Mostrando postagens com marcador magia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador magia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 8 de março de 2011

Visão de dentro...

Envio parte de meu Trabalho de Conclusão de Curso - TCC, para conhecimento dos amigos que me acompanham...
 Umbanda é conhecida por ser uma religião genuinamente brasileira. Congraçamento das três raças matrizes deste povo, sua origem ainda é controversa e sujeita a muitas discussões. O fato é que a riqueza da diversidade de escolas e, portanto, do entendimento do Sagrado, desperta a curiosidade de estudiosos e acadêmicos. Mas, de onde surgiu esse nome?
        Umbanda foi um termo encontrado apenas a partir de 1936, através da obra O Negro Brasileiro, do professor Artur Ramos (1934). Para Artur Ramos este termo teria significado feiticeiro ou sacerdote. Nenhum autor da época, entre eles Nina Rodrigues, João do Rio, Manoel Quirino, Roger Bastide, Donald Pierson, Gonçalves Fernandes, citam este termo. Nem mesmo Gilberto Freire cita Umbanda em 1934, no Primeiro Congresso Afro-Brasileiro. Certamente pelo fato de todos terem escrito sobre a cultura Afro-Brasileira, avaliando apenas os Cultos de Nação.
            Padre Manuel da Nóbrega (1549), um dos renomados nomes da Companhia de Jesus, relatou a manifestação de um pajé, que na ocasião apresentava a voz de criança, e induzia o transe nos nativos (PRIORI, 2004, p. 52). Pela descrição, podemos suspeitar que esta seja a primeira documentação escrita de uma entidade que, posteriormente, seria conhecida como a Criança da Umbanda. Então, a partir de 1860, manifestações de entidades como Caboclos, Pretos Velhos e Crianças, através de Juca Rosa (SAMPAIO, 2000), negro carioca alforriado, e de João de Camargo (RIVAS, M. E., 2008), negro paulista, começaram a ser relatados oficialmente.
Portanto, se as entidades umbandistas já se mostravam desde 1549, por que somente a partir de Zélio Fernandino de Moraes em 1908, considerou-se o surgimento da Umbanda? O fato de ser branco e kardecista teria alguma relevância? Na visão eurocêntrica, etnocêntrica, xenófoba da sociedade da época, somente a raça branca seria apta a confirmar uma fé (Mito de fundação).
            Fundada ou não em 1908, a Umbanda é o resultado do congraçamento das três matrizes formadoras deste país, o branco europeu, o negro africano e o indígena.
            Xambá, Toré, Babassuê, Terecô, Candomblé de Caboclo, Jurema e, enfim, Umbanda.
            Exatamente pelo fato de estarem contidas em sua raiz as três matrizes brasileiras, a Umbanda mostra uma riqueza incalculável de conceitos religiosos, ritualísticos, cerimoniais e lingüísticos. Essa mistura de conceitos Brahmânicos, Védicos, Judaico-Cristãos, Católicos, ameríndios e africanos é de extrema beleza e harmonia. A Umbanda é o recipiente onde convivem e se complementam os conceitos como reencarnação, chackras, Cabala Cristianismo, ervas, fumo, Orixás, guias, caboclos, crianças e pretos-velhos.
Somente em um país tão peculiar como o Brasil, onde raças e culturas tão diversas habitam e se misturam, poderia haver a formação de uma religião assim, adequada à diversidade do solo onde nasceu.
O denominador comum entre estas culturas era a tradição oral. Joseph Ki-Zerbo fala dos conflitos entre os historiadores, e de toda a polêmica acerca da autenticidade e da fidelidade da tradição oral. Afirma, porém, que a “maioria dos historiadores da África admite a validade da tradição. Mas, muitos ainda a consideram uma fonte menos consistente que a escrita.” E ainda cita inúmeros autores, entre eles H. Deschamps, J. Vansina, D.F. McCall e Person que consideram a tradição oral uma fonte tão respeitável como a Escrita, embora em geral, menos precisa (KI-ZERBO, 1972, p. 19-20).
Formação do Povo Brasileiro
O povo brasileiro formou-se da miscigenação de três povos, o vermelho, o branco e o negro.
Raiz Ameríndia
            O Planalto Central tem sido apontado como a região mais antiga do globo terrestre, segundo Lund, Hartt, Ameghino, Hardick, entre outros. Estes pesquisadores desafiaram com suas conclusões a hipótese européia vigente de que o continente africano seria a origem da vida humana na Terra (ITAOMAN, 1990, pág. 24). Como admitir que esteja errada? Como admitir que índios seriam os ancestrais da Humanidade se até bem pouco tempo eram considerados seres sem alma, selvagens e imorais?
             Pior ainda é recorrer ao Popol Vuh, quando ele diz: “de barro fizeram a carne dos Homens” (GORDON, B; MEDEIROS, S, 1997, pág. 58). Como admitir que a primeira raça fosse vermelha e não negra? Se já era humilhante admitir que não fosse branca a primeira raça, imagine admitir a indígena.
            Exemplos de respeito à Natureza, foram dizimados por uma Civilização dita culta, mas que se caracterizou como parasita e decadente, que espalhou terror e morte nas linhas da história deste continente. Predadores destruíram e dilapidaram os tesouros naturais de seu continente, e quando tudo já parecia pequeno demais para a ambição desmedida, resolveram invadir o que lhes parecia de direito.
              A equipe da Profª Maria Beltrão (Unicamp) registrou inúmeras grutas em uma região denominada Tocas, em Xique-Xique/Ba. Nelas, instrumentos neolíticos comprovaram a datação do homem ameríndio. Os indícios da raça ameríndia datam em aproximadamente 300.000 anos. Desenhos rupestres associam o Homem a animais pré-históricos como o Toxodonte (Toxodon platensis) que viveu do plioceno ao plistoceno. Mas, impressionante é a toca do Cosmos, onde o teto mostra pinturas com desenhos que sugerem o céu e, principalmente, um cometa. Todos estes desenhos geométricos sugerem conhecimentos astronômicos. E devido à característica desta gruta, é possível que tenha sido utilizada como um observatório astronômico. (ITAOMAN, 1990, pág. 25)
            No Brasil, existem hoje diversos troncos indígenas e cada tronco, com suas ramificações e inúmeras línguas, dialetos próprios. O tronco Tupi é o mais conhecido e maior de todos. Dele surgiram as famílias: Guarani, Arikém, Aweti, Juruna, Mawé, Mondé, Purobora, Munduruku, Ramarama, Tupari. O Tronco Macro-Jê originou: Jê, Bororó, Gnató, Karayó, Krenak, Maxakali, Ofayé, Rikbakbá, Yatê. Outras famílias importantes também se destacaram pela riqueza de seus dialetos: Tukanos, Pano, Karib, Mura, Katukira, Yanomami, Maku, Gwaikuru, Nambikwara, Txapakura, Aruak, Arawá. (PINTO, 2000)
            Quantas tribos teriam sido encontradas quando os portugueses aqui chegaram? Quais as características desses povos que eram os verdadeiros americanos?
            O conflito básico entre os europeus e os ameríndios ocorreu devido ao fato de não possuírem Lei, Rei e Fé (MAGALHÃES, 2004, pág. 133-34). As diferenças entre as culturas foram de tal modo insuportáveis que uma subjugou a outra, chegando quase ao total extermínio dos ameríndios. A pólvora, as doenças, a desmoralização ética e religiosa, foram armas eficazes e letais para um povo não acostumado aos ardis da civilização européia. De donos da terra, conceito que eles também não conheciam, pois a terra era de todos, transformaram-se em poucos anos em escravos, caracterizados como selvagens, brutais, imorais, ignorantes e até antropófagos. (RIVAS, M. E., 2008)
            Os ameríndios não tinham um Estado constituído. Tinham como primazia o respeito e igualdade de Direitos e Deveres. Desprezavam a moeda e não faziam comércio. Não reconheciam a autoridade centralizada em um indivíduo, pois viviam em regime de seres comuns e livres. Cada um era responsável por suas atitudes diante da comunidade. Eram também detentores de uma Teogonia e Cosmogonia ímpares, onde o sagrado era a natureza, sem necessidade de Templos fixos, ou ídolos. Não admitiam dogmas e moralismos (RIVAS, 2008). Pesquisadores como De Bry, Hans Staden e Pe. Simão relataram a profunda espiritualidade dos Tupis (RIVAS, M. Elise, 2008, pág. 26).
            Os pajés referiam-se a uma língua sagrada, o Abanheengá, como língua matriz de todas as outras línguas. E outra língua sagrada, mais jovem, a Nheengatú.
            Os Tupi-Guaranis tinham Tupã como Ser Supremo, mas tinham em sua teogonia a Trindade Manifestadora do Poder Divino, Guaracy, Yacy e Rudá, e um messias Yurupari e sua mãe virgem Chiucy (ITAOMAN, 1990, pág. 31).  Esta semelhança com o Cristianismo foi fatal para os Tupi-Guaranis. Ardilmente, os Jesuítas pouco a pouco foram introduzindo conceitos Cristãos, modificando nomes, alterando histórias e distorcendo a teogonia tupi, minando as tradições e disseminando a necessidade de conversão para receber a salvação (RIVAS, M. Elise, 2008).
            Os jesuítas foram fundamentais para a miscigenação do povo indígena. Facilitando a aceitação do elemento branco, os colonos passaram a gostar do tabaco, das frutas, das nativas. Os filhos gerados mestiços eram preciosos, pois eram os elos das alianças que buscavam fazer com as tribos inimigas. (RIVAS, M. Elise, 2008)
            A interação entre o Catolicismo e a cultura ameríndia foi responsável, pela origem da Pajelança (PA, AM), pelo Encantamento (Piauí) e pelo Caatimbó (demais regiões). (BASTIDE, 1960; ITAOMAN, 1990, pág. 27-31)
            Padre Manuel da Nóbrega (1549), um dos renomados nomes da Companhia de Jesus, foi o primeiro a relatar a riqueza da religiosidade indígena e, principalmente, de seus pajés. E citava detalhadamente uma cerimônia onde os feiticeiros traziam a Santidade. Na ocasião:
... ele escolhia uma maloca, pegava um maracá, e falando em voz de menino, começava a pregar. Para adquirir o espírito da santidade, todos deveriam se deixar defumar e assoprar. O pajé, bebia, fumava tabaco, baforava os aspirantes, e estes começavam a tremer e transpirar, as mulheres rolavam por terra em convulsões.( PRIORE, 2004, pág. 52)
Como fruto do sincretismo religioso, desenvolveu-se o culto indígena dos Caboclos Encantados. Ambos usavam tabaco e Jurema (bebida feita de ervas, usada em rituais religiosos, com o intuito de induzir o transe mediúnico).  A mistura destes dois cultos deu origem ao Caatimbó. (ITAOMAN, 1990, pág. 27-31)
            Roger Bastide cita que os altares do Caatimbó representavam a perda de valores iniciáticos dos índios, substituídos pela miscigenação religiosa e apresentam, estampas, santos católicos, charutos, aguardente, pequenos arcos e flechas, flautas, maracás, ervas, animais secos e outros objetos portadores do “Maná” indígena. A Princesa é um tacho que repousa sobre um rolo de fumo, cercado por um pano que nunca foi usado. Ela seria o elo com o passado indígena, pois é nela que é moída e misturada a raiz da “Jurema”, que induz agora a descida dos espíritos, para provocar o estado de Santidade. (BASTIDE, 1960)
É o Caatimbó que pela primeira vez fala de 7 Reinos: Vajucá, Tigre, Canindé, Urubá, Juremal, Josafá e Fundo do Mar.  E é nesta vertente que o negro africano dará entrada no sincretismo religioso, principalmente os de origem Bantu, pois a Pajelança e o Catimbó se assemelhavam muito com cerimônias de sua tradição. (RIVAS, M. E., 2008)
A partir do século XVIII, os cultos Yorubas ou Nagôs foram se sincretizando com os cultos indígenas e os das nações Bantu, Congo e Angola, surgindo então o Candomblé de Caboclo. Mantiveram-se ainda algumas formas antigas. Oxalá como Tupã, Yemanjá como Janaína, Ogun como Cariri, Oxosse como Sultão das Matas, Exu como Caipora, os Babás e Eguns como Caboclos Tupinambá, Tupiara, Jaú, Irerê, Pedra Negra, entre outros. (ITAOMAN, 1990, pág 30)
Então, mantiveram-se preservados os conceitos de Tupã (Deus Único), Messias (Yurupari), Culto da Cruz Sagrada (Curuçá), Trindade Manifestada (Guaracy, Yacy e Rudá), culto aos antepassados (Ráangá), e rito da Mediunidade (Guayú), uso da linguagem sagrada (Nheengatú), a Sabedoria dos Velhos Pajés (Tuyabaé-Cuaá). (ITAOMAN, 1990, pág. 30-1)

