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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Eliphas Levi Zahed


Alphonse Louis Constant nasceu no dia 8 de fevereiro de 1810, no número 5 da rua des Fossés-Saint-Germain-des-Près (que depois se tornou rua de l'Anciene Comédie) em Paris, filho de Joseph Constant e Jeanne Agnes Beaucourt. Seu pai era sapateiro. Graças ao abade J. B. Hubault Malmaison, que havia organizado na sua paróquia, um colégio que dispensava gratuitamente o nível básico de instrução às crianças pobres, ele fez seus primeiros estudos. Depois entrou em 1825 no pequeno seminário Saint-Nicolas du Chardonnet, dirigido então pelo abade Irmão Colonna, que o teria orientado talvez já em direção ao estudo da magia. Em 1830 tendo terminado a sua retórica, ele passou, de acordo com a regra, ao seminário d'Issy, para terminar seus dois anos de filosofia. Nesse mesmo ano, ocorreu a morte de seu pai. Depois de Issy, ele chega ao seminário de Saint-Suplice para fazer sua teologia. Lá mesmo ele é ordenado sub-diácono e tonsurado(1). Em 1835, sendo encarregado de aulas de catecismo para moças de Saint-Suplice, a jovem Adèle Allembach lhe foi confiada por sua mãe, com a missão de “protegê-la muito especialmente e de instruí-la particularmente como se ela fosse a filha de um príncipe”.

Sua mãe, católica fervorosa e esposa de um oficial suíço, havia emigrado para a França em 1830 porque a religião de sua filha lhe parecia ameaçada, e ambas viviam desde então um grande desenlace.

O jovem abade pouco a pouco foi ficando perdidamente enamorado pela sua protegida, na qual ele crê ver a Santa Virgem numa forma humana. Ele é ordenado diácono no dia 19 de dezembro de 1835, e alguns meses após ele finalmente deixa o seminário em junho de 1836 antes de receber o sacramento da ordem; mas nesse meio tempo, a jovem pela qual ele havia se apaixonado, o abandonou.

Sua velha mãe enferma, que havia colocado todas as suas esperanças nele, ficou muito triste com a saída do filho do seminário e suicidou-se algumas semanas mais tarde asfixiando-se com os gazes do seu aquecedor a carvão. A. Constant, por um momento teve a idéia de entrar na Trapa(2), mas seus amigos conseguiram faze-lo desistir. Ele passou então, um ano num pensionato perto de Paris, depois acompanha um amigo comediante ambulante chamado Bailleul, numa turnê pela província.

Em 1838, ele faz amizade com a socialista Flora Tristan, e colabora com Alphose Esquiros, que conheceu no pequeno seminário, numa revista: As Belas mulheres de Paris, que revela ao público seus dons de desenhista. Então, enquanto ele frequenta os salões em função do seu trabalho na revista, ele conheceu Honoré de Balzac, num momento de plena glória, na casa de Madame de Girardin.

Sonhando ainda em chegar ao sacerdócio, ele parte para a abadia de Solesmes, decidindo aí passar o resto dos seus dias. A abadia possuía uma biblioteca de cerca de 20000 volumes, na qual ele poderia consultar os autores originais. Ele estuda a doutrina dos antigos gnósticos, aquela dos Padres da Igreja primitiva, os livros de Cassien e de outros ascetas, os piedosos textos dos místicos e especialmente os livros de Madame Guyon. Nessa época aparece o seu primeiro livro: A Roseira de Maio (1839). Por causa de um desentendimento com o abade de Solesmes, A. Constant deixa finalmente a abadia no final de um ano, sem um centavo.

Intercedendo junto ao arcebispo de Paris, Monsenhor Affre, ele termina por obter um cargo humilde de inspetor no colégio de Juilly. Seus superiores o maltratam, e na sua angustia ele compões sobre o grande escândalo do clero e dos pensadores, A Biblia da Liberdade (1841). A obra apareceu no dia 13 de fevereiro e foi apreendida em Versailles uma hora após a sua colocação a venda. Um grande número de exemplares puderam mesmo assim, serem salvos, e o abade Constant foi preso nos primeiros dias do mês de abril. O processo aconteceu no dia 11 de maio de 1841 e o abade foi condenado a 8 meses de prisão e 300 francos de multa. Na prisão de Saint-Pélagie, onde ele passa 11 meses (não tendo provavelmente como quitar a multa...) ele reencontra seu amigo Esquiros e o abade de Lamennais. Todos os meios são usados para fazê-lo morrer de desgosto e de miséria. Suas cartas são interceptadas para deformar o sentido, ele é acusado de se vender a polícia e ele deve, além disso, sofrer a animosidade de certos outros detentos. Ele procura na leitura, consolar-se um pouco, lendo pela primeira vez os escritos de Swedemborg. Porém seus amigos do lado de fora não o esquecem. Uma certa Madame Legrand, uma amiga muito rica de Flora Tristan, procura tornar mais suave o dia a dia do prisioneiro, trazendo a ele uma alimentação mais variada.

Saindo da prisão em abril de 1842, ele recebeu um pedido de pinturas murais para a igreja de Choisy-le-Roy, graças ao capelão de Sainte-Pélagie. Em 1843, morando no presbitério de Choisy, ele começa a escrever A mãe de Deus. Sua conduta é tão exemplar, que Monsenhor Affre decide recomenda-lo a Monsenhor Oliver, bispo de Evreux. O bispo está pronto a acolher o abade desde que ele mude o seu nome pelo de sua mãe, afim de evitar todo o escândalo em relação ao assunto A Bíblia da Liberdade.

É então o abade Beaucourt quem parte para Evreux em fevereiro de 1843. Suas qualidades aí fazem um grande sucesso e provocaram muito ciúme entre os padres da diocese. No mês de junho o jornal O Universoanunciou a morte do abade Constant, informação desmentida em seguida pelo O Popular. Em 22 de julho de 1843 aparece no O Eco da Normanadia um artigo intitulado, O novo Lazaro, no qual é revelada toda a estória do abade Beucourt. Sua identidade seu processo e sua condenação. Obrigado a sair do seminário, ele não é esquecido pelo bispo de Evreux que cuida da sua subsistência e ainda procura ajudá-lo com o pedido de uma pintura mural para um convento. Infelizmente Monsenhor Oliver está muito aflito pelo lançamento de A Mãe de Deus em 1844, e no fim de fevereiro desse mesmo ano, o abade retorna à Paris deixando sua pintura inacabada.

Ele revê sua amiga Flora Tristan, que morrerá pouco tempo depois em Lyon. Ele hesita durante muito tempo antes de publicar o manuscrito de Flora Tristan, pensando que o tornariam responsável por ele; abandona finalmente o projeto e edita o primeiro manuscrito sob o título: A Emancipação da Mulher ou o Testamento da Pária. No outono de 1844, Madame Legrand pede a ele que venha a Guitrancourt afim de assumir a educação de seus filhos. Ele fica lá durante um ano e depois retorna a Paris e lança o seu manifesto pacífico, inspirado por Silvio Pellico: A Festa-Deus ou o Triunfo da Paz Religiosa (1845).

As idéias utopistas e humanitárias da época o absorvem então inteiramente. Dois movimentos principalmente suscitaram de sua parte, profundas e longas meditações: O Santo-Simonismo e o Fourierismo.

A escola Santo-Somoniana, apesar de suas grandes qualidades, sempre me provocou uma viva repulsão. Eles tem a verdadeira religião exceto o espírito de piedade; a mulher livre da qual eles falam me faz horror e eles não podem compreender a caridade já que eles desconhecem o amor. Eles são frios como o industrialismo, cortantes, déspotas e calculistas. Eu me irrito quando eu os vejo tocar nossas grandes verdades que a sua secura de coração compromete e profana. Enfantin tem certamente percepções notáveis mas ele é pleno de egoismo e de fatuidade” (correspondência com o barão Spedaliere).

Fourrier retornou o sistema de Swedenborg, para criar sobre a terra o paraíso das atrações proporcionais às destinadas. Por atração ele compreendia as paixões sensuais às quais ele prometia uma expansão integral e absoluta. Deus, que é a suprema razão, marcou com um celo terrível essas doutrinas reprovadas: Os discípulos de Fourrier haviam começado pelo absurdo e terminaram pela loucura”(História da Magia).

