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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Carta de Saint Yves D'Alveydre a Papus.


Meu querido amigo,
tenho um grande prazer em responder a vossa excelente carta. Não tenho nada que acrescentar a vosso notável livro sobre a Cabala judaica. Pode ser classificado entre os de primeira linha pela eminente e merecida apreciação feita pelo saudoso Sr. Frank, do Instituto, o homem mais capacitado a tecer um juízo sobre esse tema.
Vossa obra completa a dele, não somente quanto à erudição mas também na bibliografia e na exegese dessa tradição especial, e, mais uma vez, crio este livro definitivo. Mas, sabendo meu respeito pela tradição e, ao mesmo tempo, minha necessidade de universalidade e de verificação por todos os processos dos métodos atuais, conhecendo, além do mais, o resultado dos meus trabalhos, não deveis temer que eu venha a ampliar o tema, e, ao contrário quereis pedi-lo.
Não aceitei até agora devido ao benefício que pode trazer ao inventário dos livros sobre a Cabala judaica, apesar do seu interesse.
Porém, uma vez feito o inventário, as minhas pesquisas pessoais encaminharam-se para a universalidade anterior, de onde procedem esses documentos arqueológicos, desde o começo, bem como as leis que puderam provocar esses feitos do espírito humano.
Para os judeus, a Cabala provém dos caldeus, elaborada por Daniel e Esdras.
Entre os israelitas anteriores à dispersão das dez tribos não judias, a Cabala provinha dos egípcios, composta por Moisés.
Tanto para os caldeus como para os egípcios, a Cabala formava parte do que todas as Universidades metropolitanas chamavam de Sabedoria, isto é, a síntese das Ciências e das artes reintegradas ao seu Princípio comum. Esse Princípio era a Palavra do Verbo.
Um precioso testemunho da antigüidade patriarcal pré-mosaica confirma essa sabedoria perdida ou transformada aproximadamente 3.000 anos antes de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esse testemunho é Jó, e a antigüidade desse livro é autologicamente confirmada pela posição das constelações que ele menciona: "Que foi da Sabedoria, onde, pois, está?", disse esse Santo patriarca.
Em Moisés, a perda da unidade anterior e o desmembramento da sabedoria patriarcal são indicados com o nome de divisão da línguas e época de Nimroud. 

Essa época caldéia corresponde à época de Jó.
Outro testemunho da antigüidade patriarcal é o Brahmanismo. Ele conservou todas as tradições do passado, superpostas com os diferentes acontecimentos geológicos da Terra. Todos os que o estudaram do ponto de vista moderno ficaram surpreendidos pela riqueza de seus documentos e a impossibilidade de uma classificação mais satisfatória, tanto do ponto de vista cronológico como do científico. Suas divisões em seitas bramânicas, vishnavistas, sivaistas, por não falar mais daquelas, contribuíram da mesma forma para essa confusão.
Não é menos certo que os brámanes do Nepal remontam ao começo da época do Kaly-Yuga, à ruptura da antiga universalidade e à unidade primordial de ensino.
Essa síntese primitiva levava, muito antes do nome de Brahma, o de Isvha-Ra, Jesus Rei: Jesus Rex Patriarcarum, contam as nossas letanias.
É a essa síntese primordial que São João faz alusão no início de seu Evangelho; porém, os brámanes estão longe de duvidar que seu Isoua-Ra seja nosso Jesus, Rei do Universo, como Verbo Criador e Princípio da Palavra Humana. Sem isso, seriam todos cristãos.
O esquecimento da Sabedoria Patriarcal de Isvha-Ra data da época de Krishna, o fundador do Brahmanismo e de sua Trimurti. Aí também existe concordância entre os brámanes, Jó e Moisés, tanto quanto aos fatos como à época.
Desde esse tempo babélico, nenhum povo, nenhuma Universidade, tem possuído mais do que restos de pequenos fragmentos da velha Universidade dos Conhecimentos divinos, humanos e naturais, reduzidos a seu princípio: o Verbo Jesus. Santo Agostinho define como Religio Vera essa síntese Primordial do Verbo.
A Cabala dos Rabinos, relativamente de redação recente, era conhecida do começo ao fim pelos adeptos judeus, em suas fontes escritas ou orais, no primeiro século de nossa era. Certamente não havia segredos para um homem de valor da ciência de Gamaliel. Porém, não os havia também para seu primeiro e proeminente discípulo, São Paulo, que se tornou o apóstolo do Cristo Ressuscitado.
 
Vejamos agora o que diz São Paulo na sua Primeira Epístola aos Corintios, capítulo 2, 

versículos 6-8:
"Predicamos a sabedoria aos perfeitos, não a sabedoria deste mundo, nem dos principais deste mundo, que se destroem; mas, predicamos a sabedoria de Deus, encerrada em seus Mistérios; sabedoria que havia permanecido oculta, que Deus, antes de todos os séculos, havia predestinado e preparado para a nossa glória; 
que nenhum dos primeiros deste mundo a tem conhecido; pois se a tivessem conhecido, nunca teriam crucificado ao Senhor da Glória."
Essas palavras são pesadas em quilates como o ouro e os diamantes, e não existe uma só dentre elas que não seja infinitamente precisa e preciosa. Elas proclamam a insuficiência da Cabala judaica. Antes de tudo, verifiquemos a origem do termo Cabala: ele tem dois sentidos de acordo com a forma em que é escrito, conforme os judeus. Se o escrevemos com Q, isto é, adotando a vigésima letra do alfabeto assírio, a que corresponde ao número 100, ou com a letra C, a décima primeira letra do mesmo alfabeto, que corresponde ao número 20.
No primeiro caso, o nome significa transmissão, tradição, e a coisa fica assim indecisa, pois, tanto vale o transmissor quanto a transmissão; tanto vale o traditivo quanto vale a tradição.
Acreditamos que os judeus nos transmitiram bastante fielmente o que receberam de seus sábios em sua escrita caldéia original, e que foi refundido nos livros anteriores por Esdras, guiado pelo Grande Mestre Daniel, da Universidade dos magos de Caldéia. Mas do ponto de vista científico, isso não amplia muito a questão, que foi recuando no tempo por meio do levantamento dos documentos assírios, e assim subseqüentemente até chegar à fonte primordial.
No segundo caso, Ca-Ba-Lá, significa a potência das XXII letras, CaBa, já que C = 20 e B = 2.
Mas, então, a questão é resolvida exatamente, pois se trata do caráter científico determinado pelos antigos patriarcas ancestrais para os alfabetos de vinte e duas letras numerais.
Temos que considerar esses alfabetos como um monopólio das raças chamadas semitas? Talvez seja realmente um monopólio, ou muito pelo contrário.
Segundo as minhas pesquisas sobre os antigos alfabetos da Ca-ba-Lá, de XXII letras, o mais oculto, o mais secreto, que me serviu de protótipo não tão-somente para todos os outros do mesmo gênero mas também aos signos védicos e às letras sânscritas, trata-se do alfabeto ário. É aquele alfabeto que fui feliz em transmitir e que obtive de eminentes bramanes, os quais nunca, nem em sonho, exigiram-me guardar segredo dele.