Raiz Africana
            Infelizmente, o Brasil conheceu esta portentosa raça através da Escravidão. Esta mácula ainda envergonha nosso povo e manterá acesa a chama de uma eterna dívida com esta fabulosa civilização.
            A escravidão já era um processo antigo e bem conhecido em diversos povos e civilizações, datando de pelo menos 10.000 anos o relato mais antigo (PRIORE, 2004, pág. 36-40).  A história nos remete à construção das Pirâmides do Egito, feita por escravos; À Grécia, onde a Democracia tinha o regime de escravidão.
E por quais motivos escravizavam? Nas diversas culturas, era comum vender seus parentes ou a si mesmo para saudar dívidas, fugir da fome ou aprender algum ofício, ou até mesmo servir alguma raça específica. Era comum escravizar mulheres e crianças para aumentar o número de seus servos, procriação e aumento de renda familiar, por disputa de poder ou por questões religiosas. Mas os motivos mais comuns eram de fato as guerras entre povos e tribos.
Seja entre os povos brancos ou entre os povos negros, a escravidão era um processo comum e até bem aceito.  Joseph Ki-Zerbo fala que a escravidão na África era bem tolerada:
 ... O escravo tinha direitos cívicos, e mais ainda, direitos de propriedade, e até mesmo seus próprios escravos. O pai chama o escravo pelo vocábulo nvana (filho), e a ambigüidade é tal que para designar com precisão um verdadeiro filho se emprega a expressão filho do ventre e pega nas partes genitais dele para confirmar.” Mais adiante ele cita que “o estádio patriarcal e comunitário impedia que o escravo negro fosse um bem no sentido romano e catoniano do termo. (KI-ZERBO, 1971, p. 265-66).
Portanto, mesmo sendo tão antigo o regime escravocrata, jamais atingiu o sentido mercantilista da época em que o Brasil foi colonizado. E foi isso que tornou a escravidão hedionda.
A Teóloga Maria Elise Rivas (RIVAS, M. E., 2008) cita que os europeus se interessaram pelo tráfico negreiro quando perceberam o mercado lucrativo que tinham em sua frente com a descoberta do mundo novo. Terras imensas, produtivas, sedentas de mão de obra barata, já que os indígenas estavam sendo mortos e os que resistiam não prestavam para o trabalho nas lavouras. 
Interesses africanos (guerras tribais e a islamização, que culminava com a venda dos infiéis), associados aos interesses europeus mercantilistas e ao silêncio da Igreja, foram os precursores e os estimuladores deste vil mercado.
Como um povo pode ser comercializado como animais, humilhado, agredido e submetido às mais violentas privações e maus tratos por tanto tempo sem despertar indignação e revolta nos demais povos? Será que todos lucraram com isso? Claro que não. Então, quais motivos justificariam este absurdo, que repercute na história mundial até hoje?
Segundo Rivas (2008):
 ... o negro, que entrou no Brasil, já habitava e muito o imaginário europeu, como um ser inferior, demoníaco, infernal, herege e sem alma. O fato de ser considerado como um ser sem alma impossibilitava a sua salvação. Assim, não era necessário justificar sua escravidão, tornando-se um bem para a humanidade, que estava sendo expurgada de um elemento “infecto” e “animalizado”, que poderia contaminar os homens com sua cultura satânica.  ...a discriminação iniciada na geografia (África) estendeu-se para a cor e mais tarde para a cultura. A culminância entre cor, cultura e expatriados fez do negro no Brasil, não um ser invisível como o índio, mas sim, um ser indesejado socialmente.
Tivemos na cultura grega, base do ocidente, desde Aristóteles em sua Política, a sustentação de que os negros só poderiam ser úteis por meio da eterna escravidão (SANTOS, 2002, pág. 275-89).
Revue Spirite, “o artigo publicado no Journal d´Études Psychologiques em Paris, abril de 1862, p.97, posiciona o lugar dos negros frente à cultura ocidental, como sendo um modo inferior de vida, mas não imutável, deixando claro a sua potencialidade “civilizatória”, bastando o contato com as “luzes” da civilização e da moral dos povos brancos (“qui a donné peuvres de la superioridade de as intelligence”) que tinham como missão retirar os negros da “ignorância” e “maus hábitos”.(FERRETI, 2001, p. 13-26)
Mas, apesar de tudo isso, as palavras de Frobenius nos fazem pensar:
... a religião iorubana encontrava-se num requintado estágio de evolução, podendo medir-se pela religião grega, quer pela riqueza de episódios, quer pelo número de personagens, quer pela complexidade dos rituais, que pela profundidade das instituições. (FROBENIUS, 2007, pág. 13)
Teria esse povo perdido sua cultura, suas tradições, sua dignidade? O que teriam trazido para o Brasil? Quais foram os povos que aqui chegaram? Quais contribuições foram incorporadas na cultura do povo brasileiro que se formava?
Foi Nina Rodrigues quem lançou a primeira luz sobre a questão, e, na Bahia, identificou a grossa massa da população negra como sendo de procedência “sudanesa”: “iorubas”, “jejes”, “haussás”, “minas”... sem embargo da existência lá, em menor número de negros de origem “banto”: “angolas”, “cabindas”... entraram no  Brasil, negros dos dois grandes grupos “sudaneses” e “bantos”.O primeiro grupo foi introduzido inicialmente nos mercados de escravos da Bahia, de lá se espalhando pelas plantações do recôncavo e secundariamente por outros pontos do Brasil. Desses negros sudaneses, os mais importantes foram os “iorubas”, ou “nagôs” e os “jejes” (“Ewes” ou “daomeanos”) e em segundo lugar, os “minas” (“Tshis” e “Gás”), ou os “haussás”, os “tapas”, os “bornus”e os “gruncis” ou “galinhas”...Com esses negros sudaneses entraram dois povos de origem berbere-etíope e influência maometana: os “fulas”, e “mandês”. Os “bantos” foram introduzidos em Pernambuco (estendendo-se a Alagoas), Rio de Janeiro (estendendo-se ao Estado do Rio, Minas e São Paulo) e Maranhão (estendendo-se ao litoral paraerense), focos primitivos de onde se irradiaram posteriormente para vários pontos do território brasileiro. “Bantos” foram os “angolas”, os “congos” ou “cabindas”, os “benguelas”, os negros de Moçambique (incluindo os “macuas” e “angicos” a que se referiram Spix e Martius). As demais denominações que tanta confusão originou nada mais são do que províncias ou regiões do vasto território afro-austral, “habitat” dos povos bantos.
“Sudaneses” e “bantos” entrados no Brasil aqui se fundiram uns com os outros, constituindo uma população escrava que progressivamente se foi amalgamando aos demais contingentes da população brasileira – em cruzamentos biológicos e interinfluições de ordem psico-sociológica”. (RAMOS, 1934, pág. 26-7)
            E foi em terras brasileiras que essas etnias, envolvidas há tanto tempo em guerras e disputas tribais, equiparadas agora pela escravidão, que a todos tornava iguais, encontraram o silêncio e a reflexão. Diante da necessidade de sobreviverem e preservarem sua cultura, fé e tradição, tornaram-se irmãos novamente.
            E assim como interesses financeiros os fizeram escravos, os tornaram livres. A mesma Inglaterra, que usufruiu da escravidão e dela lucrou, agora respondendo à pressão exercida por movimentos abolicionistas, a partir de 1807 aboliu o tráfico e em 1933, a escravidão, forçou o resto do mundo civilizado a fazer o mesmo. (ALBUQUERQUE; FRAGA, 2006, pág. 58)
            Todo o conhecimento destes povos foi mantido através da tradição oral. (KI-ZERBO, 1972, pág 19-20). E o que resistiu a aculturação foram as características religiosas, sincretizadas com o catolicismo, e a pajelança.
            O conceito de Deus Supremo (Olorun), eterno masculino (Obatalá), eterno feminino (Oduduá), seu conceito Dinamizador da Existência (Exu Yangi), o conceito de Forças Vitais (Iwá-Aché-Abá), o conceito de mediador entre Deus e sua obra (Orixa), o conceito de universos paralelos (Aiyé e Orum), destino individual (Odu), a veneração aos Ancestrais (Egun-Agbá), as sociedades secretas (Egungun e Geledé), e na Iniciação e seus Pais Babalawos. (ITAOMAN, 1990, pág, 39-40)
            Raça Branca
            A raça branca chegou ao Brasil representado por duas raízes, a Indo-Européia e a Heleno-Semítica (ou Judaico-Cristã).

