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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O olhar - viajante: a visão do outro




por Alda Rocha Mendonça

Há séculos os homens viajam pelo mundo, entram em contato com os mais diversos tipos de sociedades / povos, relatam suas experiências sob diferentes formas .
Atualmente, esses relatos, principalmente aqueles sob a forma de diários de bordo ou uma série de cartas, são considerados pela História Social como documentos, fontes que podem revelar a história das estruturas mentais comuns a uma categoria social, a uma sociedade , a uma época, isto é, a História das mentalidades. Até décadas atrás essas narrativas não eram vistas como fontes históricas de grande importância.
Um dos primeiros a registrar suas viagens foi Heródoto, de Halicarnasso, cognominado de “o pai da História” , pelo latino Cícero ( 106a .C – 43a .C ) Esse grego do século Va. C. conheceu uma boa parte do mundo: Egito, Síria, Ásia Menor, Pérsia, Macedônia, Grécia continental e insular, Líbia, Magna Grécia entre outros. Em seus relatos, destacam-se as descrições minuciosas das guerras persas ( 490 – 479a .C.) e do Egito com suas pirâmides e a Esfinge. Como bom grego, chamava os outros povos de “bárbaros”. Bárbaros para os helenos e, posteriormente, para os romanos, eram os outros, os diferentes , que não falavam grego e latim, respectivamente.
No século Va. C, até mesmo antes , os gregos tinham certeza de que a única luz que brilhava no universo era a da inteligência, da racionalidade humana, capaz de transformar o mundo, pois mais poderosa que a força animal. Sócrates dizia que o mundo era cheio de maravilhas, mas nada era mais maravilhoso que o homem. Porém essa inteligência e racionalismo humanos eram privilégios dos gregos, eles detinham essa “luz”. Eis aqui, registrado, um dos primeiros exemplos de etnocentrismo.
Através da História, os exemplos se repetem, entre os mais diversos povos. Romanos, franceses, ingleses, alemães desenvolveram e explicitaram, em diferentes momentos, esse etnocentrismo, bem como justificaram-no. As justificativas variavam em função de múltiplos interesses: políticos, econômicos, religiosos, ideológicos etc.
A sensação de estranhamento ao encontrar-se um outro , que lhe é diferente , é, praticamente , inevitável. Quem será esse outro? Tão diferente dele , que lhe causa, às vezes, medo, repulsa e sempre estranhamente; tão diferente a ponto de duvidar de sua humanidade. Isto ocorreu aos europeus nos primeiros contatos que tiveram com os habitantes do mundo recém-descoberto: a América. Cabelos, olhos, cor da pele, idioma, religiosidade, tudo lhes era estranho.
Os inúmeros relatos de viajantes europeus, já na era cristã, mostram a dificuldade de lidar com o diferente , embora igual ( ? ) . Um caso exemplar e paradigmático é relatado por Lévi-Strauss, em seu livro Raça e História ( p.22 ) : (...)”enquanto os espanhóis enviavam missões de investigação para indagar se os índios possuíam ou não alma, estes últimos dedicavam-se a afogar os brancos feitos prisioneiros para verificar, através de uma vigilância prolongada, se o cadáver daqueles estava, ou não, sujeito à putrefação”.
Era grande a dificuldade de perceber que os indígenas eram seres humanos, que se relacionavam de formas diversas com a natureza e com o mundo, construindo-se / constituindo-se como sociedade diferente da deles ( europeus).
A sociedade européia há séculos vem se considerando superior, como outras o fizeram antes dela. Esta cosmovisão atinge seu apogeu no século XIX, com a teoria do Evolucionismo social que , de um certo modo, legitimou, ideologicamente, a posição hegemônica do ocidente europeu com a expansão mundial do capitalismo. Esta teoria procura avalizar essa pretensa superioridade, erigindo seus padrões comportamentais, códigos morais , éticos e estéticos como o centro acabado de todas as racionalidades, exemplo perfeito do apogeu civilizatório. Os relatos dos viajantes europeus muito contribuíram para a formação e divulgação de preconceitos e estereótipos culturais.
Muitos deles ainda hoje são empregados. Um dos poucos a questionar estes estereótipos foi o francês Michel de Montaigne , no século XVI. No seu “Ensaios”, na parte sobre os canibais do Novo Mundo, escreve:
“Estimo que é mais bárbaro comer um homem vivo do que o comer depois de morto; e é pior esquartejar um homem entre suplícios e tormentos e o queimar aos poucos ou entregá-lo a cães e porcos, a pretexto de devoção e fé; como não somente o lemos mas vimos ocorrer entre vizinhos nossos conterrâneos, e isso em verdade é bem mais grave do que assar e comer um homem previamente executado.”
Este ensaio, “Des cannibales” é, precisamente, consagrado a povos de costumes muito diferentes dos europeus, os índios da América . Nele o autor procurou “relativizar”.
“Avant la lettre”, ele utiliza um dos importantes verbos da antropologia contemporânea: relativizar, isto é, respeitar o outro na diferença, vendo-o com suas próprias razões e racionalidades, que, logicamente, não são iguais às do observador.
Segundo Peter Burke, um estudo antropológico do “mito de comer gente” “observa como era comum os viajantes perceberem os habitantes de uma sociedade culturalmente distante como canibais”.
Outro preconceito / estereótipo cultural recorrente, desde o século XVI, é o do nativo preguiçoso, seja no caso do Extremo Oriente ( malaios, filipinos, javaneses etc.) , seja na relação Norte-Sul européia, seja na América indígena. Esta visão de preguiça, indolência era uma produção de europeus nos seus relatos de viagens.
Para demonstrar que rótulos depreciativos são comuns aos mais variados povos, pode-se citar os de algumas tribos que se denominam “ os homens”, “os perfeitos” e a seus inimigos de “ovos de piolho” ,” macacos de terra”; os de europeus do norte da Europa em relação aos do sul do continente, principalmente, italianos. A estes últimos, durante os séculos XVII, XVIII e XIX, era aplicada a versão européia do mito do nativo preguiçoso.
