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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A violência e o sagrado - René Girard





Em Violência e o Sagrado, tradução brasileira do original La Violence et le Sacré, o antropólogo René Girard integra a sua teoria do desejo mimético anteriormente desenvolvida com seus estudos sobre o sacrifício ritual nas sociedades antigas, buscando desenvolver uma teoria compreensiva do sacrifício humano em tais sociedades.
Girard inicia o livro demonstrando o duplo aspecto das vítimas expiatórias. Elas são a um só tempo tratadas como seres sagrados e criminosos. Isto é assim porque representam nestas sociedades o papel de válvula de escape dos impulsos violentos acumulados no interior da mesma. Ela é vítima substitutiva: sobre ela seus verdugos despejam todo ódio e sede de violência que carregam, aliviando-se e livrando a sociedade de possíveis conflitos. Assim, para Girard, o sacrifício ritual, presente invariavelmente em todas as culturas primitivas e antigas, mesmo na Grécia clássica, contra vítimas humanas ou animais, tem uma significação real e não meramente simbólica, pois serve para ?apaziguar as violência intestinas e impedir a explosão de conflitos.?
Uma sociedade está sempre sujeita a uma escalada de violência devido ao círculo vicioso de represálias. Tal já foi observado por etnólogos em sociedades primitivas. O surgimento de uma violência incontrolável no interior de uma sociedade ocorre normalmente nos momentos da crise sacrificial, ou seja, quando os sacrifícios rituais já não mais atuam eficientemente como válvula de escape dos impulsos violentos.
Para Girard os ritos sacrificiais bem como os mitos que os narram simbolicamente representam a forma de uma sociedade reviver o seu acontecimento fundador, o sacrifício não mais ritual, mas real e espontâneo de uma vítima expiatória. Aqui insere-se a teoria do desejo mimético. Conforme nos conta Girard, com fortes argumentos e amplo embasamento documental, o desejo mimético ( o desejo de ter o bem do outro) é inerente à natureza humana. Os homens desejam o bem e o ser do próximo invariavelmente, o que terminará por gerar a rivalidade mimética. O detentor do bem quererá defendê-lo mas, ao mesmo tempo, estimulará o desejo do outro pois o fato de o seu bem ser também desejado por outrem potencializa o valor do mesmo. Quando um irromper com um gesto violento o outro imediatamente revidará também por impulso mimético e assim se iniciará o blood feud, um rosário interminável de represálias que somente terminará com o sacrifício de uma vítima expiatória que trará de volta a paz à sociedade.
Para Girard, toda sociedade primitiva em seus primórdios experimentou o evento de uma crise de violência generalizada que ameaçava a sua própria existência e que findou com o sacrifício de uma vítima escolhida arbitrariamente sobre a qual foram despejado todos os ódios e desejos de vingança, restaurando-se a paz social e fundando-se a própria sociedade politicamente organizada. Os mitos narrariam figuradamente aqueles eventos, e dentre os mitos, Girard inclui não apenas as narrativas mitológicas, mas a tragédia grega e mesmo o Antigo Testamento. Nestes textos, Girard descobre a descrição figurada parcial ou total da rivalidade mimética, da escalada de violência e do sacrifício de vítimas expiatórias. A análise e comparação destes textos, bem como os subsídios científicos trazidos pelos estudos etnológicos e antropológicos, compõem a metodologia através da qual Girard chega às conclusões de seu trabalho. Assim Girard explica o sentido oculto de muitos dos textos das culturas primitivas e antigas: eles representam simbolicamente os horríveis eventos fundadores da sociedade que terminam no sacrifício da vítima expiatória.

Os ritos sacrificiais são invariavelmente encontrados nas sociedades primitivas e antigas. É válido lembrar aqui o exemplo do pharmakós grego, um pária que era mantido cativo para ser sacrificado em épocas de grandes crises e catástrofes, mesmo naturais, como se sua morte pudesse eliminar a crise ou a catástrofe, tal como,no acontecimento fundador da sociedade, o sacrifício da primeira vítima expiatória eliminou uma grave crise de violência. 
O rito serve assim para manter viva a memória do acontecimento fundador e para servir como um despejo de impulsos violentos. 
Quando o rito já não mais desempenha a sua função, surge a crise sacrificial que é muito bem representada pelo mito de Caim e Abel. Abel sacrifica os primogênitos de seu rebanho, portanto tem uma válvula de escape. Caim já não a possui, por isso não contém seus impulsos violentes e, movido pelo desejo mimético ou inveja pelo amor que Deus tem pelo seu irmão, mata Abel.
Não apenas os ritos e os mitos são explicados por Girard através de suas teorias do desejo mimético e do sacrifício, mas inúmeros costumes primitivos como o uso de máscaras, a repulsa ao sangue menstrual e aos gêmeos, e muitas das proibições ou regras de direito primitivas. 
A teoria de Girard, cujos dois pilares são os conceitos de desejo mimético e de sacrifício de vítimas expiatórias, constitui assim uma verdadeira teoria antropológica e sociológica geral, compreensiva de muitos fenômenos sociais e humanos. Assim, as teorias de Girard nos ajudam a compreender problemas do nosso próprio tempo tais como o racismo, o anti-semitismo ou o aborto. Afinal, a perseguição por motivos de raça ou a luta pela liberação do aborto não seriam formas de ressuscitar o velho mecanismo sacrificial, elegendo novas vítimas expiatórias de nossos ódios intestinos.
Numa etapa posterior de seu trabalho, a partir da obra ? Das Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo?, Girard explica como o mecanismo dos sacrifícios rituais foi perdendo importância e sendo eliminado das sociedades ocidentais por força do judaísmo e do cristianismo.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A comunicação na construção do saber das Tradições Orais Afro-Brasileiras

por  Osvaldo Olavo O. Solera*

No início era o caos...

