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domingo, 5 de agosto de 2012

Anima e Animus



Para a Psicologia Analítica, o arquétipo da Anima (termo em latim para alma), constitui o lado feminino no homem, e o arquétipo do Animus (termo em latim para mente ou espírito), constitui o lado masculino na psique da mulher. Ambos os sexos possuem aspectos do sexo oposto, não só biologicamente, através dos hormônios e genes, como também, psicologicamente através de sentimentos e atitudes. Sendo a persona a face externa da psique, a face interna, a formar o equilíbrio são os arquétipos da anima e animus. O homem traz consigo, como herança, a imagem de mulher. Não a imagem de uma ou de outra mulher especificamente, mas sim uma imagem arquetípica, ou seja, formada ao longo da existência humana e sedimentada através das experiências masculinas com o sexo oposto. Cada mulher, por sua vez, desenvolveu seu arquétipo de animus através das experiências com o homem durante toda a evolução da humanidade. Embora, anima e animus desempenhem função semelhante no homem e na mulher, não são, entretanto, o oposto exato. Segundo Humbert, “Anima e animus não são simétricos, têm seus efeitos próprios: possessão pelos humores para a anima inconsciente, pelas opiniões para o animus inconsciente.” A anima, quando em estado inconsciente pode fazer com que o homem, numa possessão extrema, tenha comportamento tipicamente feminino, como alterações repentinas de humor, falta de controle emocional. Em seu aspecto positivo a anima, quando reconhecida e integrada à consciência, servirá como guia e despertará, no homem o desejo de união e de vínculo com o feminino e com a vida. A anima será a “mensageira do inconsciente” tal como o deus Hermes da mitologia Grega. A valorização social do comportamento viril no homem, desde criança, e o desencorajamento do comportamento mais agressivo nas mulheres, poderá provocar uma anima ou animus subdesenvolvidos e potencialmente carregados de energia, atuando no inconsciente. Um animus atuando totalmente inconsciente poderá se manifestar de maneira também negativa, provocando alterações no comportamento e sentimentos da mulher. Segundo Jung: “em sua primeira forma inconsciente o animus é uma instância que engendra opiniões espontâneas, não premeditadas; exerce influência dominante sobre a vida emocional da mulher.” O animus e a anima devidamente reconhecidos e integrados ao ego, contribuirão para a maturidade do psiquismo. Jung salienta que o trabalho de integração da anima é tarefa difícil. Diz ele: “Se o confronto com a sombra é obra do aprendiz, o confronto com a anima é obra-prima. A relação com a anima é outro teste de coragem, uma prova de fogo para as forças espirituais e morais do homem. Jamais devemos esquecer que, em se tratando da anima, estamos lidando com realidades psíquicas, as quais até então nunca foram apropriadas pelo homem, uma vez que se mantinham foram de seu âmbito psíquico, sob a forma de projeções.” Anima e animus são responsáveis pelas qualidades das relações com pessoas do sexo oposto. Enquanto inconscientes, o contato com estes arquétipos são feitos em forma de projeções. O homem, quando se apaixona por uma mulher, está projetando a imagem da mulher que ele tem internalizada. É fato que a pessoa que recebe a projeção é portadora, como dizia Jung, de um “gancho” que a aceita perfeitamente. O ato de apaixonar-se e decepcionar-se, nada mais é do que projeção e retirada da projeção do objeto externo. Geralmente o que se ouve é que a pessoa amada deixou de ser aquela por quem ele se apaixonou, quando na verdade ela nunca foi, só serviu como suporte da projeção de seus próprios conteúdos internos. Para o homem a mãe é o primeiro “gancho” a receber a projeção da anima, ainda quando menino, o que se dá inconscientemente. Depois, com o crescimento e sua saída do ninho, o filho vai, aos poucos, retirando esta projeção e lançando-a a outras mulheres que continua sendo um processo inconsciente. A qualidade, do relacionamento mãe-filho, será essencial e determinará a qualidade dos próximos relacionamentos, com outras mulheres. Salienta Jung: “Para o filho, a anima oculta-se no poder dominador da mãe e a ligação sentimental com ela dura às vezes a vida inteira, prejudicando gravemente o destino do homem ou, inversamente, animando a sua coragem para os atos mais arrojados.” Jung define projeção da seguinte forma: “um processo inconsciente automático, através do qual um conteúdo inconsciente para o sujeito é transferido para um objeto, fazendo com que este conteúdo pareça pertencer ao objeto. A projeção cessa no momento em que se torna consciente, isto é, ao ser constatado que o conteúdo pertence ao sujeito.”
Vanilde Gerolim Portillo
Psicóloga Clínica – Pós-Graduada e Especialista Junguiana 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

ÂNIMUS - ÂNIMA


Os conceitos de ânimus e de ânima emergem da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, como decorrência da estruturação psíquica baseada em arquétipos primordiais e traz importantes conseqüências para a compreensão de nossa individualidade, bem como da cultura social em que nos inserimos.