Os viajantes citavam “homens robustos, sadios, deitados ao sol, sem fazer nada”, no sul da Itália. Ainda sobre este país, Sharp ( 1766 ) escreve que “as necessidades da natureza aqui são tão facilmente satisfeitas que a classe inferior das pessoas trabalha, mas pouco: seu grande prazer é banhar-se ao sol e nada fazer”. (Burke).
O estereótipo do italiano preguiçoso foi várias vezes reafirmado pelos mais diferentes viajantes, à parte Goethe que, em 1787, rejeitou essa ideia como um exemplo de estereótipo que os do norte tinham com relação aos dos sul.
A partir do final do século XV, os ingleses já viam a Itália como o outro / o diferente; percebiam a distância e relatavam-na. Desde este século, as viagens de britânicos à Itália tornaram-se muito frequentes e, no século XVI, o italiano era, segundo Burke , provavelmente , a língua estrangeira mais conhecida deles. Tanto a natureza do país quanto a cultura ( religião, costumes, política ) proporcionavam aos viajantes ingleses um agudo senso de distância cultural. Criticavam, frequentemente, os costumes, destacando vingança, luxúria e ciúme como marcas do povo. Veem-se esses preconceitos e estereótipos tanto nos relatos de religiosos quanto nos de laicos.
Para Richard Lessels, um padre católico, os italianos eram vingativos, conscientes de sua honra e rigorosos com as esposas. Impressionava-se com a apresentação visual, destacando serem eles (italianos) “parcimoniosos na alimentação para poder viver e amar elegantemente; gastando nas costas o que gastamos em nossos estômagos”. ( Burke).
O bispo de Salisbury, Gilbert Burnet, escocês e calvinista, viu a Itália em 1680, como o avesso do seu país: preguiça e indolência grassavam na sociedade. Não se deve esquecer que a Itália era, no século XV, o berço da Renascença ( do antropocentrismo, do humanismo , do racionalismo ) e que, em termos de arte, estava à frente das demais nações européias ,              ( principalmente as do norte) , com a elaboração da perspectiva científica , a redescoberta da pintura etc. Mesmo nesse período e nos seguintes ( com mais intensidade ) era vista como diferente , no sentido de inferioridade, pelos do norte.
No século XVII, os britânicos viam Milão como um lugar sinistro , perigoso. O protestante Skipon que visitou Pádua relatou seus choques com a falta de reverência dos italianos dentro das igrejas : “conversavam durante a missa, não tiravam o chapéu, davam as costas para o altar-mor, conversando e rindo muito”. (Burke)
No século XVIII, os do norte da Europa achavam os do sul exóticos e os ingleses parece que esqueciam que , neste século , Londres era uma cidade perigosa, um covil.
Muitas dessas viagens geravam meses de permanência na Itália, que poderia ser estendida a anos, quando seu objetivo era de educar jovens nobres, que iam acompanhados de preceptores.
Não apenas ingleses, mas também, franceses, holandeses, dinamarqueses e poloneses passavam grandes temporadas na Itália. A procura por esse destino “turístico” gerou a publicação de vários guias sobre o país, em geral, e sobre as principais cidades, como Veneza e Roma , em particular. Surgiram livros sobre “ a arte de viajar”;
instruções sobre como viajar eram um gênero literário estabelecido por volta do século XVII. Orientavam sobre o que ver e registrar nos lugares visitados: os monumentos fúnebres; as pinturas; os prédios públicos e privados, religiosos e seculares; as fortificações; os sistemas políticos; as maneiras e costumes dos habitantes. Muitos viajantes seguiam, religiosamente, esses conselhos.
Pelos exemplos acima, vê-se como europeus “rotulam” europeus, em função de suas diferenças culturais, deixando clara a oposição norte x sul, cultura x natureza,              civilização x selvageria .Destaque-se que essas análises / transcrições eram feitas por pessoas das “camadas mais altas” da sociedade: cavalheiros, nobres, padres / pastores, membros de governo etc.
Burke chega a uma conclusão sobre esses relatos: “eles revelam, ao mesmo tempo , a percepção da distância cultural e a tentativa de se chegar a um acordo ou ‘traduzí-la’ em algo mais conhecido, porque à medida em que críticas são feitas aos povos visitados, busca-se sempre a comparação com o padrão cultural do narrador ”.
As infinitas formas dos grupos humanos se relacionarem com o mundo, criando especificidades culturais, construindo a sua história, ainda hoje causam estranhamento (repulsa, atração, indiferença) a outros homens/sociedades. Difícil respeitar o outro na sua diferença; evitar rotulá-lo, classificá-lo tendo como referencial a sociedade européia.
O estereótipo do italiano preguiçoso, expondo-se ao sol, num “dolce far niente”, relatado por viajantes durante os séculos XVII, XVIII e XIX, que já fora aplicado a filipinos, javaneses, malaios etc, é o mesmo lançado sobre os habitantes do Rio de Janeiro, no século XVIII, por ingleses e franceses, que aqui estiveram. É como que uma transposição que remete a um padrão seguido por viajantes anteriores. Que teriam, realmente, em comum esses povos de tão diferentes continentes?
No início do século XVIII, viajantes europeus estavam à procura do “pitoresco”,uma palavra nova, que estava na moda . Seria ela sinônimo de exótico?