No vazio, a substância escura aglutina-se em um infinito ponto, em um instante-tempo o processo para, a energia concentrada naquele ponto emerge em uma grande explosão – o Big Bang.
Naquele momento, o Um se transforma em Três: o som, a luz e o movimento. Irrompe a vida, o vazio está agora limitado, surge o espaço, a forma, o sagrado torna-se plural.
Luz, Som e Movimento.
Essência, Substância e Existência. (ALVEYDRE, 1981, p. 52)
O som, o conhecimento e o reconhecimento da natureza, instauram a manifestação da vida, a criação do nome, os gestos que recuperam a origem, fruto da experiência do homem com a natureza que o cerca.

Símbolos e Mitos

Mircea Eliade[2] (2001, p. 14-15) define a experiência de hierofania como “algo de sagrado que se nos revela”. Afirma que os mitos, enquanto uma expressão do sagrado, narram uma história, que remete àquilo que os deuses, os seres divinos fizeram no começo dos tempos. Assim, “os mitos são narrativas que resgatam o início da existência de todas as coisas, isto é, revelam como tudo passou a existir.” (ELIADE, 2001, p. 82-85)
Para Jung (2002) essas narrativas representavam todo o material arquetípico, que se faz presente nas relações coletivas. Os mitos, para Jung (2008, p. 17), conduzem às fontes originárias, presentes no inconsciente coletivo.
Os arquétipos são “os elementos estruturais da psique inconsciente, formadores do mito. São certas estruturas das imagens primordiais da fantasia inconsciente coletivo e categorias do pensamento simbólico, que organizam as representações originadas de fora.(MIELIETINSKI, 1987, p. 69).
Os arquétipos possuem duas representações: são imagens, personagens, papéis a serem desempenhados; e representam o processo de individuação, fazendo-se representar também na consciência individual.
Surge assim o símbolo, como o modo ou meio de significar o “ente” ou “algo” enquanto finito. O termo símbolo, com origem no grego símbolon, ou simbolê designa um elemento representativo que “está em lugar de algo” (SANTOS, 2007), e que pode ser um objeto como um conceito ou idéia.
A grafia celeste ou escrita dos Orixás é um dos símbolos mais significativos da Umbanda. Segundo a Escola de Síntese, a grafia celeste ou escrita dos orixás pode ser didaticamente classificada nos seguintes sistemas (RIVAS, 2002):
1 – Mnemônico: É um sistema destinado a avivar a memória por meio de sinais.
2 – Ideográfico: É a representação gráfica de uma idéia. Os sinais representam uma qualidade ou função. Ex: Estrela – significa noite. Sol – o dia, a luz, a claridade.
3– Fonético: Caracteres representativos dos sons. Aqui entram também os caracteres onomatopaicos e que são a imitação do som de alguma coisa.

Tradição Oral

A Tradição Oral compõe-se de testemunhos transmitidos oralmente de geração em geração. A fala é sua característica particular e a sua maneira de transmissão. Devido à sua complexidade, uma definição que abranja todos os seus aspectos ainda está por ser compilada.
Um documento escrito é um objeto, um manuscrito. Mas um documento oral pode ser definido de diversas maneiras, pois um indivíduo pode interromper o seu testemunho, corrigir-se, recomeçar, enfatizar determinados aspectos (gestual, entonação da voz, expressão facial e corporal, canto, música), e, portanto, ressignificar. Por isso, a característica fundamental desta tradição é a constante mudança:

... as Religiões Afro-brasileiras são “formuladas” por intermédio da Tradição Oral, não por incapacidade ou falta de tecnologia, mas por entender que no conceito doutrinário, sua raiz se forma na mente em primeira instância, depois se consolida em linguagem escrita, obrigatoriamente transitando antes pela oralidade (... e no início era o Verbo, a oralidade). Ao optar pela oralidade, as Religiões Afro-brasileiras sinalizam que seus fundamentos são abertos, condizentes com os avanços espirituais do próprio ser humano. A Tradição, sua constante é a continua mudança, se não em seus aspectos estruturais, de cunho espiritual, todavia todo o mais é adaptável; permite releituras e ressignificados. (RIVAS NETO, 2010)