Esse alfabeto se distingue dos outros chamados semitas porque suas letras são morfológicas, isto é farlantes exatamente pelas suas formas, o que o transforma num alfabeto absolutamente único. Mais ainda, um estudo cuidadoso me levou a descobrir que as mesmas letras são o protótipo dos signos zodiacais e planetários, o que é também de máxima importância.
Os bramanes chamam a esse alfabeto de vattan; e parece que se remonta à primeira raça humana, pois, pelas suas cinco formas matrizes, rigorosamente geométricas, confirma ele mesmo: Adão, Eva e Adamah.
Moisés parece apontá-lo no versículo 19 do capítulo II de seu Sepher Bereshit. Mais ainda, esse alfabeto se escreve de baixo para cima, e suas letras se agrupam de tal maneira que formam imagens morfológicas falantes. Escrevem-no da esquerda para a direita e de cima para baixo.
 Por todas as razões precedentes, esse alfabeto protótipo de todos os Kaba-Lim pertence à raça ária. Não podemos continuar a denominar com o nome de semitas os alfabetos desse gênero, pois não são o monopólio das raças que se denomina assim, com razão ou erradamente.
E possível, e deve-se, chamar esses alfabetos de esquemáticos. Agora, bem, o esquema não significa somente signos da palavra, mas também signos da glória. Esses alfabetos existem também em outras línguas, como o eslavo; assim, por exemplo, a etimologia do termo eslavo é slovo e slava, que significam palavra e glória.
Esses sentidos nos conduzem a significados muito altos. O sânscrito costuma corroborar essa elevação. Sama, que encontramos também nas línguas de origem celta, significa similar, identidade, proporcionalidade, equivalência, etc.
O termo Cabala, tal como o compreendemos, significa o Alfabeto das XXII Potências, ou a Potência das XXII letras desse alfabeto. Esse tipo de alfabeto tem um protótipo ário ou jafético, que pode ser designado, certamente por direito, com o nome de Alfabeto da Palavra ou da Glória.
Palavra e Glória! Por que estes dois termos estão relacionados em duas línguas antigas tão distantes uma da outra como o eslavo e o caldeu? Isso é sustentado por uma constituição primordial do espírito humano, em um Princípio comum ao mesmo tempo científico e religioso: o Verbo, a Palavra cosmológica e seus equivalentes.
Jesus, em sua última oração tão misteriosa, lança nisso, como em tudo, uma luz esclarecedora sobre o mistério histórico que nos ocupa agora:
"Oh Pai! coroa-me com a glória que tive antes de que este mundo fosse!"
O Verbo Encarnado faz alusão, com isso, à Sua Obra, à Sua Criação direta como Verbo Criador.
Criação designada com o nome de Mundo divino e eterno da Glória, protótipo do mundo astral e temporal, criado pelos Alahim sobre este modelo incorruptível.
Que o Princípio Criador seja o Verbo, a antigüidade não possui sobre este ponto mais que uma voz unânime. Falar e criar são, aqui, o sinônimo de todas as línguas.
Entre os brâmanes, os documentos anteriores ao culto de Brahma apresentam a ISOu-ra, Jesus Rei, como Verbo Criador.
Entre os egípcios, os livros de Hermes Trismegisto dizem a mesma coisa, e OShI-Ri é Jesus Rei, lido da direita para a esquerda.
Entre os trácios, Orfeu, iniciado nos Mistérios do Egito pela mesma época que Moisés, escreveu um livro intitulado "O Verbo Divino". Enquanto para Moisés, o Princípio é o motivo da primeira frase de seu Sepher. Não se trata da Essência de Deus, IHOH, que é nomeado somente no sétimo dia, mas de seu Verbo Criador da héxada divina: BaRa-Shith, em que Bara significa falar e criar; Shith, significa a héxada. Em sânscrito, temos o mesmo significado para BaRa-Shith.
Este termo, BaRa-Shith, tem dado lugar a polêmicas e inúmeras discussões. São João não defende o termo como Moisés desde o começo de seu Evangelho, e escreve em Siríaco, língua cabalística de XXII letras: "O Princípio é o Verbo. Jesus tinha dito: 'Eu sou o Princípio'".
O sentido exato é fixado assim por Jesus, que confirma toda a universalidade pré-mosaica anterior. O que precede explica por que as Universidades verdadeiramente antigas consideraram o Verbo Criador como a incidência, da qual a palavra humana é o reflexo exato, quando o processo alfabético se encaixa perfeitamente no planisfério do Cosmos.
O processo alfabético, junto com todos os seus equivalentes, representa, então, o Mundo Eterno da Glória; e o processo cósmico representa o mundo dos Céus astrais.
E por isso que o Rei Profeta, eco de toda a antigüidade patriarcal, disse: "CÉli enarrant Dei Gloriam", ou, em francês: "O mundo astral reflete o mundo da Glória divina." O Universo invisível fala por meio do Universo visível.
Permanecem assim dois casos a serem resolvidos: primeiro, o processo cósmico das escolas antigas; segundo, o dos alfabetos correspondentes.
Para o primeiro ponto, III Formas matrizes: O centro, o rádio ou diâmetro e o círculo; XII signos involutivos; VII signos evolutivos.
Em ambos os casos: III + XII + VII = XXII = CaBa, pronunciando-se: C = 20, B = 2, dando um total de 22, C, Q, F, D.
Os alfabetos das 22 letras correspondiam, pois, a um Zodíaco solar ou solar-lunar, montado a partir de um setenário mais evoluído. Eram os alfabetos esquemáticos.
Os outros, de acordo com o mesmo método, provinham das 24 letras, dos horários dos precedentes, de 28 letras seus lunares; por 30, seus mensais solar-lunares; por 36, seus decânicos, etc. Sobre os alfabetos das 22 letras, a regia, a emissiva da ida, a remissiva da volta, era o I, o Y e o J, e colocada sobre o primeiro triângulo eqüilátero inscrito, devia formar antologicamente, com as outras duas, o nome do Verbo e o de Jesus, IshVa-(Ra), OshI-(Ri).
Pelo contrário, todos os povos que têm adotado o Cisma Naturalista e Lunar escolhem a letra M como Regia, que governa o segundo trígono elemental.
Todo o sistema védico, e depois o brahmânico, tem sido regulado posteriormente por Krishna dessa forma, a partir do Kaly-Youg. Essa é a chave do Livro das Guerras de IEVE, guerra da letra Regia I ou Y contra a ursupadora M.
Tendes visto, meu querido amigo, as moderníssimas provas, fruto da simples observação e da experiência científica, pelas quais a mais antiga tradição foi ao mesmo tempo restabelecida e verificada por mim. Portanto, não falarei mais do que o estritamente necessário para o esclarecimento do fato histórico da Cabala.
Conforme os patriarcas que os têm precedido, os brâmanes têm dividido as línguas humanas em dois grandes grupos: (1º) Devanagáricas, são as línguas da cidade celestial ou da civilização reintegrada ao seu Princípio Cosmológico divino; (2º) Prácritas, são as línguas das civilizações selvagens ou anárquicas. O sânscrito é uma língua devanagárica de quarenta e nove letras; o veda, igualmente, com suas oitenta letras e signos, derivados do ponto do AUM, ou seja, da letra M.
Essas duas imagens são cabalísticas em seu sistema particular, no qual a letra M é o ponto de partida e de retorno. Porém, têm sido, desde sua origem e continuando até os nossos dias, articuladas sobre uma fatia do templo de vinte e duas letras, da qual a letra Regia primeira é o I.
Todas as retificações se tornam possíveis e fáceis graças a esta chave, no triunfo e maior glória de Jesus, verbo de IEVE, dito de outra forma, da síntese primordial dos primeiros patriarcas.
Os atuais brâmanes conferem a seu alfabeto de vinte e duas letras uma virtude mágica; porém esses termos não possuem para nós mais do que uma conotação de superstição e ignorância.
Superstição, decadência e superestação de elementos arqueológicos e de fórmulas mais ou menos alteradas, porém, com um estudo mais profundo se poderia, como neste caso, relacionar uma experiência ou um ensinamento anterior de forma científica e consciente e não de forma metafísica ou mística. Esse ensinamento primordial foi motivado principalmente pela maior ou menor ignorância dos fatos, das leis e dos princípios.
Por outra parte, a Escola lunar vedo-brahmânica não é a única na qual a ciência com sua síntese solar, a religião do Verbo, tem degenerado em Magia. Basta que se explore um pouco a universalidade terrestre a partir da época babélica para ver uma crescente decadência, atribuída cada vez mais à influência envolta de um caráter de superstição e magia, que exercem cada vez mais os alfabetos antigos.
Da Caldéia até a Tessália, da Escitia até a Escandinávia, dos Kouas de Fo-Hi e dos Musnads da antiga Arábia aos Runas dos Varaighes, podemos observar a mesma degeneração.
A verdade, nisso como no todo, é infinitamente mais maravilhosa que o erro, e conheceis, querido amigo, esta admirável verdade.
Por último, como nada se perde na humanidade terrestre, da mesma forma que no Cosmos inteiro, o que tem acontecido ainda é testemunho da antiga universalidade da que nos fala Santo Agostinho, em suas Retrações.
Os brâmanes cabalizam com os oitenta signos védicos, com as quarenta e nove letras do sânscrito devanagárico, com as dezenove vogais, semivogais e ditongos, isto é, toda a mistura de Krishna, acrescentada por ele ao alfabeto vattan ou adâmico.
Os árabes, os persas e os soubbas cabalizam com seus alfabetos lunares de vinte e oito letras e os marroquinos com seu Koreish.
Os tártaros manchus cabalizam com seu alfabeto mensal de trinta letras. As mesmas observações podem ser feitas entre os tibetanos e os chineses, etc, as mesmas reservas podem ser feitas quanto às alterações da ciência antiga dos equivalentes cosmológicos da palavra.
Resta saber em que ordem devem ser dispostos funcionalmente esses XXII equivalentes sobre o Planisfério do Cosmos.
Querido amigo, tendes sob os olhos o modelo de acordo com aquele que foi legalmente depositado sob o nome de Arqueômetro.
Vos sabeis que as chaves deste instrumento de precisão, para serem usadas em elevados estudos, têm sido dadas pelo Evangelho, por certas palavras precisas ditas por Jesus e comparadas com as de São Paulo e São João.
Todas as Universidades religiosas, asiáticas e africanas, abastecidas pelos alfabetos cosmológicos, solares, solar-lunares, horários lunares, mensais, etc, servem-se de suas letras de forma cabalística.
Trata-se da ciência pura, da poesia interpretando a ciência ou da inspiração divina, todos os livros antigos, escritos em línguas devanagáricas e não prácritas, que não podem ser compreendidas se não fosse a Cabala dessas línguas.
Porém, aquelas devem ser reintegradas às XXII equivalentes esquemáticas, e estas, às suas posições cosmológicas exatas.
A Cabala dos Judeus está, pois, motivada por toda a constituição anterior do espírito humano; porém, ela tem necessidade de ser arqueométrica, isto é, medida por um princípio regulador, controlada sobre o instrumento de precisão do Verbo e de sua síntese primordial.
Não sei, querido amigo, se estas páginas respondem a vossa afetuosa espera. Não pude mais do que resumir capítulos inteiros em algumas linhas.
Rogo-vos, pois, desculpar as imperfeições e olhar o que precede como um testemunho da minha boa vontade e da minha velha amizade.