Em 1845, no Livro das Lágrimas, ele desenvolve pela primeira vez, noções esotéricas. Durante este período ele compõe também canções e ilustra duas obras de Alexandre Dumas: Luiz XIV e seu século e Conde de Monte Cristo. Adele Allembach, tornou-se artista e vinha vê-lo frequentemente. Ela conservava sempre a mesma admiração pelo seu “paizinho” cujo trajeto ela acompanhou até a última morada.


A. Constant habita algum tempo em Chantilly e depois volta a se fixar em Paris, no número 10 da rua Saint-Lazare. Ele torna-se amigo de Charles Fauvety e os dois fundam em 1845 a revista mensal: A Verdade sobre todas as coisas que só apareceu durante quatro meses.

Desde seu retorno de Evreux, ele ia frequentemente a Choisy-le-Roi onde ele havia encontrado em 1843 a senhorita Eugénie Chenevier, sub-diretora da Instituição Chandeau. Entre as pensionistas da instituição se encontrava a jovem Marie-Noémie Cadiot a quem Eugénie tinha uma ligação de amizade. Quando as duas jovens saiam aos domingos, A. Constant acompanhava-as, e eles passavam os três bons momentos juntos.

Eugénie Chenevier aceitou ser sua mulher perante Deus. Confiante no futuro, ela já se havia entregado a ele e esperava um filho. Esse filho Xavier Henri Alphonse Chenevier, que nasceu no dia 29 de setembro de 1846, viveu até 1916 e teve também um filho, Pierre (pela linhagem de Eugénie a descendência de Eliphas Lévi representa, atualmente, mais de 40 pessoas na sexta geração)

Mas Marie-Noémie Cadiot apaixonou-se... 
Depois de ter mantido uma correspondência inflamada com A. Constant, ela foge um belo dia da casa de seus pais para se refugiar na pequena casa dele. Seu pai exige então que se casem, sob ameça de desvio de menor porque a jovem só tinha 18 anos. A. Constant teve que se resignar.

A cerimonia civil aconteceu na sede do conselho municipal da décima circunscrição administrativa, no dia 13 de julho de 1846. A familia Cadiot não quis dar dote a Noémi, e os dois ficaram de tal forma destituídos de recursos que eles prepararam sua refeição com alguns centavos de batatas fritas compradas na Ponte Nova.

Desde o “assunto” de A Bíblia da liberdade em 1841, A. Constant era impedido de expressar seu pensamento sendo negado a ele escrever para jornais. Por sugestão de Noémi ele se põe a fazer política. Ele colabora notadamente na A Democracia Pacífica e escreve um panfleto virulento, A voz da Miséria. No dia 3 de fevereiro de 1847, ele é condenado ainda a um ano de prisão e 1000 francos de multa. Sua mulher intercede por ela e o filho que ela espera junto aos ministérios e obtém finalmente a sua libertação no final de 6 meses. Madame Constant dá a luz em setembro de 1847 à uma menina, Marie. A pequena Marie morre em 1854 com a idade de 7 anos para grande desespero de A. Constant que a adorava.

A revolução de fevereiro de 1848 deu a ele mais liberdade, começando assim a dirigir uma revista de esquerda: O Tribuno do Povo que só teve quatro números, do dia 16 ao 30 de Março de 1848. Ele funda, em seguida, com seus amigos Esquiros e Le Gallois um clube político: O clube da Montanha, composto principalmente por trabalhadores. Chegam as jornadas de junho, insurreição das classes trabalhadoras pela reação para fazer morrer a república que nascia. O dia 23 de junho de 1848 foi quase fatal a A. Constant: foi fuzilado, acreditando-se ter ligações com ele, um vendedor de vinho que se assemelhava a ele, na esquina da rua Saint-Martin e da rua de Arcis. No dia 24, Monsenhor Affre querendo apaziguar os insurgentes recebeu um tiro e morreu três dias mais tarde. A. Constant desejaria representar o povo na Assembléia Nacional, mas sua tentativa fracassou. Seu amigo Esquiros foi em compensação eleito no dia 13 de maio de 1849, e os dois homens não se frequentaram mais. O Testamento da Liberdade 1848, que resume suas idéias politicas, será sua última obra do gênero. Nessa época, Madame Constant, que já havia publicado na revista de seu marido e frequentado o Clube das Mulheres de Madame Niboyet, se lança no mundo parisiense. Ela escreve no A Algazarra e o Moritor da Noite, novelas literárias, sob o pseudônimo de Claude Vignon (tirado de um romance de Balzac). Este é um período de relativo bem estar para o casal. Noémie toma aulas do célebre escultor Pradier, e graças à essa alta relação, A. Constant obtém dois pedidos de quadros do Ministério do Interior.

Paralelamente, ele lê a Cabala Desnuda de Knorr de Rosenroth, estuda os escritos de Boheme, Saint-Martin, Swedenborg, Fabre d'Olivet, Chaho e Goerres.

No final de 1850, ele encontra o abade Migne, fundador e diretor da livraria eclesiástica de Montrouge, que pede a ele um Dicionário da literatura cristã, para sua coleção. Surgindo em 1851, essa obra surpreende pela ciência profunda que ela encerra. Nessa época A. Constant encontra o sábio polonês Hoëné Wronski, cuja obra lhe proporciona uma impressão duradoura e o orienta em direção ao pensamento matemático assim como ao messianismo napoleônico. Começa então a escrever o Dogma e Ritual da Alta Magia. Ele toma então o pseudônimo de Eliphas Levi, ou Eliphas Levi Zahed que é a tradução em hebreu de Alphonse Louis Constant.

A fé é somente uma superstição e uma loucura se ela não tiver a razão por base, e só podemos supor o que não soubemos pela analogia como o que conhecemos. Definir o que não se sabe é uma ignorância presunçosa; afirmar positivamente o que se ignora, é mentir.”(Dogma e Ritual da Alta Magia, página 360)(3)

Madame Constant, que tinha uma ligação com o Marques de Montferrier (cunhado de Wronski) já há algum tempo, fugiu um dia para não mais voltar. Profundamente magoado, ele se dedica ao trabalho para tentar escapar ao desgosto.

Na primavera de 1854, ele retorna a Londres, onde encontra o Dr. Ashbruner e Sir Edward Bulwer-Lytton, célebre autor de romances fantásticos (Zanoni, o Mestre Rosa-Cruz é sua obra mais conhecida) que torna-se seu amigo e o faz ser admitido no seio dos círculos rasacruzes. Encorajado por uma amiga dele, iniciada de alto grau, ele tenta uma série de evocações. Durante uma delas, o fantasma de Apolônio de Tiana aparece a ele, indicando-lhe o lugar em Londres onde ele poderia encontrar seu “Nuctemeron” (cf. A narração de sua estadia na Inglaterra, em Dogma e Ritual da Alta Magia páginas 132 à 135)(4). Entretanto Eliphas Levi se manterá sempre oposto às experiências de magia. Quando mais tarde ele teve alguns discípulos, ele os fez prometer de jamais tentarem a menor experiência que fosse e de só se ocuparem da parte especulativa da filosofia oculta.

A senhorita Eugénie Chenevier estava em Londres já há alguns anos onde ela ganhava com dificuldade para educar seu filho. A. Constant escreveu uma carta a ela para pedir-lhe perdão e o obteve. Durante esse tempo em Paris, seu amigo Adolphe Desbarolles, faz com a ex-Madame Constant os arranjos necessários e retira da casa dela os objetos pessoais do Mestre.

De volta à França em agosto de 1854, Eliphas se hospeda durante algum tempo na atelier de pintura de seu amigo Desbarolles, depois habita num modesto quarto de estudante no primeiro andar do número 120 do boulevard de Montparnasse onde ele termina o Dogma e Ritual da Alta Magia que aparece de 1854 à 1856. Então começa o sucesso, mas não a fortuna.

Em 1855, ele funda com Fauvety e Lemounier a Revista Filosófica e Religiosa que durará três anos e na qual ele escreve numerosos artigos sobre a Cabala abandonando um pouco a filosofia oculta, ele põe-se a compor canções uma delas na qual ele compara Napoleão III à Calígula o faz voltar mais uma vez à prisão. Mas, alguns dias após seu encarceramento ele escreve uma outra canção onde ele explica satiricamente que os juíses cometeram um equívoco: ele jamais comparou ninguém a Calígula, e faz chegar isso ao imperador que o perdoa. De abril à junho de 1856 ele publica canções no O Mosqueteiro de Alexandre Dumas garças a Desbarolles.