A transmissão oral é uma atitude diante da realidade e não a ausência de uma habilidade de expressão. A Tradição Oral desconcerta o historiador contemporâneo que, imerso em tão grande número de evidências escritas, vê-se obrigado a desenvolver técnicas de leitura rápida, pelo simples fato de bastar à compreensão a repetição dos mesmos dados em diversas mensagens.
A Tradição Oral requer um retorno contínuo à fonte, representada por um iniciador, que, por sua vez, representa uma linhagem ancestral, milenar. Uma sociedade oral reconhece na fala não apenas um meio de comunicação diária, mas também um meio de preservação da sabedoria dos ancestrais.
“A fala tende a ser polissêmica, com fatores organizacionais verbais e não verbais tais como a prosódia e a gestualidade, ao passo que a escrita depende mais essencialmente do canal verbal” (MARCUSHI, 1986, p. 42-43)
Na Tradição Oral criar ou dizer são sinônimos de fazer. Portanto, a palavra (Verbo) reveste-se de um poder misterioso, concretizado na força da ancestralidade daquele que o emite. Da mesma forma, o radical Kri no sânscrito significa ação/fazer e dele se derivou o termo latim Creare, a poesia deriva do grego Poiein, que também significa fazer/criar, o que faz daquele que a utiliza (poeta, iniciador), ao cantar ou falar, um co-produtor daquilo que é cantado ou falado.
Lévi Strauss (2005, p. 33) diz que os mitos narrados “nos revelam o indizível, são relações que transcendem a oposição entre o sensível e o inteligível, colocando-nos imediatamente no nível dos signos”.
A palavra (Verbo) se manifesta nos símbolos. 
O símbolo surge na Arte, através das harmonias, cores e sons que os artistas, ao observarem a natureza, sentem e expressam em suas criações.
A Filosofia interpreta seus códigos e abstrai da forma para chegar à essência.
A Ciência simboliza todos estes processos, compartimentando-os para interpretá-los e demonstrar as leis que regem os acontecimentos cósmicos.
Na Religião, podemos ver os símbolos nos ritos e liturgias, através das palavras que determinam, nos gestos que atraem, e nos sinais que fixam. Podemos ainda observá-los nas vestimentas, nos objetos, nas danças, nos cânticos e nos espaços destinados ao Sagrado.
Portanto, a Oralidade se apresenta na simbologia do gesto, da dança, do rito e da iniciação, por meio de toda a estrutura arquetípica existente no coletivo religioso.
As instituições hierarquizadas estabelecidas pela escrita (AhL al-Kitab = “povo do livro”) foram inicialmente construídas pela oralidade, e foram aos poucos perdendo essa característica. O Islamismo, o Judaísmo e o Cristianismo têm suas bases iniciais na força de suas palavras, que somente mais tarde foram registradas na escrita.
Os alfabetos foram construídos através do Som, do Número, da Cor e Forma, expressão do Ser Humano.
Podemos ver na Linguagem dos Pássaros (ATTAR, 1991) que “David e seus herdeiros” aprenderam que a palavra é antes de tudo, o BEM SUPREMO, o DOM que permite novamente ao homem o acesso aos estados superiores do SER, ou Estados Angélicos.
É de fato notável, em todas as tradições, a associação entre pássaros e Anjos. Não é senão com a finalidade de alcançar os estados angélicos, a realização espiritual, que se alude diretamente ao CANTO, à MÚSICA, ao RITMO e a sua expressão mais pura, o NÚMERO – todos os elementos que constituem a ciência primordial, que possibilitam ao homem compreender a si mesmo, ao mundo e as criaturas na proporcionalidade que mantém entre si e também com sua essência ou ORIGEM.
O conhecimento desta linguagem é indicativo de uma alta iniciação, e a fala ritmada é a sua expressão no mundo sensível. É este o motivo de todos os textos e escritos sagrados estarem calcados, vazados, no Metro e na Rima poética. O Corão, por exemplo, significa precisamente recitação. O Torá é recitado. Entre os gregos, a poesia era designada a linguagem dos deuses. Entre os Tibetanos, o mantra é cantado ininterruptamente para se atingir outros níveis de consciência. Entre os católicos, a missa era cantada em latim. E assim veremos que o canto, a música, o ritmo, a poesia são formas de expressar o sagrado.
Esta forma de transmissão do saber obedece, como dissemos anteriormente, a ciclos e ritmos, ou seja, o ritmo e o número.
A Raiz da palavra grega ARITHMOS para Número liga-se ao latim RITUS, envolvendo a idéia de ritmo. Primitivamente, Arithmos significava ajuste, arranjo, boa disposição, ordem (em latim ORDO, que equivale ao sânscrito RITA, que partilha da mesma raiz Arithmos). Quando Arithmos é traduzido por Número, este deve ser entendido não só como quantidade, mas também por harmonia, proporção e conjunto, ou seja, o Ritmo, quer traduzido espacialmente como na Arquitetura, quer nos Sons, como na Música. (ALVEYDRE, 1981)
Veremos também que no TRIVIUM – dialética, retórica, gramática – forma par com a do QUADRIVIUM – aritmética, geometria, música e astronomia - de natureza mais matemática (CAMARGO, 2007, p. 36). Desta forma, o grego ARITHMOS e o latim Númerus designam, em retórica, o Ritmo de um discurso, a frase ritmada. (BA, 1982, p. 186).

Numa obra, o ritmo vai transparecer naquilo que, numa escala fina, perpassa o fluxo das palavras e, além disso, no número de divisões ou destaques do conjunto. Assim, é freqüente que o esquema literário de um livro tradicional se prenda sistematicamente a um conjunto de números. No Evangelho de Mateus, por exemplo, o número 14 é central, pois é o equivalente numérico do nome de David (4 + 6 + 4). O evangelho é dividido em sete partes e possui 28 capítulos. A genealogia de Jesus Cristo, Filho de David, é apresentada em 3 x 28 gerações. (FRIAÇA, 1991)

No Ritmo, a contigüidade entre o Vazio e o Cheio é o que conta para a penetração do Sagrado, inaugurado no silêncio e entre um falar e outro. Assim, nas tradições orais, o contar uma história importante sempre se reveste de uma pulsação. Não se limita a um discurso, a uma exposição, mas toma a forma de recitação, de um canto:

Quando as musas abrem a Teogonia de Hesíodo, elas, as forças do cantar, pelo seu canto presentificam o mundo, in-vocam-no, chamam-no para si, permitindo que ele seja passível de admiração, ou seja, constituem o milagre primeiro, aquele da existência... (FRIAÇA, 1991)
A Voz (timbres, tons, línguas, entonações, respirações, melodia, ritmos, rimas, versos, dialetos, poemas, prosódia, ritos, expressões, coros, movimentos, pulsações, gestos, performances...) é o centro da Oralidade, e nela se encontra uma infinidade de expressões que nem sempre podem ser explicadas pela análise musicológica ocidental, nem mesmo apenas pelos fenômenos acústicos... (PUCCI, 2006, p. 1)