terça-feira, 8 de março de 2011

Visão de dentro...

Envio parte de meu Trabalho de Conclusão de Curso - TCC, para conhecimento dos amigos que me acompanham...
 Umbanda é conhecida por ser uma religião genuinamente brasileira. Congraçamento das três raças matrizes deste povo, sua origem ainda é controversa e sujeita a muitas discussões. O fato é que a riqueza da diversidade de escolas e, portanto, do entendimento do Sagrado, desperta a curiosidade de estudiosos e acadêmicos. Mas, de onde surgiu esse nome?
        Umbanda foi um termo encontrado apenas a partir de 1936, através da obra O Negro Brasileiro, do professor Artur Ramos (1934). Para Artur Ramos este termo teria significado feiticeiro ou sacerdote. Nenhum autor da época, entre eles Nina Rodrigues, João do Rio, Manoel Quirino, Roger Bastide, Donald Pierson, Gonçalves Fernandes, citam este termo. Nem mesmo Gilberto Freire cita Umbanda em 1934, no Primeiro Congresso Afro-Brasileiro. Certamente pelo fato de todos terem escrito sobre a cultura Afro-Brasileira, avaliando apenas os Cultos de Nação.
            Padre Manuel da Nóbrega (1549), um dos renomados nomes da Companhia de Jesus, relatou a manifestação de um pajé, que na ocasião apresentava a voz de criança, e induzia o transe nos nativos (PRIORI, 2004, p. 52). Pela descrição, podemos suspeitar que esta seja a primeira documentação escrita de uma entidade que, posteriormente, seria conhecida como a Criança da Umbanda. Então, a partir de 1860, manifestações de entidades como Caboclos, Pretos Velhos e Crianças, através de Juca Rosa (SAMPAIO, 2000), negro carioca alforriado, e de João de Camargo (RIVAS, M. E., 2008), negro paulista, começaram a ser relatados oficialmente.
Portanto, se as entidades umbandistas já se mostravam desde 1549, por que somente a partir de Zélio Fernandino de Moraes em 1908, considerou-se o surgimento da Umbanda? O fato de ser branco e kardecista teria alguma relevância? Na visão eurocêntrica, etnocêntrica, xenófoba da sociedade da época, somente a raça branca seria apta a confirmar uma fé (Mito de fundação).
            Fundada ou não em 1908, a Umbanda é o resultado do congraçamento das três matrizes formadoras deste país, o branco europeu, o negro africano e o indígena.
            Xambá, Toré, Babassuê, Terecô, Candomblé de Caboclo, Jurema e, enfim, Umbanda.
            Exatamente pelo fato de estarem contidas em sua raiz as três matrizes brasileiras, a Umbanda mostra uma riqueza incalculável de conceitos religiosos, ritualísticos, cerimoniais e lingüísticos. Essa mistura de conceitos Brahmânicos, Védicos, Judaico-Cristãos, Católicos, ameríndios e africanos é de extrema beleza e harmonia. A Umbanda é o recipiente onde convivem e se complementam os conceitos como reencarnação, chackras, Cabala Cristianismo, ervas, fumo, Orixás, guias, caboclos, crianças e pretos-velhos.
Somente em um país tão peculiar como o Brasil, onde raças e culturas tão diversas habitam e se misturam, poderia haver a formação de uma religião assim, adequada à diversidade do solo onde nasceu.
O denominador comum entre estas culturas era a tradição oral. Joseph Ki-Zerbo fala dos conflitos entre os historiadores, e de toda a polêmica acerca da autenticidade e da fidelidade da tradição oral. Afirma, porém, que a “maioria dos historiadores da África admite a validade da tradição. Mas, muitos ainda a consideram uma fonte menos consistente que a escrita.” E ainda cita inúmeros autores, entre eles H. Deschamps, J. Vansina, D.F. McCall e Person que consideram a tradição oral uma fonte tão respeitável como a Escrita, embora em geral, menos precisa (KI-ZERBO, 1972, p. 19-20).
Formação do Povo Brasileiro
O povo brasileiro formou-se da miscigenação de três povos, o vermelho, o branco e o negro.
Raiz Ameríndia
            O Planalto Central tem sido apontado como a região mais antiga do globo terrestre, segundo Lund, Hartt, Ameghino, Hardick, entre outros. Estes pesquisadores desafiaram com suas conclusões a hipótese européia vigente de que o continente africano seria a origem da vida humana na Terra (ITAOMAN, 1990, pág. 24). Como admitir que esteja errada? Como admitir que índios seriam os ancestrais da Humanidade se até bem pouco tempo eram considerados seres sem alma, selvagens e imorais?
             Pior ainda é recorrer ao Popol Vuh, quando ele diz: “de barro fizeram a carne dos Homens” (GORDON, B; MEDEIROS, S, 1997, pág. 58). Como admitir que a primeira raça fosse vermelha e não negra? Se já era humilhante admitir que não fosse branca a primeira raça, imagine admitir a indígena.
            Exemplos de respeito à Natureza, foram dizimados por uma Civilização dita culta, mas que se caracterizou como parasita e decadente, que espalhou terror e morte nas linhas da história deste continente. Predadores destruíram e dilapidaram os tesouros naturais de seu continente, e quando tudo já parecia pequeno demais para a ambição desmedida, resolveram invadir o que lhes parecia de direito.
              A equipe da Profª Maria Beltrão (Unicamp) registrou inúmeras grutas em uma região denominada Tocas, em Xique-Xique/Ba. Nelas, instrumentos neolíticos comprovaram a datação do homem ameríndio. Os indícios da raça ameríndia datam em aproximadamente 300.000 anos. Desenhos rupestres associam o Homem a animais pré-históricos como o Toxodonte (Toxodon platensis) que viveu do plioceno ao plistoceno. Mas, impressionante é a toca do Cosmos, onde o teto mostra pinturas com desenhos que sugerem o céu e, principalmente, um cometa. Todos estes desenhos geométricos sugerem conhecimentos astronômicos. E devido à característica desta gruta, é possível que tenha sido utilizada como um observatório astronômico. (ITAOMAN, 1990, pág. 25)
            No Brasil, existem hoje diversos troncos indígenas e cada tronco, com suas ramificações e inúmeras línguas, dialetos próprios. O tronco Tupi é o mais conhecido e maior de todos. Dele surgiram as famílias: Guarani, Arikém, Aweti, Juruna, Mawé, Mondé, Purobora, Munduruku, Ramarama, Tupari. O Tronco Macro-Jê originou: Jê, Bororó, Gnató, Karayó, Krenak, Maxakali, Ofayé, Rikbakbá, Yatê. Outras famílias importantes também se destacaram pela riqueza de seus dialetos: Tukanos, Pano, Karib, Mura, Katukira, Yanomami, Maku, Gwaikuru, Nambikwara, Txapakura, Aruak, Arawá. (PINTO, 2000)
            Quantas tribos teriam sido encontradas quando os portugueses aqui chegaram? Quais as características desses povos que eram os verdadeiros americanos?
            O conflito básico entre os europeus e os ameríndios ocorreu devido ao fato de não possuírem Lei, Rei e Fé (MAGALHÃES, 2004, pág. 133-34). As diferenças entre as culturas foram de tal modo insuportáveis que uma subjugou a outra, chegando quase ao total extermínio dos ameríndios. A pólvora, as doenças, a desmoralização ética e religiosa, foram armas eficazes e letais para um povo não acostumado aos ardis da civilização européia. De donos da terra, conceito que eles também não conheciam, pois a terra era de todos, transformaram-se em poucos anos em escravos, caracterizados como selvagens, brutais, imorais, ignorantes e até antropófagos. (RIVAS, M. E., 2008)
            Os ameríndios não tinham um Estado constituído. Tinham como primazia o respeito e igualdade de Direitos e Deveres. Desprezavam a moeda e não faziam comércio. Não reconheciam a autoridade centralizada em um indivíduo, pois viviam em regime de seres comuns e livres. Cada um era responsável por suas atitudes diante da comunidade. Eram também detentores de uma Teogonia e Cosmogonia ímpares, onde o sagrado era a natureza, sem necessidade de Templos fixos, ou ídolos. Não admitiam dogmas e moralismos (RIVAS, 2008). Pesquisadores como De Bry, Hans Staden e Pe. Simão relataram a profunda espiritualidade dos Tupis (RIVAS, M. Elise, 2008, pág. 26).
            Os pajés referiam-se a uma língua sagrada, o Abanheengá, como língua matriz de todas as outras línguas. E outra língua sagrada, mais jovem, a Nheengatú.
            Os Tupi-Guaranis tinham Tupã como Ser Supremo, mas tinham em sua teogonia a Trindade Manifestadora do Poder Divino, Guaracy, Yacy e Rudá, e um messias Yurupari e sua mãe virgem Chiucy (ITAOMAN, 1990, pág. 31).  Esta semelhança com o Cristianismo foi fatal para os Tupi-Guaranis. Ardilmente, os Jesuítas pouco a pouco foram introduzindo conceitos Cristãos, modificando nomes, alterando histórias e distorcendo a teogonia tupi, minando as tradições e disseminando a necessidade de conversão para receber a salvação (RIVAS, M. Elise, 2008).
            Os jesuítas foram fundamentais para a miscigenação do povo indígena. Facilitando a aceitação do elemento branco, os colonos passaram a gostar do tabaco, das frutas, das nativas. Os filhos gerados mestiços eram preciosos, pois eram os elos das alianças que buscavam fazer com as tribos inimigas. (RIVAS, M. Elise, 2008)
            A interação entre o Catolicismo e a cultura ameríndia foi responsável, pela origem da Pajelança (PA, AM), pelo Encantamento (Piauí) e pelo Caatimbó (demais regiões). (BASTIDE, 1960; ITAOMAN, 1990, pág. 27-31)
            Padre Manuel da Nóbrega (1549), um dos renomados nomes da Companhia de Jesus, foi o primeiro a relatar a riqueza da religiosidade indígena e, principalmente, de seus pajés. E citava detalhadamente uma cerimônia onde os feiticeiros traziam a Santidade. Na ocasião:
... ele escolhia uma maloca, pegava um maracá, e falando em voz de menino, começava a pregar. Para adquirir o espírito da santidade, todos deveriam se deixar defumar e assoprar. O pajé, bebia, fumava tabaco, baforava os aspirantes, e estes começavam a tremer e transpirar, as mulheres rolavam por terra em convulsões.( PRIORE, 2004, pág. 52)
Como fruto do sincretismo religioso, desenvolveu-se o culto indígena dos Caboclos Encantados. Ambos usavam tabaco e Jurema (bebida feita de ervas, usada em rituais religiosos, com o intuito de induzir o transe mediúnico).  A mistura destes dois cultos deu origem ao Caatimbó. (ITAOMAN, 1990, pág. 27-31)
            Roger Bastide cita que os altares do Caatimbó representavam a perda de valores iniciáticos dos índios, substituídos pela miscigenação religiosa e apresentam, estampas, santos católicos, charutos, aguardente, pequenos arcos e flechas, flautas, maracás, ervas, animais secos e outros objetos portadores do “Maná” indígena. A Princesa é um tacho que repousa sobre um rolo de fumo, cercado por um pano que nunca foi usado. Ela seria o elo com o passado indígena, pois é nela que é moída e misturada a raiz da “Jurema”, que induz agora a descida dos espíritos, para provocar o estado de Santidade. (BASTIDE, 1960)
É o Caatimbó que pela primeira vez fala de 7 Reinos: Vajucá, Tigre, Canindé, Urubá, Juremal, Josafá e Fundo do Mar.  E é nesta vertente que o negro africano dará entrada no sincretismo religioso, principalmente os de origem Bantu, pois a Pajelança e o Catimbó se assemelhavam muito com cerimônias de sua tradição. (RIVAS, M. E., 2008)
A partir do século XVIII, os cultos Yorubas ou Nagôs foram se sincretizando com os cultos indígenas e os das nações Bantu, Congo e Angola, surgindo então o Candomblé de Caboclo. Mantiveram-se ainda algumas formas antigas. Oxalá como Tupã, Yemanjá como Janaína, Ogun como Cariri, Oxosse como Sultão das Matas, Exu como Caipora, os Babás e Eguns como Caboclos Tupinambá, Tupiara, Jaú, Irerê, Pedra Negra, entre outros. (ITAOMAN, 1990, pág 30)
Então, mantiveram-se preservados os conceitos de Tupã (Deus Único), Messias (Yurupari), Culto da Cruz Sagrada (Curuçá), Trindade Manifestada (Guaracy, Yacy e Rudá), culto aos antepassados (Ráangá), e rito da Mediunidade (Guayú), uso da linguagem sagrada (Nheengatú), a Sabedoria dos Velhos Pajés (Tuyabaé-Cuaá). (ITAOMAN, 1990, pág. 30-1)