O Brasil desde a sua descoberta já foi “visto” como “paraíso terreal”, inferno e até mesmo purgatório ( purgar / pagar as penas), dependendo da posição e objetivo de cada ser humano nessa terra de Deus. Há relatos de franceses e ingleses que falam da sensualidade das mulheres aqui no Rio de Janeiro, com seus olhares lânguidos e propensas ao amor; da grosseria dos portugueses ciumentos e violentos com suas “senhoras”; da polícia andrajosa, mendicante, corrupta que achacava viajantes incautos , que circulavam pela cidade à noite. Estas narrativas feitas em diários de bordo, relatos, cartas etc  eram, posteriormente, publicadas na Europa sob a forma de livros de viagens. Uma oposição, muito cara ao Setecentos europeu, revela-se nestes textos: natura x cultura. A natureza é elogiadíssima por sua beleza luxuriante, enquanto que o homem/ povo a degrada já que é degradante com seus hábitos e códigos morais. É o que se vê na oposição norte-sul de alguns viajantes; aqui a barbárie, a selvageria. No caso do Brasil parece que a imagem do Rio , descrita por europeus no século XVIII , se cristalizou chegando até ao século atual.
No século XIX, a teoria do Evolucionismo de Spencer e Tylor procura explicar a diferença entre os povos tendo como “padrão civilizatório’ a sociedade européia branca, cristã, tecnológica. Nesta perspectiva todos os povos não europeus saíam perdendo, porque quanto mais diferente dos padrões europeus mais atrasados, inferiores. Esta ideologia foi divulgada com intensidade até às primeiras décadas do século XX e internalizada por muitos brasileiros.
É emblemática a crítica feita ao Brasil em função de sua ”mistura” étnica (índios, africanos e europeus), por Gobineau, conde e diplomata. Este representante do governo francês no Rio de Janeiro, grande amigo do imperador Dom Pedro II, se horroriza com a população carioca, declarando que, aqui, dificilmente construir-se-ia uma grande nação por causa da miscigenação. Segundo ele , que é considerado o “pai das teorias racistas”, “as grandes raças primitivas que formavam a humanidade nos seus primórdios - branca, amarela, negra – não eram só desiguais em valores absolutos , mas também diversas nas suas aptidões particulares. A tara de degenerescência estava, segundo ele, ligada mais ao fenômeno da mestiçagem do que à posição de cada uma das raças numa escala de valores comum a todas ( ... ) “ Lévi-Strauss” (p.8). Seus escritos foram publicados , sendo reeditados e com certeza muito contribuíram para essa visão da miscigenação como sinônimo de inferioridade étnica e intelectual.
Os preconceitos e estereótipos culturais sobre brasileiros , aliados ao etnocentrismo e ao evolucionismo europeus, contribuíram para uma determinada cosmovisão, segundo a qual este povo está, geralmente, numa posição de inferioridade, de desvantagem. O pior é que esses valores exógenos foram tão introjetados que , muitas vezes, brasileiros se “olham” com um olhar “europeu”, isto é, analisam-se com os valores da cultura européia. Em países que foram colonizados ( metade do mundo o foi) , é normal durante algum tempo, seguirem-se os padrões culturais da Metrópole. O problema reside em que, mesmo após a independência política e neste século, ainda se julguem, se avaliem através dos padrões do Velho Continente.
Esse “olhar europeu” é utilizado, às vezes, na hora se julgar outros brasileiros, de outras regiões na quais houve grande influência das culturas indígena e africana. Quanto maior a influência indígena ou africana, maior a distância dos padrões europeus e se a cultura européia é usada como parâmetro ( “régua e compasso” de Giberto Gil ) para medir o mundo , logicamente estes brasileiros são colocados numa posição de inferioridade: menos “desenvolvidos”, menos “capazes” , pois que miscigenados. É só pensar na seleção de candidatos a postos de trabalho em algumas empresas ( tipo de roupa, boa aparência ? ).
A escala de valores e de julgamento é calcada, ainda, no evolucionismo do XIX. Não se pretende desvalorizar as culturas européias , mas, também, não se admite desvalorizar qualquer outra, produto ou não de miscigenação. Como colônia, reconhecesse, logicamente, a marca forte na sociedade brasileira da cultura portuguesa: o idioma, os valores estéticos , os códigos morais e éticos, a construção intelectual, a religião ( oficial durante séculos ) etc.
Com o desenvolvimento incrível da antropologia e das ciências sociais, felizmente , esses “olhares” estão mudando, mesmo que lentamente. As imagens internalizadas, introjetadas são seculares, daí a dificuldade, ainda hoje, de olhar com outros olhos. Um “olhar brasileiro” ? Talvez, mas não num futuro próximo.
O “outro” vem provocando“ estranhamento” desde tempos imemoriais, só que aqui, no Brasil, todos os outros ( miscigenados ou não, filhos de imigrantes ou não, produtos da terra ou não ) são brasileiros, pois aqui nasceram. Perdão pela tautologia, ela possui uma função didática! Brasileiros, de qualquer ascendência, não são europeus; nem os do sul e sudeste não são o “centro do mundo”, o padrão de referência através do qual os do norte / nordeste / centro-oeste têm que se mirar, imitar ou seguir o exemplo. Não se pode olhar para eles como se fossem estranhos , vivendo em regiões longínquas , exóticas e “pitorescas”, num outro mundo.
A diversidade cultural brasileira, motivo de vergonha para alguns , é justamente a riqueza desse país. É graças à mistura de heranças culturais tão distintas que se pode chamar a atenção do mundo ,oferecendo um patrimônio rico e variado ao turista, gerando empregos e divisas e, quem sabe? possibilitar uma distribuição mais eqüânime de renda, num país de tantos “desvalidos da sorte”.
A diferença continua atraindo os viajantes, como atraíra há muitos séculos.
O “outro” continua a procurar o “outro”, que lhe é igual , mas diferente!