Espalhados por todo o planeta estão os inúmeros exemplos de diferentes tradições que utilizam a voz para a expressão do Sagrado:
. Mawaka (Nigéria): esta casta utiliza a voz como fonte de limpeza espiritual, e como instrumento de evocação dos espíritos.
. Indios Suya (Xingu): Com voz cadenciada, contam histórias de um tempo remoto.
. Monges Tibetanos: voz emitida em tons graves (strohbass) produzindo alteração do estado de consciência, com diminuição da freqüência das ondas cerebrais.
. Canto a Tenori (Sardenha): voz anasalada, utilizada para conduzir os rebanhos.
. Burundi: voz aerada, aspirada, utilizada para narrar épicos.
. Qawwali (Paquistão/Índia): É próprio de o Sufismo transformar poesia em música e oração, promovendo estados de iluminação. O termo qawwali é derivado da palavra qaol que significa axioma ou ditado. É anterior a Maomé, mas somente no tempo de Al-Gazali (1085-1111) que foi refinada e codificada, surgindo daí o Sufismo. (PUCCI, 2006, p. 6)
. Mulheres pigméias Bayaka (África Central): onomatopéia com os insetos da floresta.
. Hoomei (Mongólia/Sibéria/Tuva): Representa a tradição xamânica. A voz se reveste de um poder mágico.
O poeta russo Khlébnikov (1977) deixa explícito o valor da palavra para os Xamãs:

 Feitiços e encantamentos, a que damos o nome de palavras mágicas, a linguagem sagrada do paganismo, são ruídos de meras sílabas às quais o intelecto não consegue dar sentido, e elas formam um tipo de linguagem que transcende o sentido na fala usual. Todavia, um enorme poder sobre o ser humano é atribuído a esses encantamentos incompreensíveis, uma direta influência sobre o destino do homem. A magia de uma palavra se mantém mágica mesmo quando não compreendida e não perde nada do seu poder. (2002: eletrônico)

 ... Ao ouvir esses excertos sonoros de tantos povos e artistas diferentes, percebemos como o ser humano é capaz de preencher, com força plena, o espaço acústico da voz. E eu me pergunto: O que essas vozes têm em comum? O que elas têm de diferentes? Como elas dominam tão fortemente o espaço? Como atuam no imaginário coletivo? Às vezes se fazem presentes no âmbito religioso, às vezes nos ritos cotidianos, às vezes são palavras sem nenhum sentido lógico, apenas sons, fonemas e, às vezes, são textos milenares. Mas o fato é que todas essas vocalidades exercem um poder, sejam elas localizadas, nômades, virtuais, explícitas ou subliminares. São diferentes timbres, tessituras, registros, freqüências, nasalidades, guturalidades, e que nem sempre são consideradas corretas tecnicamente por fonoaudiólogos e pelos professores de canto ocidental. (PUCCI, 2006, p. 8)

Lévi-Strauss (2004) escreve que a relação do mito com a voz se faz presente num sentido cosmológico. O tempo é outro, o som é outro, e há uma necessidade de se desprender de um referencial lógico para se enveredar por esse universo mítico.
Jerome Rothenberg (2002: eletrônico) foi o responsável por acabar com a crença de que a poesia de povos ágrafos seria mais simples do que a poesia contemporânea. “O que se verifica de fato, é que essas formas poéticas consideradas exóticas têm estruturas complexas”. (PUCCI, 2006, p. 12)
Acácio Piedade afirma que “os limites entre a fala e o canto são bastante dissimulados, difíceis de definir, e a análise pautada pela terminologia musical-fono-acústica nem sempre é suficiente”. (PIEDADE, 1997, p. 200)
Os sons onomatopaicos que imitam animais (espíritos) entre os xamãs, têm o papel de dimensionar um outro espaço, um outro tempo na história. Ele tem o poder de suprimir o tempo do discurso, isto é, transcender a esfera da lógica temporal. (PUCCI, 2006, p. 12-3)

Para os Suruí, não há uma distinção entre a música e a narrativa, há uma expressão poética que se dá pela voz, não importa se falada ou cantada, se música ou narrativa. Ambas integram um sistema complexo de musicalidade, verbalidade e vocalidade, que formam as oralidades Suruí, responsáveis por garantir que a ancestral tradição se mantenha no trabalho da intrincada rede de parentesco. O som de uma palavra importa mais do que o seu significado lingüístico, cuja precisão semântica responde a um plano paralelo. (PUCCI, 2006, p. 15)

“A eficácia da voz não decorre de seu sentido imediato, mas de sua sonoridade, organizada em um espaço que garante o contrato social, a comunicação. Seria a sociedade organizando os discursos da voz, ou a própria voz que organiza a sociedade?” (SERRES, 2005, p. 225)      

Conclusão

Os ocidentais utilizam a expressão sem a invocação, não colocam alma nas palavras. Preferem, tal qual ilustra a Torre Babélica, a expressão por si só.
A Torre é dividida em andares, mostrando os planos de realidades que se encontram na Humanidade. Enquanto símbolo, a Torre remete para a estrutura íntima da realidade, estratificada, segundo os graus de existência que medem tantos passos quanto damos ao transpor a “porta de Deus” (do Acádico BAB-ilu)
O termo Babel em hebraico significa confusão (BBL) correspondendo em latim ao confusione linguarum. A Torre de Babel é o símbolo máximo da verticalidade destruída, pois se existem planos de realidade, existe também a comunicação entre estes, e quando esta é relegada, a própria hierarquia perde sua inteligibilidade. Instala-se assim a confusão (BBL). Portanto, o mito vela a verdade, que se refere à estratificação de castas/classes e à rigidez existente entre elas, dificultando o convívio e a interação, produzindo o caos social.
A Tradição Oral não possui amarrações, livros ou hierarquias estratificadas, e que podem sofrer enrijecimento conforme o trânsito entre os “andares”.
As linguagens dos pássaros bem como a tradição oral afro-brasileira passam de um lado a outro, tal qual o vôo dos pássaros, sem prisões, sem obstáculos.
A linguagem é do espírito, da essência e assim transita como o vento...