No dia 3 de janeiro de 1857, um acontecimento sangrento mergulha Paris em estupor. O arcebispo de Paris, Monsenhor Sibour é assassinado por um padre que teve seus direitos interditados, Louis Verger, quando inaugurava a novena de Santa-Genoveva em Saint-Etienne-du-Mont. Nas duas noites anteriores, Eliphas havia tido um sonho premonitório que terminava pelas palavras: “venha ver teu pai que vai morrer!” Estando seu pai morto há muito tempo ele não compreendeu logo o sentido. No dia três de janeiro por volta das quatro horas da tarde, Eliphas estava entre os peregrinos que assistiam ao ofício no final do qual o arcebispo devia morrer.

Porém, lendo mais tarde a descrição do assassino nos jornais, ele se lembra de um padre pálido encontrado com Desbarolles um ano antes na casa de Madame A. e que procurava o livro, o grimório de Honorius. Esse episódio é relatado em detalhes no A Chave dos Grandes Mistérios (1861), páginas 139 à 151.(5)

Após três anos passados no boulevard de Montparnasse, ele vai morar no n° 19 Avenida do Maine, por volta de junho de 1857. O quarto ensolarado que ele decora aproveitando seus talentos de artista, verá os sete melhores anos de sua vida.

Em 1859, a publicação da História da Magia lhe rende 1000 francos, o que era considerado uma boa quantia para a época, e o consagra atraindo-lhe a maior parte dos esoteristas franceses (notadamente Henri Delaage, Luc Desages, Paul Agnez, Jean-Marie Ragon, Henri Favre, e o Dr. Fernand Rozier, que será encontrado mais tarde do lado de Papus). Ele conheceu também o cartomante Edmond e o magnetizador Cahagnet.

Solicitado por seus amigos Fauvety e Caubet; ele entra na Maçonaria. Iniciado em 14 em Março de 1861 na loja Rosa do perfeito Silêncio, da qual Caubert era o Venerável, ele declara no seu discurso de recepção:

Eu venho trazer à vós as tradições perdidas, o conhecimento exato de vossos sinais e de vossos emblemas, e em seguida, vos mostrarei o objetivo para o qual vossa associação foi constituída...” (Caubet, Lembranças; Paris, 1893).

A cerimônia teve lugar na presença de um grande número de Irmãos a quem ele tentou explicar que o simbolismo Maçônico veio da Cabala. Mas foi inútil, não acreditaram nisso.

Nesse meio tempo, a senhorita Eugénie Chenevier e seu filho voltam a Paris e Eliphas diz que deseja se ocupar da criança. A mãe cede a esse desejo, mas um desentendimento acontece em 1867 por questões financeiras e ele não verá nem a mãe nem o filho até sua morte. Em 1861, ele publica A Chave dos Grandes Mistérios, última parte da trilogia começada com História da Magia e Dogma e Ritual da Alta Magia. O Mestre trabalhou muito, iniciando nas Ciências Ocultas eruditos pertencentes à mais alta aristocracia, e mesmo o bispo de Evreux, Monsenhor Devoucoux, a quem ele dá lições de Cabala. Graças ao pagamento de suas lições, ele vive num relativo conforto material, enriquecendo sempre sua biblioteca. Com o conde Alexandre Branicki, hermetista, ele tem exito com algumas experiencias convincentes da Grande Obra, num laboratório instalado no castelo Beuregard, em Villeneuve-Saint-Georges. Esse castelo pertencia a viúva de Honoré de Balzac e Eliphas tornou-se também amigo do genro de Madame de Balzac, o conde Georges Mniszech. O castelo saqueado pelos prussianos em 1870, é, hoje em dia, a sede do conselho municipal de Villeneuve-Saint-Georgs.

Em maio de 1861, ele volta a Londres, acompanhado do conde Alexandre Branicki para passar alguns meses perto de Bulwer-Lyton que é o presidente da Socidade Rosacruz de Londres naquele ano. Durante esta segunda temporada, Eliphas Lévi faz várias visitas a Eugène Vintras, que lhe havia enviado dois de seus discípulos para convida-lo em anos anteriores. Ele o considera não como um profeta, mas como um médium singular, um interessante caso de estudos, e compra para ele mesmo, seu livro O Evangelho Eterno.

Em Julho de 1861, o barão italiano N-J Spedalieri havia comprado num livreiro de Marselha, o Dogma e Ritual da Alta Magia e decidira fazer contato com o autor. Segui-se a isso uma correspondência de mais de 1000 cartas que durou de 24 de outubro de 1861 à 14 de fevereiro de 1874. É um curso único de Cabala, preciso, cheio de figuras explicativas e anedotas. Spedalieri foi um dos mais importantes “mecenas” do professor de Ciências Ocultas.

De volta a Paris, Eliphas Lévi publica O feiticeiro de Meudon dedicado á Madame de Balzac. Desde sua volta de Londres, ele assiste regularmente às reuniões maçônicas da loja Rosa do perfeito Silêncio. No dia 21 de agosto de 1861, ele recebe o grau de Mestre.

Em seguida a um longo discurso sobre os Mistérios da Iniciação que ele fez no mês seguinte, um irmão, o professor Geneval, querendo apresentar algumas observações sobre o que acabava de ser dito chocou-se aos protestos de Eliphas que se retirou e não apareceu mais na loja. As tentativas de Caubert para faze-lo voltar atrás nas sua decisão, no dia seguinte, não surtiram efeito. A loja Rosa do perfeito Silêncio ficará adormecida em 1885, mas não procuremos trazer nela, como Oswal Wirth, uma relação de causa e efeito.

Eu cessei de ser Franco-Maçon porque os Franco-Maçons, excomungados pelo Papa não acreditavam mais dever tolerar o catolicismo.”(O Livro dos Sábios)

No dia 29 de agosto de 1862 aparece Fabulas e Símbolos, obra na qual Eliphas Lévi analisa os símbolos de Pitágoras, dos evangelhos apócrifos, do talmude... etc. Algumas vezes ele frequenta, incógnito, as reuniões espíritas para se documentar. Pierre Cristian, autor do estranho romance O Homem vermelho das fabricas de telhas, foi vizinho de Eliphas e aproveitou suas conversas e suas lições todas benévolas. Em 1863, morre Louis Lucas, químico iniciado nos segredos de hermes, discípulo de Wronski e amigo de Eliphas. Seus escritos contém a primeira síntese científica que alia Ciência Oculta e Ciências experimentais. Ele foi o inventor de um aparelho capaz de medir o equilíbrio do magnetismo vital, que ele chamava de biômetro. Esse aparelho encontrou uma bem curiosa utilização; um aparelho muito similar faz com efeito parte da panóplia dos cientólogos.


No dia 15 de maio de 1864, Eliphas muda-se para um três cômodos no 2° andar do número 155 rua de Sèvres, sua última residência. Em 1865 aparece A Ciência dos Espíritos conjunto de ensaios tratando de novo do simbolismo dos Evangelhos apócrifos, do Talmud... etc. (absolutamente nada a ver com o espiritismo). No verão de 1865, o editor Larousse lhe pede para escrever alguns artigos de Cabala para seu Grande Dicionário. Ele trabalha ao mesmo tempo em uma obra soberba, mas de um valor histórico contestável, O Livro dos Esplendores que trata principalmente da Cabala do Zohar e que só aparecerá após a sua morte. Nessa época ele começa a sentir com frequência, dores nevrálgicas na cabeça, que o fazem sofrer muito. Durante o cerco de Paris em 1870, sua vida foi muito penosa, porque estando cortadas as ligações com a província, ele não podia mais receber subsídios da parte de seus alunos. A dureza do seu serviço como Guarda Nacional revela uma doença do coração. Uma vez a comuna terminada o Mestre totalmente desprovido de recursos uma vez mais, encontra na casa de uma de suas alunas, Madame Mry Gebhard, que morava em Elberfeld, Alemanha, uma longa e calorosa hospitalidade. Os acontecimentos lhe inspiram alguns pensamentos que ele reúne sob o título de As Portas do Futuro.