FONTES:
1. BUCHER, Bernadette. La sauvage aux seins pendants. Paris, Hermann ed. , 1977.
2. BURKE, Peter. Variedades de história cultural. Rio, Civilização, 2000.
3. GOFF, Jacques Le. História e memória. São Paulo, ed. UNICAMP, 1996.
4. LÉVI-STRAUSS, Claude. Raça e história. Lisboa, ed. Presença. 1980.
5. MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. São Paulo, Nova Cultural, 1991.
6. SOUZA, Laura de Mello e . Inferno Atlântico. São Paulo, Cia das Letras, 1993.
7. TODOROV, Tzvetan. La Conquête de l’ Amérique: la question de l’ autre. Paris,
ed. Du Seuil, 1982.
Alda Rocha Mendonça
Profª. Adjunta de História da Cultura e História da Arte – UniverCidade

terça-feira, 8 de março de 2011

Visão de dentro...

Envio parte de meu Trabalho de Conclusão de Curso - TCC, para conhecimento dos amigos que me acompanham...
 Umbanda é conhecida por ser uma religião genuinamente brasileira. Congraçamento das três raças matrizes deste povo, sua origem ainda é controversa e sujeita a muitas discussões. O fato é que a riqueza da diversidade de escolas e, portanto, do entendimento do Sagrado, desperta a curiosidade de estudiosos e acadêmicos. Mas, de onde surgiu esse nome?
        Umbanda foi um termo encontrado apenas a partir de 1936, através da obra O Negro Brasileiro, do professor Artur Ramos (1934). Para Artur Ramos este termo teria significado feiticeiro ou sacerdote. Nenhum autor da época, entre eles Nina Rodrigues, João do Rio, Manoel Quirino, Roger Bastide, Donald Pierson, Gonçalves Fernandes, citam este termo. Nem mesmo Gilberto Freire cita Umbanda em 1934, no Primeiro Congresso Afro-Brasileiro. Certamente pelo fato de todos terem escrito sobre a cultura Afro-Brasileira, avaliando apenas os Cultos de Nação.
            Padre Manuel da Nóbrega (1549), um dos renomados nomes da Companhia de Jesus, relatou a manifestação de um pajé, que na ocasião apresentava a voz de criança, e induzia o transe nos nativos (PRIORI, 2004, p. 52). Pela descrição, podemos suspeitar que esta seja a primeira documentação escrita de uma entidade que, posteriormente, seria conhecida como a Criança da Umbanda. Então, a partir de 1860, manifestações de entidades como Caboclos, Pretos Velhos e Crianças, através de Juca Rosa (SAMPAIO, 2000), negro carioca alforriado, e de João de Camargo (RIVAS, M. E., 2008), negro paulista, começaram a ser relatados oficialmente.
Portanto, se as entidades umbandistas já se mostravam desde 1549, por que somente a partir de Zélio Fernandino de Moraes em 1908, considerou-se o surgimento da Umbanda? O fato de ser branco e kardecista teria alguma relevância? Na visão eurocêntrica, etnocêntrica, xenófoba da sociedade da época, somente a raça branca seria apta a confirmar uma fé (Mito de fundação).
            Fundada ou não em 1908, a Umbanda é o resultado do congraçamento das três matrizes formadoras deste país, o branco europeu, o negro africano e o indígena.
            Xambá, Toré, Babassuê, Terecô, Candomblé de Caboclo, Jurema e, enfim, Umbanda.
            Exatamente pelo fato de estarem contidas em sua raiz as três matrizes brasileiras, a Umbanda mostra uma riqueza incalculável de conceitos religiosos, ritualísticos, cerimoniais e lingüísticos. Essa mistura de conceitos Brahmânicos, Védicos, Judaico-Cristãos, Católicos, ameríndios e africanos é de extrema beleza e harmonia. A Umbanda é o recipiente onde convivem e se complementam os conceitos como reencarnação, chackras, Cabala Cristianismo, ervas, fumo, Orixás, guias, caboclos, crianças e pretos-velhos.
Somente em um país tão peculiar como o Brasil, onde raças e culturas tão diversas habitam e se misturam, poderia haver a formação de uma religião assim, adequada à diversidade do solo onde nasceu.
O denominador comum entre estas culturas era a tradição oral. Joseph Ki-Zerbo fala dos conflitos entre os historiadores, e de toda a polêmica acerca da autenticidade e da fidelidade da tradição oral. Afirma, porém, que a “maioria dos historiadores da África admite a validade da tradição. Mas, muitos ainda a consideram uma fonte menos consistente que a escrita.” E ainda cita inúmeros autores, entre eles H. Deschamps, J. Vansina, D.F. McCall e Person que consideram a tradição oral uma fonte tão respeitável como a Escrita, embora em geral, menos precisa (KI-ZERBO, 1972, p. 19-20).
Formação do Povo Brasileiro
O povo brasileiro formou-se da miscigenação de três povos, o vermelho, o branco e o negro.
Raiz Ameríndia
            O Planalto Central tem sido apontado como a região mais antiga do globo terrestre, segundo Lund, Hartt, Ameghino, Hardick, entre outros. Estes pesquisadores desafiaram com suas conclusões a hipótese européia vigente de que o continente africano seria a origem da vida humana na Terra (ITAOMAN, 1990, pág. 24). Como admitir que esteja errada? Como admitir que índios seriam os ancestrais da Humanidade se até bem pouco tempo eram considerados seres sem alma, selvagens e imorais?
             Pior ainda é recorrer ao Popol Vuh, quando ele diz: “de barro fizeram a carne dos Homens” (GORDON, B; MEDEIROS, S, 1997, pág. 58). Como admitir que a primeira raça fosse vermelha e não negra? Se já era humilhante admitir que não fosse branca a primeira raça, imagine admitir a indígena.
            Exemplos de respeito à Natureza, foram dizimados por uma Civilização dita culta, mas que se caracterizou como parasita e decadente, que espalhou terror e morte nas linhas da história deste continente. Predadores destruíram e dilapidaram os tesouros naturais de seu continente, e quando tudo já parecia pequeno demais para a ambição desmedida, resolveram invadir o que lhes parecia de direito.