Raiz Africana
            Infelizmente, o Brasil conheceu esta portentosa raça através da Escravidão. Esta mácula ainda envergonha nosso povo e manterá acesa a chama de uma eterna dívida com esta fabulosa civilização.
            A escravidão já era um processo antigo e bem conhecido em diversos povos e civilizações, datando de pelo menos 10.000 anos o relato mais antigo (PRIORE, 2004, pág. 36-40).  A história nos remete à construção das Pirâmides do Egito, feita por escravos; À Grécia, onde a Democracia tinha o regime de escravidão.
E por quais motivos escravizavam? Nas diversas culturas, era comum vender seus parentes ou a si mesmo para saudar dívidas, fugir da fome ou aprender algum ofício, ou até mesmo servir alguma raça específica. Era comum escravizar mulheres e crianças para aumentar o número de seus servos, procriação e aumento de renda familiar, por disputa de poder ou por questões religiosas. Mas os motivos mais comuns eram de fato as guerras entre povos e tribos.
Seja entre os povos brancos ou entre os povos negros, a escravidão era um processo comum e até bem aceito.  Joseph Ki-Zerbo fala que a escravidão na África era bem tolerada:
 ... O escravo tinha direitos cívicos, e mais ainda, direitos de propriedade, e até mesmo seus próprios escravos. O pai chama o escravo pelo vocábulo nvana (filho), e a ambigüidade é tal que para designar com precisão um verdadeiro filho se emprega a expressão filho do ventre e pega nas partes genitais dele para confirmar.” Mais adiante ele cita que “o estádio patriarcal e comunitário impedia que o escravo negro fosse um bem no sentido romano e catoniano do termo. (KI-ZERBO, 1971, p. 265-66).
Portanto, mesmo sendo tão antigo o regime escravocrata, jamais atingiu o sentido mercantilista da época em que o Brasil foi colonizado. E foi isso que tornou a escravidão hedionda.
A Teóloga Maria Elise Rivas (RIVAS, M. E., 2008) cita que os europeus se interessaram pelo tráfico negreiro quando perceberam o mercado lucrativo que tinham em sua frente com a descoberta do mundo novo. Terras imensas, produtivas, sedentas de mão de obra barata, já que os indígenas estavam sendo mortos e os que resistiam não prestavam para o trabalho nas lavouras. 
Interesses africanos (guerras tribais e a islamização, que culminava com a venda dos infiéis), associados aos interesses europeus mercantilistas e ao silêncio da Igreja, foram os precursores e os estimuladores deste vil mercado.
Como um povo pode ser comercializado como animais, humilhado, agredido e submetido às mais violentas privações e maus tratos por tanto tempo sem despertar indignação e revolta nos demais povos? Será que todos lucraram com isso? Claro que não. Então, quais motivos justificariam este absurdo, que repercute na história mundial até hoje?
Segundo Rivas (2008):
 ... o negro, que entrou no Brasil, já habitava e muito o imaginário europeu, como um ser inferior, demoníaco, infernal, herege e sem alma. O fato de ser considerado como um ser sem alma impossibilitava a sua salvação. Assim, não era necessário justificar sua escravidão, tornando-se um bem para a humanidade, que estava sendo expurgada de um elemento “infecto” e “animalizado”, que poderia contaminar os homens com sua cultura satânica.  ...a discriminação iniciada na geografia (África) estendeu-se para a cor e mais tarde para a cultura. A culminância entre cor, cultura e expatriados fez do negro no Brasil, não um ser invisível como o índio, mas sim, um ser indesejado socialmente.
Tivemos na cultura grega, base do ocidente, desde Aristóteles em sua Política, a sustentação de que os negros só poderiam ser úteis por meio da eterna escravidão (SANTOS, 2002, pág. 275-89).
Revue Spirite, “o artigo publicado no Journal d´Études Psychologiques em Paris, abril de 1862, p.97, posiciona o lugar dos negros frente à cultura ocidental, como sendo um modo inferior de vida, mas não imutável, deixando claro a sua potencialidade “civilizatória”, bastando o contato com as “luzes” da civilização e da moral dos povos brancos (“qui a donné peuvres de la superioridade de as intelligence”) que tinham como missão retirar os negros da “ignorância” e “maus hábitos”.(FERRETI, 2001, p. 13-26)
Mas, apesar de tudo isso, as palavras de Frobenius nos fazem pensar:
... a religião iorubana encontrava-se num requintado estágio de evolução, podendo medir-se pela religião grega, quer pela riqueza de episódios, quer pelo número de personagens, quer pela complexidade dos rituais, que pela profundidade das instituições. (FROBENIUS, 2007, pág. 13)
Teria esse povo perdido sua cultura, suas tradições, sua dignidade? O que teriam trazido para o Brasil? Quais foram os povos que aqui chegaram? Quais contribuições foram incorporadas na cultura do povo brasileiro que se formava?
Foi Nina Rodrigues quem lançou a primeira luz sobre a questão, e, na Bahia, identificou a grossa massa da população negra como sendo de procedência “sudanesa”: “iorubas”, “jejes”, “haussás”, “minas”... sem embargo da existência lá, em menor número de negros de origem “banto”: “angolas”, “cabindas”... entraram no  Brasil, negros dos dois grandes grupos “sudaneses” e “bantos”.O primeiro grupo foi introduzido inicialmente nos mercados de escravos da Bahia, de lá se espalhando pelas plantações do recôncavo e secundariamente por outros pontos do Brasil. Desses negros sudaneses, os mais importantes foram os “iorubas”, ou “nagôs” e os “jejes” (“Ewes” ou “daomeanos”) e em segundo lugar, os “minas” (“Tshis” e “Gás”), ou os “haussás”, os “tapas”, os “bornus”e os “gruncis” ou “galinhas”...Com esses negros sudaneses entraram dois povos de origem berbere-etíope e influência maometana: os “fulas”, e “mandês”. Os “bantos” foram introduzidos em Pernambuco (estendendo-se a Alagoas), Rio de Janeiro (estendendo-se ao Estado do Rio, Minas e São Paulo) e Maranhão (estendendo-se ao litoral paraerense), focos primitivos de onde se irradiaram posteriormente para vários pontos do território brasileiro. “Bantos” foram os “angolas”, os “congos” ou “cabindas”, os “benguelas”, os negros de Moçambique (incluindo os “macuas” e “angicos” a que se referiram Spix e Martius). As demais denominações que tanta confusão originou nada mais são do que províncias ou regiões do vasto território afro-austral, “habitat” dos povos bantos.
“Sudaneses” e “bantos” entrados no Brasil aqui se fundiram uns com os outros, constituindo uma população escrava que progressivamente se foi amalgamando aos demais contingentes da população brasileira – em cruzamentos biológicos e interinfluições de ordem psico-sociológica”. (RAMOS, 1934, pág. 26-7)
            E foi em terras brasileiras que essas etnias, envolvidas há tanto tempo em guerras e disputas tribais, equiparadas agora pela escravidão, que a todos tornava iguais, encontraram o silêncio e a reflexão. Diante da necessidade de sobreviverem e preservarem sua cultura, fé e tradição, tornaram-se irmãos novamente.
            E assim como interesses financeiros os fizeram escravos, os tornaram livres. A mesma Inglaterra, que usufruiu da escravidão e dela lucrou, agora respondendo à pressão exercida por movimentos abolicionistas, a partir de 1807 aboliu o tráfico e em 1933, a escravidão, forçou o resto do mundo civilizado a fazer o mesmo. (ALBUQUERQUE; FRAGA, 2006, pág. 58)
            Todo o conhecimento destes povos foi mantido através da tradição oral. (KI-ZERBO, 1972, pág 19-20). E o que resistiu a aculturação foram as características religiosas, sincretizadas com o catolicismo, e a pajelança.
            O conceito de Deus Supremo (Olorun), eterno masculino (Obatalá), eterno feminino (Oduduá), seu conceito Dinamizador da Existência (Exu Yangi), o conceito de Forças Vitais (Iwá-Aché-Abá), o conceito de mediador entre Deus e sua obra (Orixa), o conceito de universos paralelos (Aiyé e Orum), destino individual (Odu), a veneração aos Ancestrais (Egun-Agbá), as sociedades secretas (Egungun e Geledé), e na Iniciação e seus Pais Babalawos. (ITAOMAN, 1990, pág, 39-40)
            Raça Branca
            A raça branca chegou ao Brasil representado por duas raízes, a Indo-Européia e a Heleno-Semítica (ou Judaico-Cristã).