Quando ele retorna da Alemanha, ele fica sabendo da morte da mulher do barão Spedalieri. A morte dela afeta de tal forma o barão que ele crê tornar-se materialista e ateu terminando por se afastar do Mestre. Em dezembro de 1871, Eliphas Levi termina um outro manuscrito: o Grimório Franco-Latomorum, consagrado à explicação dos ritos da Franco-Maçonaria. No outono de 1872, sua ex-mulher, escritora e escultora a partir de então muito conhecida, se casa com o deputado de Marselha, Maurice Rouvier que se tornará Ministro do Comércio. Porém sua saúde continua a piorar. Por causa de um problema cardíaco ele fica sujeito a desmaios durante os quais ele diz ter visões profundas. Durante o ano de 1873, ele termina o manuscrito doEvangelho da Ciência.

Em novembro de 1873, Judith Mendes, filha de Theofilo Goutier, havia tido necessidade para um dos seus romances orientais, de informações sobre a Cabala Caldea. A fama a conduziu diretamente à Eliphas Lévi, que convidado um dia a ir à casa do pai dela, havia previsto à jovem seus sucessos futuros, lendo sua mão. Seu marido Catulle Mendes apresentou Eliphas ao escritor Victor Hugo que parecia conhecer as obras do Cabalista e as havia mesmo apreciado.

O ano de 1874 foi muito doloroso a passar: uma bronquite bastante grave, sufocamentos, e uma febre persistente não lhe permitiam nenhum repouso. Sua pernas começaram a inchar e um tipo de elefantíase logo se instalou. Em janeiro de 1875, o Mestre termina o seu último manuscrito: O Catecismo da Paz. No dia 31 de maio de 1875 ele morreu no n°155 da rua de Sevres, com a idade de 65 anos. Ele foi enterrado no cemitério de Ivry, uma simples cruz de madeira marcando o local de seu túmulo. Em 1881 seu corpo foi exumado e seus restos colocados numa fossa comum.


Esta biografia foi traduzida do original francês que consta no site: www.la-rose-bleue.org