Raiz Indo-Européia (Ariana)
            É de Fabre d’Olivet a citação de que a localização geográfica da civilização Hiperbórea (branca) é incerta, mais duvidoso ainda é tentar estabelecer a época em que começaram a ser reunir. (OLIVET, 1997, pág 42-3)
Os Vedas (Livros Sagrados dos Arianos) falam de uma raça que evoluiu na terra onde o sol fazia a volta no horizonte sem se deitar, e que seria a mãe dos Árias.  (ITAOMAN, 1994, pág. 40-2)
Moisés fala em Gibóreos (Gênesis), e diz que a origem deles data dos primórdios dos tempos. 
Deodoro da Sicilia diz que moravam próximos à Lua (latitude onde viviam).
Heródoto, Hesíodo, Plínio, Virgínio, e Cícero também mencionam este povo. Também Homero em sua Epígones os cita.
Ésquilo, em Prometeu, os situava nos Montes Rifeus.
Aristeas de Proconeso que os teria visitado, e escrito um poema sobre eles, afirmou que este povo ocuparia a região nordeste da Alta Ásia, chamada hoje de Sibéria. Outra localização possível, já que o sol brilharia 24 horas por dia, e se poria apenas uma vez ao ano, seriam os países nórdicos (Finlândia, Noruega,e Suécia).
Hecateus de Ábderas, da época de Alexandre, dizia que eles estavam entre os ursos brancos de Nova Zembla, numa ilha chamada Elixóia. (OLIVET, 1997, pág. 42-3)
            Seja como for, mudanças climáticas bruscas e violentas (desequilíbrio do planeta sobre o seu próprio eixo) modificaram a localização dos pólos, e a região Hiperbórea sofreu intenso resfriamento. O povo que lá habitava necessitou procurar novos horizontes. Chegaram assim à Ásia Central, onde foram conhecidos historicamente como Árias.
Os Vedas datam 6000 anos e relatam a rivalidade entre os clãs Vanes e Ases, daí originando o grande Cisma de Irshu, que dividiu os Árias. Os Ases ocuparam o sul e o leste da Ásia. Em guerra com os Dravidianos (melanidas), habitantes do sul, os Sindhus arianos conquistaram o território ao sul da Ásia, passando a chamar a região de Índia (Indhus).  A partir daí impuseram o Brahmanismo, baseado no sistema de castas. Os Dravidianos foram colocados na última delas, hoje conhecida como Chudras ou Párias (Intocáveis).
Nascido em 560 a.C. no Nepal, Siddhartha, que era príncipe (descendente dos Arianos, clã Sakya, casta real Kshatryas), abandonou a riqueza para buscar a Iluminação, passando a ser conhecido como Buda. Seus ensinamentos disseminaram-se por toda a Ásia, chegando à China.
O Império construído pelos Sindhus Arianos somente foi ameaçado por Alexandre, o Grande. E, posteriormente, influenciado pelos Persas, Árabes, Maometanos e Portugueses. Finalmente, conquistado pelos Ingleses. 
Ironicamente, foram os ingleses que trouxeram ao Ocidente toda a riqueza do esoterismo ariano. Merecem ser citados Helena Blavatsky, Anne Besant, David Neels, Leadbeather, por meio da Teosofia. Portanto, com profunda inspiração Brahmânica e Budista, a Teosofia viria a influenciar definitivamente o Kardecismo.
Quais as contribuições trazidas pelos Hindo-Europeus?
. Reencarnação: ciclos de nascimento-morte.
. Karma: Lei de causa e efeito.
. Prâna: energia sutil astral.
. Chakras: locais de condensação energética no corpo astral.
. Kundalini: Energia sutil telúrica.
. Tantra: sistema de atuação astral sobre o mundo físico (ITAOMAN, 1990, p. 40-2)

