como o de Deméter, uma das principais representações do Arquétipo da Mãe, são típicos de uma sociedade agrícola.

Outros Mitos representativos da Mãe, como Hécate por exemplo, falam de um outro aspecto da descoberta da possibilidade de “manipulação” da terra que é a Magia. Em sociedades primitivas como a dos Bosquímanos do Kalahari na África, que são sociedades essencialmente de coletores-caçadores, a Magia não tem a força que tem nas sociedades agrícolas. Ora, a agricultura traz em si a idéia de que é possível “negociar” com a Terra (Deusa-Mãe), pela obtenção de seus frutos, é possível agradá-la! E o que é a Magia, se não uma “negociação” com os deuses para obtermos os seus frutos.

Os antigos gregos invocavam Afrodite – oferecendo-lhe os elementos por ela presididos – a rosa e o perfume (a semelhança dos ritos a Iemanjá afro-brasileira) – para dela obter beleza e amor. Invocava-se Ares oferecendo-lhe carneiros em sacrifício, para dele obter energia, iniciativa, coragem, etc., atributos desse deus. Nas comunidades agrícolas do interior de países cristãos como o Brasil, as moças casadoiras aprisionam a imagem do Santo Antônio para que ele lhes provenha um marido e garanta assim a própria libertação. Na aridez do sertão, procissões de flagelados pela sêca seguem carregando pesadas imagens santas e se comprometendo com novenas e missas para obter chuva. Nos templos neo-pentecostais das cidades brasileiras, multidões de fiéis bezuntam-se em óleos e purificam-se com fogo e sal grosso na crença de invocarem a proteção do espírito santo, enquanto deixam como oferenda seus salários e últimos trocados. A jovem estudante universitária adentra uma loja de produtos esotéricos e compra um incenso que, na visão dela, trará a harmonia dos elementais do ar ao ser aceso em sua casa…

…Do ponto de vista psicológico, todas as atitudes descritas acima pautam-se no pensamento mágico, cuja origem histórica nos remete a descoberta da agricultura pela humanidade e sua consequente descoberta de poder cuidar/agradar a terra (os deuses), e com ela poder negociar para garantir a própria sobrevivência. Os frutos que queremos dos deuses pode ser uma boa colheita ou mais intuição, proteção ou cura, um marido ou dinheiro, e para isso nos pomos a “agradá-los” e com isso tentamos “negociar”.
É importante que todos entendamos bem uma coisa: os antigos caçadores possuíam suas formas de reverenciar divindades, mas quando se fala na associação entre Magia e sociedade agrícola, estamos falando da elaboração de rituais complexos, de estabelecer hierarquias de culto com figuras sacerdotais, etc., estamos falando da prática mágica como sistema de culto religioso ou similar. Isso é característico do período de surgimento das sociedades agrícolas e aparentemente está muito ligado à descoberta de que é possível “negociar” com a terra, que é a idéia básica do processo agrícola. As mudanças culturais e históricas mudam o perfil dos Mitos, de uma certa forma isso é um processo inconsciente que ocorre para que possamos continuar acessando o Arquétipo no nosso imaginário de forma a permitir que símbolos antes desconhecidos continuem a dar significado às experiências vividas e a ordenar o conteúdo de nossa psiquê.

Através do Mito trazemos a divindade para junto de nós, simbolizamos a força desafiadora da natureza representada pelos deuses em estórias nas quais a estabilidade do universo está atrelada à própria origem e manutenção da vida. Por meio dos Mitos percorremos o caminho simbólico que nos dá acesso ao conteúdo arquetípico em nossa psiquê e que expressa os anseios humanos de transcender os desafios da sobrevivência cotidiana que são da ordem da natureza/biologia. Adentrar o plano sobrenatural – esse espaço simbólico que suplanta a invencibilidade das necessidades impostas ao homem pelo mundo natural/biológico – é aproximar-se do divino, é partilhar com os deuses de sua capacidade criadora que não apenas desafia as forças da natureza como é sua própria fonte geradora.

Quando um ser humano realiza um grande feito, quando ele se iguala aos deuses, é porquê ele superou as adversidades de sua própria condição humana ao enfrentá-las bravamente, e quando isso acontece ele se torna uma Lenda!Se o Mito é a narrativa simbólica de como os deuses atuam no mundo e dão origem a toda vida a partir de sua própria gênese; a Lenda (e também os Contos de Fadas), narra os caminhos percorridos pelo humano para superar sua condição de origem animal e assemelhar-se ao divino.