sábado, 18 de setembro de 2010

Stanislas de Guaita


Marie Victor Stanislas de Guaita nasceu num sábado, 6 de abril de 1861 às 5 horas da manhã, em Alteville, perto de Nancy, na Lorraine Francesa. Seu signo ascendente posicionou-se aos 27º 30´ de Peixes e seu signo solar colocou-se em Áries. Era filho de François Paul de Guaita e de Marie Amélie de Guaita, católica fervorosa. Seu pai provinha de uma antiga família de origem germânica, vinda da Itália no reino de Carlos Magno. Seus antepassados foram homens de guerra, religiosos e poetas. Em 1715, o tataravô de Stanislas de Guaita estabeleceu-se em Frankfurt, casando-se com uma jovem alemã. Durante o império Napoleônico, o avô de Guaita alistou-se no exército Francês e adquiriu a nacionalidade francesa. O pai do ocultista fixou-se em Alteville, onde nasceu o Mestre. A família de sua mãe era de descendência francesa.
O brasão dos Guaita possuía um escudo dividido horizontalmente. Na parte superior, uma águia imperial, bicéfala, destacava-se em negro, tendo sobre sua cabeça uma coroa. A parte inferior do escudo era em prata com três esquadros de lápis lazúli, com bordas de triângulos alternadas, em prata e negro.
Os autores que escreveram sobre Stanislas de Guaita não chegaram a nos fornecer muitos dados sobre a sua vida iniciática. Aprofundaram-se apenas na doutrina que ele próprio expôs em seus livros; os dados sobre sua vida particular, que poderiam interessar a todos aqueles que o admiram através de sua obra, referem-se apenas a aspectos exteriores. Apenas sua correspondência com Joséphin Péladan deixa entrever a natureza oculta e séria de seus trabalhos iniciáticos.
Na verdade, pouco antes do nascimento de Stanislas de Guaita, estava na moda o espiritualismo esotérico. Segundo o Mestre Papus, por volta de 1850, os Rosa+Cruzes tinham recebido a missão de encetar uma reação contra o materialismo oficial. Tinham se organizado centros Martinistas e parecia que o espírito cristão voltava a renascer. Este foi o clima no qual Guaita veio ao mundo das formas.
Entretanto, é impossível apresentar o interior de um Iniciado de sua envergadura e revelá-lo ao público, sem efetuar uma grande profanação. O homem interior só se deixa revelar à própria Divindade. Aqueles que vivem no exterior recebem apenas os reflexos de sua grande luz. Da mesa do Senhor as migalhas caem no chão e são digeridas por todos aqueles que aspiram a poder, algum dia, partilhar do celeste ágape.
Possam todos os iniciados que se baseiam na vida e obra dos divinos Mestres da Humanidade, um dia participar de tão glorioso banquete.
No colégio dos Jesuítas em Nancy, Stanislas de Guaita teve como companheiro Maurice Barrès, poeta que chegou a ingressar na Academia Francesa. Na primavera de 1880, Guaita e Barrès, jovens aprendizes de filósofos, viveram em Nancy com plena independência. Assim diria Barrès, referindo-se àquela época: "Esse tempo continua sendo o mais agradável de minha vida... O dia todo, e eu poderia dizer, a noite toda, da mesma forma, líamos poemas em voz alta um para o outro. Guaita, que possuía uma saúde magnifica e não abusava dela, deixava-me somente tarde da noite, mas ao amanhecer ia contemplar a elevação das brumas sobre as colinas que rodeavam Nancy".
A poesia foi pois, a primeira manifestação literária de Stanislas de Guaita. Escreveu "Les Oiseaux de Passage" em 1881, com 20 anos de idade, "La Muse Noire" em 1883 e "Rosa Mystica" em 1885. Em 1882 desembarcou na capital, juntamente com seu inseparável companheiro Maurice Barrès. Nessa época já se havia iniciado nos estudos ocultistas e efetuado um bom relacionamento com os esoteristas parisienses. Barrès procurou logo o mundo das artes, enquanto Stanislas de Guaita fez apenas um pequeno giro de reconhecimento da cidade e se concentrou em seus livros. Guaita renunciou sem vacilar à poesia. Tinha encontrado em outra parte o seu caminho. O objetivo de seu deslocamento para Paris era a Faculdade de Direito. Procurava algo mais elevado, embora não tivesse ainda total certeza do que se tratava. Sua vocação foi decididamente encontrada através da leitura de livros de Eliphas Levi e da obra "O Vício Supremo", de Joséphin Péladan, pois encontrou no Sâr um mestre vivo. O primeiro contato entre ambos deu-se através de uma correspondência endereçada por Stanislas de Guaita a Joséphin Péladan em 1884, quando o remetente possuía 23 anos e Péladan 25. Esta carta foi o prenúncio de uma amizade que mesmo vindo a ser posteriormente abalada, perdurou praticamente até a morte de Stanislas de Guaita. Datada de 3 de novembro, nela Guaita expressava-se ele mesmo, a Péladan "por falta de amigos comuns", na esperança que o autor lhe esclarecesse alguns pontos que o intrigavam. Mais tarde, descobriria que Péladan era um assíduo leitor de Eliphas Levi, possuindo praticamente todas as suas obras. Stanislas de Guaita confessou que considerava a Cabala uma Ciência magnífica, possuidora de "dogmas grandiosos e mitos incomparáveis". Nessa época já assinava com um aleph, o que demonstra a linhagem cabalística do jovem ocultista.
Depois de ter conhecido Péladan, Guaita relacionou-se sucessivamente com Barlet, Papus e Julien Lejay. Já eram seus amigos o Abade Roca (Alta) e Saint-Yves d´Alveydre. Intensificou, a partir desse momento, suas pesquisas ocultistas e a busca de livros raros nos sebos das margens do rio Sena. Montou uma invejável biblioteca cabalística, cuidadosamente encadernada e catalogada.
Péladan tinha uma brilhante erudição, mas de pouca profundidade. Os dois ocultistas, em suas correspondências assinavam Mérodack, Péladan, e Nébo, Stanislas de Guaita.
Mérodack, nome caldaico que expressa os atributos de Júpiter; Nébo, igualmente de origem caldéia que se refere aos de Mercúrio.
Em sua obra "Os Filhos das Estrelas", Joséphin Péladan diria:
"Espírito de Mérodack! Ó Júpiter! Espírito de Força e de Misericórdia, Senhor mui generoso, magnânimo imperador de Deus, senhor do templo e do palácio, chefe dos magos e dos reis, astro do cetro e da mitra, fazê-nos render a todos a honra que nos foi dada."
"Espírito de Nébo! O! Mercúrio! Espírito de sutilidade e de magia, que ensina as partes, possuidor dos secretos, senhor dos talismãs, árbitro do destino, desenvolve em nós o espírito profético e sagrado; permite-nos descobrir o mistério celeste, astro de inteligência, de sucesso, de milagres."
Por sua vez, Stanislas de Guaita, demonstrando o respeito que possuía por Péladan, numa de suas cartas diria:
"Eu sei, eu sinto que vós sois uma Inteligência superior à minha... Vós sois um gênio de espontaneidade e de síntese; eu sou um talento de paciência e de análise... Em vossos contatos amistosos, vós tendes o verdadeiro tato: aquele da Inteligência do Coração."
Posteriormente, por ocasião do afastamento de seu amigo a quem chegou a chamar de "grande fanático", sua admiração por Péladan arrefeceria. Em verdade, os conhecimentos de Péladan fundamentavam-se naquilo que lhe ensinara seu irmão e mestre o Dr. Adrien Péladan que Guaita não chegou a conhecer, bem como, no companheirismo do sábio cabalista Albert Jounet, diretor da revista "A Estrela", poeta esotérico que escreveu "As Ísis Negras" e "O Livro do Juízo" e que também foi amigo de Guaita.
Escrevendo a Maurice Barrès, Stanislas de Guaita diria:
"Leia os livros de Eliphas Levi e você verá que não há nada mais belo do que a Cabala. E eu, que sou relativamente versado em Química, não me admiro ao ver até que ponto os alquimistas eram sábios verdadeiros; com certeza a pedra filosofal não é nenhum embuste. A ciência mais contemporânea e mais esclarecida tende a confirmar hoje as geniais hipóteses dos magos de 6 mil anos atrás."
Stanislas de Guaita sempre foi um reconciliador, e a impressão que se tem é de que ele sempre estava procurando formar um grupo de Homens de Desejo, em torno de si e talvez de Saint-Yves d´Alveydre. Isto poderá explicar sua paciência na busca da reconciliação de uns e outros possíveis candidatos ao adeptado.
Stanislas de Guaita encontrou em Papus e Barlet as duas colunas de seu edifício intelectual. O trio tinha em Eliphas Levi, Fabre d´Olivet, Khunrath, Martinez de Pasqually, Saint Martin e Jacob Boheme os guias invisíveis que iluminavam a senda por onde deveriam passar não somente esses homens de vontade, mas todo aquele rebanho por eles apascentado. Seguindo as pistas de Jacob Böehme, de Eckhartaussen, de Pico della Mirandola, de Marcelo Ficin e de Knorr de Rosenroth é que Guaita chegou a Saint Yves d´Alveydre.
Stanislas, Papus e Barlet, apoiavam-se nas obras dos mestres e na Cabala Judaica, fundamento da Alta Magia. "Agora que fiz a síntese absoluta de minhas idéias sobre Cabala", disse Guaita, "estou em condições de lhe dizer: meu caro amigo (Péladan), estou CERTO. Herméticamente falando, estou absolutamente certo de estar na tradição ortodoxa... estou convencido de que te falo com conhecimento de causa. Ah! se pudesse em algumas linhas comunicar-te a claridade que me inunda... Parece-me que a luz se faz em meu espírito, e que os Arcanos se esclarecem. "
Percebe-se, que assim como Papus, Guaita representava a Senda Ativa da Iniciação, aquela que conduz o Adepto a tomar "o céu por assalto". Por isso, quando o mestre Gérard Encause fundou em Lyon a Escola de Magnetismo, tendo Philippe Nizier como seu Diretor, nomeou como professores a Guaita, Sedir, Barlet, Péladan, Chamuel, Marc Haven, Maurice Barrès e a Victor Emile Michelet. A finalidade oculta dessa escola era a de recrutar membros para as Sociedades Iniciáticas dirigidas por Papus e Guaita. Nessa escola, ensinavam Hebraico, Cabala, Tarot, Astrologia, História Oculta, Magia e Medicina Oculta. Papus, numa de suas obras, falando de Guaita, afirma que ele, foi um sábio cabalista contemporâneo, demonstrando seu respeito pela figura de Stanislas.