Referências Bibliográficas
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BA, A. H. A Tradição Viva. In: Historia Geral da África. Paris/São Paulo, UNESCO/Ática, 1982.
BARBIERI, J. C. Produção e transferência de tecnologia. São Paulo: Editora Ática, 1990.
CAMARGO, E. B. O pensamento musical e a prática docente: as demandas da contemporaneidade no ensino da música. Universidade de São Paulo: EDUSP, 2007.
ELIADE, M. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2001, 191 p.
FRIAÇA, Amâncio.  A Aritmologia da linguagem dos Pássaros. In: ATTAR, Farid ud-Din. A linguagem dos Pássaros. 2ª Edição. São Paulo: Attar Editorial, 1991. 275 p.
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LÉVI-STRAUSS. O cru e o cozido. São Paulo: Cosac & Naif, 2004b. Vol 1. (Coleção Mitológicas)
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MARCUSCHI, L. A. Análise da conversação. São Paulo: Ática, 1986. p. 42- 43.
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SERRES, Michel. Hominiscências – O começo de uma outra humanidade? São Paulo: Bertrand Brasil, 2005.




Bacharel em Teologia; especialista e Mestrando em Ciências da Religião pela PUC (Pontifícia Universitária Católica - PUC /SP).
[2] ELIADE, Mircéa. O Sagrado e o Profano, op. cit., p. 14-15.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Entendendo os conceitos de Arquétipo, Mito e Símbolo


Muitos termos empregados livremente pelo senso comum possuem uma origem acadêmica, ou seja, são conceitos desenvolvidos dentro de disciplinas formais a partir de uma perspectiva “científica”. Por essa mesma razão, esses conceitos possuem delimitações muito claras quanto ao seu emprego e significado. Alguns dos conceitos psicológicos mais utilizados vulgarmente são os de Arquétipo, Símbolo e Mito.Símbolo e Mito são conceitos empregados em várias disciplinas acadêmicas como Antropologia, Filosofia, História, Sociologia, etc.

Na Psicologia os conceitos de Símbolo e Mito recebem determinações e explicações diferentes em função da abordagem teórica. Mas, em geral, o uso (muitas vezes indevido e deturpado) que se faz desses conceitos no senso comum, deriva das interpretações dadas pela Psicologia. Em particular, essa apropriação pelo senso comum das interpretações psicológicas dos conceitos deSímbolo e Mito, quase sempre remetem à Psicologia Analítica criada pelo psiquiatra suiço Carl Gustav Jung (1875-1961). Isso se dá em especial, pelo fato dos conceitos de Símbolo e Mito estarem na maioria das vezes associados ao deArquétipo, esse sim criado pelo próprio Jung. Tais conceitos são tomados como recurso auxiliar de explicação da experiência subjetiva humana nas mais diversas formas, mas poucas vezes atribuem-lhes o sentido original em que foram concebidos por Jung.

Então para que possamos entender do que tratam esses conceitos numa perspectiva junguiana,  é bom partirmos do raciocínio que permitiu a elaboração dos mesmos.

Começando pelo Arquétipo. Imagine-se como um(a) integrante de um dos primeiros grupos de humanos sobre a Terra: 70% do que você come, do que te mantém vivo, inclusive a água vem da terra, a coleta de raízes e frutos vem especialmente das florestas. Quanto aos outros 30% da sua alimentação que é a caça, também vem indiretamente da terra. Todos os animais precisam de água, além do que, os animais carnívoros se alimentam em grande parte de animais herbívoros que se alimentam de vegetais (como nós dos bois e os leões dos cervos). Além do alimento os animais também podem te conferir abrigo e aquecimento através de suas peles. Os animais também podem te oferecer adornos e enfeites por meio de suas penas, chifres e ossos e com isso você pode se tornar mais atraente e garantir a conquista de parceiros e a reprodução/sobrevivência da espécie humana. Logo, podemos ver que o ciclo da vida está intimamente ligado a terra.

Agora, imagine que uma mulher do seu grupo pré-histórico deu a luz! Bom, para começar o nascimento da criança foi anunciado pela água (o estouro da bolsa), ao nascer a criança é alimentada no seio da própria mãe, cujo corpo também mantém a criança aquecida. Ora, você pensa: “a mulher é tal e qual a terra, ela dá a vida. A mulher provê alimento, água, aquecimento e proteção para seu filho, da mesma forma que a terra faz conosco”. A associação é imediata e faz todo sentido, não é mesmo?! Pois bem, aqui temos configurado o Arquétipo da Mãe!! Ou seja: a idéia/imagem/vivencia/experiência de que há uma fonte nutridora e protetora que nos garante a vida é representada por esse Arquétipo.

Tudo o que se relacionar a vida, seu surgimento e recursos para sua manutenção, se encontrará representado por imagens representativas desseArquétipo. Sendo assim: a Floresta, a Água, a Terra, a Mulher em idade reprodutiva, grávida e em aleitamento e tudo o mais que você possa usar para expressar a idéia de Terra-vida serão Símbolos do Arquétipo da Mãe. Nesse sentido os Arquétipos seriam a matéria-prima psíquica e afetiva através da qual nossos antepassados atribuíram significado à experiência humana de interação com o mundo, experiência essa cujas raízes remetem a condição biológica da própria espécie. O Arquétipo então, seria a matriz, a fonte, que coordena a formação dos elementos que estruturam a nossa psiquê, os Símbolos.

Dessa forma, o Símbolo não é uma criação literária ou uma invenção pessoal, mas uma propriedade subjetiva da condição humana e todo pensamento e toda ação consciente que temos, seria uma conseqüência do processo inconsciente de simbolização de um evento vivido. Por essa razão o Símbolo é o veículo de comunicação entre a psique individual e o inconsciente coletivo – entre o inconsciente e o consciente – aonde os Arquétipos ganham forma.

Bom, mas ai você e o seu grupo pré-histórico ainda não conhecem a escrita, não há como vocês registrarem essa grande descoberta que vocês fizeram sobre a ligação entre a Terra, a Mulher e a Vida. E embora essa experiência esteja simbolizada ao nível do inconsciente, vocês não têm consciência disso. Em especial, porquê é característica do Símbolo que sua vivência se expresse por meio de um pressentimento, um sentimento, um sentido, algo afetivo que nos revela um significado que antes era desconhecido. É o símbolo que nos orienta para conteúdos psíquicos desconhecidos, levando-nos assim ao encontro dos Arquétipos que habitam no inconsciente.