Raiz Judaico-Cristã ou Heleno-Semítica
            Toda a bacia do Mediterrâneo foi influenciada profundamente pela fusão de raças e conhecimentos esotéricos do Egito. Suas tradições são mais antigas que as greco-latinas. Afinal, filósofos gregos bebiam em suas fontes, localizadas em Thebah, onde seus templos Iniciáticos iluminavam todo o mundo conhecido. Entre eles estavam Sólon, Heródoto, Platão, Estrabão, Diodoro e Pitágoras.  Diodoro da Sicília relata: “Os egípcios, aproveitando-se das condições favoráveis, fizeram da Astrologia a sua ciência própria, a qual foram os primeiros a estudar. Os caldeus da Babilônia eram emigrados do Egito e, com estes, haviam aprendido Astrologia.” (OLIVET, 1997, p. 42-3)
            Toda a sua sabedoria como a matemática, geometria, medicina, alquimia, astrologia, gnose, foi preservado através dos gregos. Os gregos preservaram todo esse conhecimento em Alexandria, no delta do rio Nilo.
            Persas e depois os árabes herdaram a Biblioteca de Alexandria. Mas foram os árabes que traduziram para a sua língua todo esse conhecimento.
            Com a invasão do território europeu, fundaram seus Califados e Emirados em locais que hoje são a Espanha e Portugal. Durante todo o período em que permaneceram, transferiram a formidável cultura greco-egípcia.  A este período denominamos Renascença.
            Hebreus e Árabes pertencem ao mesmo grupo racial semita. Quando ocorreu a dominação da Europa pelos maometanos, os hebreus também os acompanharam. Dos árabes, herdaram a Alquimia, dos hebreus, a Kabbalah.
            A Espanha torna-se fonte de Iniciação. Aí brotaram os ensinamentos de Jabir Ibn Hayyan (Geber), Al Razi e Ibn Sina (Avicena) e os cabalistas Akiba e Semeon Bem Jochai. Nicolas Flamel, Paracelso e Saint Yves D’Alveydre foram exemplos de sábios que beberam nesta fonte. Daí surgiu a Magia Européia Ocidental.
            No momento em que os árabes começaram a perder poder, os sábios árabes e hebreus, detentores deste conhecimento, receberam proteção desde que se convertessem ao catolicismo, surgiu então os Cristãos Novos.
Moisés (Iniciado no Templo de Osíris e também recebeu a iniciação negra através de seu sogro Jethro) liderou seu povo, os semitas para fora do Egito. Sua doutrina religiosa está contida no Torah.  E foi entre os semitas hebreus que nasceu o Jesus (Rabi Iesu Bem Iossuf, essênio). Diante de tudo que ele ensinava e praticava, foi chamado Messias (Maschiah), o ungido de Deus. Após sua morte, foi Saulo - Paulo (judeu fariseu, de cidadania romana, e cultura helênica) que tornou o cristianismo primitivo em Catolicismo. O Cristianismo primitivo tinha como pontos fundamentais: a ascese, a reencarnação, o vegetarianismo, e a imposição de mãos e os dons do espírito (mediunidade).
E então, a partir de 1532, tanto árabes quanto hebreus, convertidos em Cristãos Novos, passaram a chegar ao Brasil, fugindo da perseguição da Santa Inquisição. Trocaram-se os nomes, mas se mantiveram com seus traços culturais, ainda que velados e secretos, restritos ao lar.
IV – Referências


ALBUQUERQUE, W. R; FRAGA, F. W. Uma História do Negro no Brasil? Brasília: Centro de Estudos Afro-Orientais/ Fundação Cultural Palmares,2006,  pag. 58.
BASTIDE, R. As Religiões Africanas no Brasil. São Paulo: Livraria e Editora Pioneira, 1960, 240 pág.
ELIADE, M. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2001, 191 pág.
ELIADE, M. História das Crenças e das Idéias Religiosa. Rio de janeiro: Zahar Editores, 1978, Tomo I, vol I, pág.13
FERRETTI, S. F. Notas sobre o Sincretismo Religioso no Brasil- modelos, limitações, possibilidades. Revista Tempo. Niterói: UFF/Dep. De História, nº 11, Julho 2001 – Religiosidade na História, pág. 13-26.
Frobenius, L. A gênese Africana: contos, mitos e lendas da África. São Paulo: Landy Editora, 2007, pág 13.
GORDON, B; MEDEIROS, S. Popol Vuh. São Paulo: Ed. Iluminuras, 1997, 480 pág.
ITAOMAN, M. Pemba a Grafia Sagrada dos Orixás. Brasília: Thesaurus, 1990, 317 pág.
JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2ª Ed., 2008, 429 pág.
JUNG, C. G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Ed. Vozes, 2ª Edição, 2002, 447 pág.
KI-ZERBO, J. História da África Negra. Paris: Ed. Europa-américa, 1972. Vol.I, pág. 130.
KI-ZERBO, J. História da África Negra. Paris: Ed. Publicações Europa-américa, 1972. Vol.I, pág. 19-20.
KI-ZERBO, J. História da África Negra. Paris: Ed. Europa-américa, 1972. Vol.I, pág. 256-66.
MAGALHÃES, P. G. A Primeira História do Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 2004, pág. 133-34.
OLIVET, F. A. História Filosófica do Gênero Humano. São Paulo: Ed. Ícone, 1997, pág. 42-3.
PALLAS, A. 3333 Pontos Riscados e Cantados.  Rio de Janeiro: Ed. Pallas, 5ª Ed., 2008, vol I e II, 287 pág.
PINTO, M. Troncos Lingüísticos. In: ALMANAQUE INDÍGENA DO BRASIL HOJE. Fonte: A temática indígena na Escola – Silva, Aracy Lopes da (org.) – MEC 3ª Ed. 2000.
PRIORE, M. D. Religião e Religiosidade no Brasil Colonial. 5ª edição. São Paulo: Ed. Ática, 2004, pág. 52.
PRIORE, M. D. Ancestrais. 9ª edição. Rio de Janeiro: Elsevier Editora, 2004, pág. 32-40.
RAMOS, A. O Negro Brasileiro. Rio de Janeiro: ed Civilização Brasileira, 1934. 303 pag.
RAMOS, A. O Negro Brasileiro. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1934, pag. 26,27.
RIVAS, F. R. Sacerdote, Mago e Médico – Cura e Autocura Umbandista. São Paulo: Ícone Editora, 2003, pág. 459.
RIVAS, F. R. Umbanda – O Arcano dos 7 Orixás. São Paulo: Ícone Editora, 1999, 247 pág.
RIVAS, F. R. Umbanda – A Proto-Sintese Cósmica. São Paulo: Ed. Pensamento, 2002, 392 pág.
RIVAS, M. E. O Mito de Origem – Uma Revisão do Ethos Umbandista no Discurso Histórico. 2008. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado na Faculdade de Teologia Umbandista, São Paulo.
SAMPAIO, G. R. A História do feiticeiro Juca Rosa. In: CULTURA E RELAÇÕES SOCIAIS NO RIO DE JANEIRO IMPERIAL. 2000. Tese apresentada na Universidade Estadual de Campinas, São Paulo.
SANTOS, G. A. Selvagens, Exóticos, Demoníacos. Idéias e Imagens de Gente de Cor. In: ESTUDOS AFRO-ASIÁTICOS, Ano 24, vol. 2, 2002, pág. 275-89.
SANTOS, G. S. Pontos Cantados e Riscados.  Rio de Janeiro: Ed. Orphanake, 5ª Ed., 2003, 164 pág.
SANTOS, M. F. Tratado de Simbólica. São Paulo: Ed. E.Realizações, 2007, 352 pág.
SILVA, W. W. M. Umbanda de Todos Nós. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos, S. A., 1969, 366 pág.



quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Depois de férias merecidas...