Stanislas de Guaita passava cinco meses do ano no seu apartamento térreo da Avenida Trudaine, em Paris, na zona norte da cidade, onde recebia seus amigos ocultistas e onde mantinha uma segunda biblioteca. Seu salão, todo decorado de vermelho, obrigava a sérias meditações. As conversas com os amigos, assim como leituras cabalísticas, eram estimulantes para o espírito. Maurice Barrès, seu amigo de infância, dizia que ele era capaz de ficar semanas inteiras sem sair do apartamento. Muitas vezes cortava esse isolamento voluntário pela "caça" aos livros e raramente regressava sem trazer um exemplar raro. 
Os sete meses restantes do ano eram passados no campo, em seu castelo de Alteville, com sua mãe, certamente cuidando de sua produção material. No entanto, jamais se descuidava de seus estudos ocultos e procurava visitar os doentes nos vilarejos vizinhos, exercendo uma medicina caseira herdada de seu pai. Tinha um quarto da casa transformado "Laboratório Alquímico", para uma atividade que dizia exercer desde sua tenra juventude. Esse recinto era guardado, segundo acreditavam alguns criados e alguns amigos que freqüentavam sua intimidade, por um fantasma.
Tinha ele, nesse local, outra biblioteca e era, certamente, o local de reunião alternativo dos Rosa+Cruz, da qual foi o seu verdadeiro renovador. Seu Laboratório químico proporcionava a transformação dos elementos por inúmeras combinações; da mesma forma, ocorria em seu ser uma transformação espiritual, testemunhada por seus escritos e pelas conversas sempre estimulantes, que acalentavam os corações de todos os seus irmãos. Os trabalhos realizados em Alteville, com seus companheiros mais íntimos, efetuavam-se com muita harmonia, apesar da oposição de sua mãe, católica praticamente. Segundo contaria posteriormente seu secretário, Oswald Wirth, desde muito jovem têm-se notícia de que Stanislas de Guaita ousava escrever livros que pareciam heréticos à sua mãe viúva, embora ela não pudesse compreender que eram de um escritor esotérico e cristão. Ela não entendia a independência religiosa do filho e temia pela sua condenação eterna. "Confesso a divindade do Cristo-Espírito", escrevia-lhe o filho, "e professo o cristianismo universal ou catolicismo...(1890)... Creio em Deus e na Providência e não há um dia em que eu não eleve várias vezes minha alma em direção da Absoluta Bondade ou meu espírito em direção da Verdade Absoluta."
Esta incompreensão familiar, estendeu-se pela sua cidade natal, e o próprio clero e a igreja passaram a condenar seus escritos, sendo perseguido e banido da comunidade eclesiástica. Posteriormente, um padre seu amigo, conseguiu, após árdua luta, reconciliar Stanislas de Guaita com o poder monacal.
Apesar de ter nascido com imensa bagagem espiritual, jamais deixou de consultar a opinião dos antigos ocultistas, através de seus livros. Pois a verdade não se inventa: ela existe há séculos e cabe a nós encontrá-la na literatura, na Natureza e em nosso próprio interior. A opinião daqueles que dedicaram uma vida inteira à busca do conhecimento não pode ser negligenciada. Daí a grande importância das leituras. Guaita sabia disso e dialogava diariamente com Eliphas Levi, Fabre d´Olivet, Trithemo, Paracelso, Saint-Martin e com outros pais da espiritualidade ocidental, não apenas através de seus escritos, mas também através da Luz Astral.
O ambiente de sua biblioteca parecia exaltar os mais puros pensamentos e lá as pessoas esqueciam-se do tempo. Guaita lia raramente os jornais, mas concentravam-se nos seus grimórios, pantáculos e nos grandes clássicos do Ocultismo. Vivendo nessa atmosfera a maior parte do tempo, pairava acima das condições mundanas de sua época, podendo elevar os seus pensamentos às mais puras abstrações. Segundo Barlet: "ele via sábios pretenderem englobar no ciclo de suas descobertas todo o infinito do mundo, a ciência revoltar-se contra a fé, o espírito novo lançar-se contra a experiência dos séculos e o dogma do progresso material predominar sobre o da perfeição espiritual e moral".
Para Stanislas de Guaita, o importante era alcançar a beleza da alma, e para isso, em primeiro lugar era necessário vencer o orgulho. Era necessário transformar o instinto em sentimento e o sentimento em ideal. Era necessário renunciar aos prazeres sociais em seu aspecto coletivo, para que pudesse nascer a individualidade. "A sabedoria é o único egoísmo permitido, a glória é a única realidade aceitável quando ela é conquistada nas alturas" diria ele. "Não devemos deixar que a vida nos lastime, que entorpeça pelas circunstâncias exteriores o esforço de perfeição individual. O mago deve libertar-se do mundo, e não sofrer nele." - "Para ser mago, é necessário ser um gênio, um elo da corrente dos homens predestinados que transmitem, uns aos outros, de idade em idade, a chama da luz" diria Divoire, completando seus pensamentos.
Stanislas de Guaita, esse jovem ocultista, que possuía o mais vivo desejo de atingir o Nirvana, e que congregava uma plêiade de cabalistas do mais alto nível, a partir da última década do século XIX, como Papus, Barlet, Julien Lejay, Chaboseau, Polty, Marc Haven, Victor Emile Michelet, Sedir, Péladan, Oswald Wirth e outros, não deixou de fundar uma sociedade que congregasse os maiores talentos da época, vivificadores da Santa Cabala, e que ressuscitasse dos velhos santuários o simbolismo da Rosa+Cruz.
Seu conhecimento com Oswald Wirth teria ocorrido em 1887, a quem uma mulher doente à qual houvera magnetizado, lhe anunciara que recebia uma carta lacrada em vermelho e com armas da nobreza, endereçada por um homem jovem, de cabelos e pele clara e de olhos azuis, com idêntico interesse que o de Wirth. Efetivamente, essa carta foi escrita por Guaita na sexta-feira santa daquele ano, convidando Oswald Wirth para um almoço no dia seguinte, para travarem conhecimento pessoal.
Esse encontro entre os dois eminentes ocultistas, acabou produzindo, dois anos depois, em 1889, a união do simbolismo maçônico que Wirth estudara em 1884, com o significado interior do Tarô, professado por Guaita, na publicação das cartas desenhadas pelo primeiro, sob o título: "O Taro dos imaginários da Idade Média".
A Sociedade fundada por aqueles talentosos ocultistas da época, teria sido fundada e tornada pública pela necessidade de denunciar publicamente o abade Boullan, de cujos ensinamentos Guaita desconfiou, encarregando Wirth de investigar a verdadeira essência de sua doutrina.
Verificou-se que Boullan recorria à Missa Negra, a orgias sexuais entre os membros da seita e a outros fenômenos prejudiciais à saúde dos mais fracos. Concluiu-se que Boullan era discípulo de Eugêne Vintras, o feiticeiro desmascarado por Eliphas Levi, Vintras fundara a seita do Carmelo, cujas aberrações Guaita revelou no Templo de Satã, denunciando-as à opinião pública. Boullan foi condenado à retratação pública por um tribunal de Adeptos Rosa+Cruzes e, tendo-se agravado seu desequilíbrio psicológico, imaginou que Guaita teria sobre ele lançado algum enfeitiçamento. Guaita acabou sendo acusado de práticas mágicas contra Boullan por Jules Blois nos jornais "Le Figaro" e "Gil Blas". Esse caso explica os duelos de Jules Blois com Guaita e Papus, que felizmente não ocasionou nenhuma gravidade maior.
A Rosa+Cruz tinha na época como objetivo, além de recrutar intelectuais capazes de adaptar a tradição esotérica do século que estava entrando, explica-nos Stanislas de Guaita, combater a feitiçaria em todos os lugares onde ela pudesse ser praticada. "Nós os condenamos ao batismo da luz" enfatiza Guaita em O Templo de Satã. Ele procurava conhecer todas as artimanhas do maligno para combatê-lo com toda potência possível.
O acesso aos graus da Rosa+Cruz Cabalística era efetuado mediante exame, sendo que para o último grau era necessário a defesa de uma tese sobre um tema estabelecido pelo Supremo Conselho, o qual era formado por seis membros conhecidos e por seis ocultos. Os membros conhecidos eram Guaita, Papus, Barlet, Polti, Péladan e Agur.
François Charles Barlet, escrevia a respeito da obra de Guaita: "A harmonia dos contrários é a fórmula mais indicada para caracterizar a tua obra... Teu método é, ao mesmo tempo, analítico e intuitivo... Nem pontífice nem inovador: tu serás o fiel apóstolo das verdades que recebestes..."
Com a demissão de Péladan da Rosa+Cruz Cabalística, foi admitido o abade Roca, pseudônimo da Alfa. Ele, convocado pelo bispo de Perpignam a retratar-se de seu cristianismo esotérico não o fez, e assim, foi afastado do poder clerical, perdendo o seu título de canônico honorário.
Quando a Ordem adquiriu o número suficiente de membros, de acordo com a sua constituição, foi rigorosamente fechada. Ela dirigia outros grupos de iniciados de graus inferiores, propagando as doutrinas esotéricas no seio da coletividade, através de publicações das teses de doutoramento em Cabala.
Esse procedimento não só permitiu a formação de homens com bom conhecimento de Cabala, como propagou seus ensinamentos no meio ocultista. A Cabala propõe a síntese da doutrina dos magos, a Alta e Divina Magia herdada dos Caldeus através de Abraão, reformulada por Moisés e Esdras e divinizada pelo próprio Jesus Cristo. É a tradição primordial do Ocidente, que procura desenvolver a positividade do homem, tornando-o um ser de vontade.