              A equipe da Profª Maria Beltrão (Unicamp) registrou inúmeras grutas em uma região denominada Tocas, em Xique-Xique/Ba. Nelas, instrumentos neolíticos comprovaram a datação do homem ameríndio. Os indícios da raça ameríndia datam em aproximadamente 300.000 anos. Desenhos rupestres associam o Homem a animais pré-históricos como o Toxodonte (Toxodon platensis) que viveu do plioceno ao plistoceno. Mas, impressionante é a toca do Cosmos, onde o teto mostra pinturas com desenhos que sugerem o céu e, principalmente, um cometa. Todos estes desenhos geométricos sugerem conhecimentos astronômicos. E devido à característica desta gruta, é possível que tenha sido utilizada como um observatório astronômico. (ITAOMAN, 1990, pág. 25)
            No Brasil, existem hoje diversos troncos indígenas e cada tronco, com suas ramificações e inúmeras línguas, dialetos próprios. O tronco Tupi é o mais conhecido e maior de todos. Dele surgiram as famílias: Guarani, Arikém, Aweti, Juruna, Mawé, Mondé, Purobora, Munduruku, Ramarama, Tupari. O Tronco Macro-Jê originou: Jê, Bororó, Gnató, Karayó, Krenak, Maxakali, Ofayé, Rikbakbá, Yatê. Outras famílias importantes também se destacaram pela riqueza de seus dialetos: Tukanos, Pano, Karib, Mura, Katukira, Yanomami, Maku, Gwaikuru, Nambikwara, Txapakura, Aruak, Arawá. (PINTO, 2000)
            Quantas tribos teriam sido encontradas quando os portugueses aqui chegaram? Quais as características desses povos que eram os verdadeiros americanos?
            O conflito básico entre os europeus e os ameríndios ocorreu devido ao fato de não possuírem Lei, Rei e Fé (MAGALHÃES, 2004, pág. 133-34). As diferenças entre as culturas foram de tal modo insuportáveis que uma subjugou a outra, chegando quase ao total extermínio dos ameríndios. A pólvora, as doenças, a desmoralização ética e religiosa, foram armas eficazes e letais para um povo não acostumado aos ardis da civilização européia. De donos da terra, conceito que eles também não conheciam, pois a terra era de todos, transformaram-se em poucos anos em escravos, caracterizados como selvagens, brutais, imorais, ignorantes e até antropófagos. (RIVAS, M. E., 2008)
            Os ameríndios não tinham um Estado constituído. Tinham como primazia o respeito e igualdade de Direitos e Deveres. Desprezavam a moeda e não faziam comércio. Não reconheciam a autoridade centralizada em um indivíduo, pois viviam em regime de seres comuns e livres. Cada um era responsável por suas atitudes diante da comunidade. Eram também detentores de uma Teogonia e Cosmogonia ímpares, onde o sagrado era a natureza, sem necessidade de Templos fixos, ou ídolos. Não admitiam dogmas e moralismos (RIVAS, 2008). Pesquisadores como De Bry, Hans Staden e Pe. Simão relataram a profunda espiritualidade dos Tupis (RIVAS, M. Elise, 2008, pág. 26).
            Os pajés referiam-se a uma língua sagrada, o Abanheengá, como língua matriz de todas as outras línguas. E outra língua sagrada, mais jovem, a Nheengatú.
            Os Tupi-Guaranis tinham Tupã como Ser Supremo, mas tinham em sua teogonia a Trindade Manifestadora do Poder Divino, Guaracy, Yacy e Rudá, e um messias Yurupari e sua mãe virgem Chiucy (ITAOMAN, 1990, pág. 31).  Esta semelhança com o Cristianismo foi fatal para os Tupi-Guaranis. Ardilmente, os Jesuítas pouco a pouco foram introduzindo conceitos Cristãos, modificando nomes, alterando histórias e distorcendo a teogonia tupi, minando as tradições e disseminando a necessidade de conversão para receber a salvação (RIVAS, M. Elise, 2008).
            Os jesuítas foram fundamentais para a miscigenação do povo indígena. Facilitando a aceitação do elemento branco, os colonos passaram a gostar do tabaco, das frutas, das nativas. Os filhos gerados mestiços eram preciosos, pois eram os elos das alianças que buscavam fazer com as tribos inimigas. (RIVAS, M. Elise, 2008)
            A interação entre o Catolicismo e a cultura ameríndia foi responsável, pela origem da Pajelança (PA, AM), pelo Encantamento (Piauí) e pelo Caatimbó (demais regiões). (BASTIDE, 1960; ITAOMAN, 1990, pág. 27-31)
            Padre Manuel da Nóbrega (1549), um dos renomados nomes da Companhia de Jesus, foi o primeiro a relatar a riqueza da religiosidade indígena e, principalmente, de seus pajés. E citava detalhadamente uma cerimônia onde os feiticeiros traziam a Santidade. Na ocasião:
... ele escolhia uma maloca, pegava um maracá, e falando em voz de menino, começava a pregar. Para adquirir o espírito da santidade, todos deveriam se deixar defumar e assoprar. O pajé, bebia, fumava tabaco, baforava os aspirantes, e estes começavam a tremer e transpirar, as mulheres rolavam por terra em convulsões.( PRIORE, 2004, pág. 52)
Como fruto do sincretismo religioso, desenvolveu-se o culto indígena dos Caboclos Encantados. Ambos usavam tabaco e Jurema (bebida feita de ervas, usada em rituais religiosos, com o intuito de induzir o transe mediúnico).  A mistura destes dois cultos deu origem ao Caatimbó. (ITAOMAN, 1990, pág. 27-31)