As Sefirot e a Teoria das Cordas

Rabi Moshe Chaim Luzzatto (1707-1746), um dos maiores Sábios e cabalistas na história judaica, escreveu que o mundo físico é um espelho do mundo espiritual. Cada fenômeno que existe em nosso mundo é um reflexo de uma realidade sobrenatural.

Como ensina o Midrash, D'us buscou na Torá e criou o mundo. Isto significa que a Torá é o plano-mestre de toda a criação e o mundo é o produto resultante. Fazendo-se uma analogia: se o mundo fosse um computador e as Ciências o estudo de seu funcionamento, a Torá - e particularmente a Cabalá - seria o manual que descreve sua conceituação e modelagem.
A Torá se inicia com o relato da Criação do Universo por D'us. Como tudo o que existe foi emanado de Um D'us, único e indivisível, deve existir uma unidade subjacente no cerne de toda a Criação. Por outro lado, como relata a própria Torá, D'us criou um mundo de enorme diversidade. E, com efeito, assim é o mundo - contém uma multiplicidade de seres, geralmente em vastas quantidades.
A Cabalá explica a Criação - a forma como a diversidade se originou da Unicidade Absoluta - através da doutrina das Sefirot. Estas são o modo mais básicos do poder criativo de D'us, que criou o universo emanando dez de Seus próprios atributos. Estes constituem a estrutura interna e externa do universo. É através das Sefirot que D'us interage com Sua criação e nada existe ou acontece no universo que não seja através das mesmas.
Por isso, por um lado deve haver unidade em toda a Criação, já que todas as Sefirot se originam de D'us, Fonte da unidade absoluta. Por outro, as Sefirot são dez, e não apenas uma, e sua combinação é o que responde por um mundo com tanta diversidade. Há uma boa razão para as Sefirot serem descritas como "os membros e funções do corpo humano". No corpo humano, todos os sentidos e funções biológicas são, a um só tempo, diferenciados e interdependentes. Coração e cérebro são órgãos diferentes, mas são interdependentes. De modo similar, as Sefirot são forças diferentes que funcionam em sincronia.
Há várias definições para o termo Sefirá, entre as quais, Safar (número) e Sefar (limite). As Sefirot geralmente são chamadas de Midot, literalmente "medidas" ou "dimensões". De acordo com a Cabalá, o universo tem dez dimensões e tudo o que existe em nosso mundo é constituído por uma ou mais das Sefirot. No Sefer Yetzirá, obra mais antiga da Cabalá, está escrito que as Dez Sefirot são as dimensões que constituem a totalidade da existência. Estas dez dimensões definem um caminho até o Ser Infinito que está além de toda a Sua Criação.
As Dez Sefirot
Nossa proposta, neste artigo, não é fazer uma descrição profunda de cada uma das Sefirot, portanto, apenas o faremos de forma breve. Estes atributos são divididos em duas categorias: três são intelectuais e sete, emocionais. A alma do homem possui esses dez atributos e isto explica o significado da afirmação de que o ser humano foi criado à imagem de D'us. Como dissemos, a Criação consiste das Dez Sefirot. Assim sendo, cada uma das criaturas, fenômenos, ações e eventos pode ser explicada através da manifestação de uma ou mais Sefirot.
Comecemos com as três Sefirot intelectuais. Para explicá-las, descreveremos uma experiência familiar a quase todos nós: a tentativa de solucionar difíceis problemas matemáticos. Um aluno está petrificado diante de um problema, mas nada lhe vem à mente. De repente, um estalo! Apesar de ainda não ter resolvido o problema, ele já não está no escuro; surgiu-lhe uma idéia. Este estalo é Chochmá (Sabedoria) - a primeira Sefirá intelectual. Mas Chochmá, por si só, não basta. Para solucionar o problema, o aluno terá que encontrar um caminho pela dificuldade, analisar tudo, talvez fazer alguns gráficos ou plugar alguns números. Este processo de análise é Biná (Compreensão) - a segunda Sefirá intelectual. É a ponte entre Chochmá e o terceiro atributo intelectual, Daat (Conhecimento). Quando o aluno solucionar o problema, obtiver a resposta correta e internalizar o conhecimento adquirido no processo, terá atingido a Sefirá de Daat.
As outras sete Sefirot referem-se às emoções. A primeira é Chessed (Bondade, Benevolência), que é a origem de todas as interações humanas. É através de Chessed que nos aproximamos e nos doamos aos outros. A segunda Sefirá emocional é Guevurá (Justiça, Disciplina, Força, Contenção). Guevurá é o meio pelo qual nos concentramos e direcionamos nossos esforços. Enquanto Chessed nos impele a chegar até os outros, a Guevurá nos permite estabelecer limites e fronteiras. A terceira Sefirá, Tiferet (Compaixão, Verdade, Beleza), mescla Chessed com a disciplina da Guevurá. Tiferet é o caminho intermediário, que integra amor e disciplina de maneira equilibrada e saudável.
Descendo pela Árvore das Sefirot, estão outros três Atributos da emoção. A quarta, Netzach, é a Sefirá das emoções da Ambição, Vitória, Eternidade, que dá origem à ambição e determinação, dando ao homem a força de lutar por suas crenças e o ímpeto de realizar seus objetivos. A quinta Sefirá emocional, Hod (Humildade, Submissão), é a raiz dos sentimentos de humildade, que nos permite deixar de lado nosso próprio ego. É, também, o que nos dá o poder de enfrentar um desafio e submeter nossa própria vontade à vontade de D'us. A sexta é Yessod (Vínculo, Fundamento). Constitui a essência da conexão emocional. É a capacidade que temos de nos ligar a outros - família, amigos, mestres. É o que cria o canal de vinculação entre quem dá e quem recebe, canalizando todas as outras cinco Sefirot emocionais em um único elo construtivo, criando a união entre os seres humanos.
A décima Sefirá é Malchut (Liderança, Nobreza, Soberania). É o que nos dá um sentido de propósito, independência e confiança, e um sentimento de certeza e autoridade. Esta Sefirá é, também, associada com a capacidade da comunicação e tradução dos pensamentos e sentimentos em ações.
Este mundo e tudo o que contém são produto da Emanação Divina através das Sefirot. D'us emana Chochmá, Biná, Daat, Chessed, Guevurá, Tiferet, Netzach, Hod, Yessod e Malchut, por meio das quais o mundo existe. Estas Sefirot são a base de tudo. Uma pessoa criativa personifica Chochmá; um grande analista emprega, em geral, Biná ; a pessoa que adquiriu grande conhecimento possui Daat. Açúcar e água são a objetificação da Sefirá de Chessed, ao passo que pimenta e fogo são a objetificação de Guevurá. Uma paisagem bonita e um belo ser humano refletem Tiferet. A pessoa ambiciosa personifica Netzach, enquanto a humilde, Hod. Carisma é o reflexo de Yessod, ao passo que liderança e autoridade refletem Malchut.
As Sefirot são os blocos formadores do Universo. A estrutura interior do mundo e de todos os seus constituintes é formada pelas Sefirot. A maçã, o peixe, a alma humana, um pensamento, decisão, palavra ou ação - todos partilham a mesma origem: as dez emanações cuja fonte é Deus, Uno e Único. É imperativo observar que nenhuma das Sefirot é D'us, Ele Próprio. Alertaram-nos os Sábios que aqueles que confundem as Sefirot com D'us estão cometendo grave erro, tão grave como a idolatria. As Sefirot, como tudo a mais, inclusive o Universo como um todo, emanam e residem dentro de D'us, mas não constituem D'us, Todo Poderoso. O Criador transcende tudo, inclusive todos os Atributos e toda a Criação.
Teoria das Supercordas
Em 1931, o jornal The New York Times reportava que Albert Einstein tinha terminado sua teoria do campo unificado - uma teoria que prometia reunir todas as forças da natureza em uma única trama matemática. Einstein pode não ter sido um judeu observante, mas algo em seu íntimo o levou a desvendar a subjacente unidade do universo. Einstein tinha a obsessão de comprovar pela Ciência algo que é um tema recorrente no estudo da Cabalá: o fato de que apesar da multiplicidade que há no mundo, existe uma unidade subjacente em toda a Criação que reflete a unidade absoluta de seu Criador.
A teoria do campo unificado de Einstein demonstrou ser falha, mas ele não desistiu. Mesmo em seu leito de morte, continuava rabiscando equações sem fim, na esperança desesperada de que se materializasse sua teoria. O que não ocorreu. Mas sua esperança estimulou outros cientistas a irem em busca da teoria unificada. Estes tinham percebido que sem tal teoria, muitas questões fundamentais sobre o universo não poderiam ser estudadas. Nos últimos 300 anos, o estudo das Ciências seguiu o caminho da unificação e consolidação: conceitos outrora considerados totalmente estanques demonstraram ser profunda e inextricavelmente vinculados. No século 17, Isaac Newton descobriu as leis do movimento, aplicáveis tanto a um planeta que se move pelo espaço quanto a uma maçã que cai da árvore. Newton revelou ser uma única a Física na Terra e nos Céus. Duzentos anos mais tarde, Michael Faraday e James Clerk Maxwell demonstraram que as correntes elétricas produzem campos magnéticos e que os ímãs em movimento podem produzir correntes elétricas. Os dois cientistas demonstraram que essas duas forças são unidas. No século 20, Albert Einstein provou que espaço, tempo e gravidade são entrelaçados. Seu sonho era descobrir uma teoria superior a todas as demais, que fundiria a gravidade e o eletromagnetismo em uma única teoria-mestre sobre as forças da natureza.