Conforme André Billy, a Ordem Cabalística da Rosa+Cruz era administrada por um conselho supremo composto por três câmaras: Câmara de Direção (Baret e Papus), a Câmara de Justiça (Paul Adam, Julien Lejay e Alta), e a Câmara de Administração (Wirth e Chaboseau). As três reunidas compunham o Supremo Conselho e todas elas eram submetidas à direção do Grão Mestre, Stanislas de Guaita.
A respeito da apologia do Misticismo feita por Oswald Wirth, respondeu-lhe Guaita: "...Quando esses Iniciados - considerando-se quase como egrégoras, pastores de almas errantes, Sacerdotes e Franco-Juizes -, quando esses Iniciados chegam a praticar, passando pela terra, algum bem a seus semelhantes, isto é, a seus irmãos menores, acreditai, eles nada mais têm a desejar e possuem em verdade a paz profunda do Rosa+Cruz!".
Dentre os membros do Supremo Conselho, havia um que não aceitava a liderança de outra pessoa que não fosse ele próprio: Joséphin Péladan. Não admitia tornar-se discípulo tendo sido o primeiro mestre de Stanislas de Guaita. Além disso, suas concepções impregnadas de catolicismo romano exagerado, conflitavam com a opinião independente dos demais Rosa+Cruz. Suas concepções acerca de Jesus, Maria e de outros personagens do cristianismo não se diferenciavam das opiniões de um padre católico.
Dizia-lhe Stanislas de Guaita: "...Deus irá te conceder uma ou várias entrevistas, para que possas ver a Luz integral do Cristianismo esotérico, e isto sem renegar uma sílaba de teu credo, sem eliminar uma das arestas do Dogma Eterno. Pois estás destinado para o futuro; o céu assim o deseja... Sou, pois, Sacerdote do Oculto, como foram em todas as épocas todos os Adeptos do 3º grau e tenho todos os poderes para exercer o culto in secretis, magicamente e não sacerdotalmente".
"Seria capaz de sacrificar-me por tudo aquilo que creio verdadeiro, belo e justo" diria Guaita em outra ocasião.
Péladan não entendia o significado profundo e oculto dessas palavras e não admitia que seu ex-discípulo lhe falasse por parábolas, e assim, passou a editar bulas e excomunhões em nome da Rosa+Cruz. Advertido pelo Grão-Mestre, criou sua própria sociedade, a Ordem Rosa+Cruz Católica do Templo do Graal, separando-se do Grupo em 1890. Guaita, Jacques Papus e Charles Barlet declararam Joséphin Péladan cismático e apóstata denunciando seus atos e sua ordem ao tribunal da opinião pública.
Essa separação foi, sem dúvida nenhuma, muito desencantadora para Guaita. Viu todos os esforços, no sentido de encaminhar Péladan na Senda, caírem por terra. Entre 1882 e 1891 Guaita procuraria acalentar o espírito do amigo e fortificar a sua fé, ausente em seu íntimo.
Stanislas de Guaita buscara sempre ser um mediador e um médico de almas. Numa correspondência a Péladan, diria: "Para curar uma alma, um Dirigente prudente usará alternativamente o Rigor e a Misericórdia. Assim um bom médico poderá curar um corpo sofrido, pelos Semelhantes ou pelos Contrários... Eu reconheço que a homeopatia é a medicina esotérica; é o magnetismo curativo quem sintetiza o emprego do medicamento."
Acreditava ele que para penetrar a Sabedoria Divina existente além da ciência humana, são necessários o Amor e a Fé. Dizia que "A inteligência voluntária é, entre nós, o princípio ativo; mas a fé é passional e passiva. A Grande Obra é o casamento do ativo e do passivo; é como dizia Basile Valentin, o Fixo do Volátil e o Volátil do Fixo."
A falta de fé está intimamente associada à ausência de tolerância, que é, em última análise, um desamor em relação a todos os nossos semelhantes.
Guaita nunca deixou de prestar suas homenagens aos Mestres que lhe precederam. Dizia ele: "Tenho uma infinidade de livros de todos os séculos e li com atenção na Biblioteca Nacional quase todos os mestres; inclino-me diante de Eliphas Levi como diante do Mestre dos Mestres (como Arnaud de Vila Nova chamou a Geber). Ninguém, que eu saiba, penetrou tão profundamente no problema, e ninguém construiu uma síntese tão esplêndida, tão imensa e tão inabalável."
Em 1886, Stanislas escreveu a Péladan dizendo-lhe que estava preparando para os próximos anos a publicação de uma obra que deveria denominar "Os Três Mundos", com uma introdução longa, destinada a familiarizar o espírito do leitor com as matérias esotéricas de maior profundidade discutidas nos tomos seguintes. Essa introdução foi publicada inicialmente na Revista Contemporânea, dando origem ao seu primeiro livro: "No Umbral do Mistério".
Já nessa época, Stanislas de Guaita prenunciava sua passagem para o Oriente Eterno, e em algumas de suas cartas, sua caligrafia demonstrava os sofrimentos corporais de que era vítima, chegando a tornar-se ilegível pela dor que o atormentava.
"Preparai-vos - disse ela a Péladan convidando-o para com ele encontrar-se em Paris - eu estarei aqui por pouco tempo e tenho sede de vossa companhia". - "Eu vos escrevo no leito, sofrendo, como podeis ver por minha escrita. - "Procuro diminuir minha Morfina, mas isto me é muito difícil".
Nunca entretanto, deixou de ocupar-se do ocultismo, escrevendo continuamente sobre os temas que se tornaram o seu Verdadeiro Ideal.
Dizia ele que a chave de tudo está na Luz Astral. Nesse sentido concebeu a sua obra baseado nas lâminas do Tarô, procurando desvendar o tríplice significado de Nahash, a alma astral do mundo. "Dominar a Luz Astral em si e na Natureza é ter descoberto e formulado o incomunicável Grande Arcano. É a matéria-prima que solve e coagula para a realização da Grande Obra. A Fé, a Ciência e a Vontade, são instrumentos de emancipação do Verbo Humano e de sua reintegração no Verbo Divino, promovendo o casamento místico do homem com a Divindade."
Seus ensaios de Ciências Malditas, deveriam compreender, cinco volumes a saber:
1º Volume - "No Umbral do Mistério" - introdução geral. 2º Volume - "O Templo de Satã". 3º Volume - "A Chave da Magia Negra". 4º Volume - "O Problema do Mal". 5º Volume - "Conclusão, a Apoteose".
No Umbral do Mistério foi publicado em 1886, em formato pequeno sem os apêndices. Para o meio ocultista da época foi uma revelação. Todos os Homens de Desejo encontraram a luz que buscavam na chama viva que era Stanislas de Guaita. Ele foi o primeiro a surpreender-se com o inusitado sucesso de seu livro. Em 1890 foi publicada uma segunda edição, três vezes maior, contendo dois pantáculos de Henry Khunrath. Em setembro de 1894 houve uma terceira edição, na qual, utilizando o prólogo, Stanislas de Guaita fala do sentido verdadeiro da Alta Magia como síntese geral, duplamente fundamentada na observação positiva e na indução por analogia.
Guaita confessava-se discípulo fervoroso de Eliphas Levi e de Fabre d´Olivet e não pensava ser mais do que um simples discípulo. Não esperava nenhum apostolado, mas sua primeira obra ocultista, revelou-se por inspiração divina e pelo ardor de seus leitores.
Aceitou com naturalidade, aos vinte e cinco anos, a missão que se descortinou para ele, preparando-se ainda com mais afinco para o fiel cumprimento do alto dever que contraiu com o próprio Reparador. Dedicou toda a sua vida a procurar a verdade e a transmitir as teorias ocultistas dentro de um estilo claro, que logo se tornou clássico. Numa época em que todos se ocupavam em alimentar as paixões da alma e os instintos do corpo , obteve grande reputação em razão de seu trabalho desinteressado, que não tinha outro objetivo a não ser conduzir, elevar e iluminar a alma humana.
Raphael Germinal, em seu livro, "O Destino Religioso da Humanidade", diz que: "O nome de Jesus simboliza então, admiravelmente, a queda da divindade no espaço e no tempo, pelos ciclos geradores da Senda Universal. "Guaita, escreveu: "O número da queda, é também o número da vontade, e a vontade é o instrumento da reintegração."
"O Templo de Satã", foi publicado em 1891, abordando as sete primeiras lâminas do Tarô, focalizando a história física do ocultismo inferior e os procedimentos da baixa magia. Ele é o primeiro volume da "Serpente da Gênese".
Para esclarecer o sentido figurado, Guaita elaborou a "Chave da Magia Negra". Nahash, a luz astral, agente tanto de obras boas como más. Seu domínio fornece a chave da Magia Negra, permitindo analisar as causas e os efeitos dos ritos e dos fenômenos descritos em O Templo de Satã. A Chave da Magia Negra foi editada em 1897, ano da morte de Guaita, e O Problema do Mal não chegou a ser concluído, sendo completados, os poucos capítulos que o autor chegou a redigir, por Oswald Wirth e por Marius Lepage. Muitos anos depois, em 1949, Lepage fazia notar que Stanislas tinha 35 anos quando começou a escrever O Problema do Mal, e que Oswald Wirth se aproximava dos sessenta quando retomou o livro inacabado. Nesse intervalo, muita água correra sob a ponte do esoterismo. De qualquer forma, Wirth procurou seguir de perto as indicações das lâminas do Tarô. Ele que amara a Guaita como a um irmão, continuava sentindo a sua presença quase tangível. Legou a Lepage o manuscrito por ele concluído do Problema do Mal, com a missão de que Lepage o terminasse em forma definitiva. Lepage por modéstia, concluiu que: "Quanto mais eu estudava as folhas que me haviam sido passadas, mais eu compreendia que era a obra de uma única alma em dois corpos. "Wirth e Lepage deram conclusão a essa obra póstuma de Stanislas de Guaita, seguindo à risca os ensinamentos do mestre. O livro possui aproximadamente 100 páginas escritas ou ditadas por Guaita, 10 ou 12 completadas por Wirth e mais ou menos 60 por conclusões e comentários de Lepage (conf. A. Billy).