            Roger Bastide cita que os altares do Caatimbó representavam a perda de valores iniciáticos dos índios, substituídos pela miscigenação religiosa e apresentam, estampas, santos católicos, charutos, aguardente, pequenos arcos e flechas, flautas, maracás, ervas, animais secos e outros objetos portadores do “Maná” indígena. A Princesa é um tacho que repousa sobre um rolo de fumo, cercado por um pano que nunca foi usado. Ela seria o elo com o passado indígena, pois é nela que é moída e misturada a raiz da “Jurema”, que induz agora a descida dos espíritos, para provocar o estado de Santidade. (BASTIDE, 1960)
É o Caatimbó que pela primeira vez fala de 7 Reinos: Vajucá, Tigre, Canindé, Urubá, Juremal, Josafá e Fundo do Mar.  E é nesta vertente que o negro africano dará entrada no sincretismo religioso, principalmente os de origem Bantu, pois a Pajelança e o Catimbó se assemelhavam muito com cerimônias de sua tradição. (RIVAS, M. E., 2008)
A partir do século XVIII, os cultos Yorubas ou Nagôs foram se sincretizando com os cultos indígenas e os das nações Bantu, Congo e Angola, surgindo então o Candomblé de Caboclo. Mantiveram-se ainda algumas formas antigas. Oxalá como Tupã, Yemanjá como Janaína, Ogun como Cariri, Oxosse como Sultão das Matas, Exu como Caipora, os Babás e Eguns como Caboclos Tupinambá, Tupiara, Jaú, Irerê, Pedra Negra, entre outros. (ITAOMAN, 1990, pág 30)
Então, mantiveram-se preservados os conceitos de Tupã (Deus Único), Messias (Yurupari), Culto da Cruz Sagrada (Curuçá), Trindade Manifestada (Guaracy, Yacy e Rudá), culto aos antepassados (Ráangá), e rito da Mediunidade (Guayú), uso da linguagem sagrada (Nheengatú), a Sabedoria dos Velhos Pajés (Tuyabaé-Cuaá). (ITAOMAN, 1990, pág. 30-1)

Raiz Africana
            Infelizmente, o Brasil conheceu esta portentosa raça através da Escravidão. Esta mácula ainda envergonha nosso povo e manterá acesa a chama de uma eterna dívida com esta fabulosa civilização.
            A escravidão já era um processo antigo e bem conhecido em diversos povos e civilizações, datando de pelo menos 10.000 anos o relato mais antigo (PRIORE, 2004, pág. 36-40).  A história nos remete à construção das Pirâmides do Egito, feita por escravos; À Grécia, onde a Democracia tinha o regime de escravidão.
E por quais motivos escravizavam? Nas diversas culturas, era comum vender seus parentes ou a si mesmo para saudar dívidas, fugir da fome ou aprender algum ofício, ou até mesmo servir alguma raça específica. Era comum escravizar mulheres e crianças para aumentar o número de seus servos, procriação e aumento de renda familiar, por disputa de poder ou por questões religiosas. Mas os motivos mais comuns eram de fato as guerras entre povos e tribos.
Seja entre os povos brancos ou entre os povos negros, a escravidão era um processo comum e até bem aceito.  Joseph Ki-Zerbo fala que a escravidão na África era bem tolerada:
 ... O escravo tinha direitos cívicos, e mais ainda, direitos de propriedade, e até mesmo seus próprios escravos. O pai chama o escravo pelo vocábulo nvana (filho), e a ambigüidade é tal que para designar com precisão um verdadeiro filho se emprega a expressão filho do ventre e pega nas partes genitais dele para confirmar.” Mais adiante ele cita que “o estádio patriarcal e comunitário impedia que o escravo negro fosse um bem no sentido romano e catoniano do termo. (KI-ZERBO, 1971, p. 265-66).
Portanto, mesmo sendo tão antigo o regime escravocrata, jamais atingiu o sentido mercantilista da época em que o Brasil foi colonizado. E foi isso que tornou a escravidão hedionda.
A Teóloga Maria Elise Rivas (RIVAS, M. E., 2008) cita que os europeus se interessaram pelo tráfico negreiro quando perceberam o mercado lucrativo que tinham em sua frente com a descoberta do mundo novo. Terras imensas, produtivas, sedentas de mão de obra barata, já que os indígenas estavam sendo mortos e os que resistiam não prestavam para o trabalho nas lavouras. 
Interesses africanos (guerras tribais e a islamização, que culminava com a venda dos infiéis), associados aos interesses europeus mercantilistas e ao silêncio da Igreja, foram os precursores e os estimuladores deste vil mercado.
Como um povo pode ser comercializado como animais, humilhado, agredido e submetido às mais violentas privações e maus tratos por tanto tempo sem despertar indignação e revolta nos demais povos? Será que todos lucraram com isso? Claro que não. Então, quais motivos justificariam este absurdo, que repercute na história mundial até hoje?
Segundo Rivas (2008):
 ... o negro, que entrou no Brasil, já habitava e muito o imaginário europeu, como um ser inferior, demoníaco, infernal, herege e sem alma. O fato de ser considerado como um ser sem alma impossibilitava a sua salvação. Assim, não era necessário justificar sua escravidão, tornando-se um bem para a humanidade, que estava sendo expurgada de um elemento “infecto” e “animalizado”, que poderia contaminar os homens com sua cultura satânica.  ...a discriminação iniciada na geografia (África) estendeu-se para a cor e mais tarde para a cultura. A culminância entre cor, cultura e expatriados fez do negro no Brasil, não um ser invisível como o índio, mas sim, um ser indesejado socialmente.
Tivemos na cultura grega, base do ocidente, desde Aristóteles em sua Política, a sustentação de que os negros só poderiam ser úteis por meio da eterna escravidão (SANTOS, 2002, pág. 275-89).