Após sua morte, outros grandes físicos continuaram a busca da teoria unificada. Na década de 1960, as pesquisas de Sheldon Glashow, Abdus Salam e Steven Weinberg, que lhes valeram o Prêmio Nobel, revelaram que quando submetidas a elevadas energias, as forças eletromagnéticas e as baixas forças nucleares combinavam de forma perfeita. Em trabalhos subseqüentes, outros demonstraram que submetida a energias ainda mais altas, uma força nuclear mais forte também combinaria. Isto convenceu muitos físicos de que não havia obstáculo fundamental em unificar três das quatro forças existentes na natureza. Durante décadas, a força da gravidade foi a única força que apresentou problema para a teoria da unificação. O problema que tanto perturbara Einstein foi a disjunção entre sua própria teoria da relatividade geral, que é relevante para objetos extremamente maciços, como as estrelas, e a mecânica quântica, que é a estrutura usada pela Física para tratar dos objetos muito pequenos, como os átomos e suas partes constituintes. Alguns dos mistérios resultantes dessas teorias conflitantes incluem o motivo da gravidade ser tão fraca em relação a outras forças físicas fundamentais, tais como o eletromagnetismo, e a razão para o universo ser tão grande. Essas questões surgem porque em uma escala diminuta ao extremo, as partículas que compõem nosso mundo parecem comportar-se de maneira totalmente diferente do que se poderia imaginar. Na década de 1980, emergiu, na Física, uma nova abordagem a esse enigma científico. É chamada de Teoria das Supercordas, ou simplesmente, Teoria das Cordas. Os difíceis e complexos cálculos dos físicos John Schwarz e Michael Green, que passaram anos imersos em sua pesquisa, trouxeram fortes evidências de que a nova teoria não apenas unificaria a gravidade e a mecânica quântica, mas também as demais forças da natureza.
A Teoria das Cordas oferece uma nova perspectiva sobre os componentes fundamentais da matéria. A matéria era vista como constituída de pontos ínfimos, quase sem tamanho - os átomos, que são compostos de prótons, nêutrons e elétrons - e os quarks, que são um tipo genérico de partículas físicas que se combinam de formas específicas para formar prótons e nêutrons. A Teoria das Cordas revela que os componentes de qualquer matéria são, pelo contrário, filamentos minúsculos e vibrantes, como cordas. Assim como diferentes vibrações de um violino produzem diferentes notas musicais, as diferentes vibrações das cordas da teoria produzem diferentes tipos de partículas. Os pioneiros estudiosos da teoria perceberam que uma dessas vibrações produziria a força gravitacional, demonstrando que a Teoria das Cordas abrange ambas, a gravidade e a mecânica quântica. Portanto, soluciona a incompatibilidade entre a mecânica quântica e a relatividade geral.
A Teoria das Cordas está sendo aqui descrita de maneira genérica, praticamente sem usar linguagem científica, mas se trata de um estudo que envolve uma análise rigorosa e complexos cálculos matemáticos. Há mais de 20 anos vem-se pesquisando intensamente a Teoria das Cordas, que tem sua coerência matemática comprovada por cálculos longos e intrincados. Até o presente, não houve contestação quanto à sua exatidão. Impressiona, também, o fato de que muitas descobertas na Física, nos últimos dois séculos, encontram-se na Teoria das Cordas. Isto indica que a mesma é a chave de entrada para esta complexa ciência.
Não causa surpresa o fato de que esta teoria tenha chamado a atenção de tantos cientistas e matemáticos. Muitos deles acreditam que a mesma forneça a infra-estrutura para a construção da tão buscada teoria unificada. Como ensina que qualquer coisa em seu nível mais microscópico consiste de combinações de cordas em vibração, esta teoria fornece um marco único de explicação capaz de englobar não apenas tudo o que é matéria, mas também todas as forças. As partículas da força são associadas a padrões específicos de vibração de corda. Assim como a matéria, estas partículas são unificadas sob a mesma rubrica de oscilações microscópicas das cordas.
A teoria das cordas às vezes é descrita como a teoria de tudo - a teoria final, suprema. Muitos de seus defensores acreditam que uma tal teoria explicaria as propriedades das partículas fundamentais e as propriedades das forças que as fazem interagir e influenciar umas às outras. De modo mais simplista, tudo o que existe e tudo o que ocorre no universo é uma reação entre as partículas fundamentais que, de fato, são cordas que vibram.
A Cabalá e a Teoria das Supercordas
Ensina-se, na Cabalá, que D'us criou o mundo através das Dez Sefirot. Na verdade, existe um atributo adicional, Keter. Esta Sefirá está tão além de nossa compreensão que não costuma ser incluída como uma das Sefirot. Exprime a Vontade de D'us - Seu desejo de criar. Como não podemos sequer pretender imaginar os desejos Divinos, a Cabalá costuma mencionar apenas as Dez Sefirot. No entanto, o desenho da Árvore das Sefirot obrigatoriamente inclui a décima-primeira, Keter.
Assim como a Cabalá fala das Dez Sefirot, que, de fato são onze, também a Teoria das Cordas fala de dez dimensões, que, na realidade são onze. Alegam os cientistas que para que as cordas formem adequadamente nosso universo, elas devem vibrar em onze dimensões. Todos podem observar três dimensões espaciais e uma temporal, mas os modelos da Física sugerem outras sete.
A doutrina das Sefirot e da Teoria das Supercordas dizem, essencialmente, a mesma coisa através de linguagens diferentes. A teoria é a descoberta científica dos fenômenos que os cabalistas conhecem há milênios. Quer saiba ou não, um físico que estuda as Supercordas está estudando a Cabalá pelo prisma das Ciências. As cordas são a manifestação física das Sefirot. De fato, muito antes da descoberta dessa teoria, a Cabalá falava de cordas sobrenaturais. Ao descrever a criação do universo, o misticismo judaico revela que D'us escondeu Sua Luz Infinita, criando, destarte, um espaço que parece despojado de Sua Presença. Neste domínio, que parece ser um vácuo, Ele criou nosso mundo. E o fez através de um raio da Luz Divina, chamado de "corda". Através dessa corda inicial, foram emanadas as Dez Sefirot - as outras dez cordas - e estas, continuamente criam tudo o que existe e tudo o que transpira no universo. É interessante observar que há um mandamento particular na Torá, o de Tsitsit, que envolve cordas.
Os homens judeus são obrigados a atar Tsitsit - cordas de lã - a roupas com quatro cantos. Este mandamento é tão importante que é considerado equivalente em importância a todos os demais, juntos. É, também, um dos poucos mandamentos mencionados no Shemá Israel: "Isto vos servirá de Tsitsit, cordas visíveis, e vendo-o recordar-vos-ei de todos os mandamentos do Eterno, para observá-los". O Talmud coloca uma questão: como Tsitsit é uma palavra no plural, não deveria, então, estar escrito: ... e vendo-os"...? E responde que quando olhamos para os Tsitsit, o que devemos ver não é "a elas" - as cordas ou franjas do Tsitsit - mas a "Ele" - D'us, em toda a Sua plenitude.
À luz do que discutimos acima - as Sefirot e a Teoria das Cordas - podemos inferir que o Shemá Israel, prece de suma importância e misticismo, sugere que os Tsitsit simbolizam as cordas que constituem a Criação unificada, encaminhando-nos na direção de D'us Único. Em outras palavras, os blocos formadores do universo, quer os denominemos de Sefirot ou de cordas, quer sejam discutidos por cientistas ou por estudiosos da Torá, apontam na direção do Infinito Criador.
Muitas pessoas erroneamente acreditam que Torá e Ciências são conflitantes. Pois não o são: como indicou o Rabi Luzzatto, o físico é uma mera reflexão do espiritual. Aquele que crê que Torá e Ciências estão em contradição certamente não entende bem uma das duas. Isto explica a razão para que muitos de nossos maiores sábios - o Rambam, o Gaon de Vilna, o Baal HaTanya e o Lubavitcher Rebe - tivessem tamanha compreensão das Ciências.
A Teoria das Supercordas é a Cabalá estudada sob a lente da Física. E assim como o estudo das Sefirot, a teoria nos ensina que este universo de diversidades e de multiplicidades é, com efeito, elegantemente disposto e unificado. A unidade do universo é o reflexo da Unicidade de D'us e o fato de ter sido elegantemente projetado nos faz lembrar que foi concebido por um Desenhista Perfeito. `
Diz-se que uma rosa é uma rosa, ainda que lhe troquemos o nome. De forma similar, D'us, seja encoberto pela linguagem da Física ou pela da Cabalá, é D'us, Único, Senhor dos Céus e da Terra, e de tudo o que contêm estes dois mundos.
Tev Djmal