Tanto o Mito quanto a Lenda oferecem recursos simbólicos de acesso a psiquê mais profunda (Inconsciente Coletivo) e ao mundo arquetípico. A Lenda porquê nos lembra de nossa condição animal (biológica/mortal/limitada), e do papel dos instintos nas nossas relações com a natureza. O Mito por não nos deixar esquecer de nossa capacidade criativa que dá significado ao mundo e celebra o que há de divino em nós. Mito e Lenda, tanto um quanto a outra nos colocam em contato com os conteúdos do Inconsciente Coletivo, o espaço imaginário em que os Símbolos ganham vida pela soma dos instintos biológicos e de seus correlatos psicológicos, os Arquétipos.


*Angelita Viana Corrêa Scárdua é Psicóloga Clínica; Mestre em Psicologia Social pela USP (SP); Especialista em Abordagem Junguiana; em Neurociências e Comportamento e Professora Universitária.

A Alquimia...


A Alquimia, ao longo dos séculos, sempre assustou e confundiu as pessoas que tentavam compreendê-la. Mas esse era o propósito dos alquimistas. Eles queriam realizar seu trabalho sem correr o risco de serem queimados nas fogueiras da ‘Santa Inquisição’. Muitos alquimistas trabalhavam escondidos em porões e até usavam os subterrâneos das antigas catedrais; alguns eram padres, sacerdotes religiosos e cientistas famosos. Portanto, o encobrir e o iludir faziam parte da alquimia. Além disso, a obra alquímica mexe muito com a nossa alma e por isto nos atemoriza. Outra característica dos alquimistas é o uso das figuras (imagens), o que normalmente desestabiliza o Ego. Os termos alquímicos, desde os mais simples até aos mais complicados, não podiam ser catalogados em um dicionário, pois eram usados com sentidos diferentes, até por uma mesma pessoa. Como fazer, para que matéria inicialmente tão complexa, deixe de sê-la?

Podemos nos imaginar nos dias de hoje fazendo um churrasco dominical e tentando afastar aquelas figuras indesejáveis que perguntam a toda hora se o churrasco está pronto ou mexem na carne que você acabou de virar. A tia que não encontramos desde o Natal, quer saber o segredo do seu molho de alho, manteiga e pimenta do reino. O sobrinho capeta estica o olhar guloso e pergunta sobre o coração de galinha. Para não causar constrangimento nas indiscretas figuras que mais parecem sair de um conto de Nelson Rodrigues ou de Kafka, você responde: “Fui no mercado ‘Estadual dos Produtores Associados Independentes’ e comprei a ‘substância protéica bovina desnaturada’, com cortes ‘longitudinais transcendentes e oblíquos’”. Os chatos se afastam ou vão embora por alguns momentos achando que você é um grande cozinheiro e, você fica livre das desagradáveis companhias.

Na Alquimia aconteceu coisa parecida. Não acredito que os alquimistas estavam em busca de ouro nem do elixir da longa vida. Eram na sua maioria pessoas introvertidas em busca do seu caminho espiritual. Eles queriam ficar em paz sem sofrer perseguição por parte do ‘poder constituído’.

Vamos agora tentar simplificar bastante o ‘processo alquímico’ e tirar deles aquela aura de mistério. Vamos deixar o ‘pano preto’ para os tímidos ou os ignorantes. Ao mesmo tempo olharemos os processos básicos da alquimia com uma visão psicológica, para ver que o evoluir da alma é dolorido, mas no final vale a pena o sacrifício da jornada.

Eles diziam, que deveríamos pegar a ‘prima materia’ (matéria prima) e trabalhá-la de diversos modos até alcançar o ‘Lapis Philosoforum’ (pedra filosofal) e com essa pedra poderiam transformar metais em ouro ou preparar o elixir da longa vida a partir do sereno ou de outros líquidos da natureza. Vocês podem achar que a colocação está muito simples, mas é isso mesmo, ir de A até B; sendo que A é o ‘bruto’ e B o ‘elaborado’. O complicado e o difícil era o caminho de A até B, pois esse era próprio de cada indivíduo. O processo para ir da ‘matéria prima’ à ‘pedra filosofal’ era longo, trabalhoso e cheio de tortuosidades e muitas vezes, acidentado.
Um caminho muito parecido com a busca espiritual dos religiosos. Um caminho muito parecido com o da individuação de Jung. Um caminho muito parecido com o ‘conhece-te a ti mesmo’ dos gregos.