Raiz Indo-Européia (Ariana)
            É de Fabre d’Olivet a citação de que a localização geográfica da civilização Hiperbórea (branca) é incerta, mais duvidoso ainda é tentar estabelecer a época em que começaram a ser reunir. (OLIVET, 1997, pág 42-3)
Os Vedas (Livros Sagrados dos Arianos) falam de uma raça que evoluiu na terra onde o sol fazia a volta no horizonte sem se deitar, e que seria a mãe dos Árias.  (ITAOMAN, 1994, pág. 40-2)
Moisés fala em Gibóreos (Gênesis), e diz que a origem deles data dos primórdios dos tempos. 
Deodoro da Sicilia diz que moravam próximos à Lua (latitude onde viviam).
Heródoto, Hesíodo, Plínio, Virgínio, e Cícero também mencionam este povo. Também Homero em sua Epígones os cita.
Ésquilo, em Prometeu, os situava nos Montes Rifeus.
Aristeas de Proconeso que os teria visitado, e escrito um poema sobre eles, afirmou que este povo ocuparia a região nordeste da Alta Ásia, chamada hoje de Sibéria. Outra localização possível, já que o sol brilharia 24 horas por dia, e se poria apenas uma vez ao ano, seriam os países nórdicos (Finlândia, Noruega,e Suécia).
Hecateus de Ábderas, da época de Alexandre, dizia que eles estavam entre os ursos brancos de Nova Zembla, numa ilha chamada Elixóia. (OLIVET, 1997, pág. 42-3)
            Seja como for, mudanças climáticas bruscas e violentas (desequilíbrio do planeta sobre o seu próprio eixo) modificaram a localização dos pólos, e a região Hiperbórea sofreu intenso resfriamento. O povo que lá habitava necessitou procurar novos horizontes. Chegaram assim à Ásia Central, onde foram conhecidos historicamente como Árias.
Os Vedas datam 6000 anos e relatam a rivalidade entre os clãs Vanes e Ases, daí originando o grande Cisma de Irshu, que dividiu os Árias. Os Ases ocuparam o sul e o leste da Ásia. Em guerra com os Dravidianos (melanidas), habitantes do sul, os Sindhus arianos conquistaram o território ao sul da Ásia, passando a chamar a região de Índia (Indhus).  A partir daí impuseram o Brahmanismo, baseado no sistema de castas. Os Dravidianos foram colocados na última delas, hoje conhecida como Chudras ou Párias (Intocáveis).
Nascido em 560 a.C. no Nepal, Siddhartha, que era príncipe (descendente dos Arianos, clã Sakya, casta real Kshatryas), abandonou a riqueza para buscar a Iluminação, passando a ser conhecido como Buda. Seus ensinamentos disseminaram-se por toda a Ásia, chegando à China.
O Império construído pelos Sindhus Arianos somente foi ameaçado por Alexandre, o Grande. E, posteriormente, influenciado pelos Persas, Árabes, Maometanos e Portugueses. Finalmente, conquistado pelos Ingleses. 
Ironicamente, foram os ingleses que trouxeram ao Ocidente toda a riqueza do esoterismo ariano. Merecem ser citados Helena Blavatsky, Anne Besant, David Neels, Leadbeather, por meio da Teosofia. Portanto, com profunda inspiração Brahmânica e Budista, a Teosofia viria a influenciar definitivamente o Kardecismo.
Quais as contribuições trazidas pelos Hindo-Europeus?
. Reencarnação: ciclos de nascimento-morte.
. Karma: Lei de causa e efeito.
. Prâna: energia sutil astral.
. Chakras: locais de condensação energética no corpo astral.
. Kundalini: Energia sutil telúrica.
. Tantra: sistema de atuação astral sobre o mundo físico (ITAOMAN, 1990, p. 40-2)