Revue Spirite, “o artigo publicado no Journal d´Études Psychologiques em Paris, abril de 1862, p.97, posiciona o lugar dos negros frente à cultura ocidental, como sendo um modo inferior de vida, mas não imutável, deixando claro a sua potencialidade “civilizatória”, bastando o contato com as “luzes” da civilização e da moral dos povos brancos (“qui a donné peuvres de la superioridade de as intelligence”) que tinham como missão retirar os negros da “ignorância” e “maus hábitos”.(FERRETI, 2001, p. 13-26)
Mas, apesar de tudo isso, as palavras de Frobenius nos fazem pensar:
... a religião iorubana encontrava-se num requintado estágio de evolução, podendo medir-se pela religião grega, quer pela riqueza de episódios, quer pelo número de personagens, quer pela complexidade dos rituais, que pela profundidade das instituições. (FROBENIUS, 2007, pág. 13)
Teria esse povo perdido sua cultura, suas tradições, sua dignidade? O que teriam trazido para o Brasil? Quais foram os povos que aqui chegaram? Quais contribuições foram incorporadas na cultura do povo brasileiro que se formava?
Foi Nina Rodrigues quem lançou a primeira luz sobre a questão, e, na Bahia, identificou a grossa massa da população negra como sendo de procedência “sudanesa”: “iorubas”, “jejes”, “haussás”, “minas”... sem embargo da existência lá, em menor número de negros de origem “banto”: “angolas”, “cabindas”... entraram no  Brasil, negros dos dois grandes grupos “sudaneses” e “bantos”.O primeiro grupo foi introduzido inicialmente nos mercados de escravos da Bahia, de lá se espalhando pelas plantações do recôncavo e secundariamente por outros pontos do Brasil. Desses negros sudaneses, os mais importantes foram os “iorubas”, ou “nagôs” e os “jejes” (“Ewes” ou “daomeanos”) e em segundo lugar, os “minas” (“Tshis” e “Gás”), ou os “haussás”, os “tapas”, os “bornus”e os “gruncis” ou “galinhas”...Com esses negros sudaneses entraram dois povos de origem berbere-etíope e influência maometana: os “fulas”, e “mandês”. Os “bantos” foram introduzidos em Pernambuco (estendendo-se a Alagoas), Rio de Janeiro (estendendo-se ao Estado do Rio, Minas e São Paulo) e Maranhão (estendendo-se ao litoral paraerense), focos primitivos de onde se irradiaram posteriormente para vários pontos do território brasileiro. “Bantos” foram os “angolas”, os “congos” ou “cabindas”, os “benguelas”, os negros de Moçambique (incluindo os “macuas” e “angicos” a que se referiram Spix e Martius). As demais denominações que tanta confusão originou nada mais são do que províncias ou regiões do vasto território afro-austral, “habitat” dos povos bantos.
“Sudaneses” e “bantos” entrados no Brasil aqui se fundiram uns com os outros, constituindo uma população escrava que progressivamente se foi amalgamando aos demais contingentes da população brasileira – em cruzamentos biológicos e interinfluições de ordem psico-sociológica”. (RAMOS, 1934, pág. 26-7)
            E foi em terras brasileiras que essas etnias, envolvidas há tanto tempo em guerras e disputas tribais, equiparadas agora pela escravidão, que a todos tornava iguais, encontraram o silêncio e a reflexão. Diante da necessidade de sobreviverem e preservarem sua cultura, fé e tradição, tornaram-se irmãos novamente.
            E assim como interesses financeiros os fizeram escravos, os tornaram livres. A mesma Inglaterra, que usufruiu da escravidão e dela lucrou, agora respondendo à pressão exercida por movimentos abolicionistas, a partir de 1807 aboliu o tráfico e em 1933, a escravidão, forçou o resto do mundo civilizado a fazer o mesmo. (ALBUQUERQUE; FRAGA, 2006, pág. 58)
            Todo o conhecimento destes povos foi mantido através da tradição oral. (KI-ZERBO, 1972, pág 19-20). E o que resistiu a aculturação foram as características religiosas, sincretizadas com o catolicismo, e a pajelança.
            O conceito de Deus Supremo (Olorun), eterno masculino (Obatalá), eterno feminino (Oduduá), seu conceito Dinamizador da Existência (Exu Yangi), o conceito de Forças Vitais (Iwá-Aché-Abá), o conceito de mediador entre Deus e sua obra (Orixa), o conceito de universos paralelos (Aiyé e Orum), destino individual (Odu), a veneração aos Ancestrais (Egun-Agbá), as sociedades secretas (Egungun e Geledé), e na Iniciação e seus Pais Babalawos. (ITAOMAN, 1990, pág, 39-40)
            Raça Branca
            A raça branca chegou ao Brasil representado por duas raízes, a Indo-Européia e a Heleno-Semítica (ou Judaico-Cristã).

Raiz Indo-Européia (Ariana)
            É de Fabre d’Olivet a citação de que a localização geográfica da civilização Hiperbórea (branca) é incerta, mais duvidoso ainda é tentar estabelecer a época em que começaram a ser reunir. (OLIVET, 1997, pág 42-3)
Os Vedas (Livros Sagrados dos Arianos) falam de uma raça que evoluiu na terra onde o sol fazia a volta no horizonte sem se deitar, e que seria a mãe dos Árias.  (ITAOMAN, 1994, pág. 40-2)
Moisés fala em Gibóreos (Gênesis), e diz que a origem deles data dos primórdios dos tempos. 
Deodoro da Sicilia diz que moravam próximos à Lua (latitude onde viviam).
Heródoto, Hesíodo, Plínio, Virgínio, e Cícero também mencionam este povo. Também Homero em sua Epígones os cita.
Ésquilo, em Prometeu, os situava nos Montes Rifeus.
Aristeas de Proconeso que os teria visitado, e escrito um poema sobre eles, afirmou que este povo ocuparia a região nordeste da Alta Ásia, chamada hoje de Sibéria. Outra localização possível, já que o sol brilharia 24 horas por dia, e se poria apenas uma vez ao ano, seriam os países nórdicos (Finlândia, Noruega,e Suécia).