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A Alquimia...


A Alquimia, ao longo dos séculos, sempre assustou e confundiu as pessoas que tentavam compreendê-la. Mas esse era o propósito dos alquimistas. Eles queriam realizar seu trabalho sem correr o risco de serem queimados nas fogueiras da ‘Santa Inquisição’. Muitos alquimistas trabalhavam escondidos em porões e até usavam os subterrâneos das antigas catedrais; alguns eram padres, sacerdotes religiosos e cientistas famosos. Portanto, o encobrir e o iludir faziam parte da alquimia. Além disso, a obra alquímica mexe muito com a nossa alma e por isto nos atemoriza. Outra característica dos alquimistas é o uso das figuras (imagens), o que normalmente desestabiliza o Ego. Os termos alquímicos, desde os mais simples até aos mais complicados, não podiam ser catalogados em um dicionário, pois eram usados com sentidos diferentes, até por uma mesma pessoa. Como fazer, para que matéria inicialmente tão complexa, deixe de sê-la?

Podemos nos imaginar nos dias de hoje fazendo um churrasco dominical e tentando afastar aquelas figuras indesejáveis que perguntam a toda hora se o churrasco está pronto ou mexem na carne que você acabou de virar. A tia que não encontramos desde o Natal, quer saber o segredo do seu molho de alho, manteiga e pimenta do reino. O sobrinho capeta estica o olhar guloso e pergunta sobre o coração de galinha. Para não causar constrangimento nas indiscretas figuras que mais parecem sair de um conto de Nelson Rodrigues ou de Kafka, você responde: “Fui no mercado ‘Estadual dos Produtores Associados Independentes’ e comprei a ‘substância protéica bovina desnaturada’, com cortes ‘longitudinais transcendentes e oblíquos’”. Os chatos se afastam ou vão embora por alguns momentos achando que você é um grande cozinheiro e, você fica livre das desagradáveis companhias.

Na Alquimia aconteceu coisa parecida. Não acredito que os alquimistas estavam em busca de ouro nem do elixir da longa vida. Eram na sua maioria pessoas introvertidas em busca do seu caminho espiritual. Eles queriam ficar em paz sem sofrer perseguição por parte do ‘poder constituído’.

Vamos agora tentar simplificar bastante o ‘processo alquímico’ e tirar deles aquela aura de mistério. Vamos deixar o ‘pano preto’ para os tímidos ou os ignorantes. Ao mesmo tempo olharemos os processos básicos da alquimia com uma visão psicológica, para ver que o evoluir da alma é dolorido, mas no final vale a pena o sacrifício da jornada.

Eles diziam, que deveríamos pegar a ‘prima materia’ (matéria prima) e trabalhá-la de diversos modos até alcançar o ‘Lapis Philosoforum’ (pedra filosofal) e com essa pedra poderiam transformar metais em ouro ou preparar o elixir da longa vida a partir do sereno ou de outros líquidos da natureza. Vocês podem achar que a colocação está muito simples, mas é isso mesmo, ir de A até B; sendo que A é o ‘bruto’ e B o ‘elaborado’. O complicado e o difícil era o caminho de A até B, pois esse era próprio de cada indivíduo. O processo para ir da ‘matéria prima’ à ‘pedra filosofal’ era longo, trabalhoso e cheio de tortuosidades e muitas vezes, acidentado.
Um caminho muito parecido com a busca espiritual dos religiosos. Um caminho muito parecido com o da individuação de Jung. Um caminho muito parecido com o ‘conhece-te a ti mesmo’ dos gregos.

Se formos listar os materiais usados como matéria prima, vamos encontrar mais de 500 nomes e, alguns esdrúxulos com: esterco de vaca, leite de virgem, urina de criança, menstruação de prostituta, etc. A própria pedra filosofal possuía várias denominações conforme o alquimista que escrevia, o século em que viveu ou seu país de origem. Mas no fundo se tratava de transformar algo bruto em um material refinado, o que corresponde a nossa transformação psíquica. Como eu disse, a complicação maior estava nos processos usados para a transformação, agravada pelo uso de nomes em latim. Podemos citar alguns desses processos alquímicos: mortificatio (morte), sublimatio (passar do sólido para o gasoso – sublimação), coagulatio (coagulação), calcinatio (queima), solutio (dissolver com água), putrefatio (decomposição da carne), separatio (separação), coniunctio (união), tinctur (tintura ou união) e daí por diante.
Por outro lado, um grande número de alquimistas afirmava: “as vias usadas no processo são duas e as chamamos de seca e úmida”. A via seca era sempre mais rápida, realizada no Athanor (forno) aberto, com fogo direto, vivo e forte e numa espécie de panela que normalmente era chamada de ‘cadinho’. A via úmida era mais eficaz, porém mais lenta. Normalmente feita em um recipiente fechado que levava o nome de ‘retorta’ ou ‘pelicano’ e cozinhada em fogo brando por bastante tempo. O forno também era fechado e muito maior do que na via seca. Podemos perceber no caminho da via úmida uma equivalência com a nossa longa estrada espiritual e do auto-conhecimento.