Raiz Judaico-Cristã ou Heleno-Semítica
            Toda a bacia do Mediterrâneo foi influenciada profundamente pela fusão de raças e conhecimentos esotéricos do Egito. Suas tradições são mais antigas que as greco-latinas. Afinal, filósofos gregos bebiam em suas fontes, localizadas em Thebah, onde seus templos Iniciáticos iluminavam todo o mundo conhecido. Entre eles estavam Sólon, Heródoto, Platão, Estrabão, Diodoro e Pitágoras.  Diodoro da Sicília relata: “Os egípcios, aproveitando-se das condições favoráveis, fizeram da Astrologia a sua ciência própria, a qual foram os primeiros a estudar. Os caldeus da Babilônia eram emigrados do Egito e, com estes, haviam aprendido Astrologia.” (OLIVET, 1997, p. 42-3)
            Toda a sua sabedoria como a matemática, geometria, medicina, alquimia, astrologia, gnose, foi preservado através dos gregos. Os gregos preservaram todo esse conhecimento em Alexandria, no delta do rio Nilo.
            Persas e depois os árabes herdaram a Biblioteca de Alexandria. Mas foram os árabes que traduziram para a sua língua todo esse conhecimento.
            Com a invasão do território europeu, fundaram seus Califados e Emirados em locais que hoje são a Espanha e Portugal. Durante todo o período em que permaneceram, transferiram a formidável cultura greco-egípcia.  A este período denominamos Renascença.
            Hebreus e Árabes pertencem ao mesmo grupo racial semita. Quando ocorreu a dominação da Europa pelos maometanos, os hebreus também os acompanharam. Dos árabes, herdaram a Alquimia, dos hebreus, a Kabbalah.
            A Espanha torna-se fonte de Iniciação. Aí brotaram os ensinamentos de Jabir Ibn Hayyan (Geber), Al Razi e Ibn Sina (Avicena) e os cabalistas Akiba e Semeon Bem Jochai. Nicolas Flamel, Paracelso e Saint Yves D’Alveydre foram exemplos de sábios que beberam nesta fonte. Daí surgiu a Magia Européia Ocidental.
            No momento em que os árabes começaram a perder poder, os sábios árabes e hebreus, detentores deste conhecimento, receberam proteção desde que se convertessem ao catolicismo, surgiu então os Cristãos Novos.
Moisés (Iniciado no Templo de Osíris e também recebeu a iniciação negra através de seu sogro Jethro) liderou seu povo, os semitas para fora do Egito. Sua doutrina religiosa está contida no Torah.  E foi entre os semitas hebreus que nasceu o Jesus (Rabi Iesu Bem Iossuf, essênio). Diante de tudo que ele ensinava e praticava, foi chamado Messias (Maschiah), o ungido de Deus. Após sua morte, foi Saulo - Paulo (judeu fariseu, de cidadania romana, e cultura helênica) que tornou o cristianismo primitivo em Catolicismo. O Cristianismo primitivo tinha como pontos fundamentais: a ascese, a reencarnação, o vegetarianismo, e a imposição de mãos e os dons do espírito (mediunidade).
E então, a partir de 1532, tanto árabes quanto hebreus, convertidos em Cristãos Novos, passaram a chegar ao Brasil, fugindo da perseguição da Santa Inquisição. Trocaram-se os nomes, mas se mantiveram com seus traços culturais, ainda que velados e secretos, restritos ao lar.
IV – Referências


ALBUQUERQUE, W. R; FRAGA, F. W. Uma História do Negro no Brasil? Brasília: Centro de Estudos Afro-Orientais/ Fundação Cultural Palmares,2006,  pag. 58.
BASTIDE, R. As Religiões Africanas no Brasil. São Paulo: Livraria e Editora Pioneira, 1960, 240 pág.
ELIADE, M. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2001, 191 pág.
ELIADE, M. História das Crenças e das Idéias Religiosa. Rio de janeiro: Zahar Editores, 1978, Tomo I, vol I, pág.13
FERRETTI, S. F. Notas sobre o Sincretismo Religioso no Brasil- modelos, limitações, possibilidades. Revista Tempo. Niterói: UFF/Dep. De História, nº 11, Julho 2001 – Religiosidade na História, pág. 13-26.
Frobenius, L. A gênese Africana: contos, mitos e lendas da África. São Paulo: Landy Editora, 2007, pág 13.
GORDON, B; MEDEIROS, S. Popol Vuh. São Paulo: Ed. Iluminuras, 1997, 480 pág.
ITAOMAN, M. Pemba a Grafia Sagrada dos Orixás. Brasília: Thesaurus, 1990, 317 pág.
JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2ª Ed., 2008, 429 pág.
JUNG, C. G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Ed. Vozes, 2ª Edição, 2002, 447 pág.
KI-ZERBO, J. História da África Negra. Paris: Ed. Europa-américa, 1972. Vol.I, pág. 130.
KI-ZERBO, J. História da África Negra. Paris: Ed. Publicações Europa-américa, 1972. Vol.I, pág. 19-20.
KI-ZERBO, J. História da África Negra. Paris: Ed. Europa-américa, 1972. Vol.I, pág. 256-66.
MAGALHÃES, P. G. A Primeira História do Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 2004, pág. 133-34.
OLIVET, F. A. História Filosófica do Gênero Humano. São Paulo: Ed. Ícone, 1997, pág. 42-3.
PALLAS, A. 3333 Pontos Riscados e Cantados.  Rio de Janeiro: Ed. Pallas, 5ª Ed., 2008, vol I e II, 287 pág.
PINTO, M. Troncos Lingüísticos. In: ALMANAQUE INDÍGENA DO BRASIL HOJE. Fonte: A temática indígena na Escola – Silva, Aracy Lopes da (org.) – MEC 3ª Ed. 2000.
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RIVAS, F. R. Umbanda – O Arcano dos 7 Orixás. São Paulo: Ícone Editora, 1999, 247 pág.
RIVAS, F. R. Umbanda – A Proto-Sintese Cósmica. São Paulo: Ed. Pensamento, 2002, 392 pág.
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SANTOS, G. A. Selvagens, Exóticos, Demoníacos. Idéias e Imagens de Gente de Cor. In: ESTUDOS AFRO-ASIÁTICOS, Ano 24, vol. 2, 2002, pág. 275-89.
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SILVA, W. W. M. Umbanda de Todos Nós. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos, S. A., 1969, 366 pág.



quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Depois de férias merecidas...


As Sefirot e a Teoria das Cordas

Rabi Moshe Chaim Luzzatto (1707-1746), um dos maiores Sábios e cabalistas na história judaica, escreveu que o mundo físico é um espelho do mundo espiritual. Cada fenômeno que existe em nosso mundo é um reflexo de uma realidade sobrenatural.