Então o que vocês fazem para assegurar que esse conhecimento do mundo e da vida seja transmitido aos seus descendentes? Vocês contam estórias!

Para quem não conhece a Biologia e os mecanismos genéticos de reprodução, a vida pode ser vista unicamente como um acontecimento mágico e divino. Logo, esse acontecimento mágico é com certeza presidido por uma Deusa e por um Deus – assim como o nosso nascimento é presidido pelo encontro entre um macho e uma fêmea. Com esse conhecimento adquirido, as estórias do seu grupo pré-histórico vão ganhando um colorido todo especial, elas se desenvolvem a partir da percepção da presença divina em suas vidas – ou seja, da presença de algo que transcende a capacidade humana de explicar os fenômenos vivenciados pelo grupo. Então, as histórias contadas por você e seu grupo são estórias da vida dos deuses, mais do que isso, são estórias que falam da presença dos deuses e do mundo sobrenatural em nossas vidas, essas estórias são os Mitos.

Os Mitos são relatos expressivos de tempos imemoriais, de acontecimentos, vivências e fenômenos cuja origem se perde na memória da humanidade.

Com sua narrativa simbólica os Mitos contam estórias de um tempo em que não havia História, um tempo em que a experiência humana não podia ser registrada pela escrita ou pela fotografia. O tempo histórico do Mito é o tempo da luta humana para fixar-se como espécie sobre a face da terra e por isso mesmo um tempo heróico e fabuloso em que as forças da natureza ora eram vistas como ameaças devastadoras, ora eram vistas como recursos essenciais à sobrevivência do ser humano. Essas forças indomáveis do mundo natural tinham para nossos ancestrais a invencibilidade do sobrenatural, ou seja, daquilo que se sobrepõe à própria natureza e que é maior e melhor do que ela e, por isso mesmo, a única coisa capaz de gerá-la e expressá-la: os deuses.

O impulso de nossos ancestrais para criar Mitos, é a ação na qual todas as relações entre o ser humano e o mundo ganham sentido e assim o que antes não tinha significado passa a ter.

Segundo Jung, os Arquétipos: “não são idéias herdadas, mas possibilidades herdadas”. Sendo assim, os Arquétipos não seriam determinados quanto ao seu conteúdo mas apenas quanto à sua forma. Logo, já que o Mito é mais que apenas uma recordação ancestral de situações naturais e culturais, ou uma elaboração fantasiosa sobre fatos reais, eles seriam uma expressão simbólica dos sentimentos e atitudes inconscientes de um povo. E a medida que a humanidade vai passando por novas experiências, adquire novos conhecimentos e novas habilidades, os Mitos se transformam e novos Símbolospassam a exprimir as imagens contidas no Arquétipo primordial. Com o advento da agricultura, por exemplo, os grupos humanos descobriram que era possível “manipular” a terra, tratá-la e cuidar de forma que ela nos respondesse com mais e mais frutos. Mitos como o de Deméter, uma das principais representações do Arquétipo da Mãe, são típicos de uma sociedade agrícola.

Outros Mitos representativos da Mãe, como Hécate por exemplo, falam de um outro aspecto da descoberta da possibilidade de “manipulação” da terra que é a Magia. Em sociedades primitivas como a dos Bosquímanos do Kalahari na África, que são sociedades essencialmente de coletores-caçadores, a Magia não tem a força que tem nas sociedades agrícolas. Ora, a agricultura traz em si a idéia de que é possível “negociar” com a Terra (Deusa-Mãe), pela obtenção de seus frutos, é possível agradá-la! E o que é a Magia, se não uma “negociação” com os deuses para obtermos os seus frutos.

Os antigos gregos invocavam Afrodite – oferecendo-lhe os elementos por ela presididos – a rosa e o perfume (a semelhança dos ritos a Iemanjá afro-brasileira) – para dela obter beleza e amor. Invocava-se Ares oferecendo-lhe carneiros em sacrifício, para dele obter energia, iniciativa, coragem, etc., atributos desse deus. Nas comunidades agrícolas do interior de países cristãos como o Brasil, as moças casadoiras aprisionam a imagem do Santo Antônio para que ele lhes provenha um marido e garanta assim a própria libertação. Na aridez do sertão, procissões de flagelados pela sêca seguem carregando pesadas imagens santas e se comprometendo com novenas e missas para obter chuva. Nos templos neo-pentecostais das cidades brasileiras, multidões de fiéis bezuntam-se em óleos e purificam-se com fogo e sal grosso na crença de invocarem a proteção do espírito santo, enquanto deixam como oferenda seus salários e últimos trocados. A jovem estudante universitária adentra uma loja de produtos esotéricos e compra um incenso que, na visão dela, trará a harmonia dos elementais do ar ao ser aceso em sua casa…

…Do ponto de vista psicológico, todas as atitudes descritas acima pautam-se no pensamento mágico, cuja origem histórica nos remete a descoberta da agricultura pela humanidade e sua consequente descoberta de poder cuidar/agradar a terra (os deuses), e com ela poder negociar para garantir a própria sobrevivência. Os frutos que queremos dos deuses pode ser uma boa colheita ou mais intuição, proteção ou cura, um marido ou dinheiro, e para isso nos pomos a “agradá-los” e com isso tentamos “negociar”.
É importante que todos entendamos bem uma coisa: os antigos caçadores possuíam suas formas de reverenciar divindades, mas quando se fala na associação entre Magia e sociedade agrícola, estamos falando da elaboração de rituais complexos, de estabelecer hierarquias de culto com figuras sacerdotais, etc., estamos falando da prática mágica como sistema de culto religioso ou similar. Isso é característico do período de surgimento das sociedades agrícolas e aparentemente está muito ligado à descoberta de que é possível “negociar” com a terra, que é a idéia básica do processo agrícola. As mudanças culturais e históricas mudam o perfil dos Mitos, de uma certa forma isso é um processo inconsciente que ocorre para que possamos continuar acessando o Arquétipo no nosso imaginário de forma a permitir que símbolos antes desconhecidos continuem a dar significado às experiências vividas e a ordenar o conteúdo de nossa psiquê.