Se formos listar os materiais usados como matéria prima, vamos encontrar mais de 500 nomes e, alguns esdrúxulos com: esterco de vaca, leite de virgem, urina de criança, menstruação de prostituta, etc. A própria pedra filosofal possuía várias denominações conforme o alquimista que escrevia, o século em que viveu ou seu país de origem. Mas no fundo se tratava de transformar algo bruto em um material refinado, o que corresponde a nossa transformação psíquica. Como eu disse, a complicação maior estava nos processos usados para a transformação, agravada pelo uso de nomes em latim. Podemos citar alguns desses processos alquímicos: mortificatio (morte), sublimatio (passar do sólido para o gasoso – sublimação), coagulatio (coagulação), calcinatio (queima), solutio (dissolver com água), putrefatio (decomposição da carne), separatio (separação), coniunctio (união), tinctur (tintura ou união) e daí por diante.
Por outro lado, um grande número de alquimistas afirmava: “as vias usadas no processo são duas e as chamamos de seca e úmida”. A via seca era sempre mais rápida, realizada no Athanor (forno) aberto, com fogo direto, vivo e forte e numa espécie de panela que normalmente era chamada de ‘cadinho’. A via úmida era mais eficaz, porém mais lenta. Normalmente feita em um recipiente fechado que levava o nome de ‘retorta’ ou ‘pelicano’ e cozinhada em fogo brando por bastante tempo. O forno também era fechado e muito maior do que na via seca. Podemos perceber no caminho da via úmida uma equivalência com a nossa longa estrada espiritual e do auto-conhecimento.

A maioria dos escritores dividia a via úmida em quatro estágios e os associava a cores e suas vibrações. Como não podia deixar de ser, os nomes eram em latim: Nigredo (preto), Cauda Pavonis (cauda do pavão ou arco-íris), Albedo (branco) e Rubedo (vermelho). Esses quatro processos ou etapas, se observados de uma maneira global, lembram um pouco as quatro fases da psicoterapia que Jung descreveu: Confissão, Esclarecimento, Educação e Transformação. Antes de tentarmos ver um por um os processos acima citados, temos de ter em mente que esse processo é cíclico, qual uma ‘espiral ascendente’ e praticamente nunca termina; tanto na alquimia como no processo de individuação de Jung.
Ou seja, quando terminamos uma Rubedo voltamos à Nigredo; quando terminamos uma Transformação, voltamos a uma Confissão. É claro que esse retorno nunca é a um ponto inicial do processo e, sim, um pouco mais para dentro e um pouco mais para cima. Funciona como uma longa estrada para alcançar o topo de um morro. A estrada vai contornando o morro de maneira suave e imperceptível, e de repente percebemos que já ultrapassamos as primeiras nuvens. Além disso, nada nos impede, estando numa Albedo, de retornar para a Nigredo; assim com, da Educação, retornar ao Esclarecimento. O importante é sabermos que por mais lento que seja o caminho ele é sempre para diante!

A Nigredo, o negro, já nos sugere a morte, a sombra, o pesado, o denso, o sofrimento. Foi isso que nos disse Jung quando falou da confissão no consultório do psicólogo. Contamos nossa vida, nossos segredos, nossos aborrecimentos, nossos sonhos não alcançados e, na maioria das vezes choramos como um bebê que está com fome e quer mamar ou lhe tiraram o brinquedo predileto. Ou seja, morremos para uma vida que não valia a pena ou que simplesmente passou (valia a pena talvez naquela época, agora já não vale mais). Nessa ocasião ficamos parados, inativos, deprimidos, sem ânimo, introvertidos, quietos e sentimos que algo se ‘dissolve’ em nós. Por mais angustiante que seja o processo, o importante é seguir o que ele recomenda: ficar quieto e adiar tudo o que for possível.
Quando estamos jogando nossos ‘conflitos psicológicos’ nos problemas exteriores, ou seja, no mundo em que vivemos; eles se sobrepõem e se confundem, numa mistura homogênea. Podemos usar a metáfora do ‘copo com água e álcool’; você olha para aquela substância branca e não sabe quem é quem. Daí, as decisões nessa fase da vida possuírem uma chance muito grande de dar errado. Devemos identificar os problemas que são nossos e separá-los dos problemas do mundo. Continuando na metáfora do ‘copo’; é preciso colorir a água para poder separá-la com mais facilidade do álcool.