Como ensina o Midrash, D'us buscou na Torá e criou o mundo. Isto significa que a Torá é o plano-mestre de toda a criação e o mundo é o produto resultante. Fazendo-se uma analogia: se o mundo fosse um computador e as Ciências o estudo de seu funcionamento, a Torá - e particularmente a Cabalá - seria o manual que descreve sua conceituação e modelagem.
A Torá se inicia com o relato da Criação do Universo por D'us. Como tudo o que existe foi emanado de Um D'us, único e indivisível, deve existir uma unidade subjacente no cerne de toda a Criação. Por outro lado, como relata a própria Torá, D'us criou um mundo de enorme diversidade. E, com efeito, assim é o mundo - contém uma multiplicidade de seres, geralmente em vastas quantidades.
A Cabalá explica a Criação - a forma como a diversidade se originou da Unicidade Absoluta - através da doutrina das Sefirot. Estas são o modo mais básicos do poder criativo de D'us, que criou o universo emanando dez de Seus próprios atributos. Estes constituem a estrutura interna e externa do universo. É através das Sefirot que D'us interage com Sua criação e nada existe ou acontece no universo que não seja através das mesmas.
Por isso, por um lado deve haver unidade em toda a Criação, já que todas as Sefirot se originam de D'us, Fonte da unidade absoluta. Por outro, as Sefirot são dez, e não apenas uma, e sua combinação é o que responde por um mundo com tanta diversidade. Há uma boa razão para as Sefirot serem descritas como "os membros e funções do corpo humano". No corpo humano, todos os sentidos e funções biológicas são, a um só tempo, diferenciados e interdependentes. Coração e cérebro são órgãos diferentes, mas são interdependentes. De modo similar, as Sefirot são forças diferentes que funcionam em sincronia.
Há várias definições para o termo Sefirá, entre as quais, Safar (número) e Sefar (limite). As Sefirot geralmente são chamadas de Midot, literalmente "medidas" ou "dimensões". De acordo com a Cabalá, o universo tem dez dimensões e tudo o que existe em nosso mundo é constituído por uma ou mais das Sefirot. No Sefer Yetzirá, obra mais antiga da Cabalá, está escrito que as Dez Sefirot são as dimensões que constituem a totalidade da existência. Estas dez dimensões definem um caminho até o Ser Infinito que está além de toda a Sua Criação.
As Dez Sefirot
Nossa proposta, neste artigo, não é fazer uma descrição profunda de cada uma das Sefirot, portanto, apenas o faremos de forma breve. Estes atributos são divididos em duas categorias: três são intelectuais e sete, emocionais. A alma do homem possui esses dez atributos e isto explica o significado da afirmação de que o ser humano foi criado à imagem de D'us. Como dissemos, a Criação consiste das Dez Sefirot. Assim sendo, cada uma das criaturas, fenômenos, ações e eventos pode ser explicada através da manifestação de uma ou mais Sefirot.
Comecemos com as três Sefirot intelectuais. Para explicá-las, descreveremos uma experiência familiar a quase todos nós: a tentativa de solucionar difíceis problemas matemáticos. Um aluno está petrificado diante de um problema, mas nada lhe vem à mente. De repente, um estalo! Apesar de ainda não ter resolvido o problema, ele já não está no escuro; surgiu-lhe uma idéia. Este estalo é Chochmá (Sabedoria) - a primeira Sefirá intelectual. Mas Chochmá, por si só, não basta. Para solucionar o problema, o aluno terá que encontrar um caminho pela dificuldade, analisar tudo, talvez fazer alguns gráficos ou plugar alguns números. Este processo de análise é Biná (Compreensão) - a segunda Sefirá intelectual. É a ponte entre Chochmá e o terceiro atributo intelectual, Daat (Conhecimento). Quando o aluno solucionar o problema, obtiver a resposta correta e internalizar o conhecimento adquirido no processo, terá atingido a Sefirá de Daat.
As outras sete Sefirot referem-se às emoções. A primeira é Chessed (Bondade, Benevolência), que é a origem de todas as interações humanas. É através de Chessed que nos aproximamos e nos doamos aos outros. A segunda Sefirá emocional é Guevurá (Justiça, Disciplina, Força, Contenção). Guevurá é o meio pelo qual nos concentramos e direcionamos nossos esforços. Enquanto Chessed nos impele a chegar até os outros, a Guevurá nos permite estabelecer limites e fronteiras. A terceira Sefirá, Tiferet (Compaixão, Verdade, Beleza), mescla Chessed com a disciplina da Guevurá. Tiferet é o caminho intermediário, que integra amor e disciplina de maneira equilibrada e saudável.
Descendo pela Árvore das Sefirot, estão outros três Atributos da emoção. A quarta, Netzach, é a Sefirá das emoções da Ambição, Vitória, Eternidade, que dá origem à ambição e determinação, dando ao homem a força de lutar por suas crenças e o ímpeto de realizar seus objetivos. A quinta Sefirá emocional, Hod (Humildade, Submissão), é a raiz dos sentimentos de humildade, que nos permite deixar de lado nosso próprio ego. É, também, o que nos dá o poder de enfrentar um desafio e submeter nossa própria vontade à vontade de D'us. A sexta é Yessod (Vínculo, Fundamento). Constitui a essência da conexão emocional. É a capacidade que temos de nos ligar a outros - família, amigos, mestres. É o que cria o canal de vinculação entre quem dá e quem recebe, canalizando todas as outras cinco Sefirot emocionais em um único elo construtivo, criando a união entre os seres humanos.
A décima Sefirá é Malchut (Liderança, Nobreza, Soberania). É o que nos dá um sentido de propósito, independência e confiança, e um sentimento de certeza e autoridade. Esta Sefirá é, também, associada com a capacidade da comunicação e tradução dos pensamentos e sentimentos em ações.
Este mundo e tudo o que contém são produto da Emanação Divina através das Sefirot. D'us emana Chochmá, Biná, Daat, Chessed, Guevurá, Tiferet, Netzach, Hod, Yessod e Malchut, por meio das quais o mundo existe. Estas Sefirot são a base de tudo. Uma pessoa criativa personifica Chochmá; um grande analista emprega, em geral, Biná ; a pessoa que adquiriu grande conhecimento possui Daat. Açúcar e água são a objetificação da Sefirá de Chessed, ao passo que pimenta e fogo são a objetificação de Guevurá. Uma paisagem bonita e um belo ser humano refletem Tiferet. A pessoa ambiciosa personifica Netzach, enquanto a humilde, Hod. Carisma é o reflexo de Yessod, ao passo que liderança e autoridade refletem Malchut.
As Sefirot são os blocos formadores do Universo. A estrutura interior do mundo e de todos os seus constituintes é formada pelas Sefirot. A maçã, o peixe, a alma humana, um pensamento, decisão, palavra ou ação - todos partilham a mesma origem: as dez emanações cuja fonte é Deus, Uno e Único. É imperativo observar que nenhuma das Sefirot é D'us, Ele Próprio. Alertaram-nos os Sábios que aqueles que confundem as Sefirot com D'us estão cometendo grave erro, tão grave como a idolatria. As Sefirot, como tudo a mais, inclusive o Universo como um todo, emanam e residem dentro de D'us, mas não constituem D'us, Todo Poderoso. O Criador transcende tudo, inclusive todos os Atributos e toda a Criação.
Teoria das Supercordas
Em 1931, o jornal The New York Times reportava que Albert Einstein tinha terminado sua teoria do campo unificado - uma teoria que prometia reunir todas as forças da natureza em uma única trama matemática. Einstein pode não ter sido um judeu observante, mas algo em seu íntimo o levou a desvendar a subjacente unidade do universo. Einstein tinha a obsessão de comprovar pela Ciência algo que é um tema recorrente no estudo da Cabalá: o fato de que apesar da multiplicidade que há no mundo, existe uma unidade subjacente em toda a Criação que reflete a unidade absoluta de seu Criador.
A teoria do campo unificado de Einstein demonstrou ser falha, mas ele não desistiu. Mesmo em seu leito de morte, continuava rabiscando equações sem fim, na esperança desesperada de que se materializasse sua teoria. O que não ocorreu. Mas sua esperança estimulou outros cientistas a irem em busca da teoria unificada. Estes tinham percebido que sem tal teoria, muitas questões fundamentais sobre o universo não poderiam ser estudadas. Nos últimos 300 anos, o estudo das Ciências seguiu o caminho da unificação e consolidação: conceitos outrora considerados totalmente estanques demonstraram ser profunda e inextricavelmente vinculados. No século 17, Isaac Newton descobriu as leis do movimento, aplicáveis tanto a um planeta que se move pelo espaço quanto a uma maçã que cai da árvore. Newton revelou ser uma única a Física na Terra e nos Céus. Duzentos anos mais tarde, Michael Faraday e James Clerk Maxwell demonstraram que as correntes elétricas produzem campos magnéticos e que os ímãs em movimento podem produzir correntes elétricas. Os dois cientistas demonstraram que essas duas forças são unidas. No século 20, Albert Einstein provou que espaço, tempo e gravidade são entrelaçados. Seu sonho era descobrir uma teoria superior a todas as demais, que fundiria a gravidade e o eletromagnetismo em uma única teoria-mestre sobre as forças da natureza.