Através do Mito trazemos a divindade para junto de nós, simbolizamos a força desafiadora da natureza representada pelos deuses em estórias nas quais a estabilidade do universo está atrelada à própria origem e manutenção da vida. Por meio dos Mitos percorremos o caminho simbólico que nos dá acesso ao conteúdo arquetípico em nossa psiquê e que expressa os anseios humanos de transcender os desafios da sobrevivência cotidiana que são da ordem da natureza/biologia. Adentrar o plano sobrenatural – esse espaço simbólico que suplanta a invencibilidade das necessidades impostas ao homem pelo mundo natural/biológico – é aproximar-se do divino, é partilhar com os deuses de sua capacidade criadora que não apenas desafia as forças da natureza como é sua própria fonte geradora.

Quando um ser humano realiza um grande feito, quando ele se iguala aos deuses, é porquê ele superou as adversidades de sua própria condição humana ao enfrentá-las bravamente, e quando isso acontece ele se torna uma Lenda! Se o Mito é a narrativa simbólica de como os deuses atuam no mundo e dão origem a toda vida a partir de sua própria gênese; a Lenda (e também os Contos de Fadas), narra os caminhos percorridos pelo humano para superar sua condição de origem animal e assemelhar-se ao divino.

Tanto o Mito quanto a Lenda oferecem recursos simbólicos de acesso a psiquê mais profunda (Inconsciente Coletivo) e ao mundo arquetípico. A Lenda porquê nos lembra de nossa condição animal (biológica/mortal/limitada), e do papel dos instintos nas nossas relações com a natureza. O Mito por não nos deixar esquecer de nossa capacidade criativa que dá significado ao mundo e celebra o que há de divino em nós. Mito e Lenda, tanto um quanto a outra nos colocam em contato com os conteúdos do Inconsciente Coletivo, o espaço imaginário em que os Símbolos ganham vida pela soma dos instintos biológicos e de seus correlatos psicológicos, os Arquétipos.


*Angelita Viana Corrêa Scárdua é Psicóloga Clínica; Mestre em Psicologia Social pela USP (SP); Especialista em Abordagem Junguiana; em Neurociências e Comportamento e Professora Universitária.