Inicialmente é necessário definirmos o inconsciente coletivo como um repositório de conteúdos simbólicos que existem fora da própria individualidade, mas que por ela são absorvidos quando da sua concepção, dando orientação à construção de seu inconsciente pessoal e de sua futura personalidade. Esses conteúdos psíquicos, em forma de símbolos, são as estruturas que Jung denominou arquétipos.

Os termos ânimus e ânima vão representar os arquétipos masculino e feminino, respectivamente, que se inserem no indivíduo em formação, dando-lhe as características da sua sexualidade afetiva e não necessariamente a biológica. Dessa forma, todos temos aspectos ânimus e ânima em nossa personalidade, havendo uma tendência para os homens serem mais ânimus e para as mulheres mais ânima. Mas é justamente no dinamismo dessas forças psíquicas que na maioria das vezes se estabelecem os comportamentos homossexuais, quando não há uma relação direta entre o ser psíquico e o ser biológico. Mas não é nossa intenção analisar a questão da homossexualidade; deixemos para outra oportunidade.

Podemos definir algumas características ânimus como ser ativo, rígido, cobrador, ligado à razão, à lógica, usar mais o amor condicional, buscar o conflito, a agressividade e a destruição. Já a personalidade ânima é passiva, flexível, tolerante, ligada ao sentimento, à intuição, usa mais o amor incondicional, evita o conflito, é protetora do mundo afetivo e ligada à criação. Claro que, só para reforçar a idéia, não são os homens personalidades ânimus e as mulheres ânima. Em cada um interagem aspectos de ambos os pólos, havendo predominância de um sobre o outro.

A polarização da individualidade humana em masculino e feminino, homem e mulher, é uma necessidade ao processo de evolução anímica, contudo tende à individuação, ou seja, à composição de um todo único e harmonioso, onde não haverá mais arquétipos independentes ou complexos criando conflitos afetivos, mas um ser para onde convergirão todas as tendências anteriores que o compunham e outras mais, tornando-o, assim, completo e feliz.

O alcance deste objetivo se dá justamente através das vivências que se repetem, onde o ser experimenta as angústias dos conflitos de suas próprias disputas afetivas internas. Por isso, cada um de nós precisa estar atento à parte que nos falta a alcançar, percebendo no outro, não um alvo às nossas críticas, mas um espelho que nos sirva de referencial de auto-observação. Ao estabelecer uma relação conjugal, homens e mulheres se associam com personalidades que lhes são diferentes e ao mesmo tempo lhes completam. Integrar o que há de bom no outro como um conteúdo pessoal é ampliar o patrimônio próprio de conteúdos psíquicos e tornar-se mais próximo da individuação. Nós homens precisamos aprender e apreender o lado bom de ânima, e as mulheres o lado bom de ânimus.

Entretanto, ao observarmos nossa cultura social, percebemos o quanto ela foi e ainda é caracterizada por ânimus devido a razões que se estruturam na própria mente humana, como o chamado complexo de castração, mas que não teremos espaço para discutir aqui. O que vale salientar é que os aspectos masculinos marcam o comportamento social, o que explica sermos uma civilização tão voltada ao conflito, às guerras, à lógica da ciência cartesiana, à insensibilidade. Mas, da mesma forma que as individualidades caminham para a integração dos conteúdos divergentes, também a humanidade, como somatório das individualidades que a compõem, caminha para a superação de sua tendência ânimus e o crescimento de sua ânima. Já podemos assistir a esta movimentação naquilo que vamos chamar de a “personalidade da Terra”. A cultura machista vai cedendo espaço à presença da mulher que tanto cresce também na absorção do que lhe falta de ânimus, quanto influencia o todo com o que tem de ânima.

Talvez o maior desafio agora seja o nosso, dos homens que habitam a Terra. Isto porque as mulheres, na busca da superação da sociedade machista, tiveram que lutar contra as forças culturais externas, operando uma revolução de hábitos e costumes que, pouco a pouco, vai se consolidando. Mas nós, homens, temos uma luta muito mais difícil, que é aquela contra o machismo introjetado em nossas mentes pela tal sociedade ânimus. Ou seja, os homens, neste empreendimento, não têm que lutar para mudar o meio social, mas lutar contra suas próprias tendências internas que são, na verdade, reforçadas pelo meio social, o que torna o trabalho bastante complexo.

Assim, acredito em uma humanidade futura mais ânima, mais feminina, mais flexível, tolerante, ligada ao sentimento, à intuição, mais capaz de amar incondicionalmente, evitando os conflitos, protegendo o mundo afetivo e criando.... criando um mundo melhor para se viver.
 

João Carvalho Neto
Psicanalista, autor do livro “Psicanálise da alma”