A maioria dos escritores dividia a via úmida em quatro estágios e os associava a cores e suas vibrações. Como não podia deixar de ser, os nomes eram em latim: Nigredo (preto), Cauda Pavonis (cauda do pavão ou arco-íris), Albedo (branco) e Rubedo (vermelho). Esses quatro processos ou etapas, se observados de uma maneira global, lembram um pouco as quatro fases da psicoterapia que Jung descreveu: Confissão, Esclarecimento, Educação e Transformação. Antes de tentarmos ver um por um os processos acima citados, temos de ter em mente que esse processo é cíclico, qual uma ‘espiral ascendente’ e praticamente nunca termina; tanto na alquimia como no processo de individuação de Jung.
Ou seja, quando terminamos uma Rubedo voltamos à Nigredo; quando terminamos uma Transformação, voltamos a uma Confissão. É claro que esse retorno nunca é a um ponto inicial do processo e, sim, um pouco mais para dentro e um pouco mais para cima. Funciona como uma longa estrada para alcançar o topo de um morro. A estrada vai contornando o morro de maneira suave e imperceptível, e de repente percebemos que já ultrapassamos as primeiras nuvens. Além disso, nada nos impede, estando numa Albedo, de retornar para a Nigredo; assim com, da Educação, retornar ao Esclarecimento. O importante é sabermos que por mais lento que seja o caminho ele é sempre para diante!

A Nigredo, o negro, já nos sugere a morte, a sombra, o pesado, o denso, o sofrimento. Foi isso que nos disse Jung quando falou da confissão no consultório do psicólogo. Contamos nossa vida, nossos segredos, nossos aborrecimentos, nossos sonhos não alcançados e, na maioria das vezes choramos como um bebê que está com fome e quer mamar ou lhe tiraram o brinquedo predileto. Ou seja, morremos para uma vida que não valia a pena ou que simplesmente passou (valia a pena talvez naquela época, agora já não vale mais). Nessa ocasião ficamos parados, inativos, deprimidos, sem ânimo, introvertidos, quietos e sentimos que algo se ‘dissolve’ em nós. Por mais angustiante que seja o processo, o importante é seguir o que ele recomenda: ficar quieto e adiar tudo o que for possível.
Quando estamos jogando nossos ‘conflitos psicológicos’ nos problemas exteriores, ou seja, no mundo em que vivemos; eles se sobrepõem e se confundem, numa mistura homogênea. Podemos usar a metáfora do ‘copo com água e álcool’; você olha para aquela substância branca e não sabe quem é quem. Daí, as decisões nessa fase da vida possuírem uma chance muito grande de dar errado. Devemos identificar os problemas que são nossos e separá-los dos problemas do mundo. Continuando na metáfora do ‘copo’; é preciso colorir a água para poder separá-la com mais facilidade do álcool.

Depois disso é como se o preto que é a ausência de todas as cores transformasse no branco que é a presença de todas as cores. Só que é o branco decomposto em todas as cores por uma espécie de ‘cristal‘ e essa pedra cristalina é muitas vezes o nosso analista, outras vezes um padre, um sacerdote, um velho amigo ou até o travesseiro. É por isso que alguns alquimistas pulam a fase da ‘cauda pavonis’ e vão da Nigredo para a Albedo. Mas como Jung colocou muito bem, após a confissão de seus temores mais profundos, o paciente fica esvaziado e se fixa na figura do psicólogo; esse fenômeno levou o nome complicado de ‘Transferência’ (até a psicologia imita a alquimia em matéria de nomes complicados). Como o nome já sugere, transferimos para a figura do analista as figuras interiores que antes estávamos jogando no pai, na mãe, no irmão, no vizinho, na namorada, no marido etc. Essa transferência precisa ser ‘esclarecida’ e discutida com o paciente para que ele entenda o que está acontecendo em sua alma ainda conturbada, embora já bastante aliviada com o auxílio da confissão.
Muitos alquimistas representaram o desmembramento do branco com o desmembramento do corpo humano. Acontece na realidade o desmembramento de nossa psique; mas temos que manter essa dissociação da nossa psique sob o controle do Ego. É para isto que ele possui as características e a função de um ‘complexo gerenciador’. Um gerente de uma grande fábrica não olha diretamente o que cada operário faz, não consegue saber o nome de todos os seus 5.000 funcionários; mas, com uma rápida análise dos seus gráficos de produção ele sabe de tudo que acontece no seu negócio e pode se concentrar no que julga importante no momento.

Após esta etapa, naturalmente vem o branco, a Albedo, a brancura, o clareamento, o entendimento, o conhecimento, uma certa tranqüilidade. É como se todas as cores do arco-íris se fundissem e nos mostrassem a beleza do branco, da paz, do espiritual. Deve ser por isso que se diz que no fim do arco-íris está um pote de ouro. O problema é que nunca encontramos o fim do arco-íris, mas na maioria das vezes o caminhar é o verdadeiro tesouro. Nesse estado de brancura nos educamos e nos inteiramos que existe uma vida nova que pode ser seguida e quando olhamos para trás, o esforço já não parece tão grande.
Lembremos que educação é repetição, porque para assimilar alguma coisa precisamos repetir, precisamos tirar todos os véus dos preconceitos, precisamos entender que os problemas estão dentro de nós, precisamos ver que o outro está ali também na sua busca. Precisamos até entender que muitos buscam o mesmo Deus que nós buscamos, só que por caminhos diferentes, mas geralmente, também chegam lá. Corremos um risco de achar que o nosso gerente, o Ego, é o maior gerente do mundo, pois está tocando uma fábrica de grande porte. Cuidado com a estagnação, o equilíbrio é sempre dinâmico e só o conflito nos faz crescer e quando não crescemos, caímos. É mais ou menos como andar de bicicleta, quanto mais rápido mais equilíbrio, o movimento nos mantém em linha reta. Vocês poderiam dizer que algumas pessoas ficam em pé em um bicicleta parada. Mas o lugar deles é no circo e perdem o objetivo da locomoção, que é o objetivo da vida.

Quando estamos nesse processo de uma certa calmaria, as coisas vão entrando nos eixos. Mas é hora, por incrível que pareça, de colocar paixão, fogo, ardor, vermelho, Rubedo. Aí conseguimos transformação transformar é ser o que já era, sem precisar fazer força para isso. É quando não roubamos o vizinho; não com medo da prisão, mas porque acreditamos que isso não é o correto. É quando não batemos no inimigo; não com medo do revide, mas quando temos compaixão por outro ser humano. Na transformação conseguimos um movimento com um mínimo de atrito. É quando nos aproximamos dos pólos; lá o movimento como um todo é o mesmo, mas, o deslocamento menor. Temos mais consciência de fazermos parte de um mundo, percebemos que somos dependentes de tudo e ao mesmo tempo tudo é impermanente. Só nos resta a essência da alma, algo dentro de nós que não morre nunca. Estes processos nos levam a essência da vida por um caminho relativamente suave. Não deixem de buscá-la, senão a dor pode vir para nos lembrar de tudo isso. Quem já sentiu uma dor muito forte sabe que naquela hora não conseguimos pensar em mais nada, só em acabar com ela. Tentem lembrar de tudo que pensaram na hora da dor, tanto física quanto espiritual e estarão perto do que é a essência.

Podemos imaginar então que o processo está todo concluído… Vamos descansar. Ledo engano, a transformação ocorreu sim, mas em parte do nosso ser. Temos de voltar a Nigredo e a Confissão, temos de passar pelas cores até o branco e, de novo inflados com o esplendor da luz, vamos mais uma vez nos inflamar para chegar às brasas, ao rubro, a Rubedo. Esta é a roda da vida e não pára nunca, nela vamos girar sem parar por muito tempo. Mas posso garantir: quem fizer um primeiro ciclo vai aceitar todo os outros com galhardia, força e abnegação e principalmente com pequenos momentos de felicidade.
 
Por Paulo C. de Souza