Se Guaita tivesse tido tempo para concluir esse livro, provavelmente a evolução de seu pensamento nos teria presenteado escritos da mais alta profundidade, em razão do amadurecimento de suas doutrinas. Com "O Problema do Mal", os leitores encontrariam as chaves que conduzem à Iluminação Divina, se a Providência não tivesse arrancado o autor do convívio de seus iniciados. Os amigos de Guaita pensavam, em 1897, que a Providência Divina não aprovara a conclusão da obra, repleta de revelações que deveriam permanecer ocultas e restritas a um pequeno número de Homens de Desejo. De qualquer forma, essa sua obra somente foi publicada 50 anos após a sua morte.
Por volta de 1888 Papus reanimara a Ordem Martinista e Stanislas de Guaita chegou a presidir uma cerimônia de Iniciação. Essa Ordem tomou grande vigor a partir de 1887 devido à multiplicação dos iniciados livres e pela constituição do Supremo Conselho da Ordem em Paris. A Ordem Martinista conservara intactas as constituições das altas fraternidades iniciáticas que precederam à revolução maçônica de 1773. A Ordem Martinista era essencialmente espiritualista e combatia com todas as suas forças o ateísmo e o materialismo. Outorgava ao simbolismo, o grande papel que lhe estava reservado em qualquer iniciação séria. Nunca se ocupava de política nem de questões de cultos religiosos. Permitia estudar e não abandonava a mais absoluta das tolerâncias. Lá não adentrava aquele que queria, mas aquele que tendo reunido méritos para tal, para isto era convidado. O iniciador não podia ser conhecido a não ser por duas pessoas: aquela que havia sido iniciada, e o iniciador do próprio iniciador. Estabelecia-se assim uma corrente de silêncio iniciático.
Numa recepção Martinista presidia por Stanislas de Guaita, estas foram as suas palavras: "Aqui não tratamos de impor convicções dogmáticas. Que tu acredites ser materialista ou idealista, que professes o budismo ou o cristianismo, que te proclames livre pensador ou que somente aceites o cepticismo absoluto, pouco nos importa realmente. Nós não contradizemos teu coração incomodando o teu espírito com problemas que não deves resolver a não ser frente à tua própria consciência e no solene silêncio de tuas paixões aplacadas... Dá ao amor dos homens, teus irmãos, a denominação que quiseres: Amor, Solidariedade, Altruísmo, Fraternidade ou Caridade... As palavras não são nada... Mas, sejas quem fores, não te esqueças jamais que, em todas as religiões realmente verdadeiras e profundas, isto é, fundamentadas no esoterismo, colocar tudo isto em prática, através do sentimento, é o primeiro ensinamento, capital, essencial... Nenhum dogma religioso ou filosófico pode ser imposto à tua fé. Quanto às doutrinas, cujos princípios essenciais resumidos para ti, pedimos tão somente que as medites como melhor te parecer e sem idéias preconcebidas... Abrimos para ti os selos do livro, agora deves primeiro conhecer a letra e, posteriormente penetrar no Espírito dos mistérios que este livro encerra..."
Afastado da Ordem da Rosa+Cruz, Stanislas de Guaita, prenunciando a sua passagem para o Oriente Eterno, viveu cada vez mais solitário e longe da turbulência mundana. Charles Barlet, que o visitara em 1896, pedindo-lhe colaboração para uma pequena revista, assim descreve parte de sua visita: "Seus olhos azuis... de uma calma impressionante... seus traços imóveis, enquadrados pela barba e pelos cabelos loiros, davam à sua fisionomia algo do aspecto hierático que se imagina nos sábios da Grécia e nos Profetas da Bíblia."
Encerrando em seu castelo com livros de esoterismo reunidos durante toda a sua vida, Stanislas de Guaita desinteressara-se pelas lutas políticas e sociais que, nessa época, opunham franceses contra franceses. Ao contrário de Barrés e Péladan, ignorava as coisas temporais, não tendo pensamentos a não ser para o invisível. Realizou a solidão temporal da Lâmina IX.
Ele que combatera o mal, chegara a uma conclusão definitiva sobre sua existência no mundo da forma, em oposição ao bem: "Sem dúvida, pode-se dizer que Deus não criou o Mal, mas admitiu-o como possibilidade para o caso de que, livremente, o homem quisesse cometê-lo."
A esse respeito, dissera ainda: "Eis aqui a árvore da ciência do Bem e do Mal; seu tronco bifurcado eleva-se sobre uma única raiz. Eis aqui a virgem simbólica que Apolônio encontrou às margens da Hiphasis e cujo corpo está dividido numa metade branca e numa metade negra. Eis aqui o misterioso cristal do pantáculo de Tritheme; no triângulo superior, brilha o esquema Divino, o Tetragrama incomunicável a imagem de Satã ri nas trevas do triângulo inferior."
Para Guaita, o ocultismo comporta um tríplice objeto de estudos: Deus, o Homem e o Universo. As duas colunas do templo são Jakin e Boaz e os métodos complementares para aquisição do conhecimento são a experiência e a tradição. As duas são necessárias, pois que uma única, somente forma iniciados incompletos. A analogia é o método duplo, ao mesmo tempo indutivo e dedutivo, de grande valor para os iniciados que caminham na senda do ocultismo.
"Existem quatro diferentes caminhos para o homem, - diz Stanislas de Guaita, - em primeiro lugar a vida universal, à qual se vincula pela vida de sua espécie. Depois, a sua própria vida, que é inerente a seu ser individual. Depois, a vida refletida, a vida particular de cada uma das células cujo agrupamento orgânico constitui seu próprio corpo. E, finalmente, num grau inferior, a vida química dos átomos da matéria que se agrupam eles mesmos para formar a célula."
A cada ser humano é dado viver com maior ou menor intensidade aquela dessas vidas que mais atrai a sua própria alma. Uns fundamentam-se na ciência humana, outros na Ciência Divina. Os Iniciados, em ambas, para realizarem o equilíbrio universal.
Stanislas de Guaita foi assim, um Cabalista e um Alquimista, embora nunca tenha admitido pessoalmente essa condição. Para ele, entre outros, Guilhaume Postel, Reutchlin, Khunrath, Nicolas Flamel, Saint Martin e Fabre d´Olivet eram Mestres da Cabala, e ele seguia-lhes os passos juntamente com Victor Emile Michelet desde os 20 anos de idade, quando foram apresentados por Barrès, um ao outro. Michelet foi o último sobrevivente do grupo de Guaita, passando para o Oriente Eterno em 13 de janeiro de 1938.
O Destino não permitiu que Stanislas de Guaita concluísse seu terceiro setenário, ocasionando sua morte através do mesmo mal que atacou seu pai em 1880: a uremia. Já antes de 1886, Guaita queixava-se desse mal, cujo reflexo é uma dor de cabeça terrível. Mas o mal foi-se acentuando, e em 1897 Guaita chamou em Alteville seu mais fiel companheiro, Papus, para transmitir-lhe a sucessão na Ordem Cabalística da Rosa+Cruz, dizendo-lhe que estava tudo acabado e que o Destino não lhe permitiria dizer mais nada. "Talvez eu assista ao nascimento de meu livro ("A Chave da Magia Negra"), mas creio que não poderei ir mais longe". Alguns dias mais tarde, Papus sentiu que um nascimento estava prestes a ocorrer no Invisível: viu inúmeros sinais misteriosos, enchendo seu coração de tristeza, e isso significava a morte do companheiro que tanto estimava. Três dias depois Stanislas de Guaita estava morto, vítima de uremia. Seu espírito galgando as alturas das regiões celestes, foi atuar no mundo das almas glorificadas, na Comunhão dos Iniciados.
Não deixou testamento literário ou filosófico, na opinião de seus biógrafos e amigos. Muitos acreditam que seus últimos desejos não foram transmitidos aos amigos de Paris. A biblioteca que valia no mínimo, 38 mil francos, foi vendida por apenas 15 mil à livraria Dorbon. Os livros raros, com notas do punho do Adepto, foram dispersados. A família recusou todo tipo de oferta dos amigos pela biblioteca Parisiense. Muitos manuscritos seus foram queimados, assim como diversos documentos. Sua família via na atividade iniciática do Mestre a causa de sua morte, esquecendo-se de que o pai fora atingido pelo mesmo mal em 1880.
O mal que ele tanto procurou combater, reside na imaginação corrompida das pessoas, nos corações endurecidos pelo orgulho e pelo ódio. Reside no egoísmo e nos falsos valores da humanidade. A morte física é o sofrimento da saudade para os encarnados, mas também é a desvinculação das necessidades físicas. E ele poderá viver na Luz e pela Luz, contribuindo para a emancipação de seus semelhantes que ainda permaneceram para trás na escala evolutiva.
Um novo século se aproxima e novos iniciados realizarão igualmente a sua obra. Eles encontrarão o caminho um pouco mais facilitado pelo trabalho de seus antepassados, Filhos da Luz, como foi Stanislas de Guaita.
Dois anos após a morte de Stanislas de Guaita, Péladan, que não lhe guardara nenhum rancor pelas admoestações recebidas, dedicou-lhe sua obra "L´Occulte Catholique" (1899), endereçando-lhe palavras que todos os iniciados, no momento em que se reverencia sua memória, igualmente fazem suas:
"...Tua morte prematura assegurou toda a purificação de teu destino, e tu és agora um Eleito. Eu me recomendo à tua amizade, celestialmente destinada, em testemunho daquela que nos uniu por muito tempo e que nos reunirá, eu o espero, na própria eternidade. Assim seja."
O Mestre Stanislas de Guaita, faleceu em 19 de Dezembro de 1897, quando contava com 36 anos de idade.