Após sua morte, outros grandes físicos continuaram a busca da teoria unificada. Na década de 1960, as pesquisas de Sheldon Glashow, Abdus Salam e Steven Weinberg, que lhes valeram o Prêmio Nobel, revelaram que quando submetidas a elevadas energias, as forças eletromagnéticas e as baixas forças nucleares combinavam de forma perfeita. Em trabalhos subseqüentes, outros demonstraram que submetida a energias ainda mais altas, uma força nuclear mais forte também combinaria. Isto convenceu muitos físicos de que não havia obstáculo fundamental em unificar três das quatro forças existentes na natureza. Durante décadas, a força da gravidade foi a única força que apresentou problema para a teoria da unificação. O problema que tanto perturbara Einstein foi a disjunção entre sua própria teoria da relatividade geral, que é relevante para objetos extremamente maciços, como as estrelas, e a mecânica quântica, que é a estrutura usada pela Física para tratar dos objetos muito pequenos, como os átomos e suas partes constituintes. Alguns dos mistérios resultantes dessas teorias conflitantes incluem o motivo da gravidade ser tão fraca em relação a outras forças físicas fundamentais, tais como o eletromagnetismo, e a razão para o universo ser tão grande. Essas questões surgem porque em uma escala diminuta ao extremo, as partículas que compõem nosso mundo parecem comportar-se de maneira totalmente diferente do que se poderia imaginar. Na década de 1980, emergiu, na Física, uma nova abordagem a esse enigma científico. É chamada de Teoria das Supercordas, ou simplesmente, Teoria das Cordas. Os difíceis e complexos cálculos dos físicos John Schwarz e Michael Green, que passaram anos imersos em sua pesquisa, trouxeram fortes evidências de que a nova teoria não apenas unificaria a gravidade e a mecânica quântica, mas também as demais forças da natureza.
A Teoria das Cordas oferece uma nova perspectiva sobre os componentes fundamentais da matéria. A matéria era vista como constituída de pontos ínfimos, quase sem tamanho - os átomos, que são compostos de prótons, nêutrons e elétrons - e os quarks, que são um tipo genérico de partículas físicas que se combinam de formas específicas para formar prótons e nêutrons. A Teoria das Cordas revela que os componentes de qualquer matéria são, pelo contrário, filamentos minúsculos e vibrantes, como cordas. Assim como diferentes vibrações de um violino produzem diferentes notas musicais, as diferentes vibrações das cordas da teoria produzem diferentes tipos de partículas. Os pioneiros estudiosos da teoria perceberam que uma dessas vibrações produziria a força gravitacional, demonstrando que a Teoria das Cordas abrange ambas, a gravidade e a mecânica quântica. Portanto, soluciona a incompatibilidade entre a mecânica quântica e a relatividade geral.
A Teoria das Cordas está sendo aqui descrita de maneira genérica, praticamente sem usar linguagem científica, mas se trata de um estudo que envolve uma análise rigorosa e complexos cálculos matemáticos. Há mais de 20 anos vem-se pesquisando intensamente a Teoria das Cordas, que tem sua coerência matemática comprovada por cálculos longos e intrincados. Até o presente, não houve contestação quanto à sua exatidão. Impressiona, também, o fato de que muitas descobertas na Física, nos últimos dois séculos, encontram-se na Teoria das Cordas. Isto indica que a mesma é a chave de entrada para esta complexa ciência.
Não causa surpresa o fato de que esta teoria tenha chamado a atenção de tantos cientistas e matemáticos. Muitos deles acreditam que a mesma forneça a infra-estrutura para a construção da tão buscada teoria unificada. Como ensina que qualquer coisa em seu nível mais microscópico consiste de combinações de cordas em vibração, esta teoria fornece um marco único de explicação capaz de englobar não apenas tudo o que é matéria, mas também todas as forças. As partículas da força são associadas a padrões específicos de vibração de corda. Assim como a matéria, estas partículas são unificadas sob a mesma rubrica de oscilações microscópicas das cordas.
A teoria das cordas às vezes é descrita como a teoria de tudo - a teoria final, suprema. Muitos de seus defensores acreditam que uma tal teoria explicaria as propriedades das partículas fundamentais e as propriedades das forças que as fazem interagir e influenciar umas às outras. De modo mais simplista, tudo o que existe e tudo o que ocorre no universo é uma reação entre as partículas fundamentais que, de fato, são cordas que vibram.
A Cabalá e a Teoria das Supercordas
Ensina-se, na Cabalá, que D'us criou o mundo através das Dez Sefirot. Na verdade, existe um atributo adicional, Keter. Esta Sefirá está tão além de nossa compreensão que não costuma ser incluída como uma das Sefirot. Exprime a Vontade de D'us - Seu desejo de criar. Como não podemos sequer pretender imaginar os desejos Divinos, a Cabalá costuma mencionar apenas as Dez Sefirot. No entanto, o desenho da Árvore das Sefirot obrigatoriamente inclui a décima-primeira, Keter.
Assim como a Cabalá fala das Dez Sefirot, que, de fato são onze, também a Teoria das Cordas fala de dez dimensões, que, na realidade são onze. Alegam os cientistas que para que as cordas formem adequadamente nosso universo, elas devem vibrar em onze dimensões. Todos podem observar três dimensões espaciais e uma temporal, mas os modelos da Física sugerem outras sete.
A doutrina das Sefirot e da Teoria das Supercordas dizem, essencialmente, a mesma coisa através de linguagens diferentes. A teoria é a descoberta científica dos fenômenos que os cabalistas conhecem há milênios. Quer saiba ou não, um físico que estuda as Supercordas está estudando a Cabalá pelo prisma das Ciências. As cordas são a manifestação física das Sefirot. De fato, muito antes da descoberta dessa teoria, a Cabalá falava de cordas sobrenaturais. Ao descrever a criação do universo, o misticismo judaico revela que D'us escondeu Sua Luz Infinita, criando, destarte, um espaço que parece despojado de Sua Presença. Neste domínio, que parece ser um vácuo, Ele criou nosso mundo. E o fez através de um raio da Luz Divina, chamado de "corda". Através dessa corda inicial, foram emanadas as Dez Sefirot - as outras dez cordas - e estas, continuamente criam tudo o que existe e tudo o que transpira no universo. É interessante observar que há um mandamento particular na Torá, o de Tsitsit, que envolve cordas.
Os homens judeus são obrigados a atar Tsitsit - cordas de lã - a roupas com quatro cantos. Este mandamento é tão importante que é considerado equivalente em importância a todos os demais, juntos. É, também, um dos poucos mandamentos mencionados no Shemá Israel: "Isto vos servirá de Tsitsit, cordas visíveis, e vendo-o recordar-vos-ei de todos os mandamentos do Eterno, para observá-los". O Talmud coloca uma questão: como Tsitsit é uma palavra no plural, não deveria, então, estar escrito: ... e vendo-os"...? E responde que quando olhamos para os Tsitsit, o que devemos ver não é "a elas" - as cordas ou franjas do Tsitsit - mas a "Ele" - D'us, em toda a Sua plenitude.
À luz do que discutimos acima - as Sefirot e a Teoria das Cordas - podemos inferir que o Shemá Israel, prece de suma importância e misticismo, sugere que os Tsitsit simbolizam as cordas que constituem a Criação unificada, encaminhando-nos na direção de D'us Único. Em outras palavras, os blocos formadores do universo, quer os denominemos de Sefirot ou de cordas, quer sejam discutidos por cientistas ou por estudiosos da Torá, apontam na direção do Infinito Criador.
Muitas pessoas erroneamente acreditam que Torá e Ciências são conflitantes. Pois não o são: como indicou o Rabi Luzzatto, o físico é uma mera reflexão do espiritual. Aquele que crê que Torá e Ciências estão em contradição certamente não entende bem uma das duas. Isto explica a razão para que muitos de nossos maiores sábios - o Rambam, o Gaon de Vilna, o Baal HaTanya e o Lubavitcher Rebe - tivessem tamanha compreensão das Ciências.
A Teoria das Supercordas é a Cabalá estudada sob a lente da Física. E assim como o estudo das Sefirot, a teoria nos ensina que este universo de diversidades e de multiplicidades é, com efeito, elegantemente disposto e unificado. A unidade do universo é o reflexo da Unicidade de D'us e o fato de ter sido elegantemente projetado nos faz lembrar que foi concebido por um Desenhista Perfeito. `
Diz-se que uma rosa é uma rosa, ainda que lhe troquemos o nome. De forma similar, D'us, seja encoberto pela linguagem da Física ou pela da Cabalá, é D'us, Único, Senhor dos Céus e da Terra, e de tudo o que contêm estes dois mundos.
Tev Djmal