Depois disso é como se o preto que é a ausência de todas as cores transformasse no branco que é a presença de todas as cores. Só que é o branco decomposto em todas as cores por uma espécie de ‘cristal‘ e essa pedra cristalina é muitas vezes o nosso analista, outras vezes um padre, um sacerdote, um velho amigo ou até o travesseiro. É por isso que alguns alquimistas pulam a fase da ‘cauda pavonis’ e vão da Nigredo para a Albedo. Mas como Jung colocou muito bem, após a confissão de seus temores mais profundos, o paciente fica esvaziado e se fixa na figura do psicólogo; esse fenômeno levou o nome complicado de ‘Transferência’ (até a psicologia imita a alquimia em matéria de nomes complicados). Como o nome já sugere, transferimos para a figura do analista as figuras interiores que antes estávamos jogando no pai, na mãe, no irmão, no vizinho, na namorada, no marido etc. Essa transferência precisa ser ‘esclarecida’ e discutida com o paciente para que ele entenda o que está acontecendo em sua alma ainda conturbada, embora já bastante aliviada com o auxílio da confissão.
Muitos alquimistas representaram o desmembramento do branco com o desmembramento do corpo humano. Acontece na realidade o desmembramento de nossa psique; mas temos que manter essa dissociação da nossa psique sob o controle do Ego. É para isto que ele possui as características e a função de um ‘complexo gerenciador’. Um gerente de uma grande fábrica não olha diretamente o que cada operário faz, não consegue saber o nome de todos os seus 5.000 funcionários; mas, com uma rápida análise dos seus gráficos de produção ele sabe de tudo que acontece no seu negócio e pode se concentrar no que julga importante no momento.

Após esta etapa, naturalmente vem o branco, a Albedo, a brancura, o clareamento, o entendimento, o conhecimento, uma certa tranqüilidade. É como se todas as cores do arco-íris se fundissem e nos mostrassem a beleza do branco, da paz, do espiritual. Deve ser por isso que se diz que no fim do arco-íris está um pote de ouro. O problema é que nunca encontramos o fim do arco-íris, mas na maioria das vezes o caminhar é o verdadeiro tesouro. Nesse estado de brancura nos educamos e nos inteiramos que existe uma vida nova que pode ser seguida e quando olhamos para trás, o esforço já não parece tão grande.
Lembremos que educação é repetição, porque para assimilar alguma coisa precisamos repetir, precisamos tirar todos os véus dos preconceitos, precisamos entender que os problemas estão dentro de nós, precisamos ver que o outro está ali também na sua busca. Precisamos até entender que muitos buscam o mesmo Deus que nós buscamos, só que por caminhos diferentes, mas geralmente, também chegam lá. Corremos um risco de achar que o nosso gerente, o Ego, é o maior gerente do mundo, pois está tocando uma fábrica de grande porte. Cuidado com a estagnação, o equilíbrio é sempre dinâmico e só o conflito nos faz crescer e quando não crescemos, caímos. É mais ou menos como andar de bicicleta, quanto mais rápido mais equilíbrio, o movimento nos mantém em linha reta. Vocês poderiam dizer que algumas pessoas ficam em pé em um bicicleta parada. Mas o lugar deles é no circo e perdem o objetivo da locomoção, que é o objetivo da vida.

Quando estamos nesse processo de uma certa calmaria, as coisas vão entrando nos eixos. Mas é hora, por incrível que pareça, de colocar paixão, fogo, ardor, vermelho, Rubedo. Aí conseguimos transformação transformar é ser o que já era, sem precisar fazer força para isso. É quando não roubamos o vizinho; não com medo da prisão, mas porque acreditamos que isso não é o correto. É quando não batemos no inimigo; não com medo do revide, mas quando temos compaixão por outro ser humano. Na transformação conseguimos um movimento com um mínimo de atrito. É quando nos aproximamos dos pólos; lá o movimento como um todo é o mesmo, mas, o deslocamento menor. Temos mais consciência de fazermos parte de um mundo, percebemos que somos dependentes de tudo e ao mesmo tempo tudo é impermanente. Só nos resta a essência da alma, algo dentro de nós que não morre nunca. Estes processos nos levam a essência da vida por um caminho relativamente suave. Não deixem de buscá-la, senão a dor pode vir para nos lembrar de tudo isso. Quem já sentiu uma dor muito forte sabe que naquela hora não conseguimos pensar em mais nada, só em acabar com ela. Tentem lembrar de tudo que pensaram na hora da dor, tanto física quanto espiritual e estarão perto do que é a essência.

Podemos imaginar então que o processo está todo concluído… Vamos descansar. Ledo engano, a transformação ocorreu sim, mas em parte do nosso ser. Temos de voltar a Nigredo e a Confissão, temos de passar pelas cores até o branco e, de novo inflados com o esplendor da luz, vamos mais uma vez nos inflamar para chegar às brasas, ao rubro, a Rubedo. Esta é a roda da vida e não pára nunca, nela vamos girar sem parar por muito tempo. Mas posso garantir: quem fizer um primeiro ciclo vai aceitar todo os outros com galhardia, força e abnegação e principalmente com pequenos momentos de felicidade.
 
Por Paulo C. de Souza

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Geometria Sagrada


Geometria sagrada e música


Qual é a relação entre Geometria Sagrada e Música?
Quando vi pela primeira vez no livro “O Arqueômetro” de Saint-Yves 

D´Alveydre, uma figura de uma Capela cujas cotas eram apresentadas, não com números, mas sim com notas musicais.
Essa figura mostrava que havia uma convergência entre arquitetura e música.
Mas como se dá à convergência entre a Geometria e Música?
Resposta: através do Número, das Proporções.

Vejam que interessante: Número, Geometria e Música – Aritmética, Geometria e Música (Harmonia), três das Ciências que formavam o Quadrivium na antiguidade grega.
Número, Espaço e Tempo (a quarta ciência é a Astrologia que trata do Número, do Espaço e do Tempo juntos).

E porque que era (é) possível transformar cotas em notas musicais? Por que os templos e as Catedrais eram mais do que simples medidas, eram proporções. O que se buscava eram relações harmônicas (e sonoramente harmônicos) do todo com as partes (um perfeito acordo, um perfeito acorde musical).

Pitágoras (540 A.C.) estudou a relação das proporções numéricas com as notas musicais utilizando-se de sinos de diversos tamanhos e do seu famoso monocórdio. Pitágoras ficou famoso pelo triângulo retângulo que acabou recebendo o seu nome (triângulo 3, 4 e 5). Mas na verdade esse triângulo era conhecido pelos antigos egípcios antes mesmo de Pitágoras e eles já o utilizavam para determinar o ângulo reto nas suas construções.

Esse triângulo tem qualidades excepcionais, além da questão dos quadrados dos catetos e da hipotenusa, que todos conhecem. Musicalmente, se imaginarmos a dimensão 1 como sendo uma nota dó, seu terceiro harmônico, que é a freqüência multiplicada por 3, será a nota Sol, a quinta justa de Dó, harmonicamente perfeito. O quinto harmônico, cuja freqüência é multiplicada por 5, será a nota Mi, a terça maior de Dó. Como o dobro da freqüência gera a mesma nota numa oitava acima, a dimensão 4 é duas oitavas acima do 1 (1, 2 o dobro e 4 o dobro de 2). Se juntarmos as três notas referentes ao triângulo teremos: Dó, Mi, Sol, o acorde perfeito de Dó Maior.

Quando tratamos de proporções e música, sempre temos que levar em consideração seus espelhamentos ou inversões. Lembremos que ao mesmo tempo em que uma nota uma oitava acima tem o dobro da freqüência, se pensarmos na corda (por exemplo de um violão), a mesma oitava acima tem a metade da corda.

E esse raciocínio é o que os grandes arquitetos utilizaram no projeto dos templos e das catedrais a partir das proporções harmônicas, em acordes perfeitos. São Bernardo de Clairvaux (1090-1153) que pertencia à Ordem Cisterciana, relatou que muitas igrejas da abadia desse período eram acusticamente ressonantes, e que podiam transformar o canto coral em música celestial. Imagine a magia de se cantar as notas de um acorde musical num espaço desenhado para ressoar esse acorde.
E vale sempre lembrar que a palavra acorde, acordo, concordar, tem a matriz etimológica cord, de coração (cárdio)...
Edson Tani - Arquiteto pela FAUUSP.