Hecateus de Ábderas, da época de Alexandre, dizia que eles estavam entre os ursos brancos de Nova Zembla, numa ilha chamada Elixóia. (OLIVET, 1997, pág. 42-3)
            Seja como for, mudanças climáticas bruscas e violentas (desequilíbrio do planeta sobre o seu próprio eixo) modificaram a localização dos pólos, e a região Hiperbórea sofreu intenso resfriamento. O povo que lá habitava necessitou procurar novos horizontes. Chegaram assim à Ásia Central, onde foram conhecidos historicamente como Árias.
Os Vedas datam 6000 anos e relatam a rivalidade entre os clãs Vanes e Ases, daí originando o grande Cisma de Irshu, que dividiu os Árias. Os Ases ocuparam o sul e o leste da Ásia. Em guerra com os Dravidianos (melanidas), habitantes do sul, os Sindhus arianos conquistaram o território ao sul da Ásia, passando a chamar a região de Índia (Indhus).  A partir daí impuseram o Brahmanismo, baseado no sistema de castas. Os Dravidianos foram colocados na última delas, hoje conhecida como Chudras ou Párias (Intocáveis).
Nascido em 560 a.C. no Nepal, Siddhartha, que era príncipe (descendente dos Arianos, clã Sakya, casta real Kshatryas), abandonou a riqueza para buscar a Iluminação, passando a ser conhecido como Buda. Seus ensinamentos disseminaram-se por toda a Ásia, chegando à China.
O Império construído pelos Sindhus Arianos somente foi ameaçado por Alexandre, o Grande. E, posteriormente, influenciado pelos Persas, Árabes, Maometanos e Portugueses. Finalmente, conquistado pelos Ingleses. 
Ironicamente, foram os ingleses que trouxeram ao Ocidente toda a riqueza do esoterismo ariano. Merecem ser citados Helena Blavatsky, Anne Besant, David Neels, Leadbeather, por meio da Teosofia. Portanto, com profunda inspiração Brahmânica e Budista, a Teosofia viria a influenciar definitivamente o Kardecismo.
Quais as contribuições trazidas pelos Hindo-Europeus?
. Reencarnação: ciclos de nascimento-morte.
. Karma: Lei de causa e efeito.
. Prâna: energia sutil astral.
. Chakras: locais de condensação energética no corpo astral.
. Kundalini: Energia sutil telúrica.
. Tantra: sistema de atuação astral sobre o mundo físico (ITAOMAN, 1990, p. 40-2)

Raiz Judaico-Cristã ou Heleno-Semítica
            Toda a bacia do Mediterrâneo foi influenciada profundamente pela fusão de raças e conhecimentos esotéricos do Egito. Suas tradições são mais antigas que as greco-latinas. Afinal, filósofos gregos bebiam em suas fontes, localizadas em Thebah, onde seus templos Iniciáticos iluminavam todo o mundo conhecido. Entre eles estavam Sólon, Heródoto, Platão, Estrabão, Diodoro e Pitágoras.  Diodoro da Sicília relata: “Os egípcios, aproveitando-se das condições favoráveis, fizeram da Astrologia a sua ciência própria, a qual foram os primeiros a estudar. Os caldeus da Babilônia eram emigrados do Egito e, com estes, haviam aprendido Astrologia.” (OLIVET, 1997, p. 42-3)
            Toda a sua sabedoria como a matemática, geometria, medicina, alquimia, astrologia, gnose, foi preservado através dos gregos. Os gregos preservaram todo esse conhecimento em Alexandria, no delta do rio Nilo.
            Persas e depois os árabes herdaram a Biblioteca de Alexandria. Mas foram os árabes que traduziram para a sua língua todo esse conhecimento.
            Com a invasão do território europeu, fundaram seus Califados e Emirados em locais que hoje são a Espanha e Portugal. Durante todo o período em que permaneceram, transferiram a formidável cultura greco-egípcia.  A este período denominamos Renascença.
            Hebreus e Árabes pertencem ao mesmo grupo racial semita. Quando ocorreu a dominação da Europa pelos maometanos, os hebreus também os acompanharam. Dos árabes, herdaram a Alquimia, dos hebreus, a Kabbalah.
            A Espanha torna-se fonte de Iniciação. Aí brotaram os ensinamentos de Jabir Ibn Hayyan (Geber), Al Razi e Ibn Sina (Avicena) e os cabalistas Akiba e Semeon Bem Jochai. Nicolas Flamel, Paracelso e Saint Yves D’Alveydre foram exemplos de sábios que beberam nesta fonte. Daí surgiu a Magia Européia Ocidental.
            No momento em que os árabes começaram a perder poder, os sábios árabes e hebreus, detentores deste conhecimento, receberam proteção desde que se convertessem ao catolicismo, surgiu então os Cristãos Novos.
Moisés (Iniciado no Templo de Osíris e também recebeu a iniciação negra através de seu sogro Jethro) liderou seu povo, os semitas para fora do Egito. Sua doutrina religiosa está contida no Torah.  E foi entre os semitas hebreus que nasceu o Jesus (Rabi Iesu Bem Iossuf, essênio). Diante de tudo que ele ensinava e praticava, foi chamado Messias (Maschiah), o ungido de Deus. Após sua morte, foi Saulo - Paulo (judeu fariseu, de cidadania romana, e cultura helênica) que tornou o cristianismo primitivo em Catolicismo. O Cristianismo primitivo tinha como pontos fundamentais: a ascese, a reencarnação, o vegetarianismo, e a imposição de mãos e os dons do espírito (mediunidade).
E então, a partir de 1532, tanto árabes quanto hebreus, convertidos em Cristãos Novos, passaram a chegar ao Brasil, fugindo da perseguição da Santa Inquisição. Trocaram-se os nomes, mas se mantiveram com seus traços culturais, ainda que velados e secretos, restritos ao lar.
IV – Referências


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