Arquétipo e Representações Arquetípicas

 O Jardim das Delícias Terrenas de Hieronymus Bosch 
Arquétipo é um dos principais conceitos junguianos. Entretanto, freqüentemente vemos grandes confusões feitas com esse conceito. Assim, vou tentar apresentar a forma como pessoalmente compreendo a idéia de arquétipo, discutindo um pouco da teoria para torná-lo mais claro.
Arquétipo : O termo
O termo arquétipo foi utilizado por Jung pela primeira vez em 1919, em Londres, num simpósio intitulado “Instinto e Inconsciente”. O termo arquétipo já era conhecido da filosofia e, suas origens, poderiam remontar até Platão. Essa relação histórica com o Platonismo gerou um preconceito em relação a concepção de Jung. Em sua etimologia, o termo arquétipo é formado pelo termoarkhé, oriundo do grego, que significaria primeiro, antigo, regente, dominante, original; e typos, também oriundo do grego, que significaria marca, impressão, molde ou modelo. Desde modo, o termo arquétipo exprimiria a idéia de um molde, marca ou modelo original.
Arquétipo na Psicologia Analítica
Apesar do termo só ter sido introduzido em 1919, a idéia de arquétipo já estava presente nas publicações de 1912, onde Jung relatava seus estudos acerca das “imagens primordiais”, imagens que se manifestam na psique e que poderíamos observar uma relação com a mitologia. Por volta, de 1917, Jung começa a se referir dominantes do inconsciente coletivo.
Num primeiro momento, Jung relaciona ou mesmo justifica a teoria dos arquétipos considerando a teoria da evolução. Deve-se notar quem em 1912, por ocasião de palestras no EUA, Jung visitou manicômios destinados aos negros, para pode estudar os sonhos e delírios desses pacientes, o que ele pode notar era que os conteúdos eram semelhantes aos de seus pacientes na Suiça e, alguns delírios e percebeu claro paralelo com a mitologia grega.
Para Jung,  a universalidade dessas representações psíquicas estavam relacionadas com a história do homem. Segundo ele,
Assim como o corpo humano representa todo um museu de órgãos com uma longa história evolutiva, devemos esperar que o espírito também esteja assim organizado, em vez de ser um produto sem história. Por “história” não entendo aqui o fato de nosso espírito se construir por meio de tradições inconscientes (por meio da linguagem etc.), mas entendo antes sua evolução biológica, pré-histórica e inconsciente no homem arcaico, cuja psique ainda era semelhante à dos animais. Esta psique primitiva constitui o fundamento de nosso espírito, assim como nossa estrutura corporal se baseia na anatomia geral dos animais mamíferos. (JUNG, 2000a, p. 229-230)
Isso implica em dizer que os arquétipos não estão relacionados a nada metafísico, mas, sim são expressões do processo evolutivo, quem imprimiram padrões de basais de organização do psiquismo.  Esses padrões basais podemos reconhecer nos animais como instintos. Os arquétipos, seriam
(…) instintos centralmente representados, ou seja, que se manifestam como imagens. Os arquétipos só tomam a forma de imagens onde a consciência está presente; noutros termos, o auto-retrato configurado dos instintos é um processo psíquico de ordem superior. Pressupõe um órgão capaz de perceber essas imagens primordiais. (NEUMANN, 1995, p.215).
A referencia a imagens, num primeiro momento, podemos pensar nas imagens dos sonhos, as imagens em alucinações de pacientes psicóticos. Entretanto, devemos compreender que essas imagens (sonhos e alucinações) são representações visuais que atingem a consciência. É fundamental que compreendamos para Jung,  IMAGENS são REPRESENTAÇÕES, não apenas visualizações. As imagens arquetípicas, que prefiro chamar de representações arquetípicas, pode ser cinestésicas, assim sentidas no corpo, a analise bioenergética nos propicia uma percepção clara disso, pois, p.ex., através um dado exercício, é possível acessar o mesmo conteúdo emocional em indivíduos de diferentes culturas ou diferentes lugares do mundo. Ou seja, através de um movimento compatível com a dinâmica própria do arquétipo é possível ativa-lo ou ativar sua representação na esfera pessoal, essa pode se manifestar como imagens (sonhos, visões), sensações cinestésicas ou emoções/lembranças.
De forma geral, quando o arquétipo isto é, um padrão de organização psíquica basal, é ativado ele vai mobilizar  o individuo por inteiro, modificando a forma do individuo perceber ou reagir à realidade, isso porque sua força ou energia tende a engolfar o ego.
Assim, compreendo que o arquétipo é um padrão basal de organização psíquica, assim, o psiquismo se organiza em torno desses padrões, fazendo com que todos os indivíduos em toda parte tenham uma organização psíquica semelhante. Deste modo, falar em arquétipo significa reconhecer que temos uma predisposição a determinados comportamentos, assim como a predisposição a aprendizagem. Deve-se notar que essas predisposições são comuns a toda humanidade. Esses padrões vão assumir a forma da cultura em que o individuo se encontra(mas, sua essência permanece a mesma em toda cultura). Como por exemplo, a maternagem, ela se manifesta em todas as culturas e se caracteriza essencialmente pelo cuidado e nutrição da prole, contudo, o tempo e a forma como a mãe vai cuidar e nutrir de seus filhos, depende da cultura onde está inserida.
Há tantos arquétipos quantas situações típicas na vida. Intermináveis repetições imprimiram essas experiências na constituição psíquica, não sob a forma de imagens preenchidas de um conteúdo, mas precipuamente apenas formas sem conteúdo, representando a mera possibilidade de um determinado tipo percepção e ação. Quando ocorre na vida algo que corresponde a um arquétipo, este é ativado e surge uma compulsão que se impõe a modo de uma reação instintiva contra toda razão e vontade, ou produz um conflito de dimensões eventualmente patológicas. Isto é, uma neurose. (JUNG, 2000b, p.58).
Representações arquetípicas
Segundo Jung, seria provável que a verdadeira natureza do arquétipo é incapaz de tornar-se consciente, quer dizer, é transcendente, razão pela qual eu a chamo de psicóide. Além disto, qualquer arquétipo torna-se consciente a partir do momento em que é representado, e por esta razão difere, de maneira que não é possível determinar, daquilo que deu origem a essa representação (JUNG, 2000c, p77). Como podemos ver, o arquétipo não pode se tornar consciente por ser psicóide (isto é, quase psíquico, o arquétipo esta na zona limítrofe entre o físico e psíquico, por isso transcendente). Conforme disse acima, as chamadas “imagens arquetípicas” são “representações” do arquétipo. Para evitar confusões, prefiro me referir às manifestações do arquétipo apenas como “Representações arquetípicas”. Compreendo como as principais formações arquetípicas:

1 – Complexos : Os complexos de tonalidade afetiva ou complexos ideoafetivos são agrupamentos de ideias, pensamentos, imagens em torno de um núcleo arquetípico. Os complexos são como atualizações dos arquétipos na vida pessoal. Como dissemos, os arquétipos são padrões de organização psíquica, assim, as experiências individuais que possuem afinidade com um padrão arquetípico são atraídas e formam um conglomerado, que organizam e orientam nossas memórias de lembranças vividas, assim como orientam a percepção das experiências. Através dos complexos podemos apreender as dinâmicas arquetípicas e como elas organizam e orientam nossa vida.

2 – Símbolos culturais: Chamo de símbolos culturais todos os elementos que se mantém como referencia da cultura. Como os contos de fadas, mitos, provérbios, imagens, monumentos que expressam a dinâmica arquetípica. Segundo Jung,”o arquétipo é sempre uma espécie de drama sintetizado” (EVENS, 1973, p. 55), por isso, muitas das narrativas mítico-religiosas nos afeta, assim como as obras de arte que expressam um cena ou situação que similar a padrão arquetípico. Os símbolos culturais são importantes pois, servem de referencia para a constelação dos arquétipos em nossa vivência pessoal.

3 – Símbolos pessoais:  Os símbolos pessoais são formações que eclodem do inconsciente, intimamente relacionado com o momento do qual um individuo vive. Esses símbolos podem ser situações, pessoas, locais, lembranças, musicas, enfim, qualquer coisa que tenha uma similaridade arquetípica ou que sobre ao qual o arquétipo inconsciente tenha se projetado. O símbolo pessoal tem o objetivo de  possibilitar a passagem de energia do inconsciente para a consciência, com a finalidade de organizar e/ou dar um direcionamento ao Ego.

EVANS,R.Entrevistas com Jung e as Reações de Ernest Jones.Rio de janeiro:eldorado,1973.
NEUMANN, E. História da Origem da Consciência, São Paulo: Cultrix Editora, 1995
JUNG, C.G. Vida Simbólica Vol. I, Vozes, 2ª Ed., Petrópolis, RJ, 2000a.
JUNG, C.G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Vozes, Petrópolis, RJ, 2000b.
JUNG, C.G.Natureza da Psique, Vozes, Petrópolis, RJ, 2000
Fabricio Fonseca Moraes é Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana (UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES).